sábado, 22 de novembro de 2014

JUSTIÇA, APENAS


Ainda ontem aqui escrevia:"o país está doente e os portugueses estão doentes do país". E recuperava um texto de Eça, de Uma Campanha Alegre, em que o escritor fazia um retrato impiedoso da sociedade portuguesa. no ano longínquo de 1871, com um diagnóstico terrível: "O país perdeu a inteligência e a consciência moral". Ainda ontem. E, no entanto, já hoje a crónica judiciária e política oferece matéria de sobra para percebermos que, se calhar, a doença que alastra é fatalidade sem remédio. É verdade que os valores que enformavam a matriz ética da política, a devoção ao serviço público, a honestidade como norma elementar, tudo isso, se esboroou há décadas, numa subversão dos poderes que legitimaram ou tornaram banal toda a espécie de falcatruas e negociatas. Os interesses alteraram as regras do jogo, o poder financeiro passou a cavalgar com fúria o poder político, a promiscuidade entre um e outro moldaram, em larga medida, a prática política. A vocação do serviço público passou a ser retórica de circunstância e tratar da vidinha uma arte que se aprende, desde meninos, nas juventudes dos partidos. A política como tirocínio para serviço próprio é uma ideia que se generalizou num país de débil cultura política e cívica, numa pátria de indiferenças e de invejas onde a incapacidade para agir (agir civicamente, claro) leva à desculpabilização e ao encolher de ombros, legitimando com frequência os desmandos das figuras públicas com a ideia de que se trata de sujeitos espertos...
Ao arrepio desta anemia colectiva, surgiu na sociedade portuguesa uma surpreendente dinâmica justicialista, de que magistrados e polícias são obreiros persistentes. É bom pensar que a Justiça está cá para agir e que, nessa acção, não há cidadãos acima da lei. Aliás, uma das reservas que o cidadão comum faz à justiça é que ela não é igual para todos... O mais recente caso, depois de nuances que vêm de há muito, é a detenção do ex-primeiro ministro José Sócrates, sob grave suspeita de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. Foi detido no aeroporto da Portela, quando regressava de Paris, sob uma câmara atenta da SIC, que ali estava de atalaia.
São graves as acusações e espera-se que a Justiça actue, de forma a que o caso seja esclarecido à escala da sua gravidade e da proporcionalidade da dimensão mediática desencadeada. Os cidadãos têm perdido a confiança nos políticos e nas instituições (os próprios Orgãos de Soberania, como a Presidência da República, são hoje olhados desrespeitosamente) e a Justiça, esteio fundamental, também não vive propriamente num oásis de simpatia dos cidadãos.
Vivemos na sociedade da comunicação, mas não parece legítimo que se monte à porta do Tribunal, onde as coisas estão a ser investigadas, um autêntico circo mediático que alimenta, 24 horas sobre 24 horas, a opinião pública. E, o mais grave, é que esse tipo de prática tem conduzido em Portugal a "tribunais" de papel e de rua, com as suas execuções sumárias e as suas sentenças de circunstância.
Investigue-se, condene-se se houver provas para tal, dignifique-se o Estado de Direito. Nestas alturas, surgem sempre fantasmas, que saem dos armários da Justiça. E lembram-se casos altamente mediáticos e perigosos, que despertaram ódios e ajustes de contas, em que, no final, como resultado palpável, a montanha pariu um rato...
Desta vez, com um histórico criminal tão exaustivo, de que as televisões dão conta nos seus "julgamentos", espera-se que as coisas não se diluam na densa trama das suspeições. Seria absurdo e fatal para o país. É bom que, face à crónica judiciária, a exigência e o rigor permaneçam superando os julgamentos sumários. Justiça, apenas.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

