quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

RECEITA PARA O ANO NOVO

Não como mera afirmação de calendário, rotinada pelo costume, mas como desejo sincero de esperança, que é alimento primordial de futuro, este é o tempo e a hora de saudar os mais de 200 mil leitores que me acompanham, nestes dois anos de "Notícias do Bloqueio", compartilhando votos de um Ano Novo feliz, pois a felicidade é aquela coisa mínima a que todos temos direito. Então, corações ao alto, na exigência de um tempo novo e verdadeiramente de mudança, de uma sociedade mais justa e igualitária, onde as crianças não chorem por pão, os cidadãos não morram por omissão de tratamento nos Hospitais, os mais velhos não sejam trucidados pela miséria e os mais jovens possam olhar o futuro com um sorriso nos lábios, não sendo condenados ao exílio para sobreviver. Não sei se falar em Estado Social, depois de quatro anos e meio de um poder fanático que, em larga medida, o esvaziou e tentou destruir, não é um aceno de tristeza em instantes de festa. Mas é decerto o mínimo exigível, no plano humano. Ouvimos a música da esperança, mas tão despojados da nossa cidadania tudo nos parece do domínio da utopia.
Daí que um 2016 de exigência cívica e de participação colectiva na Res Publica seja também um voto a partilhar para a construção da mudança. E é, por isso, que agora e aqui, deixo aos meus queridos Leitores, um poema de Carlos Drummond de Andrade (Receita para o Ano Novo) e aquela música de Mozart, que nos parece oferecer o paraíso (Eine Kleine Nachtmusic). Drummond, lá está, reclama contra a indiferença e apatia; Mozart leva-nos para os continentes do sonho. Uma boa forma de dizer: feliz Ano Novo!, companheiros de jornada.

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

UMA VACA SAGRADA NAS PRESIDENCIAIS

Não haverá, provavelmente, outro país do espaço europeu, que suportasse uma Informação tão manipuladora, às vezes a roçar o provincianismo mais idiota que se pode imaginar,  na narrativa que é produzida sobre as eleições Presidenciais. As televisões olham para Marcelo Rebelo de Sousa como se fosse uma vaca sagrada a atravessar uma rua de Nova Delhi, com uma reverência que não tem outro sentido senão inculcar subliminarmente a ideia de que as presidenciais estão antecipadas decididas, Presidente só há um, o Marcelo e mais nenhum...
Na construção deste cenário, a imprensa e algumas sondagens encomendadas (que se dão ao luxo de transferir o eleitorado comunista para as hostes marcelistas!) também vão ajudando à missa, em subtis ausências informativas, como se, por exemplo, o meu candidato, Sampaio da Nóvoa, praticasse falta de comparência, quando, ao invés, ele se desdobra em acções de campanha pelo país.
O expoente máximo desta descriminação aconteceu com as entrevistas, na SIC, feitas a Marcelo Rebelo de Sousa e a António Sampaio da Nóvoa. Para o primeiro, a estação televisiva deslocou-se à Faculdade de Direito e o cenário de fundo era um enorme quadro com os doutores da Casa, onde não devem faltar, por certo,  bons facínoras  dos tempos de Salazar e Caetano! Tempo da entrevista: 43 minutos! (E eu a pensar: mas não foi Sampaio da Nóvoa que foi Reitor da Universidade de Lisboa?) A entrevista a Sampaio da Nóvoa foi democraticamente no estúdio da SIC, só com uma diferença: demorou metade do tempo, durou apenas 23 minutos... Isto não é apenas uma vergonha para um órgão de comunicação, é a definição de um propósito manipulador e mistificatório.
Vai assim o espectáculo da narrativa das eleições presidenciais, seja Deus louvado!, como na cantiga de Adriano. Marcelo balança a sua condição de vaca sagrada. A Informação faz-lhe vénias. Há, todavia, nesta história, um pequeno problema: a consciência é que determina o voto, e o Homem, como no poema de Brecht, pode amar e pode matar. Mas tem um defeito: pode pensar...

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O HOMEM DE BORRACHA

Numa biografia cheia de golpes de rins, comum aos homens de borracha, capazes de se curvarem com a maior das facilidades, tipo arlequim, ou comporem o registo de altivez e arrogância, com tendência para estender o braço direito, Paulo Portas comunicou que vai abandonar a chefia do CDS/PP, para se dedicar à vida empresarial, e, dizem alguns, par se preparar para Belém.
Não escondeu ele a incomodidade de ter que suportar um governo de esquerda (está para durar, pensou ele), abandonando o navio na primeira oportunidade, deixando no Partido um rasto de orfandade que será difícil preencher.
Na política, sabemos bem, ele gosta de ser submarino e mergulhar nos espaços invisíveis para exercer o seu taticismo, elaborar as suas estratégias de médio e longo curso. Um submarino: a ninguém assentaria melhor a metáfora. Enquanto os comentadores (com algumas excepções), não se cansam de cantar hossanas, transferindo para Portas o deslumbramento pacóvio que manifestam em relação ao candidato Marcelo, a sua participação no governo PAF, como comparsa de Passos Coelho, a quem agora diz good by (governa-te) fez dele a confirmação de um retrato em que sobressai a hipocrisia com que diz uma coisa e o seu contrário, a facilidade com que destrói valores que jurara defender (os reformados, os contribuintes, os "lavradores"), a mentira levada ao infinito como no caso da sua demissão irrevogável. 
Uma coisa temos que reconhecer: Portas e Passos fizeram a maior devastação no Estado Social de que há memória. Foram altamente eficazes (juntamente com o "papá" Cavaco) na reprodução da pobreza, do desemprego, da fome (as crianças foram as principais vítimas!), da infelicidade dentro de um país.
Estas são algumas das medalhas que pode levar consigo.


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O RELÓGIO DA ANSIEDADE


Recolho do Blogue "Ponte Europa" (que alia a coragem à ironia), do meu amigo Carlos Esperança O Relógio da Ansiedade, que contabiliza os dias, horas e segundos que faltam para Cavaco Silva abandonar definitivamente Belém. É um exercício divertido, embora seja preciso que o pessoal se ponha a pau, para que não vá para Belém um Cavaco cosmeticamente mais moderno. Para não haver surpresas, este Relógio da Ansiedade deve ser acertado pelo Relógio da Mudança, apostando, em cada dia que falta para as eleições, no candidato António Sampaio da Nóvoa, que não precisa de disfarçar-se de progressista, nem de cantar cânticos de sereia à esquerda, para enganar o pagode.

Countdown Timer - Countdown to 9 de Mar de 2016 in Lisbon

COMO SALVAR OS JORNAIS E A DEMOCRACIA...

E, no entanto, eu no pacato doce far niente, e acontecia domingo passado o longo artigo de Alexandra Lucas Coelho, na revista 2, cujo último foi entretanto publicado. É uma funda reflexão de alguém que tem aquela paixão pelo jornalismo que a tornou cronista e repórter de referência, com vasta bibliografia, indispensável a qualquer jornalista que queira ou ame a escrita jornalística.
Num tempo em que o jornalismo, em Portugal, se tornou numa selva violenta que vai suprimindo todos os valores que faziam da profissão um compromisso essencial com o interesse público, e num contexto em que a classe suporta um pesado défice de debate, o texto de Alexandra Lucas Coelho é, de certo modo, um acontecimento. às vezes, nota-se alguma utopia nas soluções apontadas, sabendo como este país é um domínio de capitalistas merceeiros, envolvidos na paranóia do "negócio", o que tem provocado a morte ou a ruína de muitos jornais. Também, por isso, o artigo de Alexandra Lucas Coelho tem um título que diz tudo sobre o seu conteúdo, que é uma boa radiografia aos tempos que correm na Informação: "Para não acabar de vez com os jornais (e a democracia).
É profunda e longa a análise, mas Alexandra faz a articulação essencial que parece nem todos terem ainda compreendido: a defesa da Informação livre é a defesa da democracia. Razão de sobra para, apesar de extenso,  publico o texto da escritora e jornalista em "Notícias do Bloqueio". Para que conste e para memória futura. Com um beijo grato à Alexandra por esta partilha.

Para não acabar de vez com os jornais (e a democracia) 

