sábado, 29 de novembro de 2014

NESSE TEMPO É QUE ERA BOM...


É nos tempos difíceis que melhor se afere a maturidade de um povo e a sua determinação cívica. É verdade, como diz o povo, que é difícil fazer "boa cara ao mau tempo", e os dias que correm têm rosto sinistro, como se aquilo que um dia Mestre Gil pôs num dos seus Autos, para caracterizar a realidade, não fosse outra coisa que "a morte de nossas vidas". Há pouco, ouvi dizer, que uma das coisas piores que aconteceu aos portugueses nestes anos, pelo governo, foi o roubo da esperança. Há muito que eu próprio venho defendendo essa ideia, que não é outra coisa senão o reflexo da "apagada e vil tristeza" que os quotidianos de hoje oferecem aos portugueses e, poisando na poesia de Sophia, visíveis "pelos rostos de silêncio e de paciência/que a miséria longamente desenhou". Era esse o outro tempo.
O cerco das dificuldades e o espectáculo deplorável de uma certa política (a começar pela do governo Passos/Portas),  provoca hoje um ressentimento absurdo contra a democracia, com laivos de saudade da ditadura, só possível, penso eu, por estupidez e ausência de mínima cultura política. Quem não ouviu já algum basbaque suspirar: o que cá faz falta é um Salazar?
São alarvidades bolçadas por sujeitos sem memória, que não fazem a mínima ideia do que era esse tempo vil, onde a morte e a brutal repressão saíam à rua e o medo tomava tudo. Hoje, num domingo em que depois das chuvadas o sol espreitou, estive a reler a poesia de Nuno Júdice, um livro que frequento às vezes, pois a poesia ainda é o melhor remédio contra a iniquidade dos dias. O livro tem por título Fórmulas de uma luz inexplicável. Mas o poema que aqui vou deixar aos meus Leitores explica uma outra luz. Chama-se Nesse Tempo É Que Era Bom. É assim:

Os pobres ficavam à porta à espera que
lhes levassem a comida. Olhavam para dentro de casas, às escondidas,
e viam as paredes de mármore, o chão de azulejos, as escadarias
de pedra, as portas de grandes salões onde nunca iriam
entrar. Quando lhes traziam os restos de comida, embrulhados
em papel, pegavam neles, de olhos no chão, e iam-se
embora sem uma palavra. Nunca soube
se os comiam, às escondidas, para que
outros não tivessem a tentação de lhes roubar
as sobras do banquete; se os levavam para o casebre,
e os partilhavam com os filhos que tremiam de febre,
embrulhados em mantas; ou se iriam ser atacados
pelas matilhas de cães tão esfomeadas como
eles. Os pobres não sabiam o que fazer
com as suas vidas; mas eu sabia o que lhes iria
acontecer de cada vez que ouvia o sino dobrar, 
e corria para o cemitério onde o coveiro,
com todo o tempo do mundo, cavava um buraco,
dando tempo ao corpo, embrulhado na manta
grosseira, para arrefecer, até ser deitado na cova.

Nesse tempo é que era bom!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

TIRAR OLHOS


Ferreira Fernandes publica hoje uma das suas crónicas, no "Diário de Notícias", cuja leitura aconselho vivamente. Há uma inquietação latente, entre os que praticam a narrativa informativa, como agora se diz, a propósito de um conceito voraz de informação que se vem instalando na sociedade portuguesa, segundo o qual na informação vale tudo, porventura "até tirar olhos", para vender papel. Diluíram-se as fronteiras da respeitabilidade humana num atoleiro em que se legitima tudo -- até os persistentes ataques ad hominem, que não poucos reclamam como naturais. Ferreira Fernandes é a isso que reage. Assiste-se ao espectáculo deplorável e não podemos deixar de interrogar se o Código Deontológico serve ainda para alguma coisa. Porque, na verdade, o documento todos os dias é rasgado, publicamente.
Vale a pena ler a crónica de Ferreira Fernandes:

"Debica indícios, cronista, debica, e bolça certezas
João Miguel Tavares julga que por olhar muitas vezes para uma mulher a consegue engravidar. Ora, o indício de um interesse não garante a prova do teste positivo. Ontem, defendeu, no Público, que os "fazedores de opinião", a expressão é dele, deviam culpar Sócrates porque "ali entre 2007 e 2011, (...) se não havia provas, havia infindáveis indícios". A tese é velha, muitos dizem-na assim: "Não há fumo sem fogo...", "Eu cá não sei, mas dele já ouvi do pior...". Geralmente ouço o mesmo sentado no banco de trás, enquanto o taxímetro avança. Geralmente desligo-me das insídias e leio a última página do Público e os bons cronistas que lá escrevem. Ontem, como era quinta-feira, foi impossível: "Pois é, não havia provas, mas havia infindáveis indícios..." Quer ir pela Estrada de Benfica ou pela da Luz?" pergunta-me o do volante; sem perguntar pela rota, o da crónica dizia o mesmo. Ora, 835 suspeitas não fazem, necessariamente, uma culpa e 279 hipóteses não fazem, por si, uma prova. Por andares 320 quilómetros para o Porto não quer dizer que chegaste a Aljustrel, João Miguel Tavares. Deixa-me dizer-te que não só a quantidade não transforma sempre a qualidade,como, às vezes, uma só quantidade qualifica. Por exemplo. ontem só criticaste uma vez "aqueles fazedores de opinião que durante anos e anos defenderam José Sócrates contra os ataques ad hominem. Foi só uma vez, mas o suficiente para te dizer que és um pedaço de asno".

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

CANTE ALENTEJANO


Sempre me impressionou a força do cante alentejano, pela dimensão colectiva e pela autenticidade das vozes, que parecem todas, como uma só, ligadas à terra. O poeta José Gomes Ferreira percebeu isso muito bem, quando escreveu: "Nunca ouvi um alentejano/cantar sozinho". De muitas maneiras, é assim que eu também vejo aquele canto, tão marcado na sua identidade pela sua arquitectura estética e pela autenticidade. Não há, nesta música coral, o mais leve artifício. Tudo à capela, homens abraçados às vozes, com o ritmo dos seus passos. Um dia, vi um destes grupos caminhar pela rua, desde longe. À medida que avançavam no espaço, era como se o colectivo de vozes se agigantasse até se fazer coro camarada com os que ouviam esses cantares, que incorporam a substância do tempo. Vêm do fundo dos tempos, velhos ecos gregorianos de angústias e de jornas de servidão, de sol a sol, sonoridades telúricas identificadoras da vida e das vidas.
Hoje, o cante alentejano, canto colectivo sem recurso a instrumentos,  que incorpora música e poesia, foi classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). A distinção foi aprovada pelo Comité Intergovernamental da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Estou a vê-lo: o grupo de cantadores, a povoar a solidão dos campos alentejanos, com o seu cante, na fraterna irmandade do seu tom colectivo, nos passos cadenciados e firmes com que as vozes fazem caminho, semeando humanidade. Parece que cantam o coração da terra.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