IMAGENS DE UM PAÍS DOENTE


O país está doente e os portugueses estão doentes do país. A devastação moral que ocorreu nestes últimos anos, os escândalos tolerados no universo político, o oportunismo verificado no âmbito dos partidos, o triunfo da mediocridade, o apadrinhamento das clientelas, a submissão aos interesses do dinheiro, a abdicação dos valores éticos, a falta de sentido de Estado dosa governantes, são sintomas dessa doença que, todos os dias, vai matando um pouco mais a esperança colectiva. A essa face da realidade, soma-se a outra: a do crescimento exponencial da pobreza, a emigração massiva dos mais jovens, o desemprego galopante (aquele que não é apagado dos ficheiros dos centros de Emprego!), os suicídios que se tornaram num fenómeno dramático na sociedade portuguesa.
Os últimos dias têm sido exemplares na expressão da crise que envenena as instituições. A imagem de um país que se vende a retalho, e onde vale tudo, a imposição de uma filosofia onde o que interessa é trazer para o país à beira mar sofrido, milhões de euros, uma cornucópia financeira que ninguém sabe onde começa ou onde acaba, está, clara como a água, no que tem emergido dos "Vistos Gold", que já levou à demissão de um ministro e à prisão de altas figuras do Estado, entre as quais o chefe da polícia de fronteiras.
Hoje, o vice primeiro-ministro, Paulo Portas, que foi o pai e a mãe desses Vistos Dourados, foi à Comissão Parlamentar explicar-se. Mas o que explicou ele? Que também há esta modalidade em outros quinze países da Uni-ao Europeia, que se nós não aproveitamos estes milhões outros os aproveitam, que os Vistos Dourados são investimento estrangeiro abençoado. Não se lembrou Portas de dizer que na Itália também existe a Mafia como expressão maior do crime organizado... e quev os paraísos fiscais não deixam de ser paraísos. Chamou ao seu pensamento sentido pragmático. Claro que esse pragmatismo levou-o a por de lado o contexto criminal e judiciário a que os seus benditos Vistos deram origem, com a alegação, claro, que não se pode meter nas questões da Justiça. Foi também esse pragmatismo ladino que o levou a perguntar à deputada do BE, como se lhe colocasse um dilema feito de esperteza saloia:
-- Quem é que produz mais empregos é a REMAX ou o Bloco de Esquerda?
É espantoso que um vice primeiro-ministro atribua aos partidos a função de criarem empregos (a não ser que estivesse a pensar no seu próprio emblema e na satisfação clientelar).
A doença alastra e parece que regressámos a 1871, quando Eça de Queirós, em Uma Campanha Alegre, fazia o seguinte retrato de Portugal:

"O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.O povo está na miséria.Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce..."

Era assim Portugal em 1871. E hoje?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

IDOSOS: E NÃO PODIA EXTERMINÁ-LOS?

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Há indivíduos que são abencerragens do passado, que passeiam por aí o arcaísmo das ideias, como se tivessem licença para apregoarem aos quatro ventos uma estupidez que eles julgam ser emblema de qualidade. O pior é que muitos deles têm lugar selecto em jornais e televisões iludindo o papel de comentadores.
Um deles, ainda ontem, no "DN", fez um exercício supremo de hipocrisia e de canalhice, bem reveladoras de um carácter inquinado pelas coordenadas ideológicas de um pensamento que impede a lucidez da análise e impõe sempre o olhar hipócrita sobre as pessoas e a realidade das coisas.
O senhor João César das Neves publicou, sob a forma de carta, um texto intitulado Ao pensionista enfurecido. Lembrou-se a pobre criatura (pobre é aqui um modo de dizer) de manifestar cinicamente solidariedade aos pensionistas para, no final, os culpar de estarem a ser sustentados "pelos impostos dos jovens". Esta ideia de desfazer os laços de solidariedade inter-geracional, acusando os idosos de serem os responsáveis pelas dificuldades dos mais jovens, é uma coisa abominável, do ponto de vista ético e social, que o campeão do cinismo tem praticado abundantemente.
Para se ver o calibre mental do sujeito, veja-se o início do artigo, verdadeiro modelo de cinismo: "Caro amigo, permita que lhe dirija algumas palavras, simples mas sinceras, para lhe manifestar a minha profunda solidariedade. Todo o país tem vibrado com o drama vergonhoso dos cortes de pensões, mas senti-lo na pele não é ver na televisão. É absolutamente inaceitável que tendo planeado o fim da vida confiado numa renda, aliás com garantia solene da autoridade pública, agora se veja defraudado nas justas expectativas. Este caso ficará na história como escândalo sumamente chocante e doloroso".
Como se estivesse a bater no peito e a fazer mea culpa, ei-lo a dizer: "Nada do que diga minora a infâmia". Mas o discurso muda subitamente, mete o pai ao barulho, e embrulha-se depois nas contas da sustentabilidade da Segurança Social, para depois dizer ao "pensionista enfurecido": "Mas acreditar que isso daria o milagre da multiplicação das pensões constitui enorme ilusão. Talvez já tenha ouvido dizer que não há almoços grátis. Por isso devia ter suspeitado da fartura da refeição logo que recebeu o primeiro cheque".
No final, sai-se com esta, João César das Neves: "Espero que não se sinta incomodado com a minha franqueza, e volto a dizer que tem a minha mais sincera, intensa e compassiva compreensão", mas logo a seguir acrescenta o seguinte P.S.: "Já agora só mais uma palavrinha. Deve estar a pensar que o problema é pior do que promessas enganadoras. Então não descontou toda a vida para receber a reforma? Não lhe ficaram com o dinheiro? Como podem agora negar o benefício? Bom, a verdade é que aquilo que descontou durante 40 anos, de um salário que começou baixo e foi subindo, nunca daria para pagar uma reforma quase igual ao último ordenado, durante os 20 ou 30 anos de vida na reforma. Essa é a outra face da crise: a sua pensão está há muito a ser sustentada pelos impostos dos jovens. O inimigo dos reformados não é o governo, mas a aritmética".
O sr. João César das Neves cumpre assim, desta forma cínica, a tarefa de ilibar o governo. Fala como se vivêssemos todos com reformas milionárias e trata os pensionistas como imbecis que não são capazes de fazer contas ou compreender a realidade. Faz tudo isso numa prosa coloquial e aparentemente amiga (aqui está a hipocrisia do dito), para desferir depois grandes caneladas ou punhaladas no magro lombo dos reformados. Nas suas brilhantes equações sociais, João César das Neves, deve concluir que a solução do problema radica na execução sumária dos idosos. Uma solução final à escala da demografia portuguesa.
Leio isto e lembro-me do Padre José Agostinho de Macedo que, quanto aos sujeitos que destilavam prosas como a de João César das Neves, dizia que havia muitos indivíduos que davam coices com as palavras. E logo acrescentava sabiamente: se uma besta dá um coice, não se corta a pata, puxa-se pela arreata. Doutra forma, João César das Neves há muito que andava ao pé coxinho...