A revista do PÚBLICO, onde esta coluna sai aos domingos, acaba hoje. A administração antecipa um prejuízo na ordem de três milhões de euros em 2015, segundo notícias na imprensa. O número será confirmado após o fecho de contas, e não consta do comunicado aos trabalhadores, a 10 de Dezembro, anunciando “redução de custos”. Com variações, a revista existe desde a fundação do jornal, há 25 anos (a partir da semana que vem, reportagens, entrevistas e perfis mais extensos serão integrados no jornal de domingo, bem como esta coluna).
Além da extinção da revista, a administração comunicou aos trabalhadores um “plano de rescisões voluntárias” em condições “mais favoráveis do que as previstas na lei”. Os “interessados podem manifestar-se” até 6 de Janeiro, a administração “avaliará”, reservando-se o direito de “declinar” algumas, e quer concluir o processo no dia 15. O comunicado, divulgado pela Agência Lusa, não indica quanto se pretende poupar, mas diz que pode haver “a necessidade de recorrer a outras medidas” caso “a execução do plano” proposto “não atinja dimensão adequada às necessidades”. Ou seja, não exclui um despedimento colectivo, concluem notícias na imprensa.
A última vez que isso aconteceu foi em 2012, quando, perante um prejuízo de 3,5 milhões de euros, devido à queda de publicidade e vendas, a administração despediu 48 trabalhadores, incluindo fundadores do jornal. A redacção foi, de longe, o sector mais afectado: 36. Além dos despedidos, alguns jornalistas optaram por deixar os quadros, ficando a colaborar (é o meu caso). A mudança histórica é deixar de pensar o jornalismo escrito como um negócio e encará-lo como um bem comum, envolvendo todos: quem tem dinheiro, para que isso possa existir, e quem não tem, para que possa ser melhor O que aconteceu desde então, diz o comunicado dos administradores, foi que esses cortes não bastaram face à continuação da “quebra de vendas em banca” e na publicidade em papel: o jornal ganhou 10% de audiência devido ao online, onde triplicou de assinantes, mas a subida na publicidade digital não compensa a descida na publicidade em papel. Propriedade da Sonae, uma das maiores empresas portuguesas, o PÚBLICO deu quase sempre prejuízo.
Belmiro de Azevedo (que em 2015 passou a presidência da administração da Sonae ao filho, Paulo Azevedo) resumiu em entrevista a este jornal: “Não há muita gente a aguentar um ‘perdócio’ de 25 anos.” É um facto, mais do que isso, um património na democracia portuguesa. Quando o PÚBLICO começou, a democracia tinha apenas 16 anos, e sem os milhares de pessoas que o foram fazendo o país seria outro, e o mundo que cá chegou também. Foi preciso dinheiro e visão para erguer esse património, como será preciso dinheiro e visão para continuar. O meu ponto nesta crónica tem a ver com a visão: o que pode ser um projecto de jornalismo como este 25 anos depois.
A tendência internacional (dados adiante) é para que os diários tenham dificuldade em sustentar-se com vendas e publicidade. O ideal, creio, será encarar isso já, pensando como salvaguardar o jornalismo escrito enquanto bem comum. Projectos como este jornal podem, devem, actualizar a publicidade para o digital, mas por mais cortes que façam, sacrificando trabalhadores, diversidade e profundidade, têm pouca hipótese de sobreviver com vendas e publicidade. A mudança histórica, então, seria deixarem de ser pensados como um negócio — propício ao prejuízo, a cada ano decepcionante para accionistas e desestabilizador para trabalhadores que vão perdendo condições — e serem tomados como responsabilidade social. Colectivos decisivos para a democracia, para uma sociedade mais complexa, livre e justa, envolvendo toda a gente que se sentir implicada neles: quem tem dinheiro, para que possam existir, e quem não tem, para que possam ser melhores.
O que está em causa é a própria existência de um jornalismo que contrarie abusos de poder e amplie o mundo, não menos. Mas antes de desenvolver essa ideia, é preciso completar um pouco o quadro dos jornais no fim de 2015. Dias antes de os novos cortes no PÚBLICO serem noticiados, soube-se que o diário i e o Sol vão fechar, tal como existiam, e cerca de 120 trabalhadores, na maioria jornalistas, serão despedidos. A empresa detentora dos dois jornais, a "Newshold", do angolano Álvaro Sobrinho, ex-presidente do BES Angola, alega prejuízos de 4,4 milhões de euros.
O anúncio foi feito aos trabalhadores pelo CEO Mário Ramires, num plenário a 30 de Novembro. Ramires informou que ia liderar um novo projecto com um terço das pessoas. As 66 sobreviventes fariam uma edição diária e outra ao sábado, com salários inferiores e abdicando de antiguidade, caso no futuro fossem despedidas. Estas condições não só eram obrigatórias como o CEO pediu a quem aceitasse para assinar ali um documento prescindindo da indemnização. Entretanto, estava a gravar em áudio o plenário, e a 2 de Dezembro publicou na íntegra o registo, de quase duas horas, nos sites dos jornais. “Um desses momentos que ficam na história recente do jornalismo português pelas piores razões”, reagiu em comunicado o Sindicato de Jornalistas (SJ), considerando que a decisão de Mário Ramires “ultrapassa todos os limites da decência, abre grave precedente e merece uma análise específica”, pelo que o SJ apresentou “queixa à Entidade Reguladora para a Comunicação Social pedindo uma avaliação urgente” do caso. “Como é possível os responsáveis editoriais e da empresa acharem que têm direito de publicar um momento grave e íntimo destes para a vida de dezenas e dezenas de trabalhadores? E, o que é ainda mais inacreditável, sem autorização expressa dos trabalhadores, como apurou de forma cabal o SJ. Será que não se dão conta da violência, da coacção, do abuso?”
As diferentes notícias sobre o processo no Sol referem que Mário Ramires se manteve incontactável, tal como Álvaro Sobrinho (alvo de diversas investigações judiciais/financeiras nos últimos anos). O essencial será não apenas manter o que ainda sobrevive, como devolver aos leitores o que foi sacrificado: a tradição de crítica cultural em várias áreas; de grande reportagem e cobertura internacional; de longas investigações. A 16 de Dezembro veio a público que o "Diário Económico" enfrenta uma penhora do Estado. Além das dívidas fiscais, o jornal devia a fornecedores, tinha salários em atraso e um passivo de 30 milhões. O director Raul Vaz informou a redacção nesse dia que a situação se tornara “muito complicada, para não dizer dramática” e falou na necessidade rápida de “uma solução que permita manter a marca”, sempre implicando cortes, admitiu ao PÚBLICO. O "Diário Económico" é propriedade da Ongoing, ex-accionista da PT com participações noutros media. O empresário angolano Domingos Vunge mostrou-se interessado em comprar o jornal e o canal de TV que lhe está associado, num total de 160 postos de trabalho, cortando o “défice de tesouraria”. Vunge esteve ligado à venda do Sol a Álvaro Sobrinho.
O que resumi acima são apenas notícias dos últimos 15 dias no momento em que escrevo. Outras redacções já tinham sofrido cortes, mundo fora há paralelos, o debate é vasto. No caldeirão dos “media” cabe muito, incluindo paparazzi, arrivistas e jogadores com fins não-declarados, que apostam a vida de redacções inteiras.
O meu foco são os meios mais em risco, jornais ou revistas, onde o jornalismo pode ficar à mercê da degradação. (a fundação de Harvard para “promover e elevar os níveis do jornalismo”) dão uma ideia de como o foco do debate evoluiu de 2005 para 2015. O texto de 2005 mantém-se actual em vários aspectos. Fala do problema de cada vez menos gente prestar atenção aos jornais. Descreve como “o modelo de negócios da imprensa está a implodir enquanto os leitores jovens se voltam para tablóides gratuitos electrónicos”. Diz que se tornou moda nos media“, a autoflagelação, celebrando a emergência dos ‘cidadãos-jornalistas’, e aplaudindo a morte dos dinossauros”. Contrapõe que “num país polarizado, enfrentando desafios difíceis, o público precisa de recursos, experiência e acima de tudo profissionalismo para informação vital”. Dá um exemplo contundente: num estudo da Fundação Knight, mais de um terço dos estudantes americanos acha que a Primeira Emenda da Constituição dá “demasiada protecção à liberdade de imprensa”, e a maior parte não entende o que é liberdade de expressão”. Cita o provedor do leitor do Washington Post, que fala numa escalada contra os jornais (“mais e mais emails têm um tom desagradável, ameaçador, ideológico”) e remata com o papel central dos jornais para uma cidadania informada (“nenhum outro mediavos dará o conteúdo extraordinário do Post, do New York Times, do Los Angeles Times, do Wall Street Journal e outros jornais de qualidade”).
O texto de 2015 tem por base o relatório anual “State of the News Media", da Pew Foundation. Centra-se no domínio dos telemóveis como suporte de notícias: neste momento, 39 dos 50 sites de notícias mais populares dos Estados Unidos são mais lidos em telemóvel do que num computador. A publicidade para telemóvel passou de quase zero em 2010 para mais de um terço de todo o digital. O estudo confirma que a publicidade no papel continua a cair e que a receita da digital aumentou um pouco, mas “está longe de ser suficiente”. Para onde vai então o bolo da publicidade digital? Facebook, Google, Yahoo, AOL e Twitter ficam com metade, o Facebook sozinho com um quarto (e um terço da publicidade para telemóvel). Questões aparentemente a anos-luz das de 2005, mas que confluem mais do que se sucedem. Ou seja, os jornais têm novos problemas e boa parte dos anteriores mantêm-se. Quanto à publicidade, adenda de um estudo de 2012, em que a Pew conseguiu dados que os jornais normalmente não dão garantindo anonimato: um grande jornal que decidira apostar no digital aumentara 50% nessa publicidade “desenvolvendo uma amplitude maior de anúncios do que a generalidade dos jornais”. Portanto, sim, é possível, com imaginação, rentabilizar a publicidade digital. Não, os jornais não viverão disso. Mas creio que a publicidade ainda podia ter um papel numa nova lógica de jornalismo enquanto bem público.