9 MILHÕES DE SUSPEITOS


No tempo em que os Tribunais Plenários eram a máquina legitimadora dos crimes da PIDE -- é preciso lembrá-lo --, o Luís de Sttau Monteiro escreveu um texto dramático que se intitulava Todos os Anos pela Primavera. A peça contava a história de um homem que, ano após ano, quando as flores desabrochavam e os campos eram sinfonias de renovação, era preso. Todos os anos pela Primavera, ia parar às masmorras por motivos que ele próprio não sabia, nem podia imaginar, urdidos pelas polícias, como de resto acontecera também ao senhor K, no espantoso romance de Kafka, O Processo. Tinha a profissão de suspeito, condição que era comum a 9 milhões de portugueses.
É claro que o livro (onde figurava, também, outro texto implacável contra a ditadura, A Estátua) mal saiu teve logo o destino da apreensão. A Polícia Política andou, como fazia sempre, no varejo das livrarias, à procura desse perigoso corpo de delito, que podia criar alarme social.
Era um tempo sem liberdades e garantias em que os cidadãos estavam nas mãos do livre arbítrio dos verdugos (juízes e acusadores dos Plenários incluídos). Era um tempo em que os fins justificavam todos os meios e o homem era coisa nenhuma, face à brutalidade da repressão e à intolerância à solta. Era um tempo de crueldade à flor da rua, de abusos do poder, de sonegação de direitos elementares.
Esse tempo de ignomínia, na história portuguesa, que é longo, muito longo, soma-se a muitos outros, com a mesma tipologia, em que o cacete se sobrepôs sempre às ideias e a liberdade era sempre passível de delito, e, por isso, expropriável. Aos absolutismos de vários matizes e aos três séculos de Inquisição e de inquisidores, juntam-se os 48 anos de ditadura, eternidade de um tempo que moldou mentalidades e as inquinou contra um espírito verdadeiramente livre e de pensamento em voz alta. A forma como, ao longo dos séculos, germinaram os inquisidores, sustentados por formigueiros de denunciantes-familiares do Santo Ofício, e, depois, os informadores da PIDE, são traços que explicam muitos tiques da psicologia colectiva e do comportamento do povo português. Ainda hoje, com o voyeurismo jornalístico à mistura (a pedir sempre mais sangue e mais e mais faca na liga), assistimos ao gáudio de manifestantes face a situações em que o homem é diminuído na sua dignidade essencial, e, porventura, podemos pensar que esses entusiasmos são restos  do mesmo regozijo e alegria que alimentavam a turba, que assistia aos espectáculos rituais das fogueiras em S. Domingos onde se queimavam livros "perigosos" e as vítimas da Inquisição.
Às vezes, é bom pensarmos nesses fantasmas que fazem parte do nosso cimento como povo, para percebermos as linhas com que nos cosemos no tempo que nos coube em sorte, cada vez mais povoado de suspeições, a que se ligam a indiferença servida por velhas debilidades cívicas e culturais e o descrédito face a políticos e instituições. Talvez a frase que hoje mais se ouve por aí é a que traduz essa desconfiança: não ponho as mãos no fogo por ninguém! Aí estão os resquícios mentais que fazem dos portugueses 9 milhões de suspeitos, não já apenas na Primavera, mas durante o ano inteiro.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

DIREITO À INFORMAÇÃO

Eram não sei quantos milhões, colados aos ecrãs das televisões, à espera que o sr juiz Carlos Alexandre, do TICÃO (é assim que se chama ao tribunal onde exerce a condição de super-juiz) esclarecesse os portugueses das medidas de coação aplicadas aos arguidos do processo "Marquês", que há dias se encontravam detidos, e onde pontifica o nome de José Sócrates, ex-primeiro ministro. É certo que na expectativa fundada da população, onde se misturam sentimentos difusos de ódio e paixão que a figura do político suscita, havia decerto muitos que seguem com desmedidas euforias tudo o que gira à volta da Justiça-espectáculo, desta vez encenada sem cuidados de sobriedade, com subtis humilhações.
Então, estavam os olhos colados às televisões, que, desde as 18 horas, começaram a anunciar: "Medidas de Coação anunciadas já a seguir". E as imagens, é verdade, mostraram funcionários judiciais a prepararem o lugar para o grande acontecimento mediático. E, já passava talvez uma hora, até veio a escrivã a testar o som, na mesa onde já se juntava uma multidão de microfones. As câmaras estavam, também, há muito preparadas para registar o acontecimento. Entretanto, passaram-se quatro horas, quatro horas, caramba, sem uma nota, uma explicação pequena que fosse. Nas televisões os comentadores e jornalistas repetiam-se, num filme em que pareciam ter sido, também eles, condenados àquelas cadeiras onde se sentavam e de onde não podiam sair para jantarem.
Quatro horas depois, foi lido o comunicado, cheio da cronologia dos interrogatórios, este a esta hora, aquele à outra, mais as pausas para refeições e descanso. E depois o anúncio, e só o anúncio, das medidas de coação. Mas quanto à fundamentação jurídica das mesmas, zero, nem uma palavra.
Num processo desta envergadura, em largos passos transformado num circo mediático, este espectacular tribunal resolveu tratar os portugueses como débeis mentais, sem direito à informação mínima. Apenas gostavam de saber as razões que motivam a prisão preventiva. Poucos terão gostado disso e alguns terão visto mesmo neste registo uma gratuita forma de arrogância. E, no entanto, eram não sei quantos milhões




O PROCESSO


Uma das coisas mais marcantes da genialidade de Franz Kafka é a forma como ele trata os universos absurdos, os poderes que criam realidades próprias, de que os cidadãos parecem reféns inescapáveis. O Processo e A Metamorfose são dois monumentos da literatura universal, obras que mergulham nos dramas mais profundos da condição humana. Por isso, sem mais palavras, aqui fica a sugestão de leitura para os dias que correm: O Processo, de Franz Kafka.