CARLOS DO CARMO


A atribuição do Grammy Latino de Carreira, por "excelência musical", a Carlos do Carmo é uma distinção que honra Portugal e que, num tempo tão sombrio para o país, nos deixa respirar um pouco a nossa auto-estima colectiva. Carlos do Carmo, há muito que é um rosto deste país. E a sua canção e os versos que, cantando, tem espalhado por todo o lado, não só se tornaram expressão identitária de um povo. No seu canto, que mergulha em raízes profundas e antiquíssimas, ele soube captar sentimentos colectivos, como se se quisesse trazer à superfície a imagem autêntica da alma popular, nos sentimentos que povoam os dias e as noites de uma cidade, e, logo, por extensão de uma pátria. Quando se alcança essa projecção criadora, que se torna património comum, é porque o intérprete, neste caso o criador, se agigantam, participando do nosso imaginário. Se é verdade que Carlos do Carmo elevou o fado ao seu mais alto voo, actualizando-o sem nunca o desfigurar, deve sublinhar-se que num conceito de canção mais amplo, como realidade criadora, ele deu voz à poesia portuguesa, cantando os nossos maiores poetas. Na minha perspectiva, é essa síntese que o seu canto consubstancia.
Ao receber o prémio, nos EUA, Carlos do Carmo quis repartir o galardão "com o povo da minha terra" e disse que "não teria sido possível cantar 51 anos sem o seu apoio".
Agora, oiço o artista, numa entrevista à TVI, com a sua sobriedade, sempre diluindo na normalidade a sua condição de artista. O jornalista pergunta-lhe se ele se incomodou com o facto do Presidente da República não o ter felicitado. "De maneira nenhuma", responde Carlos do Carmo. "Recebi telegramas de felicitações dos Presidentes de quem gosto: Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio".
Que esperar de um Presidente da República que é intolerante e tem no plano cultural um terreno baldio tão grande, que o conduz a baralhar o número de cantos de Os Lusíadas, a não respeitar Salgueiro Maia ou a ignorar, ostensivamente, a obra de Saramago, o nosso único Prémio Nobel da Literatura?
Que esperar?