Grandes empresas portuguesas gastam dinheiro e tempo com programas, projectos, fundações relacionadas com “responsabilidade social”. Se, como anunciantes, valorizarem um jornal de qualidade, o ângulo do lucro — quanto me compensa anunciar aqui — pode mudar para o ângulo da responsabilidade social — este jornal é importante para a democracia. Talvez seja possível fazer isto estabelecendo parcerias com vários potenciais anunciantes. Não estaríamos ainda no domínio da filantropia, porque eles continuariam a lucrar, embora certamente menos do que nos “media” cujo objectivo é vender. Mas teriam outra espécie de ganho. Não, os jornais também não viverão disso, ainda assim talvez ajude. No domínio da filantropia está a americana ProPublica, de que me falou Adelino Gomes, defensor há anos de um outro modelo para jornais como o PÚBLICO, nomeadamente uma fundação. O que conversámos antes desta crónica foi, como sempre, inspirador. Fundada em 2007 como um projecto online para peças jornalísticas de longa pesquisa, duração e investimento, a ProPublica faz aquilo que jornais e revistas, no actual modelo, dificilmente conseguem. É seguida por mais de meio milhão de leitores mensais, já ganhou dois prémios Pulitzer, tem um orçamento de 12 milhões anuais, uma equipa de 40 jornalistas e 26 parcerias com sites de notícias e grandes jornais, como o New York Times ou o Guardian, seus aliados, por exemplo, na divulgação dos documentos de Snowden. Tudo isto, vivendo de donativos. Três mil doadores, entre fundações, filantropos e leitores em geral. Todos os conteúdos são abertos, há mesmo um que diz: “Roubem as nossas histórias” (mediante um código de conduta, por exemplo, não as alterar ou vender). Difícil saber como chamar à ProPublica: plataforma, jornal ou revista online? Eles falam em “newsroom”, ou seja, redacção. Portanto, uma redacção, declarando-se à partida como “não-lucrativa e independente”.
No ano passado, o presidente, Richard Tofel, deu uma entrevista ao Guardian cujo título era “A nossa missão é acabar com abusos de poder”. Começa por dizer que no momento da entrevista está a recuperar de um pesadelo: sonhou que ainda trabalhava no Dow Jones. Porque é daí que Tofel vem, da bolsa para o Wall Street Journal, de onde aliás não veio sozinho para a ProPublica. Ou seja, gente que trabalhou na finança, se cansou a ponto de ainda ter pesadelos e usou contactos e experiência para algo não-lucrativo, viabilizando isso com quem tem dinheiro. Tofel explica que houve um esforço para multiplicar os doadores. Quanto mais gente, mais livre de pressões. Sim, aconteceu alguns dizerem que não gostaram de determinada cobertura, e a ProPublica respondeu, temos pena, e eles foram-se embora. Sim, seria óptimo que anúncios e assinaturas pagassem este jornalismo, mas essa não é a realidade. O que é estratégico para os doadores? Nós levarmos isto a sério, diz ele.
O grande repórter Ryszard Kapuscinski tem aquela frase: “Este ofício não é para cínicos.” É exactamente isso, e não há outra forma. Se os jornalistas não acreditarem no que escrevem, e que isso é importante, ninguém acreditará. Acreditar nisso é a maior forma de responsabilização. Mas para isso existir tem de ser valorizado por quem tem dinheiro e por quem lê. Tudo o que Belmiro de Azevedo “perdeu” com o “PÚBLICO” foi um contributo para a democracia. A mudança de prisma é olhar para isso enquanto ganho, impacto na história do país. Os leitores. Há uma mudança de paradigma aqui, também. Assinar jornais (ou revistas) que lemos, online ou em papel, é uma forma de os ajudar a sobreviver. Não encarar oscomo o pelourinho onde os malfeitores dos jornalistas e cronistas serão expostos, denunciados e executados, antes mesmo de o primeiro parágrafo ser lido, ou depois de o ler ao contrário, ou de ler o que não está lá, será uma forma de elevar os padrões. Ao assinarem o seu trabalho, jornalistas, cronistas, fotógrafos, ilustradores dão a cara por tudo o que fazem. Poucos trabalhos são tão escrutinados, e achincalhados impunemente. Se os leitores passarem a tratar o jornal como um bem seu, de que é preciso cuidar, não perdem em exigência, ganham-na como direito e dever. Isto não deve ser confundido com a fantasia dos “cidadãos-jornalistas”. Há cidadãos e há jornalistas, os jornalistas serão cidadãos, mas o contrário não é verdadeiro. Os cidadãos só são jornalistas se o forem. Os leitores não devem substituir os jornalistas, que para o bem de todos, e como acontece com bombeiros ou médicos, devem ser preparados para o que fazem e honrar um código de conduta. Para isso têm uma carteira profissional, sujeita a critérios. A carteira existe como garantia para a comunidade e para o leitor, o que se tende a perder no salve-se quem puder que se tornaram os media. Também aí uma nova visão do jornalismo escrito poderá resgatar princípios básicos. E num modelo em que os jornais deixem de ser vistos como um negócio lucrativo, qualquer leitor poderá ser doador. A lógica dos crowdfundings é exactamente essa: com dez euros ajudarmos alguém a fazer um livro ou ir à Coreia do Norte, porque achamos importante. Pensem nisso à escala de uma redacção que, assim, escreverá sobre livros ou irá à Coreia do Norte.Claro que o ideal seriam três milhões de leitores darem um euro e fazia-se um jornal, mas isso não vai acontecer, porque não há três milhões de leitores para um jornal como o PÚBLICO, nem trezentos mil, não estamos a falar de grandes audiências, se estivéssemos eu não estaria a escrever esta crónica. Também é claro que não são os jornalistas que têm de resolver os problemas económicos dos jornais, não são pagos para isso, nem fizeram MBA. Como é claro, ao fim de todos estes anos que não percebo nada de dinheiro, por exemplo, de ganhá-lo. Mas só até ao ponto em que isso põe em causa a existência do que faço, porque quero continuar a fazê-lo e que outros possam continuar a fazê-lo. Ou seja, não admitindo, por exemplo, a exploração que é pedir a um precário ou que trabalhe de graça, ou quase. Tudo isto para dizer que, sim, seria óptimo não ter de dedicar vários dias a uma crónica falando de dinheiro: prejuízos, vendas, publicidade, doadores. Mas para o jornalismo ser viabilizado como um bem comum há que implicar o dinheiro nessa responsabilidade.
O PÚBLICO não tem passivo porque a Sonae foi absorvendo os prejuízos. Belmiro de Azevedo nunca disse publicamente quanto investiu no jornal, talvez dezenas de milhões. Na prática, um financiamento a fundo perdido, em termos de euros, mas com todo um valor simbólico. Será impossível quantificá-lo, é a soma das contribuições de milhares de pessoas, numa espécie de arquivo vivo dos últimos 25 anos do país e do mundo. E, justamente, esse valor deveria ser tomado como uma pré-história do que agora pode acontecer. Invertendo a lógica tradicional, em vez de ver os tais 25 anos de “perdócio” como extravagância, vê-los como mecenato.
Tudo o que Belmiro “perdeu” com o PÚBLICO foi um contributo para a democracia. A mudança de prisma é olhar para isso enquanto ganho, impacto na história do país. Belmiro de Azevedo e a Sonae podem, devem, ser os primeiros a valorizar o investimento no PÚBLICO. Então, volto à questão do dinheiro e da visão, que viabilizaram esse património. No ano passado, o grupo Sonae facturou no total 4974 milhões de euros, e este ano vai facturar mais ainda, apontam os números já disponíveis. Ou seja, os três milhões de prejuízo no PÚBLICO vão representar menos de um milésimo no bolo anual bruto da Sonae. O dinheiro, portanto, existe. E Belmiro já tem uma fundação. A Sonae até criou este ano um prémio de arte. Por que não, no PÚBLICO, evoluir para um modelo misto, em parte financiado pelo que nele é mais valorizado pelos anunciantes, como o Ípsilon (e pelo mercado crescente do lazer, como a Fugas), e em parte suportado por mecenato, envolvendo outros parceiros? Claro que não se trata de uma empresa patrocinar um texto, mas de várias contribuírem para um fundo, de modo a garantir total independência (isso permitiria, aliás, acabar com a dependência dos convites para viagens, que os jornais aceitam porque não têm dinheiro para viajar de outra maneira). A família Soares dos Santos (Jerónimo Martins/Pingo Doce) fez a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), exemplo de como uma grande empresa pode mudar a visão da sua responsabilidade no país (incluindo ter criado uma colecção de livros de reportagem, além de uma revista anual).
O inglês Guardian é o caso de um diário gerido no quadro de uma fundação. Mas independentemente do modelo, ainda em papel ou só online, em Portugal, no Brasil ou onde o jornalismo esteja em risco, o essencial seria não apenas manter o que ainda sobrevive, como devolver aos leitores o que mais foi sendo sacrificado: espaço e meios para crítica cultural em todas as áreas; para grande reportagem e cobertura internacional; para investigações longas. Passar a ver tudo isso como uma área nobre, o contrário do acessório.
Este jornal iniciou o Público+, projecto que permitiu algumas reportagens com mecenato. Mas o orçamento era reduzido, havia limites para áreas e géneros, e não tenho visto resultados recentes dessa ideia. Em Portugal, em geral, há pouquíssimo espaço, tempo e dinheiro para reflectir um milésimo do que se faz, pensa e cria, aqui e no mundo. Além de todas as zonas de abuso sucessivamente apagadas, entregues às piores violências, porque ninguém está lá para contar. Claro que Portugal não tem gente nem dimensão para os 3 mil doadores da ProPublica, nem a tradição filantrópica americana na educação, ciência e cultura. Mas tem há décadas a Fundação Gulbenkian, agora a FFMS, há-de ser possível avançar por algum lado. As empresas sempre na lista das maiores têm dimensão para estes investimentos serem milésimos no seu bolo.
A tradição que o PÚBLICO representa, do jornalismo que me fez querer ser jornalista, não apenas pode ser inovada, como recuperar o que perdeu. É esse património que me permite escrever esta crónica no pressuposto de que ela não será lida pela administração antes dos leitores, e enquanto assim for será bom para a democracia.

