sábado, 6 de dezembro de 2014

INSUPORTÁVEL MENTIROSO


Há duas coisas que minam irreparavelmente a respeitabilidade dos políticos: a hipocrisia e a estupidez. Há tipos que desbaratam o respeito público por um falar repleto de hipocrisia e cinismo, que neles é tão natural que parece intrínseco às personalidades falsificadas que construíram na aprendizagem política; outros, desajustam-se de tal forma da realidade, que o povo diz que têm demasiada estupidez natural, pois nunca percebem verdadeiramente a substância das coisas. Esses públicos vícios, em alguns casos, confluem na mesma pessoa, como acontece com o primeiro-ministro Passos Coelho. No exercitar das suas falas, a hipocrisia e a estupidez natural convergem numa delirante ou propositada falsificação da realidade social, que no Portugal que somos é dramática e cheia de desumanidades.
Vi, por estes dias, nas televisões, Passos Coelho, numa reunião do seu partido, muito sorridente, falar da sociedade portuguesa, apregoando com uma chocante naturalidade (cá está o tal sintoma de desrespeito pelas pessoas) que a crise, em Portugal, até tinha diminuído as desigualdades, e recorrendo a uma metáfora marinha, teve a lata de dizer não ter sido o mexilhão que se lixou... Riu ele e outros alarves, que aplaudiram a tirada irónica do primeiro-ministro.
Não pode haver pior coisa num político que julgar os seus concidadãos estúpidos, ou, pelo menos, idiotas úteis. É que eles sabem no concreto -- pois sofreram na pele -- a devastação social que ocorreu em Portugal nestes três anos meio, com o governo de Passos & Portas (o Senhor Feliz e o Senhor Contente), executores das políticas de empobrecimento que foram alegremente além da Troika, de que eles foram a um tempo servis e exultantes executores.
Como é capaz um primeiro-ministro. a não ser que seja irresponsável ou inimputável, bolçar tais alarvidades,  quando, ainda esta semana, a OCDE, no relatório de avaliação sobre o nosso país, veio dizer que "Portugal tem uma distribuição de riqueza das mais desiguais da Europa e os níveis de pobreza são elevados" referindo, precisamente, que "a actual crise económico-financeira veio interromper uma fase de declínio gradual tanto da pobreza, como das desigualdades"? Como é capaz um primeiro-ministro, a não ser por manifesta má-fé, dizer uma mentira tão grosseira, quando, a OCDE vem avisar que as crianças são das principais vítimas da recessão? Como pode um primeiro-ministro, a não ser por um desejo incontrolável de mistificação política, afirmar que as desigualdades se atenuaram com a crise, quando, ainda recentemente, o INE veio informar que há "quase dois milhões de pessoas em risco de pobreza, o nível mais elevado desde 2005"?
Passos Coelho pode fingir que o seu Portugal -- dele e dos seus apaniguados -- é esse paraíso, onde, com o seu governo, tudo caminha para o bem e para a felicidade. Mas a maioria dos portugueses, que come o pão que o diabo ou Passos & Portas amassaram, que olha para o lado e vê a pobreza alastrar como uma nódoa, que tem na família gente desempregada e sem horizontes de futuro, que vê os mais jovens partir sem bilhete de regresso, sabe a enorme aldrabice que a visão idílica do primeiro-ministro representa. Sabem e não esquecem. Só o primeiro-ministro não sabe, ou não quer saber, o aumento dos suicídios em Portugal, de jovens e idosos, o mais dramático retrato de como a crise tem devastado um país chamado Portugal.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

APESAR DE TUDO, A ESPERANÇA!