quarta-feira, 19 de novembro de 2014

LIBERDADE SEM DOMINAÇÃO


Rui Tavares publica, hoje, no "Público", um interessante texto, a propósito da questão de "Uma justa liberdade". Ele começa por contar uma curiosa história, publicada no último livro (Just Freedom) do filósofo Philip Petttit, sobre o conceito cívico e republicano de liberdade: "Um rebelde e republicano inglês, Richard Rumbold, à espera de ser enforcado no ano de 1685 disse uma vez estas palavras: Não pude nunca acreditar que a Divina Providência tivesse dado ao mundo uns poucos homens, já calçados de botas e esporas, e prontos para cavalgar, e criado milhões de outros já com selas nas costas e rédeas na boca, prontos para serem cavalgados. O tempo longo da História haveria de dar-lhe razão, uma e muitas vezes, e às palavras do rebelde, poderíamos acrescentar, com exacta medida, a metáfora dos versos de Alexandre O'Neill: "uma coisa pensa o cavalo/outra o que está a montá-lo"...
Rui Tavares diz que "é impossível ler este livro e não pensar na situação em que nos encontramos em Portugal e na Europa" e explica que o autor "propõe três testes para a liberdade: o da justiça social, o da democracia e o da soberania". Explica Petttit: "O primeiro resume-se assim: “Pode a pessoa olhar os outros nos olhos, sem deferência nem medo?”. O segundo: “Pode a pessoa participar, em condições de igualdade, nas decisões que afectam a sua comunidade?”. E o terceiro: “Tem a comunidade recursos e protecções suficientes para melhorar a vida dos seus, sem inferioridade perante outros no plano internacional?”
Estas é que são as verdadeiras questões da liberdade. Até que ponto elas são materilizáveis em direitos concretos dos cidadãos ou, dito de outro modo, até que ponto elas não são expropriadas aos cidadãos por interesses espúrios que se instalam, como donos, do Estado democrático. "Somos livres então?" -- pergunta Rui Tavares. E responde: "O nosso olhar para o patrão, o credor ou a autoridade é sem medo ou deferência? Participamos em condições de igualdade na tomada das decisões políticas que nos afetam? A nossa comunidade política pode dar prioridade às necessidades dos cidadãos sobre as exigências externas? A resposta é neste momento triplamente negativa e deixa-nos, claramente, sob dominação. O nosso conceito de liberdade poderia até ser mais ambicioso, e incluir a possibilidade de cada indivíduo florescer até onde levar o seu potencial. Mas, nos tempos que correm, não há missão mais urgente e primeira do que exigir, para nós e para os outros, esta justa liberdade sem dominação".
Como no poema de Eluard é a liberdade que dá sentido à vida e a vida que dá conteúdo à liberdade. A velha questão de saber o que é a liberdade e a urgência do conceito ter dentro de si conteúdos concretos no plano social, isto é, da vida real de cada um, coloca o problema na radicalidade dos direitos da pessoa humana e da construção de um espaço civilizacional que não pode ser expropriável. No fundo, aquilo que Anna Harendt, a propósito da crise da cultura um dia afirmou: “Para lá da grande influência que o conceito de uma liberdade interior não política exerceu sobre a tradição do pensamento, parece que se pode afirmar que o homem não saberia nada da liberdade interior se não tivesse primeiro experimentado uma liberdade que fosse uma realidade tangível no mundo”. E acrescenta a filósofa: “Nós tomamos consciência primeiro da liberdade ou do seu contrário na nossa relação com os outros, não na relação com nós próprios. Antes de se tornar um atributo do pensamento ou uma qualidade da vontade, a liberdade foi compreendida como o estatuto do homem livre, que lhe permitia deslocar-se, sair do seu lar, ir pelo mundo e reencontrar outras pessoas em actos e em palavras. É claro que esta liberdade era precedida pela libertação: para ser livre, o homem deve ser libertado das necessidades da vida. Mas o estatuto do homem livre não decorria automaticamente do acto de libertação” (Entre o Passado e o Futuro - Oito exercícios sobre o Pensamento Político).
É por isso que se pode dizer que o que está a acontecer a Portugal é um criminoso recuo civilizacional.