TEMPO PRIMORDIAL

Mesmo que este espaço funcione como uma espécie de livro de todos os dias, como é regra da escrita imediata, às vezes, faz bem uma breve pausa para olharmos e vivermos outras realidades. Foi o que eu fiz, meti férias de escrita durante quatro escassos dias e fui gozar o convívio do meu neto Francisco, porventura julgando possível -- por aproximação, claro -- criar no tempo uma espécie de Pasárgada, de dimensão infantil, como metáfora pequenina da invenção poética de Manuel Bandeira. E foi. Eis o tempo que, por irrepetível, nos instantes surpreendentes que acontecem, melhor se arquiva na memória do viver quotidiano.
É, também, o tempo das histórias curtas, da oralidade pura, da descoberta mútua. E, desta vez, com direito a retrato.
-- Francisco, fazes um retrato do avô?
A resposta, a traço, foi rápida, muito rápida, e a arte final é a que se reproduz acima.
E, assim, com esta felicidade fugidia, regressa a escrita ao seu inventário dos dias.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

OS PÓSTUMOS NATAIS

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA 
Talvez nenhuma outra circunstância temporal mostre, com tamanha nitidez, a precariedade do tempo e dos dias vividos, como o Natal. Porque o fio que nos prende à realidade vem do fundo da infância e na consciência ganha no caminho dos dias andados, enche-se de memórias e de rostos. A isso acresce a dimensão simbólica, o carácter universal do mito, a força milenar de um dia que, às vezes, até consegue fugidias tréguas em conflitos sangrentos, que são a própria negação do Homem. Não falta ao acto criador, na literatura e em outras artes, especulações temáticas, em que a poesia tem expressão dominante. Há um poema de João Guimarães Rosa que fala na dimensão humana do presépio e do boi coloquial, como expressão de uma comum humanidade, que a literatura ilustra em antologia universal. Não sei, eu próprio, quantas vezes escrevi ficção ou crónica de circunstância sobre o Natal, sempre no confronto de um tempo de bondade com infernos sociais quotidianos, desigualdades ampliadas ao absurdo: a desumanização crescente da sociedade em que percorremos os passos da vida.
No plano próximo e pessoal, como eu dizia no início, o Natal é, também, um mundo de penetração difícil porque interroga e interroga-nos sobre o tempo que nos coube em vida. Então, os argumentos da infância, tão cheios de mistério, dos presépios e das expedições ao musgo, do madeiro que era ponto de encontro e dos sons do cancioneiro tradicional -- que a subversão comercial vai, lentamente, subalternizando --, tudo, afinal, que persiste como leitura de uma humanidade comum e igual. Depois, o Natal que cada um vive à sua medida, é uma fotografia que o pó do tempo vai diluindo, mas que surpreendentemente ganha uma força fantástica em que a saudade é o nó de todas as emoções e pensamentos.
Agora, o madeiro parece arder mais depressa, a chama de humanidade e do carácter profano e popular mais débil, mas talvez aí permaneça a simbólica renovação do tempo, tão rápido no caminho do solstício. Juntam-se à mesa, sempre fraterna, os rostos que passam por nós como sombras de uma filme a que assistimos desde a infância. O que persiste são a universalidade dos risos das crianças, a tal comum humanidade contra as descidas aos infernos do nosso tempo.
Mas hoje, vou ao encontro poético da expressão dessa realidade temporal efémera que o Natal comporta, e de que eu falava no início da crónica, no poema magnífico de David Mourão-Ferreira, "Ladainha dos Póstumos Natais", deixando um abraço de Natal feliz aos meus Leitores, na sua geografia planetária.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O CAVACAL PRAGMATISMO

O LEGADO CAVAQUISTA, POR ZÉ DALMEIDA

Está tudo farto do Cavaco. E não faltam relógios na rede social a contabilizar os dias e as horas que faltam para o sujeito se ir embora. Mas enquanto se arrasta por Belém, para as mensagens à beira da árvore de Natal ou para receber pobrezinhos, ainda vai fazendo das suas, disparando as bojardas que põem o país a rir ou a chorar de tristeza. No outro dia, num congresso que inventou para a Diáspora - palavra que dá sempre um jeito dos diabos! - saiu-se com uma tirada sobre ideologia, que dá bem a imagem do terreno baldio que naquela cabeça vai em matéria de teoria política.
A passagem foi largamente passada nas televisões como remoque ao governo de António Costa e ao seu suporte com maioria de esquerda, na Assembleia da República. Socorrendo-me do "Expresso" ficamos a saber que "o Presidente da República considerou esta terça-feira que embora a "governação ideológica" possa durar algum tempo acaba sempre por ser "derrotada pela realidade", sublinhando que na governação concreta o que domina é o pragmatismo". E mais: "Observando a zona euro, verificamos que a governação ideológica pode durar algum tempo, faz os seus estragos na economia, deixa facturas por pagar, mas acaba sempre por ser derrotada pela realidade", afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva", diz o "Expresso", acrescentando: "Apontando a crise grega e a negociação do terceiro resgate como "exemplo que em matéria de governação a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia", Cavaco Silva vincou que nos governos da União Europeia o que domina é o pragmatismo. A "ideologia económica" na zona euro, continuou, "só resiste como modo de vida de comentadores, de analistas políticos, de articulistas que fazem o deleite de alguns ouvintes, de alguns leitores, em tempos de lazer".
Ora, falando de "governação ideológica" e de "pragmatismo", como elementos da "governação concreta", Cavaco deveria ter em mente o que aconteceu em Portugal nestes últimos quatro anos e meio, e ver o que a ideologia de um liberalismo ultra-selvagem e do austeritarismo fez em Portugal. Um pragmatismo que devastou o país em pobreza e desigualdades, em desemprego e condenação de jovens à emigração, em confiscos de salários e pensões, e mais um etecétera tão longo que parece não ter fim. É o pragmatismo ideológico que Cavaco ama acima de todos e de tudo. E a lata do tipo que afirma esta atoarda contra um governo legítimo, no exacto instante em que se debatia a bandalheira e a aldrabada do BANIF, fabricado pelo seu amantíssimo governo de Coligação PSD/PP.
Até agora, quando a sua magistratura presidencial já não vale um tusto, não resiste a pôr a mão por baixo do rabo dos meninos...
Pragmatismo ideológico...


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

BANCOS, TROIKA E CAPATAZES...

Duas notícias de hoje do "DN" sobre o crime (como disse Mariana Mortágoa, lembram-se?) do BANIF e sobre outros crimes, que os portugueses pagam sempre com língua de palmo, como o BPN dos amigalhaços do Cavaco, e do BES. Numa delas faz-se uma contabilidade trágica: "Portugueses já deram 13 mil milhões para salvar Bancos"; em outra diz-se: "Maria Luís acusa supervisão. BdP culpa governo PSD-CDS". Zangam-se as comadres...
A salvação dos Bancos foi sempre a grande aposta da Troika, a que os capatazes portugueses, sempre entusiastas, batiam muitas palmas. E, para fazê-lo, condenavam os portugueses à pobreza, agudizavam as desigualdades, aumentavam o desemprego. Os pobres que paguem a crise! Infernos dentro dos quotidianos, são coisas que não faltam por aí... Mas os grandes sábios da Troika, que passearam por este país arrogância e falsa sabedoria, não só não resolveram nada, como pactuaram com as falências. E ninguém lhes pede responsabilidades, a eles aqui colocados como grandes mestres da UE e do FMI!
Em Portugal, sempre houve uma certa impunidade para as quadrilhas mais ou menos selvagens. Eles por aí andam, saltando de poleiro em poleiro, rindo-se porque o crime compensa. E o povo? O povo paga, aguenta, aguenta... Até que.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

BANIF? CHAMEM A POLÍCIA...

O que é verdadeiramente espantoso é ouvir ainda Passos & Portas, e os seus (i)legítimos inferiores, como um rebanho de Panurgo a caminho do abismo, fazerem a retórica de uma moralidade balofa, com avisos apocalípticos ao governo de António Costa: não estraguem o que nós fizemos nestes quatro anos e meio! A coisa seria cómica se não fosse dramática. É que não há memória de uns sujeitos fazerem da governança um crime de lesa-pátria, mentindo sistematicamente. O rol imenso de aldrabices abate-se sobre o povo português, e este Natal, quando todos precisávamos de algum sossego e da prometida felicidade mínima, eis que rebenta o escândalo do BANIF, urdido pelo governo PAF, uma vigarice para castigar o povo. Ora, tomem! O BANIF foi, agora vendido, em situação de emergência, ao Santander Totta, por 150 milhões. Silenciosos que nem ratos, durante meses e meses, Passos & Portas deixaram mais esta herança, que se soma a todas as outras desgraças que a sociedade portuguesa conhece bem. Esconderam o jogo, fingiram que estava tudo limpo, e, agora, o Estado português vê-se obrigado a injectar 1.766 milhões de euros directamente do Orçamento do Estado, mais 489 milhões de euros do Fundo de Resolução. Já se está a ver quanto a manobra de Passos & Portas nos vai custar!
Isto é como naqueles filmes em que as quadrilhas têm tal diversidade de personagens, que nunca se sabe quem é o chefe. Eduardo Pitta lembrava ontem, no seu Blogue "Da Literatura", um facto interessante. Lembrou ele o seguinte: "... no primeiro domingo de Agosto de 2014, quando (eram 11 da noite) o governador do Banco de Portugal apareceu em directo na televisão a anunciar a Resolução que deu origem ao Novo Banco. Nesse domingo, o governo de Passos Coelho aprovou, e o Presidente da República promulgou, o Decreto-Lei n.º 114-B/2014, de 4 de Agosto. Nesse domingo, com o PM e a maioria dos ministros na praia, a operação teve quatro intervenientes: o governador do BdP, o vice-primeiro-ministro, a ministra das Finanças e o Presidente da República. Únicos subscritores do diploma: Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque".
Tudo limpo, "limpezas" era com eles, que estimavam a saúde do sector acima de tudo. Era, aliás, nisso que trabalhavam os já referidos malfeitores, com os sábios da Troika, que em saúde financeira foram também dos que carregaram nos gatilhos...
Quanto ao BANIF, até a Comissária Europeia deitou as mãos à cabeça: "os bancos não podem ser mantidos artificialmente no mercado com dinheiro dos contribuintes". E talvez nada defina melhor o quadro do que as palavras que a deputada do BE, Mariana Mortágua, disse hoje aos jornalistas: " O governo PSD/CDS cometeu um crime contra os interesses do Estado e do país. Ao longo de três anos, o executivo de Passos e Portas ignorou sucessivos avisos da Comissão Europeia, que recusou nada menos que oito planos de reestruturação apresentados pela administração do BANIF. Já em Setembro, avisado pelo auditor do BANIF da necessidade de uma intervenção imediata, o governo optou por nada fazer. Enquanto o governo da Direita, com a colaboração das instituições europeias, se preocupava em encenar a famosa saída limpa, a real situação do BANIF foi ocultada até se tornar insustentável. O governador do Banco de Portugal não tem as mínimas condições para se manter no lugar. O BE irá propor uma comissão parlamentar de inquérito à gestão e intervenção no BANIF para apurar todas as responsabilidades sobre o caso".
BANIF? Chamem a polícia! Já! E, enquanto ela não vem, oiçamos os Pink Floyd sobre "Money".




