sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

BATALHA NAVAL

ILUSTRAÇÃO ZÉ DALMEIDA
Lembro-me dos tempos em que a Batalha Naval era um desporto de café (e às vezes se jogava em aulas para quebrar o tédio), e não faltavam tiros para a água, mas também exímios tiros que, às vezes, levantavam uma exclamação mais sonora: um tiro no porta-aviões. Estávamos nisto até que a a armada (que não era invencível) ia a pique. Com ela, iam também os submarinos. O desastre era total.
Dizem-me que agora a Batalha Naval também serve para estimular cálculos matemáticos entre os mais jovens, mas a evocação de tudo isto surgiu porque o irrevogável vice-ministro Paulo Portas veio dizer num comunicado que também os seus submarinos, tão envoltos em mistérios de fraudes e luvas, tinham ido ao fundo, submersos pela incompetente investigação (isto não disse ele, claro) realizada em Portugal.
Há mistérios assim que ficam sepultados no fundo do mar e, cá em cima, na volatilidade da sociedade portuguesa, ficam as "luvas", os milhões, muitos milhões, embolsados em suaves ou mais nítidas corrupções, terceiros homens cujo rosto nunca aparece como naqueles filmes em que o crime compensa. Neste caso, apesar da empáfia ministerial (e do alívio) é tudo muito à escala portuguesa, muito provinciano numa Justiça que já não sabemos sabemos se é cega ou pisca o olho às circunstâncias e aos actores dos acontecimentos. Muitos gostam de falar na exemplaridade da Ordem jurídica alemã e na capacidade dos seus tribunais, esquecem  com facilidade que este processo dos submarinos, negociados com o governo de Portas, mereceu fortes condenações por corrupção. E do lado de cá? Zero. Disseram nada aos costumes, e, assim como quem dá uma prenda de Natal ao vice-ministro, arquivou-se tudo. Que se lixem os submarinos.
Todavia, num país em que não faltam Procuradores e magistrados, tão diligentes que a opinião pública quase à condição de deuses, Zorros da época moderna, super-homens que não dão tréguas à bandidagem, seria bom que os enviassem à Alemanha para aprenderem o que foi isso da corrupção dos submarinos vendidos a Portugal.
A corrupção lá flutuou. Cá, como se fosse  um joguinho de Batalha Naval, a corrupção foi ao fundo. Os submarinos foram a pique com um belo tiro de arquivamento!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

COMO ÍAMOS DIZENDO...

Na circunstância de retomar o diálogo (ou, neste sentido, a escrita), interrompido por motivos inadiáveis, esses que têm a  ver com a fronteira da vida, relembro sempre Frei Louis de Léon, quando, afastado dos alunos da Universidade de Salamanca, pelos esbirros da Inquisição, retomou tempos depois a fala com os seus estudantes, com a sabedoria de uma frase que ficaria célebre:Como íamos dizendo...
Sem as sombras de ausência de liberdade, que cercaram o Mestre de Salamanca, também eu tive o meu silêncio que, sendo breve, desde o dia 11 de Dezembro, foi fundo e total. Nessa prosa de há semanas, sabendo o que me vinha bater à porta, eu falei da luz, que foi o que Goethe pediu ao pressentir o fim da jornada e poisei os olhos na paisagem mais imediata, sempre deslumbrante na topografia dos seus detalhes.
E cá estou de volta, caríssimos Leitores, pedindo desculpa pelo justificado interregno, mas prometendo um dia destes falar desse outra experiência pessoal, que só tem relevância pela exemplaridade de um factor civilizacional português chamado Serviço Nacional de Saúde. Mas o que eu quero dizer hoje é que nestes dias de Dezembro, que abraçaram o Natal, houve muita luz. E sol aberto a cortar o frio glacial que, às vezes, sopra como demónio endiabrado da montanha. Ao olhar que regressa, prece-lhe outra e mais forte transparência das coisas, e, deixem-me confessar, essa surpreendente luminosidade que é a vida, para afastar para longe a sordidez em que se atola, para gáudio de idiotas, a sociedade portuguesa.
Regressemos, pois, à luz. O ano caminha para o fim e este bem merecia uns valentes tiros simbólicos no lombo porque a pobreza foi o seu grande título de glória. Vem aí 2015. Será pedir muito um pouco mais de humanidade? Uma réstia de esperança? Uma oportunidade mínima de felicidade para velhos e novos? Atrevo-me a pensar nesse sol de bondade e alegria, quando me lembro no meu neto Francisco e sobre o seu nome desfolho os versos de um poema de Jorge Jorge Guillén, magnificamente traduzido por Jorge de Sena (Poesia do Século XX. De Thomas Hardy a C.V.Cattaneo) que intitulou Criança, que ainda é a melhor coisa simbolizar O Ano Novo, a vida que se renova.

Claridade em corrente,
Círculos de rosa.
Enigmas de neve:
Aurora e praia em conchas,

Máquina turbulenta.
Alegria de lua
Com vigor de paciência:
Sal de onde brota.

Instante sem história
Teimosamente largo
De mitos entre coisas
Mas só com seus pássaros.

Se rica tanta graça.
Tão só graça, sempre
Tota, no olhar: e o mar
Unidade presente.

Poeta dos brinquedos
Puros sem intervalo, 
Divino, sem engenho:
O mar, o mar intacto!