QUOTIDIANOS



Crónica

CONVERSA DE ENFERMARIA

Uma das coisas mais interessantes que, se calhar, mereceria estudo académico, é o tema do tédio hospitalar, que decorre das horas iguais, muitas vezes apenas quebradas pela rotina dos tratamentos e dos contactos com o universo dos médicos, enfermeiros e auxiliares. São todos excelentes e apostados com devoção na superação do desânimo ocasional das dores ou da desesperança, que magoa sobretudo a alma. As visitas são sempre instantes de alegria, e, logo, de liquidação sumária do tédio, se o doente não estiver com a morte a prazo.
Saramago também falou da angústia da noite branca hospitalar, e, no outro dia, António Lobo Antunes, numa entrevista ao Ypsílon, tocou no tema: "As noites dos hospitais são tremendas. É como conta o Proust, ficar à espera da manhã, como se a manhã salvasse alguma coisa e não salva".
Agora, afasto para longe a angústia das noites e fixo-me nos dias e nas tais horas iguais. E o que é mais interessante e verdadeiramente estilhaça o tédio das enfermarias, são as conversas marotas que, às vezes, surgem do nada.
Os meus colegas têm experiências diferentes. Um deles, com larga experiência de internamento, conhece por dentro as rotinas da vida hospitalar, os seus sinais e os seus ritmos, identifica os rostos que passam. É o exacto conhecimento de uma topografia que passou por várias especialidades. É um homem calmo e de ironia, dois olhos muito vivos que disfarçam a fragilidade de uma saúde com feridas interiores. Gosto do ouvir desfiar as suas histórias onde entram a casa, a família, os vizinhos -- a vida. Foi camionista de longo curso, andou por franças e araganças, e, subitamente, como se as palavras o libertassem do espaço em que está, os prazeres da memória poisam em aventuras galantes, ou nem tanto, mulheres boas iguais às artistas de cinema, vivências que, dizia ele, coleccionou com gosto, enquanto ia trabalhando.
-- O que é preciso é viver a vida, antes que ela nos encoste à parede!
O outro companheiro é um homem de 90 anos, com origem na ruralidade, que saltou fronteiras "a salto", quando Portugal era "uma fronteira entre a mágoa e a França". Ele ouve e sorri, com os olhos bem abertos, às peripécias amorosas das histórias.
Subitamente, o antigo camionista trava a fundo na narrativa e pergunta, com malandrice:
--Oh, senhor António o seu peru ainda canta? Ainda faz glu-glu?
O outro responde sinceramente:
-- Nem me fale nisso... Já não pia há muito tempo. Agora, já não sai do galinheiro!
Umas gargalhadas quebraram o tédio desse dia, na enfermaria do Hospital.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O CAMINHAR DA CIDADE NO TEMPO


É um acontecimento cultural relevante, que se prolongará até Janeiro, a exposição "Um Destino; Coisa Simples" sobre o Património Arquitectónico do Século XX do Fundão. Esta revisitação da memória urbana é muito curiosa e reveladora das singularidades que o Fundão soube construir no fazer e refazer da urbe, e, também, de como o tempo nos educa o olhar em relação à paisagem que nos cerca. Sendo um tributo à memória dos dias andados, é, do mesmo passo, um acervo precioso de imagens e de informações, na forma como se apresenta a memória histórica de alguns projectos e o seu percurso até à materialização final e à sua inclusão na espacialidade. E tudo isso com um conjunto de debates que estimularão o diálogo sobre estas questões. Apraz-me registar a selecção de obras dos Arquitectos Pires Branco e Chorão Ramalho, com raízes fundas nesta territorialidade, e que enriqueceram esta terra com o rasgo da sua aventura criadora. Num texto excelente, impresso na folha volante da exposição, Pedro Miguel Salvado assinala que "a mostra quis revelar alguns pontos da secular linha da escrita da paisagem arquitectónica, com as suas sonoridades, grafismos e imagens mnemónicas, do Fundão do século XX" porque "Fundão é "terra de nome palpável", cujo fio vital nenhuma parca do destino ousara algum dia quebrar".
O arquitecto Pedro Novo, da nova geração de fundanenses, que foi o curador e teve a ousadia da ideia, merece vivas felicitações pela forma como idealizou e construiu o espaço da exposição e pela viagem que nos oferece ao século XX fundanense.
Eu escrevi para o catálogo da exposição, que sairá durante o certame, um texto sobre o Fundão, que aqui deixo para os meus leitores:

"PEQUENAS PÁTRIAS

Li um dia um pensamento de Alain que se transformou numa espécie de bússola para a memória ou para o coração, como o nosso poeta Albano Martins gosta mais de dizer. Advertia ele que “às vezes, não é preciso ir longe – basta amar o que se vê”. Essa atenção ao que o olhar abarca, no detalhe imediato da proximidade, é sempre fecundo território de emoções: basta falar no território primordial da infância que é a raiz mais funda que nos prende aos lugares, que a memória regista e, às vezes, reelabora com o poder mágico da imaginação. Essa experiência é tão forte que, no meu caso, me tem servido de cardápio para crónicas ou mesmo para a ficção.
Esse amar o que se vê tem sido a minha carta de navegação, quando me faço à cidade ou poiso nos prazeres da memória e o olhar então desliza para antigamente como se fosse à procura do tempo perdido, de onde emerge o Fundão pequena e harmoniosa vila, cruciforme na sua espacialidade urbana, que tinha como fronteiras, a sul, o esplendor da serra da Gardunha, a velha estrada nacional 18 que conduzia à Covilhã e, a norte, a estação dos caminhos de ferro, com a Moagem à ilharga, cais de partidas e de saudades.
A geografia sentimental do Fundão, balizada pela explosão cromática da Gardunha e o dorso altivo da Serra da Estrela, foi sempre marcada por uma matriz popular e democrática, edificada pelos nossos avoengos, que vêm do fundo dos séculos, primeiro camponeses que desbravaram a terra inóspita e lavraram o agro minúsculo, e depois gente operosa dos ofícios com sangue judeu, de que a toponímia ainda regista breve memória.
Quando a Avenida da Liberdade se rasgou, alguns tiveram a percepção de modernidade e que estaria, ali, doravante, a fronteira entre o velho Fundão e o tempo novo que havia de vir, desenhando um urbanismo de novo tipo. A Piscina, durante muitos anos a única nos centros urbanos da Beira, e os cafés, outra marca de convivialidade democrática da terra que Steiner não desdenharia, se o soubesse, de incluir na sua cartografia da Europa, permitiam à vila um respirar mais amplo e sadio. Esta mutação poria fim ao termo da vila limitado pelos Terreiros de Cima e de Baixo, uma longa faixa de terreno que ia até à Auto-Transportes, onde se jogava à bola e depois, enquanto as casas não surgiram, se faziam os mercados e as feiras, que no aspecto agrícola pediam meças à escala nacional. Na realidade arterial da vila, era dominante a tal cruz, pontuada pelas capelas seiscentistas, em que se desenvolviam as ruas, que entroncavam no Alto do Chafariz, onde um polícia, geralmente acrobático, comandava o trânsito e os peões. Do centro administrativo (Câmara, Tribunal e repartições afins) e cultural (o Casino Fundanense), que era a Praça do Município -- já fora Praça da República -- passava-se para o Largo da Igreja, descia-se para Santo António ou subia-se para a Rua da Cale, a mais mítica de todas, ou caminhava-se para a Escola Primária ou o Parque das Tílias. Ao lado da Escola, no Largo de S. Francisco, também os putos que éramos jogavam à bola, desporto que durava até que um polícia malvado, cozido à sombra do quartel dos bombeiros, surripiava a bola e ia entregar o corpo de delito ao professor, que ele apreendia, e se estivesse de má catadura sovava os desportistas à réguada.
Neste quotidiano longínquo, a ocupação urbana da Avenida foi tomando forma. A terra dilatava-se a olhos vistos e o símbolo maior desses traços modernos era o Cine-Teatro Gardunha. Chegou a haver cinema quase todos os dias no Fundão, uns dias no Casino e outros no Cine-Teatro. Mas era neste que residia a novidade e a jóia, que foi o Teatro do Casino, acabou por ser demolida sepultando muitas noites de glória e um património fabuloso. Ir ao Cine passou a ser um hábito social. Outras noites de glória e acontecimentos marcantes se somaram aos antigos e, entre eles, a maior manifestação popular que já houve, no Fundão, penso eu, a visita de Juscelino Kubitschek, em 1963, a que depois se seguiram outras iniciativas culturais relevantes, promovidos pelo Jornal do Fundão de António Paulouro.
Agora, que o fenómeno urbanístico se alargou por campos e quintais, que a cidade como organismo vivo construiu outra realidade urbana, gosto de passear pelas antigas ruas do burgo, olhar os velhos edifícios de uma arquitectura sóbria (as poucas casas senhoriais são excepção) deter-me nos detalhes de um quotidiano que faz pensar na biografia da terra, e, permita-se-me a ousadia, dizer como Jorge Luís Borges dizia dos pequenos pátios da sua velha Buenos Aires, que estes lugares são as minhas pequenas pátrias."