EM LOUVOR DO OUTONO

FOTOS DE GLAUCIA MALENA

Agora que as horas caminham rápidas para o solstício, e o Inverno começa a sentir-se nos ossos, lentamente, pela neve e pelo vento frio que está ventando (Mário Quintana), o sol breve que poisa a medo nestes dias de escassa luz ainda coloca "um frémito de emoção no meio da névoa", para utilizar um verso do grande Carlos de Oliveira. Apresso-me, por isso, a ir ao encontro da memória do Outono, que se despe vagarosamente das suas cores e nos deixa atónitos com imagens, sempre diferentes, da sua passagem de mais um ciclo. Há um verso de Sophia que fala de sombras e de luz: o Outono é rico nessa arte de tocar a realidade, e, tocando-a, dar-lhe uma surpreendente expressão de diversidade. Ponho-me a adivinhar a razão por que os poetas foram marcando este tempo com o anátema da melancolia. Vá lá saber-se porquê? Talvez apenas e só porque a simplicidade de uma folha que baloiça ao sabor do vento, e outra, e outra, são coisas para onde aponta a "bússola do coração" (outro verso, este de Albano Martins). Talvez. A roda do tempo, com os seus mistérios e as suas surpresas, os seus cantos primordiais, é tão rica no seu andar, que um compositor chamado Vivaldi compôs a Sinfonia das Quatro Estações, inventando com a sua música uma alegria universal para o ano inteiro, que também nos ensina a viver os dias como instantes únicos e irrepetíveis. Torga (sempre os Poetas!), que palmilhou o país, de lés a lés, e se comovia com os horizontes descobertos em altas montanhas ou com as surpresas de pequenos lugares de dimensão humana insuperável, ensinou-nos a ver a realidade com outros olhos, pois, dizia ele, devemos olhar uma paisagem tantas vezes quantas as necessárias para ela se tornar num "estado de alma". Foi assim, porventura, o seu registo de "Portugal".
Agora, nesta navegação breve sobre o tempo em que eu flutuo, como quem acena um adeus ao Outono, vou à procura do tal frémito de emoções transmutáveis em imagens que a memória arquivou, como quem recolheu uma bênção dos deuses indicativa de que o castanheiro da Índia quase despido, a mutação do cromatismo dos castanheiros e das carvalhas, os prodígios que vestem a terra, são apenas a surpreendente e cíclica renovação da vida. É um mundo de oferendas da natureza que todos os dias se oferece à nossa disponibilidade para ver e perceber o que Alain, nas suas Propostas sobre a Felicidade, deixou escrito e que eu cito de memória: às vezes, não é preciso ir longe, basta amar o que se vê.
Andava eu a deslumbrar-me com uma tília, de um amarelo intenso, a que a luz artificial da avenida dava mais vida, ou com os altos ramos do plátano, mais resistente ao calendário, quando uma amiga, a Maria Eugénia Ferrão, me enviou um conjunto de fotografias que eram, elas próprias, o melhor elogio ao Outono. Eram da Serra da Estrela, da parte de Manteigas, do Outono a despedir-se docemente, em todo o seu esplendor. Olhando para elas experimentava a velha sensação de eu próprio ter vivido já os detalhes desses caminhos captados agora pela mestria da brasileira Glaucia Malena, o que me leva sempre à ideia de Lorca: a fotografia prolonga a ilusão de eternidade, de presença.
Às vezes, como nestas imagens, basta olhar o céu e descobrir o bailado da luz entre as folhas das altas árvores ou viver o fascínio de caminhar sobre o chão de bosque daquela álea de carvalhos, atapetado de folhas -- que coisas fabulosas nos dá o Outono! Olho outra vez as imagens, cruzo-as com outras minhas, como num filme, adivinho que ainda há muitas folhas a cair, até as árvores ficarem descarnadas, e digo baixinho para mim:
-- O solstício já pode bater à porta...
Apropriando-me e transformando um poema do O'Neill:
"Está lá fora o solstício...
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao solstício
estar entre a gente!"



domingo, 20 de dezembro de 2015

A MORTE A PRAZO

Que o jornalismo está pela hora da morte, parece que já toda a gente sabe, e não faltam mesmo sujeitos disponíveis para atirarem a última pazada para o cadáver que jaz meio morto e, meio morto, apodrece. Em reuniões avulsas ou encontros ocasionais, ou mesmo em sessões mais marcadas por solenidade, a maior parte da prosa gira à volta da selva que por aí vai, num universo cada vez mais submerso por valores espúrios, onde o interesse público vai abandonando gradualmente a matriz do interesse público. Às vezes, parece que há uma espada de despedimento sobre a cabeça pensante de cada um, já na maioria dos casos condenados que estão a salários de miséria. É um bom tema para o Natal, quando milenarmente se edificou a ilusão que é tempo de ser bom...
Por isso, e também numa classe que nos últimos anos se tem pensado mal a si própria -- vem aí um Congresso, haja Deus! -- julgo pertinente trazer aqui  o artigo que António Guerreiro, escreveu no "Ypsilon", no "Público", onde ele traça uma boa radiografia dos dias que correm no sector da Informação. Aqui o deixo com a devida vénia, o texto que ele intitulou "Como se fosse um destino":

"Há dias, não resisti à curiosidade de ouvir a gravação de um plenário da redacção do jornal i, onde um administrador, em vias de se tornar director, apresentou um programa “salvífico” que implica o sacrifício, a retirada e a renúncia voluntária de uma parte considerável dos jornalistas. É um documento extraordinário do nosso tempo: tem uma dose de loucura e outra de crueldade a roçar a perversão. Mas o mais inquietante é que a gravação foi difundida on-line por decisão do próprio administrador, o que significa que, por aqueles lados, a loucura foi naturalizada e a perversão é exibida sem pudor. Mas o documento lança uma suspeita: será que não teríamos muitos outros documentos como aquele se as reuniões “terminais”, digamos assim, com os empregados, destinadas a transmitir-lhes o destino das respectivas empresas (não apenas as de comunicação social) fossem gravadas e tornadas públicas? 
Um ambiente de medo, de chantagem e de aniquilação pura e simples é a regra em muitos locais de trabalho. Mas em relação a um jornal tendemos a pensar que nunca se chega a um tal nível. No entanto, algo se transformou nas últimas décadas e os jornais tornaram-se completamente permeáveis às lógicas mais duras das relações de trabalho. Os jornalistas são hoje uma classe proletarizada a quem não é reconhecida a pertença ao universo profissional dos que gozam de autonomia intelectual. Esse privilégio, associado à caução de uma assinatura pessoal, é uma coisa do passado. A partir do momento em que as notícias, de um modo geral, deixaram de ser a matéria-prima dos jornais, o poder oligárquico transferiu-se em grande parte para a chamada “opinião”, que se dilatou de maneira insensata e se tornou um derivado do entretenimento. E como a opinião pode ser fornecida por pessoas exteriores, no limite um jornal é apenas um novo género editorial, isto é, o produto de escolhas e decisões que não exigem a concepção de um jornal como uma totalidade. 
O jornalismo torna-se assim mais um ramo da “indústria de conteúdos”, que é uma coisa que se dispensou de pensar a sua forma. Nada disto acontece por acaso, e sem dúvida que muita gente implicada, embora olhando criticamente o processo, sente-se arrastada por uma poderosa força coerciva. Como na lógica da economia política do nosso tempo, também aqui há uma voz que se ouve por todo a lado a dizer: não há alternativa. Mas quando olhamos as coisas mais de perto, a alternativa existe sempre. Foi por castigo divino e por inelutável lei trágica que os trabalhadores do i ficaram submetidos a um tal administrador? Seja-me permitido introduzir uma nota da experiência pessoal. 
Durante cerca de 20 anos, o director do Sol, José António Saraiva (cuja sorte é a prova de que não há justiça imanente), foi director do jornal onde eu trabalhava, o Expresso. Recordo-o como um senhor educado, que exercia o seu poder de maneira discreta e sem impulsos de chefe tirânico. Fui sempre tratado por ele com a maior decência e gozei da máxima liberdade. Mas lembro-me, também, que os seus textos não eram exactamente o que de mais apreciável ele tinha para nos dar e muitos eram os que na redacção do jornal perguntavam: mas não há alternativa? Nos últimos anos, raramente li os seus artigos no Sol, mas todos os que li eram cómicos a valer. Involuntariamente cómicos. Espantei-me muitas vezes que os seus artigos não fossem um impedimento para o exercício das suas funções. A sua sobrevivência, como a de muitos outros, é a prova de que a lei darwiniana não se aplica às espécies intelectuais". 

sábado, 19 de dezembro de 2015

O MEDIDOR DE PALAVRAS

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Passava na televisão a voz empastada de Cavaco Silva, ainda a fazer de Presidente, numa visita qualquer a uma empresa, enrolando palavras sobre o sistema financeiro. Tento na língua, dizia ele, por outras palavras, sempre mastigadas e enroladas. De ficar pasmado! De facto, questionado pelos jornalistas sobre a actual situação do Banif, o Presidente da República, dizia o "Expresso" on-line, limitou-se a reafirmar que a estabilidade do sistema financeiro deve ser uma prioridade nacional. Cavaco Silva, prosseguia a notícia, recusou comentar a actual situação do Banif, referindo que é preciso prudência quando se fala em público sobre o sistema bancário. "É preciso medir bem as palavras quando se fala do sistema bancário, porque o seu funcionamento é decisivo para o funcionamento da nossa economia e consequentemente para o crescimento do emprego e da nossa produção", disse, muito sério.
Contado, não se acredita. Então o cavalheiro que, já o BES estava a desfazer-se no seu apodrecimento, veio dizer, citando o Banco de Portugal, que a situação era sólida e catita... enganando e desgraçando muitos portugueses, proclama agora prudência verbal e tento na língua?
Que lata!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

UM PRÉMIO E ALGUMAS NOTAS


A atribuição do Prémio Gazeta de Mérito, que aconteceu esta quarta-feira, em Lisboa, motivou tantas mensagens de congratulação, de viva voz ou no FB, que só encontro o traço firme da amizade verdadeira como justificação. O que para mim, em dias particularmente pesados de inquietação, se gradua entre as coisas de importância superlativa que podem acontecer a um pobre mortal, sobretudo no "país relativo" onde o mérito é menos motivo de regozijo e mais razão das pequenas invejas e ressentimentos, que são elementos identificadores do provincianismo cultural português.  Neste caso, não posso queixar-me disso. Então, quero aqui deixar um abraço muito grato a todos que quiseram partilhar comigo este instante singular de uma longa carreira. E por isso, também, deixo o texto que li na cerimónia do salão nobre da CGD, em que esteve presente o ministro da cultura. Tudo por obra e graça do Clube de Jornalistas. Ao meu texto, que intitulei "Respirar com Palavras", junto no final (falta de modéstia minha, desculpem) a crónica de Fernando Alves na TSF, os seus fabulosos Sinais, e uma nota do Baptista-Bastos, o nosso BB, escrita há tempos, na sua A Caneta das Sete Léguas, "Jornal de Negócios"


