quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

CORAÇÃO AO ALTO!

Não coisa mais fascinante do que a luz. A escuridão e a sombra são sempre restos, que só no tempo do sono parecem toleráveis. Esta coisa da luz, nos cristais e cintilâncias que oferece ao nosso olhar, é capaz de nos por a pensar em coisas bem mais profundas do que a rotina que parece estar destinada às suas oferendas de circunstância. Às vezes, é um sol a pino, que nos obriga a colocar a palma da mão à frente dos olhos para filtrar a paisagem e descortinarmos as coisas; mas na maioria das vezes é uma luz mansa que coa a realidade, poisa nas casas e nas ruas, nas árvores e nas florestas, cria as suas fronteiras de sombra, que também têm o seu encanto, e o tempo abre-se numa aleluia suprema, uma sinfonia da natureza e da vida. É muito curioso observar os detalhes que a luz, poisando nas coisas, oferece à medida que caminha pelo tempo de dia. Não me canso de andar à caça dessas alegrias, fragmentos de humanidade que os deuses, certamente de boa catadura, nos deixaram para sabermos gozar. Dias cheios, assim, mesmo quando os dias são curtos e a noite desce com o seu manto de frio e uma realidade glacial, que as iluminações do Natal não disfarçam, vem para ferir até aos ossos o corpo e a alma dos pobres que, de abundante, como disse o poeta, só têm o sol.
Agora, faço a mala e vou tratar do coração, que bem merece atenção e desvelo. Durante uns dias, lá vou eu recolher-me ao silêncio, até que a luz volte outra vez, definitiva e total. A reler Eugénio, que tem tanta luz nos seus poemas, fico com este

A luz,
a luz trazida
pelos rosados pés dos pombos
dos confins da alegria

-- quem pudera levá-la 
à boca e dormir apaziguado.

JORNALISMO DE SARJETA


Talvez não haja a profissão tão apaixonante como o jornalismo e a história está cheia de exemplos de pequenos e grandes heróis que arriscaram a vida ou morreram para cumprirem o dever de informar os os outros, dar-lhes uma ideia ou uma notícia, qualquer coisa que era simplesmente capaz de lançar o frémito de uma emoção ou colocar a consciência pública na primeira linha do pensamento. Às vezes, no meio das balas ou pesados bombardeamentos, como no Vietname ou em Salvador (é bom lembrar o filme), outras no cerco ignominioso da violência, brutal ou subtil, ou tentando irromper nas nuvens das fábricas de medos, que os poderes alimentam. Dizia Vásquez Montalbán, há uns anos largos, que não se pode exigir aos jornalistas que sejam heróis todos os dias, mas a verdade é que a classe se enobreceu com exemplaridades corajosas, com gente vertical que fez da palavra um combate superior de honra e dignidade. Olhamos para antigamente e vemos causas e lutas e combates desmedidos e desiguais só porque no alfabeto do jornalismo o homem deve ser sempre condição primeira e centro do mundo. Neste falar de uma classe que tem a honra por património comum, a liberdade foi matéria de inquietação e de sonho que fazia luz sobre a substância dos dias. Eram excepções à regra -- e excepções que a maior parte das vezes caíam na execração pública -- os atentados à dignidade alheia, as execuções sumárias a mando de interesses espúrios, os assassinatos de carácter, a forma acanalhada de colocar a consciência moral no alçapão das conveniências. Os que o faziam sofriam o opróbrio social porque, até se dizia, tinham vendido a alma ao diabo. Agora, isso é uma ilusão que já passou.
O jornalismo ainda se vive com paixão e na dilatação do seu universo ainda há gente formidável, improváveis heróis, pessoas que vivem no fio da navalha para cumprirem a tarefa de informar, com honra. Mas há o reverso da medalha: a contaminação da teologia do mercado (vender a alma ao diabo, pois então!), a abdicação de princípios morais, a submissão a fétidos projectos informativos de sarjeta, onde o homem é a medida de coisa nenhuma. No chafurdo dessas promiscuidades, todos os dias rasgam o os compromissos do Código Deontológico e mandam às urtigas a escala de valores que deveria pautar a honestidade da função. Esses, são os outros, que pululam por aí, com câmaras e microfones à ilharga, sem limites para as sujeiras de ocasião.
É o "tempo do desprezo", como dizia o Camus jornalista, quando lutava pela liberdade, através da informação, numa França ocupada pelo nazismo. E ele que fez jornalismo sob a bota do ocupante, e depois em plena liberdade, reflectiu muito sobre a exigência ética da prática da informação e no dever de salvaguardar o compromisso do interesse público, inalienável da própria função jornalística. Ele percebia os desvios que aí vinham e teve palavras premonitórias quando advertiu contra a inquinação do acto de informar, com a alegação de que "é isso que quer o público". Ele caricaturou que "se vinde jornais, todos os dias do ano, lhe soprar à volta o ar da mediocridade e do artifício, ele respirará esse ar e não o poderá ultrapassar". Ele pedia um jornalismo "à altura do país" de reflexão e de escrúpulo". e "um esforço quotidiano de reflexão e de escrúpulo". Ler estas palavras, escritas em 1945, parece um programa de exigência para os dias de hoje.
O panorama geral do jornalismo português reflecte, na sua floresta de enganos, uma grande tristeza e uma profunda doença moral. DE tal forma, que é lícito perguntar se o Código Deontológico serve para alguma coisa. O Eduardo Guerra Carneiro, que foi poeta e jornalista dos melhores, publicou um dia um poema intitulado "Isto anda tudo ligado!" que passou a ser citado, pelos anos fora, como metáfora de várias pantominices habituais na sociedade portuguesa. Também no jornalismo de sarjeta, que emerge da realidade, anda tudo ligado. Para glória do negócio e desgraça do jornalismo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