QUANDO OS POETAS NÃO MORREM


Os versos são sempre a biografia dos poetas (Octávio Paz) e, por isso, a poesia vive para além do tempo. Em 19 de Outubro de 2012, Manuel António Pinto deixou-nos, partiu, foi habitar as estrelas que ele tanto trabalhou no universo da poesia, mas ficou presente em tanta coisa que escreveu. Hoje, faria 71 anos e eu que, seguindo as instruções de Henry Miller, falo com ele através dos seus livros, dos seus poemas e das suas crónicas (quanta saudade, caramba!), deixo-lhe um aceno de palavras,  como quem diz até já.
O Manuel António Pina teve muitos títulos de glória,muitos prémios, até teve o maior de todos, o Prémio Camões -- e a ele que tanto trabalhou a palavra e o verso na sua oficina criadora, ficou-lhe bem a distinção --, mas a sua grande aventura, do que ele verdadeiramente gostou, foi escrever. A escrita foi o seu respirar essencial e cumpriu esse destino (um destino por muitos livros), com a humildade de quem lavrava uma terra, plantava uma árvore ou construía pequenas e grandes coisas. Estou a vê-lo, outra vez, com o seu olhar bondoso, a sua atenção aos outros,porventura acolhendo no colo os seus gatos.
Os poetas não morrem -- vivem na substância dos seus versos. Então, querido Manuel António Pina, aqui deixo versos teus, como quem te oferece uma rosa ou cravo vermelho:

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramago & coisas assim
eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu:
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos de andar como dantes,
chamando do fundo do meu coração.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

CATALUNHA: CONTINGÊNCIAS DA HISTÓRIA


Não resisto a transcrever mais uma notável crónica de Artur Portela publicada hoje, no "i", e que é um momento alto reflexão sobre as contingências da História. A vontade independentista da Catalunha também é relevante no que toca a perceber, não só as raízes históricas de uma região, a sua persistente resistência à destruição da sua identidade (lembrem-se os tempos do franquismo) e a vitalidade ou ousadia da vivência da Democracia. Dirão alguns que a Catalunha faz parte da Espanha, que é um país democrático, um Estado de Direito. Mas isso também acontecia com a Escócia e o Reino Unido (pelo menos aparentemente) acolheu o referendo pela independência, sem dramas, com a maior das naturalidades. Ganhou o Não, mas o desejo de autonomia plena está lá, no coração da Escócia.
O mesmo acontece com a Catalunha: a questão política não pode ser iludida e não se resolve, pura e simplesmente, por mecanismos administrativos. Consultar a população não pode ser um crime. Não podemos pensar que a imutabilidade, o desenho actual do território, é eterno. E, sobretudo, não podemos pensar (como foi tão evidente no politicamente correcto como o centralismo de Madrid abordou a questão) que a democracia só é boa quando defende e está de acordo com os interesses estabelecidos por séculos de hipocrisia. A democracia, quando está viva, não pode ser uma chatice. Sob pena de a estarmos a assassinar.
Para ler a crónica de Artur Poretela basta clicar: Homenagem à Catalunha | iOnline