RESPIRAR COM PALAVRAS

Trago aqui palavras de coisa nenhuma para expressar o tributo de gratidão que devo aos meus pares, corporizados na prestigiada instituição dos jornalistas portugueses, o Clube de Jornalistas, pela distinção que quiseram conferir-me, atribuindo-me o Prémio Gazeta de Mérito. Não há, decerto, galardão mais honroso a quem faz da vida uma biografia de palavras e respira com elas o fio de tempo que é a realidade. Neste instante de emoção funda, devo evocar, sem os citar, para não cometer injustiças, como ensina Borges, os camaradas com quem fiz corpo na aprendizagem de um ofício que foi sempre de uma grande exigência no combate de privilegiar o valor fundamental da liberdade de expressão, antes e depois do 25 de Abril. É com eles, pois, que devo repartir humildemente este Prémio e deixar aqui apenas inscrito o nome de António Paulouro, que acompanhei persistentemente no combate de uma vida inteira por um jornal livre.
Quando a vida se transforma no livro de todos os dias que é o jornalismo, onde nos escrevemos, e, escrevendo-nos, fazemos a crónica do tempo nosso e dos outros, as palavras são o alimento primordial que reelabora a memória, e, de certo modo, são a pele da alma do jornalismo, como alguém chamou também à literatura.
De todas as maravilhas que há no mundo, respirar com palavras (“são como um cristal, às vezes um punhal”, na síntese perfeita dos versos de Eugénio de Andrade), é dos maiores fascínios da aventura humana, pois é através delas, das palavras, que o homem se projecta na aventura de se fazer a si próprio e se liberta dos velhos atavismos que mitologias pacientemente fabricadas oferecem como dias fatais do nosso calendário. É esse o chão verbal do jornalismo: porque as palavras são a vida, e as vidas, na sua diversa matéria de sonhos, são as palavras.
É talvez por isso que me atrevo a lembrar aqui o que um dia ouvi dizer ao querido e saudoso José Cardoso Pires, quando falávamos de um país de pessoas exiladas dentro dele e de si próprias, um país de liberdades expropriadas e de Censura, um país onde todas as angústias encerravam as horas dos dias, como castigo que a nós, mais jovens, parecia para a eternidade. Dizia então o Zé, com a sua voz firme, que verdadeiramente importante era a forma como cada um forjava a morte, vivendo. Queria ele dizer na sua, que a vida lavrada de palavras, implicava a particular responsabilidade cívica e cultural de não permitir, nunca, que nos considerassem mortos por antecipação e nos encerrassem nalguma espécie de túmulo, por muito luxuoso que fosse, ou, o que era o mesmo, que nos matassem antes de tempo pelo silêncio, que é uma técnica muito exercitada em Portugal, ainda hoje, sempre que o pensamento livre e a exigência de liberdade se levantam na bruma dos dias.
À distancia do tempo, olho para essas palavras e descubro nelas projecções premonitórias. Vivemos agora dias que parecem voltar a ter eco no poema de Alexandre O’Neill sobre a sociedade portuguesa, quando os seus versos diziam “o medo toma tudo”. Aí o temos de novo, com pézinhos de lã ou nem tanto: o medo de pensar em voz alta (nas Redacções também, não vá o diabo tecê-las...), o medo da precariedade do emprego e da pobreza, o medo de existir, como escreveu José Gil.Tempos difíceis (também nas Redacções ou sobretudo nas Redacções) de um quotidiano triste e cinzento, onde a liberdade é equação cada vez mais difícil de resolver.
Daí as palavras e o seu combate. À imprensa e à informação, como pão essencial da liberdade, cabe parte inteira desse combate. na selva difícil em que campeões de negócios tomam conta do universo da comunicação social, em que analfabetos irrecuperáveis dizem que a cultura “não interessa ao negócio” e capatazes do cifrão vivem alegremente a sua brutalidade na glória dos despedimentos.
Tudo isto se resume num combate que converge numa palavra: Liberdade. E, ligado a ela, uma outra: esperança. Reafirmando, uma vez mais, a minha gratidão pela forma como quiseram honrar as palavras que tenho lavrado no inventário dos dias, lembro-me agora (e não é por acaso!), do Manuel António Pina, meu Poeta, meu Jornalista, meu Cronista. E meu e nosso Amigo, cuja ausência ainda é dor funda dentro dos nossos corações. E lembro-me dele por causa do caminho que todos os dias é preciso recomeçar, que ele tão bem deixou impresso nos seus versos: “Isto ainda não é o fim nem o princípio do Mundo/Calma. É apenas um pouco tarde”.
Bem-hajam, como diz o falar colectivo da minha terra.

Sinais - TSF Rádio Notícias


Prémio Gazeta para um grande jornalista
Fernando Paulouro, grande jornalista, dos maiores de que a profissão ainda se pode e deve orgulhar, foi distinguido com o prémio Gazeta de Mérito, do Clube de Jornalistas. É a consagração dos seus pares a um profissional honrado e talentosíssimo, que continuou (até que maus fados e incompetências sórdidas se aliaram para o mandar embora) o trabalho de seu tio, António Paulouro. Ambos fizeram do Jornal do Fundão um título de nobreza da Imprensa portuguesa, e tanto um como outro transformaram o semanário das beiras numa grande referência moral e profissional. Fernando Paulouro reuniu, ainda não há muito, em dois volumes, sob o título o'neiliano "País Relativo", parte das crónicas admiráveis que publicou no seu jornal de sempre. O Clube de Jornalistas, uma vez mais, procedeu a uma homenagem justíssima, e os camaradas e amigos de Fernando Paulouro com isso se congratulam. Eu, em particular. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

CATA-VENTO, DISSE ELE...

O exercício da hipocrisia na política é coisa tão antiga, que se reproduzem nessa prática verdadeiros artistas, que todos os dias nos espantam pela capacidade de dizerem uma coisa e o seu contrário, sem corarem de vergonha e apenas com a determinação de defenderem a manutenção dos  interesses de que o Poder é garante. Esse percurso sinuoso é feito com um cinismo que se banaliza no calendário político, como a coisa mais natural do mundo. 
Exemplo recente dessas manigâncias relciona-se com o apoio que o PSD acaba de formular à candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, que também será acolitado nessa empresa pelo Portas e o seu PP. Ora, há dois anos, na moção que Passos Coelho levou ao XXXV Congresso do PSD, traçou com clareza o perfil do Presidente da República que pretendia: um candidato que não fosse um “protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou um catavento de opiniões erráticas”. Toda a gente percebeu que o cata-vento visado era  Marcelo Rebelo de Sousa, o putativo candidato.
A verdade é que Passos teve que engolir o cata-vento e criar uma realidade outra, sem ventos nem adamastores. E tudo isso foi agora materializado, um e outro fingindo que o vento fora sempre de feição e nem bulira em qualquer cata-vento. Na entrevista que concedeu ao "Público", o jornalista perguntou a Passos:
-- Mas Marcelo Rebelo de Sousa não é o seu candidato...
Responde:
-- Pelo contrário, Marcelo Rebelo de Sousa será, por proposta minha, o candidato que o PSD espera ver como Presidente da República.
O jornalista volta à carga:
-- Mas foi um candidato que se impôs, porque na sua moção de estratégia havia uma parte que até o próprio entendeu que lhe era dirigida, como sendo contra a sua candidatura... (era a questão do cata-vento...).
Responde angelicamente Passos:
-- É verdade que ficou a ideia de que a moção de estratégia podia ser contra o doutor Rebelo de Sousa, porque o doutor Rebelo de Sousa, porque o doutor Rebelo de Sousa achou que era.
Querem melhor exemplo de hipocrisia! Achou o Marcelo e achou toda a gente. E é por isso que o apoio de Passos é um pouco envergonhado. E Marcelo a última coisa qu quer é vê-lo na sua campanha. Longe da vista e longe do coração. Venham de lá apenas os votinhos!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O TRUNFO DA TELEVISÃO

Na entrevista que o candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa, apoiado pelo PSD/PP, concedeu à SIC, perguntado se ia utilizar cartazes e "outdoors" na sua campanha, respondeu com um rotundo não, esclarecendo mesmo que, em tempo de crise, não era bonito utilizar esse caríssimo meio de propaganda. Os entrevistadores ficaram satisfeitos com os bons sentimentos marcelistas, mas esqueceram-se de uma coisa essencial: é que tendo Marcelo Rebelo de Sousa, tido, durante mais de uma década, um púlpito para a sua missinha semanal de direita, nos vários canais de televisão, guindado ao estrelato do comentário, entrando assim como liturgia semanal nas casas dos portugueses, para que quereria ele cartazes e "outdoors" a poluirem a paisagem?
Aos entrevistadores nem lhes ocorreu perguntarem se essa sua duradoura condição de estrela de televisão não era o seu grande trunfo nas eleições de Janeiro!
Assim se fazem as cousas...

PENSAS, LOGO COMES!