ASSASINATO NO PARLAMENTO


Na sociedade portuguesa das últimas décadas, não se assistiu a um retrato tão impiedoso do capitalismo português como aquele a que temos sido confrontados, como público, na Comissão de Inquérito Parlamentar sobre o caso Espírito Santo, na Assembleia da República. Há um livro célebre de Manuel Vasquez Montálban (que saudades!), que se chama Assassinato no Comité Central, mas a história do romance decorre na intimidade de uma super-estrutura partidária, consagrada ao silêncio do altar das conveniências subjectivas e objectivas da situação.
Ontem, na maratona das audições de Ricardo Salgado e de José Maria Ricciardi, lembrei-me dessa ficção bebida na realidade, porque ao observador comum do duelo entre os primos lhe poderia parecer estar a assistir, sob os holofotes da política e da informação, à história de um outro assassinato, em directo do Parlamento, o do Banco Espírito Santo. As razões dirimidas por dois dos actores principais do crime mostraram, nas afirmações e nos silêncios, o que foi a ascensão e queda do Banco Espírito Santo e o acervo de negócios e engenharias financeiras do seu grupo, o GES. Desfilou por ali a anquilose do capitalismo português, na sua articulação de negócios e políticos, n extensão e submissão às ligações internacionais e às suas conivências fraudelentas. No ajuste de contas familiar, com o verniz encenado e paciente de Ricardo Salgado e a impetuosidade de Ricciardi, era muito mais do que os negócios da família que ali estavam em jogo: era oi retrato de um país, com séculos de donos e de mandantes na política, onde, durante anos, são possíveis estes esquemas, à margem das leis (e o BPN? e o BCP?, lembram-se?), convergentes em escândalos próprios das repúblicas das bananas. Matai-vos uns aos outros! O filme vai longo, mas o epílogo ainda está distante.
Enquanto o fim não chega, é bom buscarmos alento na arte dramática de Mestre Gil e na sua Romagem dos Agravados, que aqui ficam uns falares:

Porque tais carreiras sigo
e com tal dita naci
nesta vida em que nam vivo
qu’eu cuido que estou comigo
eu ando fora de mi.
Quando falo estou calado
quando estou entonces ando
quando ando estou quedado
quando durmo estou acordado
quando acordo estou sonhando.
Quando chamo entam respondo
quando choro entonces rio
quando me queimo hei frio
quando me mostro m’escondo
quando espero desconfio.
Nam sei se sei o que digo
que cousa certa nam acerto
se fujo de meu perigo
cada vez estou mais perto
de ter mor guerra comigo.
Prometem-me uns vãos cuidados
mil mundos favorecidos
com que serão descansados
e eu ach’os todos mudados
em outros mundos perdidos.
Já nam ouso de cuidar
nem posso estar sem cuidado
mato-me por me matar
onde estou nam posso estar
sem estar desesperado.  