A DEMISSÃO DO MINISTRO


Não sei que pior poderia acontecer a um governo moribundo (moribundo devido às feridas de sucessivas trapalhadas e incompetências), apenas ligado à máquina de Belém, que Cavaco Silva pressurosamente mantém ligada à corrente, do que a demissão do ministro da Administração Interna, Miguel Macedo. Ele não seguiu a liturgia, tão do agrado de Passos Coelho, de pedir desculpas e atirar para debaixo do tapete as responsabilidades políticas. Ele não fez como Crato ou Teixeira da Cruz, que se meteram debaixo das saias do primeiro-ministro para esconder os caos gerados por eles na Educação e na Justiça. Ele não quis fingir que nada daquilo era com ele, numa inimputabilidade que é a grande teoria do Presidente da República, que ama o governo de Passos acima de tudo e, face aos mais desgraçados desastres da governação, diz sempre:
-- Não toquem no Zézinho (o Zézinho é o governo, claro)!
Passos Coelho quis envolver Miguel Macedo na teia da indiferença, aconselhando-o, decerto, a lavar as mãos dos "Vistos Gold". Sabe-se lá, até, se não lhe terá dito:
-- Isso não é nada consigo, quem criou o Monstro até foi o Paulo Portas!
Miguel Macedo não quis ficar refém de uma política onde, por maiores que sejam as sujeiras, nunca há responsabilidades políticas, como se o acto de governar fosse coisa de garotos a jogar à bilharda ou ao berlinde. Ontem, bateu com a porte. Disse que estava ferida a sua autoridade e que, politicamente, não podia agir de outra maneira.
Ao dizer isso, Miguel Macedo veio colocar na corda bamba o primeiro-ministro, Passos Coelho, e todos os seus dilectos subordinados, que, fazendo as piores tropelias, envolvendo-se abertamente ou à socapa em lamentáveis escândalos, mostrando a incomensurável estupidez e incompetência, de que são exemplos maiores Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz (sempre a sacudirem culpas do capote), jamais foram capaz de assumir responsabilidades políticas pelos seus actos. Eles continuam de vento em popa, guiados pelo homem do leme, Passos Coelho, no país do faz de conta, onde nunca -- ou quase nunca -- se passa nada...
Miguel Macedo, com o seu abandono, acertou em cheio num governo pusilânime. Passos vai agora gritar, como no barbeiro:
-- O senhor que se segue!

domingo, 16 de novembro de 2014

QUANDO OS SINOS DOBRAM

Fotos de desaparecidos, assassinados pela ditadura militar na Atgentina
Assistimos ao triunfo da crueldade como fenómeno banal do nosso tempo. O inventário de crimes é tão extenso que nos deixa atónitos e nos suspende a respiração como se o fio da navalha estivesse sempre pronto a ferir de morte a humanidade. A história está cheia de tempos sombrios, de fanatismos demenciais, de valas comuns da ignomínia, de campos de concentração de morte lenta ou rapidíssima, de holocaustos, de palavras que são um remorso colectivo como Auschwitz, de gulagues sem perdão,  genocídios de rostos desfigurados para que a morte não tivesse nome. Os crimes são tantos e tão diversos que o inventário é sempre omisso e peca por grande defeito. O mais grave é que os crimes contra a humanidade se refinaram, umas vezes subtis, outras à descarada e a céu aberto, como se o homem não tivesse remédio e ficasse para sempre condenado à condição de coisa nenhuma. Chegaram ao nosso tempo e desfilam pela "espuma dos dias" como inevitabilidade dos conflitos e das políticas, dos cifrões e dos cartéis.
Ainda agora, em louvor da memória, se procuram abrir valas comuns, onde estão depositados cadáveres da Guerra Civil Espanhola, ou se investigam crimes das ditaduras militares da Argentina e do Chile, onde o inferno dos desaparecimentos e das pessoas que os porões dos aviões lançavam no mar é interminável.
A televisão fornece hoje, com abundância, esses dramas em grande plano, nos Afeganistões, nos Iraques, nas Sírias do nosso descontentamento. E lá vem a notícia e a imagem do fanatismo demencial do chamado Estado Islâmico, com o seu horror na ponta das facas, degolando inocentes. Esta moderna degola dos inocentes parece crer mostrar o triunfo da crueldade, como há semanas o foi também a noite de Iguana, no México, no horrível assassinato de 43 jovens estudantes. Dizem que, apesar da fogueira em que arderam os corpos dos jovens, foi a noite mais escura do México.
Não faltam redutos de ignomínia. Há anos, penso que na transição do século (um século obscuro, como lhe chamou Max Galllo), Edgar Morin dizia que o homem do nosso tempo precisava do calo da indiferença para sobreviver à crueldade que o cerca, Curiosamente, um destes dias pude ler uma excelente entrevista de Woody Allen ao "El Pais", em que o realizador dizia o seguinte: "Cada ser humano possui um mecanismo de negação para sobreviver. A única maneira de sobreviver é negar, negar o quê: negar a realidade. A vida é uma situação tão trágica que só negando a realidade sobrevive".
Mas a realidade existe, está grávida de milhões de mortos. E por eles talvez não adiante perguntar (como no célebre poema de John Donne, que Hemingway levou para epígrafe do seu romance), por quem os sinos dobram. Porque eles dobram por nós. E neste caso a indiferença é outra espécie de morte.