Não há melhor coisa para desopilar do que a sobranceria, muitas vezes uma mistura explosiva de arrogância e estupidez, dos que se arrogam a condição de polícias de ideias, detectives de delitos de opinião, espias de heresias ideológicas e sei lá mais o quê, realidade comum a um vasto leque de regimentos partidários. 
Há tiradas, que recolhemos no inventário dos dias que vamos fazendo, que são verdadeiras peças de humorismo involuntário, ou, se quisermos, de irrealidade quotidiana, para usar um termo caro a Umberto Eco. Muitos destes procedimentos só são explicáveis pelo absurdo ( ou a irracionalidade) de sujeitos que a mediocridade filtra especialmente para lhes dar notoriedade nos partidos. A base de recrutamento são as Jotas, essas prestimosas agremiações da pátria para se arranjarem modos de vida catitas para premiar uma fauna feroz. 
Bem sei que, como em tudo, há excepções à regra. Mas a metódica rapidez com que alguns deles chegam à visibilidade político-partidária é surpreendente: em menos de um fósforo, vêmo-los chegar às primeiras filas da Assembléia, a debitar "bitaites" sobre o futuro de Portugal. Um dos mais notórios dessa plateia é um deputado que dá pelo nome de Duarte Marques, cedo iniciado nos métodos do caceteirismo verbal.
Ora, vejam só: irritadíssimo com o pensamento político de José Pacheco Pereira, que nos últimos anos não poupou críticas à perversão ideológica do PSD e à sua bengala chamada Portas, Marques veio agora, como se fora dono do partido, a pedir a sua saída "pelo seu próprio pé". Mas o mais cómico da situação foi quando ele afirmou, solene: "se pensasse como ele, teria vergonha de ser militante do PSD".
Aqui giramos para o domínio das impossibilidades. Como é que o senhor Duarte Marques poderia pensar como o historiador e investigador José Pacheco Pereira? Só por milagre! Onde a leitura? Onde a cultura? Onde o estudo? Onde os livros?
Tem, ao que parece, Duarte Marques, além de terreno baldio no domínio do conhecimento, uma outra singularidade: o trauliteirismo como pensamento dominante.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

SAMPAIO DA NÓVOA E OS SILÊNCIOS

Nunca esqueci o que um dia li num livro que, nos anos 60, se confrontava com alguma marginalização. Era "Aden-Arábia", de Paul Nizan, em que o autor fazia reflexão sofrida sobre a guerra. Acontece que o autor do prefácio, um texto longo, de escrita densa, era Jean Paul Sartre. O que eu não esqueci, na roda dos anos, foi a história contada por Sartre. Lembrava ele que um grupo de consagrados escritores tinha ido visitar o velho André Gide, já então em fase descendente da vida. Um deles, resolveu inquirir o Mestre, perguntando-lhe:
-- Qual é a melhor receita para ocultar um homem?
Gide olhou para eles e respondeu com uma palavra sábia:
-- Silêncio!
A sociedade portuguesa tem sido fértil na utilização expedita desse método para ocultar homens, ideias, estilizar essa espécie de morte antecipada que tantos dividendos produzem na política e nas políticas. Na área da informação, há verdadeiros especialistas na arte de fazer desaparecer pessoas ou acontecimentos, por mais respeitável que seja o interesse público que os determina. Este ilusionismo sobre a realidade é feito, genericamente, com a receita identificada por Gide: silêncio! Aí reside, porventura, uma razão suplementar para identificar a anemia cívica, que é, também, um dado estrutural de que ninguém fala, pois é muito filho do silêncio...
Talvez valha a pena sobrepor estas questões ao universo das eleições presidenciais, que são a menos de dois meses, para breve reflexão sobre a subalternização informativa atribuída ao acto eleitoral, e, dentro da subalternidade, o subtil favorecimento de alguns candidatos: há sempre rostos mais iguais do que outros.
O caso mais nítido de programada opacidade é o que acontece com o candidato Sampaio da Nóvoa, o primeiro a anunciar a candidatura, bem longe das legislativas, cuja candidatura se tem desdobrado em iniciativas sobre problemas cruciais da sociedade portuguesa, da Educação à Saúde, às realidades sociais como a pobreza e as desigualdades, ao martírio da juventude e ao Portugal futuro, para usar o título do poema de Ruy Belo. Bem sei que nestas eleições há sempre divisores comuns para facilitarem a tarefa do candidato da Belém. Mas há estranhas coisas por aí.
Há dias, contou-me um amigo que gerara alguma indignação o silêncio com que as televisões (parece que só um canal passou imagens em passo de corrida). Não disse um especialista, há anos, com escândalo, que a televisão era tão eficaz a vender um sabonete como a eleger um Presidente da República? Um dos canais, dizia o meu amigo, desculpou-se que nesse dia não era possível dar cobertura ao acontecimento de Sampaio da Nóvoa, pois na agenda da candidatura de Marcelo não havia qualquer iniciativa!
Quanto a mim, que há muito reafirmei que Sampaio da Nóvoa é o meu candidato, espero bem que a sua rara força de humanismo, de cultura e de solidariedade estilhace o cerco de silêncio que os donos da informação lhe querem impor, como forma de ocultar o Homem que queremos ver em Belém.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

LENINE: NÃO CHORES POR MIM, VASCO PULIDO VALENTE!

"Quero avisar que que VPV será o zelador da pureza das minhas ideias"
Um amigo meu costumava dizer que havia sujeitos que, vivendo na obsessão de poderem adquirir algumas sintomatologias do Conselheiro Acácio, se mascaram de eruditos e, sobretudo, vergados à monumentalidade estrangeira (um dos estigmas do provincianismo português, segundo Pessoa), costumam por-se em bicos de pés para apontar o dedo à pobre realidade nacional, inquinada de vícios ancestrais, sem direito porventura a ser pátria, porque tudo o resto (excepto os tipos desse calibre), não passa de uma triste "estrebaria", ou, mais lidos em Eça de uma irrecuperável "choldra". Isto não é povo, não é nada! Não passam todos de uns cretinos, incapazes de gerarem pensamento autónomo (claro que todo foi expropriado por sua excelência!) ou definir qualquer estratégia merecedora de ser lida numa geografia mais vasta! E os políticos, de que ele, aliás, já fez parte, são todos corridos com o labéu da estupidez, o melhor seria mesmo mandar às malvas a democracia parlamentar! E, pensando bem, como o país seria feliz só com sua excelência a preopinar, com as suas excelsas palavras ungidas de sabedoria e providencialismo! Caramba, assim, sim, a pátria portuguesa teria lugar a uma existência gloriosa.... Porque ele, basbaque de uma fauna excelentíssima, sabe tudo de tudo. Ninguém sai vivo do infernozinho que ele próprio criou como sua zona de conforto, intocável criatura para quem (deixem-me dizer a palavra certa) tudo o que passa à sua volta é uma merda. Ninguém se safa na literatura, à excepção de Lobo Antunes, o Saramago não presta, não há cinema nem teatro que valham a pena deixar o conforto do sofá e do copo de whiskie, a ciência e o conhecimento são coisas banais (olhe, lá, o Sobrinho Simões foi agora considerado o maior patologista mundial!).
Ele quer lá saber disso e dos golos do Ronaldo!
O leitor minimamente atento já percebeu que a estranhas criatura é Vasco Pulido Valente. Que do ponto vista da escrita é um excelente cronista? É. Mas do ponto de vista da sua retórica, do seu ar de cientista social para quem o destino da sociedade portuguesa só é compatível com a sua leitura, é um desastre completo. As suas duas últimas crónicas no "Público" são sinais dessa inquinação intelectual. Numa delas, considerava "infamante" haver uma maioria à esquerda (desejaria dissolver ops deputados, excepto, claro, os de Passos e Portas?), e ontem, voltaria ao tema com ares exegéticos sobre a actualidade política. num texto que ele próprio intitulou como "Cretinismo parlamentar"...
A pressa de inovação bacoca na forma como analisa a diacronia da História, levou-o a aliar o tal cretinismo parlamentar ao PCP (António Costa está sempre em pano de fundo), batendo-se como um leão pelo materialismo dialéctico, a pureza das ideias de Lenine (e talvez no seu subconsciente estivesse um estalinezinho, sabe-se lá!)
Eu não quero maçar os leitores, mas que dizer do seu incómodo pela pureza original da Revolução, pela ausência de um Palácio de Inverno em Portugal,  ou a inexistência de um Exército Vermelho "nesta nesga de terra debruada de mar". Leiam o que escreveu o sábio VPV: "É triste dar esta notícia ao Partido Comunista, mas Lenine passou a vida a desaprovar o que ele está a fazer agora. Claro que o Partido Comunista já não sabe quem foi Lenine e naturalmente não leu uma palavra dele".
Será que VPV fez um apressado regresso ao passado e julga que Portugal é a Rússia Soviética de 1917?
Mais caricata -- e absolutamente fatal para um sujeito que se julga o Papa do comentário político -- é a ideia de que no PCP não conhecem as ideias de Lenine! Em que mundo vive o sujeito? Já estou a ver Jerónimo de Sousa ofegante, a tocar a campainha de VPV, com um caderninho na mão, e a pedir-lhe:
-- Por favor, explique-me quem foi Lenine! Tire-me da sombra do meu materialismo-dialéctico...
Como dizia o Conselheiro Acácio, ele há grandes problemas... O cretinismo no comentarismo é um deles! Não há choldra que lhe valha!