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

QUEM SABE DE CARLOS DE OLIVEIRA?


Esta segunda-feira, de feriado, tão aberta ao sol e a céu azul, sem mácula de nuvens e asas de vento, foi tempo bom para a leitura. A luz, à sombra do frio, é mais suave, poisa nas coisas e nas paisagens, ao de leve, traça melhor os contornos dos detalhes. Mas falava eu em tempo de leitura. No outro dia, o José Pacheco Pereira inventariava o tempo de leitura de uma vida e media qualitativamente essa capacidade em 4 000 - 5000 livros. Fundava nessa razão desse limite a opção para ler as coisas passadas, já testadas pelo tempo, que valia a pena conhecer, deixando de lado, por opção, as novidades. Há um tempo em que, de facto, começámos a regressar aos prazeres da memória do que nos foi permitido ler e nos inquietamos com a falta de tempo para lermos tudo aquilo que desejamos. Penso que essa inevitabilidade talvez nos ajude a ocupar melhor os dias e a quebrar um pouco essa angústia. Lembro-me de Vergílio Ferreira dizer um dia que não havia pachorra, a não ser para os que o faziam por obrigação, para lerem as páginas completas do Padre António ou os 200 romances de Camilo. Dizia ele, sobre o Camilo, que em muitos casos se lia metade do romance e depois se acreditava no resto.
De facto, é tão vasto o mundo da literatura (com os tais livros que, dizia Miller, estão vivos e falam connosco) que ficamos com sincera pena de tudo aquilo que, por impossibilidade física, não irá suscitar em nós o estímulo e o prazer da leitura.
Ao longo dos dias, vamos construindo a casa da nossa literatura e da nossa escrita, como quem coloca pedra sobre pedra. E, nessa casa, temos os autores que amamos e fazem corpo connosco na tarefa de percebermos o mundo. Um desses, que frequento com enorme prazer, é Carlos de Oliveira, tão injustamente esquecido pelo analfabetismo triunfante. Poucos, como ele, trabalharam tão duramente, e com tanto rigor, na poesia e na prosa, a palavra. Essa tarefa de despojamento explicou-a ele em O Aprendiz de Feiticeiro: "O trabalho oficinal é o fulcro sobre que tudo gira. Mesa, papel, caneta, luz eléctrica. E horas sobre horas de paciência, consciência profissional. Para mim, esse trabalho consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e de e deduzido de si mesmo, o que me obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento e destino".
Então, dou comigo na Ereira, guiado pelas palavras do autor de Uma Abelha na Chuva. Vou com ele numa descrição fantástica sobre a morte do poeta Afonso Duarte. Escreve ele: "A Ereira, uma aldeiazinha dos campos do Mondego onde Afonso Duarte nasceu, visitei-a há várias estações. Quando desaba o inverno, aágua submerge tudo e a cheia vem marulhar ao rés das casas: "Ilha de Ereira, ó Guernesey dorida". As crianças chapinham de pés nus, os aldeões maldizem a vida, os barcos pairam como as gaivotas "em longes de inocência". E mais adiante tem esta descrição assombrosa:

Escrever é lavrar, penso comigo, olhando esta Ereira onde se fecha hoje o círculo que o seu cantor traçou com a própria vida. E lavrar, numa terra de camponeses e escritores abandonados, quer dizer sacrifício, penitência, alma de ferro. Xistos, areais, cobertos de flores, de frutos, se a chuva deixar, o solquiser, o tempo não reduzir as sementes e o coração a cinza. Tanta colheita perdida na literatura, e eu que o diga nesta linguagem de vocábulos pesados como enxadas, na voz lenta, difícil, entrecortada de silêncios, que os cavadores e os mendigos me ensinaram, lá para trás, no alvor da infância: um pouco de frio e neblina coalhada, sons ásperos, animais feridos.
Agora, pouco importa. Caminho entre o povo, atrás do caixão de Afonso Duarte, o extraordinário gravador de lápides rústicas, e sinto que nem todas as colheitas se perdem, que as coisas se compensam umas às outras no seu obscuro equilíbrio natural.
Ao longe, um fumo de casais, fumo ou rumor azul, como se a terra respirasse e nós a ouvíssemos. O sol, esse, ouve-se perfeitamente, é um zumbido alegre, um enxame de abelhas, um pouco à solta, que embate nos salgueiros tenros, tropeça no casario baixo da Ereira, se levanta e prossegue no tropel cintilante. Mestre, cai a manhã "aos silvos na água".
O enterro vai por uma ruela barrancosa, cheia de estrume, entre currais e sebes. Vacas espreitam dos estábulos, as primeiras corolas abrem nos silvedos. Os homens que transportam a urna a pulso param e descansam um pouco, mas logo a marcha recomeça, inexorável, ritual, dois ou três quilómetros de intimidade aldeã: cozinhas pobres, cristas rutilantes de galos, coisas toscas e nuas, velhos ou figuras de madeira rugosa, que se levantam dos portais e nos seguem. Os muros do cemitério, dessa brancura morta que só a cal tem,alvejam lá ao fundo. Assim caminha Afonso Duarte, vagarosamente, acompanhado por crianças, camponeses, alguns amigos, sol e flores, para os seus sete palmos de terra.
Chamem um dos velhos canteiros de Ançã (a dois passos daqui) e mandem gravar na campa do poeta o epitáfio que ele próprio escreveu:
                                                 
                                                A dádiva suprema é dar a vida
                                            Ao silêncio de pedra que é a morte.
                                                 Larga-me da vida, morte,
                                                  Faz-me da morte pedra.

Um desses humildes herdeiros dos escopros de João de Ruão. Chamem-no depressa. Com o sol que está, as palavras ficarão doiradas.

Reli (quantas vezes?) este lavrar de palavras, e por elas, pelas palavras de Carlos de Oliveira, já fui com os meus olhos à terra de Afonso Duarte (posso lá morrer, terra florida!) e às veredas da Gândara, que fazem parte do coração da literatura do autor de Mãe Pobre.
Páginas que, por muito que haja para ler, não podemos esquecer. É por isso que o silêncio sobre Carlos de Oliveira (das próprias Universidades) é simplesmente criminoso.

domingo, 7 de dezembro de 2014

A LIBERDADE TANTAS VEZES REPETIDA!

Soares por JúlioPomar
Lembro-me de um dia Eugénio de Andrade me ter mostrado um texto que lhe haviam pedido sobre Mário Soares. Era mais do que um desses depoimentos circunstanciais que se fazem como ritual de homenagem; era, na prosa belíssima de Eugénio, sempre tão carregada de poesia, um retrato, muito ao jeito do Rosto Precário, em que o poeta singularizava a dimensão humanista e cultural de Soares, e, sobretudo os seus combates cívicos, para deixar mais na sombra a parte mais dura da política. Era, também, o desprendimento do autor de As Mãos e os Frutos sobre os poderes. O que lhe interessava realçar era a comum humanidade que, em Mário Soares, é condição intrínseca e sublime da sua biografia. Lembro-me bem que a prosa terminava de uma maneira surpreendente, que a leitura de Eugénio (ele, que era um leitor fabuloso) carregava de sentido: Gosto dele, apesar de Presidente da República! 
Hoje, lembrei-me das palavras do poeta, que eu gostaria de reproduzir aqui, mas no universo dos meus papéis, que às vezes é mar revolto, a fotocópia que Eugénio me oferecera, sumira. Mas ficaram as linhas do retrato que, aos 90 anos (Parabéns, dr. Mário Soares!) ganhou maior nitidez. Quem conhece o antigo Presidente da República e teve a sorte de privar com ele, sabe do fascínio que é ouvi-lo contar histórias, que na maior parte das vezes se confundem com a história portuguesa do nosso tempo, mergulhar nos acontecimentos fantásticos da sua biografia política, conhecer a sua relação com o mundo dos escritores e dos poetas ou da cultura, num sentido mais vasto. É um mundo. Às vezes (lembrando-me de Ruben A.) penso que é uma síntese: o mundo à procura de Mário Soares e Mário Soares à procura do Mundo.
A estes aspectos do seu percurso de vida, já de si tão vasto e rico, o dr.Mário Soares acrescentou nos últimos tempos um compromisso absolutamente vital com a sociedade portuguesa: a pedagogia da inquietação. Num país que, muitas vezes, parece civicamente exangue, ei-lo a tornar-se fonte de energia de indignação, motor de rebeldia social, exemplo de coragem, contra as águas turvas da política, contra a desgraça de governo que nos atormenta, contra os políticos capatazes do ultra-liberalismo, contra aquilo que ele, às vezes, chama de vergonha nacional.
É essa capacidade de ousar, esse falar em voz alta (como se fosse a voz autónoma da pátria) que eu gosto de ver e sentir nele. No seu discurso, há sempre uma palavra dominante: Liberdade. Hoje, como ontem, essa ideia de luz sem a qual nunca teremos aquela "Pátria" sonhada num poema de Sophia (de que o dr. Soares gosta particularmente)