Em Outubro de 1991, em plena ascensão e glória do cavaquismo, escrevi uma crónica que hoje reli, e, face aos dias sombrios que vivemos, me apetece reproduzir, como se aquele respirar de palavras que foi então o meu se pudesse sobrepor à realidade que faz o inventário dos dias de hoje:

Às vezes um fio de céu azul, às vezes uma mão que se abre a outra mão, às vezes uma palavra murmurada, quase a medo. Às vezes um gesto apenas, uma ideia, um pensamento. Às vezes um rosto, um breve sorriso, a ternura de um afecto. Às vezes um país: uma história desigual, o intranquilo caminhar de um povo, os dramas vividos nesse fazer e refazer da vida colectiva. Às vezes muitas lágrimas, nessa tarefa de um país se procurar a si próprio, nesse dramático lavrar de séculos. Às vezes o desencanto da vida,  igual à expressão épica de mil contradições, aventuras e desventuras naufragadas, quase sempre a pátria adiada que sonhamos. Às vezes as angústias para o dia seguinte, sabe-se se para o tempo todo que nos vai bater à porta!
Penso tudo isso, mas desvio subitamente o meu olhar para a esperança, esse alfabeto que alguns de nós ainda falam. É uma estátua de pedra, inteira, como muitas outras, no fabuloso Jardim do Paço, em Castelo Branco, esculpida decerto por mãos rudes de canteiros pacientes,  que a erosão do tempo, as guerras, as servidões, as noites mais tristes e sem estrelas, não destruíram. Resistiu a tudo. Ali está, intacta, vertical. Este falar de pedra, a que os anos.com a cor do tempo, deram mais força, é a imagem de uma grande serenidade. Como quem acena à inquietação do futuro, quev é a minha perplexidade de circunstância, parece que a oiço dizer: Apesar de tudo, a esperança!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

ECONOMIAS: UM LINGUAJAR


Desde que o cifrão tornou refém a política, instalou-se a ideia de que a economia era o discurso dominante. "É a economia, estúpido!", dizia-se para criticar desvios do pensamento único. Cristalizou essa retórica, muito repetitiva, claro, e fez-se uma espécie de Bíblia de políticos e comentadores. Todos os dias os vemos na tv, a esgrimirem números (de acordo com as suas conveniências!), vergados ao peso das Troikas e dos Mercados (uns e outros, não são pessoas de bem), muitas vezes a tentarem explicarem o inexplicável ou a darem lições de moral, convencidos de que a economia tem dimensão moral. Basta ver as trafulhices dos banqueiros, para percebermos a dimensão da mistificação. Hoje, o capitalismo tornou-se motivo de vergonha e ainda recentemente o presidente da Comissão Europeia, Junker, que está ligado enquanto primeiro-ministro do Luxemburgo a um esquema de favorecimento de grandes multinacionais, veio dizer: "Não se atrevam a descrever-me como amigo do capital". O capital tem as mãos sujas (até o Papa o afirma), mas os comentadores benevolentes estão aí para o glorificar, com o seu economês e o seu servilismo. O primeiro-ministro, Passos Coelho, aluno de Maria Luís Albuquerque, não poucas se enreda nas trapalhadas dos números, nas suas explicações de mandatário (e entusiasta) da Troika, que às vezes tomam expressão cómica.
Curiosamente, na leitura das Farpas de Eça, estão lá estampados, em corpo inteiro, estes novíssimos actores da política e do comentário. Em Maio de 1871, Eça fazia uma caricatura dessa mediocridade instalada na política. Era um tipo do Partido Reformista, "um estafermo austero, pesado, de voz possante".
Eça desenvolve a crónica:

"(...) Por fim, pouco a pouco, alguns jornalistas mais curiosos foram-se chegando, começaram a tocar-lhe com o dedo, a ver se era de pau. Era de carne, verdadeiro. Percebeu-se mesmo que falava. Então os mais audaciosos fizeram-lhe perguntas.
-- Senhor -- disseram -- espalhou-se por aí que vindes restaurar o País. Ora deveis saber que um partido que traz uma missão de reconstituição deve ter um sistema, um mprincípio que domine toda a vida social, uma ideia sobre moral, sobre educação, sobre trabalho, etc. Assim, por exemplo, a questão religiosa é complicada. Qual é o vosso princípio nesta questão?
-- Economias! -- disse com voz potente o Partido Reformista.
Espanto geral.
-- Bem! E em moral?
-- Economias! bradou.
-- Viva! E em Educação?
-- Economias! -- roncou
-- Safa! E nas questões de trabalho?
-- Economias! -- mugiu.
-- Apre! E em questões de jurisprudência?
-- Economias! -- rugiu.
-- Santo Deus! E em questões de literatura, de arte?
-- Economias!-- uivou.
Havia em torno um terror. Aquilo não dizia mais nada. Fizeram-se novas experiências. Perguntaram-lhe:
-- Que horas são?
-- Economias! -- rouquejou.
Todo o mundo tinha os cabelos em pé. Fez-se uma nova tentativa, mais doce.
-- De quem gosta mais, do papá ou da mamã?
-- Economias! -- bravejou.
Um suor frio humedecia as camisas. Interrogaram-no antão sobre a tabuada, sobre a questão do Oriente.
-- Economias! gania
(...)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BOM DIA, ANTÓNIO!


Há 40 anos que, semanalmente, no "Expresso", António nos surpreende com a invenção dos seus desenhos e das suas caricaturas. Ele tornou-se uma companhia indispensável para nos fazer sorrir, um sorriso que tem sempre origem na inteligência do seu traço, na leitura irreverente dos acontecimentos, na crítica personalizada de políticos, na arquitectura sóbria do seu humor. Quem não se lembra do preservativo enfiado no nariz do Papa João Paulo II, para criticar o arcaísmo da Igreja em relação à prevenção da SIDA? Na melhor tradição do Bordalo, ele não precisa de palavras para fazer a crónica da sociedade portuguesa e do mundo. Olhamos os seus cartoons, sustentados por uma funda cultura, e esse olhar é como quem bate à porta da ironia mais pura, essa que Octávio Paz dizia ser um traço identificador da civilização moderna. Olhamos, pois, e os estímulos estéticos da leitura da imagem que ele nos oferece são sempre múltiplos e enriquecedores. Às vezes provocam um sorriso amável, potros uma gargalhada funda, dessas que Eça dizia constituírem a notoriedade da crítica. Estes 40 anos de cartoons fizeram de António um companheiro que nos descodifica o mundo e, através de uma espantosa criadora, actualizada e actualizante, nos actualiza também a nós, seus devotados leitores. Bom dia, António!

domingo, 30 de novembro de 2014

UM INSTANTE APENAS

Ilustração de João Lourenço para o conto "Os Olhos do Medo", escrito pelo autor deste Blogue
Há instantes que nos tocam por dentro, cavam emoções e lágrimas, e na efemeridade da sua existência têm tão forte significado que parece demorarem uma eternidade a passar. Porque são dramáticos e tristes. Porque nos cortam a respiração. Foi assim que eu, assistindo pela televisão ao discurso de António Costa, no encerramento do Congresso do PS, pedir aos assistentes um minuto de silêncio pelas mulheres assasinadas na irracionalidade da violência doméstica. Foi uma pausa, densa e pesada, um silêncio fundo que parecia ter entrado, também, por nossas casas, numa súbita nuvem de consciência cívica. Silêncio absoluto que parecia ampliar-se, com maior densidade e peso, à medida que Maria do Céu Guerra lia os nomes das 34 mulheres mortas dentro de paredes de persistente solidão e continuada violência (penso eu) até ao desenlace final da irremediável morte. A Céu Guerra leu em voz múrmura, despojando de todos os artifícios as palavras que eram rostos de pessoas. Só os nomes de gente que desceu aos infernos mais profundos da ignomínia e da infra-humanidade. Crimes que em Portugal se repetem numa banalização doentia do mal. Foi um instante, apenas, mas no íntimo de cada um penso que uma lágrima se desprendeu para molhar a realidade absurda.