sábado, 5 de dezembro de 2015

FERNANDO MATOS SILVA E OS FILMES PROIBIDOS

JOÃO MOTA E MARIA DO CÉU GUERRA
FERNANDO MATOS SILVA
Há quanto tempo eu não via o Fernando Matos Silva e não lhe dava um abraço por tudo aquilo que ele já deu ao cinema português, por tudo quanto lutou para fazer também do cinema uma "liberdade livre", como no verso do António Ramos Rosa, por tudo aquilo que construiu, fazendo cinema, pela memória colectiva! Foi como se retomássemos prosa antiga, num universo de amigos e de afectos. Encontrámo-nos no Fundão, onde ele veio participar, trazendo consigo dois filmes (o "Mal-Amado" e "Acto dos Feitos da Guiné") num ciclo de cinema centrado nos filmes proibidos. É uma iniciativa louvável que vai em várias edições -- já cá esteve Manuel Mozos e a sua fabulosa memória da censura cinematográfica -- acontecimento que junta à volta do cinema e dos seus autores, gente jovem  do curso de cinema da UBI, e que aqui dão passos em frente, visitando o cinema por dentro, num diálogo aberto com realizadores ou especialistas da história do cinema português.
Então, Fernando Matos Silva, venha de lá outro abraço!, sempre no seu jeito despretencioso para falar da sua arte, falou de si e do cinema, da memória (e de memórias dilaceradas) que ele transportou para um cinema sobre o seu país e também sobre o Império que se desfez depois de Abril.
"O Mal-Amado", é preciso dizê-lo, foi totalmente cortado pela Censura a a película apreendida, já muito perto do 25 de Abril (terá sido o último filme proibido). 1973/74. O que nos dá i filme é, sobretudo, o ambiente sufocante da sociedade portuguesa, com a densidade de quotidianos sofridos onde a felicidade era proibida. O fio condutor da história, com uma subtil relação com a guerra colonial, põe a nu como as relações sociais, mesmo as amorosas, eram dominadas pela posse e por isso, decerto, o romance vivido entre Maria do Céu Guerra (tão jovem!) e João Mota acabará em tragédia. Já o "Acto dos Feitos da Guiné" é uma leitura da História que o autor contrapõe à "Crónica dos Feitos da Guiné", de Zurara, fazendo um registo da guerra na Guiné, contado na primeira pessoa, em que a guerra explode na violência brutal do conflito colonial. Memória dilacerada do realizador Fernando Matos Silva, que também por ali andou. O filme é de 1980. Proibido? - perguntará o leitor. Não, escondido, não exibido, que é outra espécie de censura, como aliás ficou provado com outros dois filmes, do realizador albicastrense Luís Alvarães ("O Oiro do Bandido" e "Malvadez"), que não puderam respirar com o público, bloqueados dos circuitos de exibição.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O REI APEADO

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA

Quem ouviu o debate sobre o Programa do governo de António Costa, não deixará de dar por bem aproveitado o seu tempo, não propriamente pela análise profunda ao documento, que se esperava da parte da oposição, que se frustrou totalmente, mas sobretudo pelo lado histriónico de alguns deputados, que passaram o tempo a falar em usurpação de poder e reverenciavam Passos Coelho, como rei apeado. Era como se participassem num espectáculo de ilusionismo, em que eles fossem maioria e ali estivessem para continuar a cavalgar o país, com ou sem sela. Mas há torneios em que as cavalgaduras não acertam nos coices e têm, por isso, que apanhar com a arreata para não repetirem as (des)graças. O padre Agostinho de Macedo, que conhecia como poucos os desvarios das bestas, costumava dizer que se uma dava um coice, não se lhe devia cortar a pata, mas dar~lhe com o chicote. A metáfora, sem ofensa ao PAN, poderia aplicar-se ao hemiciclo, onde o chicote foi apenas verbal...
Por mais que fossem chamados à razão, insistiram os deputados da Coligação minoritária na retórica de que o primeiro-ministro deveria ser Passos Coelho, e, já agora, como vice Portas, cada vez mais a tomar a pele de deputado cómico. Claro que nada disso acrescentou alguma glória à pátria portuguesa. Mas a insolência contra a democracia parlamentar, onde se formam as maiorias, fazia lembrar a apetência por uma ditadurazinha, que suspendesse subitamente os votos e deixasse suas excelências na governança para a eternidade. Assim é que era bom, com ou sem as vírgulas do senhor Paulo Portas...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A IRONIA DE WOODY ALLEN

Se Octávio Paz afirmou um dia que o humor era uma invenção do espírito moderno, então temos que colocar Woody Allen figurará decerto entre os principais praticantes dessa invenção. Poucos têm tanta capacidade de ironia, às vezes o nonsense a raspar as palavras e as situações, outras o surpreendente olhar sobre a realidade. Um dia avisou que o sangue ainda era a melhor coisinha que lhe corria nas veias. Agora, que vai fazer oitenta anos, com projectos de novos filmes entre as mãos, continua com o mesmo espírito jovem, o mesmo sarcasmo em relação às coisas, que alguns elegem,às vezes, à categoria de grandes questões.
O "El Pais" publicou aquilo que chamou "15 relâmpagos verbais de um génio" e aqui deixo alguns como exemplo da tal ironia inteligente:
"Não é que tenha medo de morrer; só não quero estar ali quando suceder".
"O sexo sem amor é uma experiência vazia. Mas como experiência vazia é uma das melhores".
"Odeio a realidade, mas é o único sítio onde se pode comer um bom filete".
"Interessa-me o futuro porque é o lugar onde vou passar o resto da minha vida".
"Em Beverly Hills não recolhem o lixo: convertem-no em televisão".
"A vocação do político de carreira é fazer de cada solução um problema".
"Prefiro a ciência à religião. Se me dão a escolher entre Deus e o ar condicionado, fico com o ar".
"O medo é o meu companheiro mais fiel: jamais me enganou para ir com outro".
"Sei que não mereço o Príncipe de Astúrias, mas tão pouco a diabetes que padeço".
"Se os seres humanos tivessem dois cérebros, seguramente faríamos o dobro de parvoíces".
"A vantagem  de ser inteligente é que não se pode fingir ser imbecil, enquanto o contrário é impossível".
"De onde vimos? Para onde vamos? Há possibilidade de tarifa de grupo?"
"Não creio numa vida no Além, mas pelo sim, pelo não, mudei de roupa interior".

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

ESTA NOITE, HÁ 47 ANOS...

Há coisas que não se esquecem porque a memória tem essa capacidade fantástica de inscrever nos passos da vida aquilo que gradua como essencial, no plano das emoções e dos acontecimentos. Nesse inventário, às vezes de pequenas e grandes histórias, outras vezes de vivências dramáticas dos quotidianos, mas quase sempre esse regresso fragmentário ao passado ensina-nos muitas coisas, sobretudo que o tempo, na ampulheta da sua unidimensionalidade indiscutível e certeira, pontuava os dias ou as noites de sobressaltos, quando não de pequenas esperanças que não eram outra coisa senão vagalumes na noite escura.
Ao ritmo da sua dimensão local, o Fundão teve os seus pequenos e grandes sobressaltos, alguns de dimensão tão absurda e irracional que hoje os mais jovens, que viveram sempre em liberdade, têm de fazer esforços de grande imaginação para poderem entender a realidade de então em toda a plenitude. Há 47 anos,a pequena vila que o Fundão era viveu um desses instantes, de brutalidade fascista, tão insólito que a população inteira, ferida no seu orgulho, viveu fundo uma indignação que não se apagou tão depressa.
No Fundão faz-se todos os anos, à última badalada da meia noite do dia trinta de Outubro, na dobra para o 1.º de Dezembro, uma manifestação popular em que se celebra a independência nacional. O pessoal junta-se no Pelourinho, fronteiro à Câmara, e com a banda a ajudar tocam-se e cantam-se o hino nacional e o da Restauração. É imemorial este "Portugueses celebremos..." ninguém é capaz de adivinhar o gesto colectivo originário, mas costuma-se dizer, como atestado de verdade e antiguidade, que já o avô do meu avô falavam desta colectiva afirmação de independência. Imemorial, portanto, tanto que a espuma dos dias nunca conseguiu diluir, fizesse chuva ou nevasse, o que às vezes acontecia...
É verdade que o país era uma prisão real ou virtual, como agora se diz, e, como dizia o Alçada, quando às vezes tocava a campainha não era propriamente o leiteiro ou o padeiro, mas a PIDE para prender pessoas de bem. E é verdade, também, que na multidão em movimento surgiam ousados vivas à independência nacional ou (mais baixinho) à liberdade.
Veio por essa altura para o Fundão um comandante da PSP, de nome Câncio (ou Canço?), um tipo de figura sinistra, óculos de fundo da garrafa, a que a farda dava facilmente uma imagem daqueles serventuários menores nazis, que apareciam nos filmes. Era especialista na repressão aos estudantes, em Lisboa. E, de facto, o sujeito, mal assentou lugar no Fundão,logo começou a fazer malfeitorias, em rusgas e vigilâncias políticas (como no 5 de Outubro), que mostravam a qualidade da besta e o seu carácter demencial sobre a forma como interiorizava a repressão fascista.
Então, na manifestação do 1.º de Dezembro, actuou. Pela calada da noite carregou sobre os manifestantes (que se reagruparam) e na rua João Pinto, onde se situava o Posto, barrou a via com guardas armados de metralhadoras, obrigando a dispersar os manifestantes (eu também lá ia), com tiros de intimidação. Foi uma noite de sobressalto, mas com saborosas vitórias finais.
Para a história ficar completa: houve meia dúzia de cidadãos que no dia seguinte os agentes identificaram para serem remetidos a tribunal. E foram. O delegado do Ministério Público, era o dr. Laborinho Lúcio que centrava as questões no carácter histórico (e imemorial) do acontecimento, e o juiz, o dr. José Marques, que, lembro-me muito bem, perguntou ao polícia Veríssimo (que corava com facilidade):
-- Há quantos anos está o sr. cá na terra?
E ele:
-- Ora, senhor doutor, há mais de vinte...
-- Nestes anos todos em que está no Fundão, lembra-se de algum ano em que esta manifestação não tenha sido feita?
-- Oh, não, Senhor doutor, é todos os anos!
E o juiz:
-- Então, qua andaram os senhores a fazer?
Foi tudo absolvido, claro.
E julgo poder fazer aqui uma confidência que há dois ou três anos, o dr. Laborinho Lúcio me fez, numa conversa à volta do meu e seu Fundão. Disse-me ele que, por esse tempo, escrevera ao seu superior hierárquico (salvo erro para Coimbra) explicando quem era a figura do Câncio ou Canço ou como raio o gajo se chamava. E sublinhava que esse chefe da Polícia tinha vindo para o Fundão -- não para resolver casos, mas para criá-los.
Estou em crer que isso terá contribuído para ter recebido guia de marcha.
Na altura, a Censura impediu que o caso fosse noticiado. Esta prova de Censura é um texto do "Jornal do Fundão", que pergunta: "É proibido festejar o 1.º de Dezembro?".
Escrevo isto ("para que conste") pouco depois das 18 horas. À meia-noite, ouvir-se-á o som das doze badaladas, e lá estarão outros, como os de 1968, a celebrar o 1.º de Dezembro com a determinação de sempre. "Portugueses celebremos..."