Por um país de pedra e vento duro 
Por um país de luz perfeita e clara 
Pelo negro da terra e pelo branco do muro 

 Pelos rostos de silêncio e de paciência 
Que a miséria longamente desenhou 
Rente aos ossos com toda a exactidão 
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento 

E pela limpidez das tão amadas 
Palavras sempre ditas com paixão 
Pela cor e pelo peso das palavras 
Pelo concreto silêncio limpo das palavras 
Donde se erguem as coisas nomeadas 

Pela nudez das palavras deslumbradas 
-- Pedra    vento    casa
 Pranto   dia   canto   alento 
Espaço    raiz   e água 

Ó minha pátria e meu canto 
Me dói a lua me soluça o mar 
E o exílio se inscreve em pleno tempo 

 Parabéns, dr. Mário Soares!

CANTO NÓMADA

Num tempo em que tudo é nómada, a começar pelo conhecimento, o que não deixa de ser uma condição fundamental para o exercício da liberdade, os livros de Bruce Chatwin, que morreu em 1989, tornaram-se fundamentais para percebermos esse apelo da natureza humana que, desde sempre, nos impele a passar por cima das fronteiras para ir mais longe. Desde o dia em que, na revista onde trabalhava em Paris, ele enviou ao chefe o célebre telegrama: "Fui para a Patagónia!" que ele transformou numa espécie de rosto da literatura de viagens. Ele foi, de facto, para a Patagónia e para todo o mundo, andarilho, trota-mundos, observador predestinado para a introspecção de pessoas e paisagens. Ele fez como nenhum outro a Anatomia da Errância e hoje, relendo os seus livros, aprendemos sempre alguma coisa de essencial sobre a realidade planetária, sobre os homens, as coisas e os territórios. É essa geografia sentimental que nos prende às palavras. Abro o seu livro Canto Nómada e lá encontro essas pistas. Chatwin ogarnizou um "Bloco-Notas", onde na contingência, como ele diz, da "fase andarilha" da sua vida poder estar a chegar ao fim, quis pôr no papel "a questão das questões: a natureza do desassossego humano". Ele cita Pascal para sublinhar que "num dos seus pensées mais sombrios declarou que todas as desgraças provinham de uma única razão: a nossa incapacidade de permanecer quietos num quarto".  Pergunta Chatwin: "por que é o homem imaginário de Pascal encarava os seus  confortáveis alojamentos como uma prisão?"
Nos "Bloco-Notas", inventaria um conjunto de citações e pensamentos muito curiosos sobre a natureza nómada da condição humana. Deixo alguns:

A nossa natureza  reside no movimento; a calma absoluta é a morte.
Pascal, Pensées

Um estudo sobre a Grande Doença: horror a um domicílio.
Baudelaire, Journaux Intimes

Que faço eu aqui?
Carta de Rimbaud, na Etiópia, à família

A vida é um hospital onde cada doente é possuído pelo desejo de mudar de cama. Um prefere sofrer junto ao fogão. Outro acredita que recuperaria melhor  sentado à janela.
Penso que seria feliz no lugar onde não estou e a questão de mudar de casa é assunto do constante diálogo com a minha alma.
Baudelaire, Algures Fora Deste Mundo

O homem com solas de vento.
Verlaine a propósito de Rimbaud