terça-feira, 29 de setembro de 2015

A INFORMAÇÃO E O PODER

Convidado a encerrar o Fórum Imprensa Regional, que decorreu no dia 24, na Universidade da Beira Interior, um pouco à sombra tutelar da figura e da obra de António Paulouro, fui lá dizer o seguinte:

Num país com memória, e verdadeiramente democrático, talvez fosse de todo desnecessário vir  lembrar a importância deste Fórum, e da circunstância da Imprensa Regional falar aqui em voz alta, o que raramente acontece, e do lugar em que ele se realiza, a Universidade da Beira Interior, que deve ser sempre lugar fecundo do pensamento e das ideias, ou, do mesmo passo, sublinhar a contingência dos tempos, que vão maus para um “negócio” chamado informação. É que, num país que padece de uma doença diagnosticada pelo Professor José Gil, como o medo de existir, havemos de nos interrogar sobre que sombras tolhem o mundo da informação, que medos inquinam as palavras e as imagens, em que subterrâneos gravita o complexo de direitos constitucionais que definem a livre expressão do pensamento, o direito a informar e o direito a ser informado.
Haveríamos, também, de inquirir que padrões definem hoje, na corrida da actualidade, entre a crueldade e a catástrofe, as exigências éticas da informação, a sua independência face aos poderes, o grau da sua recusa de promiscuidades económico-políticas, e qual a sua exigência de entrega ao interesse público, como horizonte primordial da tarefa de informar. São questões essenciais que graduam elas próprias a saúde de um Estado de Direito, e que, por isso, têm salvaguarda no texto constitucional, como defesa de cada um e de nós todos, como traço identificador de uma sociedade com as virtudes civilizacionais definidoras de uma vivência colectiva exemplarmente democrática. E são problemas que, dizendo respeito à globalidade da Informação, se articulam também com o universo da Imprensa Regional, sabendo como todos sabemos, que no seu conjunto, na particularidade das regiões ou do todo nacional, a Imprensa configura um retrato do país, naquilo que são os seus traumas provincianos (à escala nacional), com as rugas bem fundas dos silêncios premeditados ou de uma selecção da realidade, confinada hoje (com raras excepções) a interesses pouco recomendáveis, que, à densidade dos problemas humanos e sociais, sobrepõem com a maior naturalidade a efemeridade do sensacionalismo e do espectáculo, com critérios editoriais, definidos nos gabinetes das administrações, em que a subalternidade da condição humana é a grande bíblia dos dias que passam.
As coisas atingiram tal grau de promiscuidade que já não são os jornais que marcam as agendas, sendo estas, agora, comandadas pelo Poder e pelos poderes, que a escala é múltipla e a sua geografia muito ampla. Muito antes do 25 de Abril, quando as reuniões da Imprensa se faziam no SNI -- havia uma Agência de Informação chamada ANI que distribuía artigos aos jornais -- lembro-me de um texto indignado de António Paulouro contra uma imprensa que, em vez de clamar contra a Censura, pedia textos e mais textos ao governo para preencherem as páginas dos seus jornais...
Talvez esta seja uma caricatura paroquial de submissão a poderes, de um certo mundo informativo, que também deixou traços de longa duração nas práticas jornalísticas que a liberdade deveria ter erradicado.
Bem sei que a relação da Imprensa (ou da Informação, em sentido mais lato) com o Poder é um problema tão velho e quase tão difícil de decifrar como o mistério do Divino Espírito Santo. Lembro-me de Mário Mesquita, no seu excelente “Quarto Poder”, ter feito uma citação que é aquilo a que poderíamos chamar um grande-plano dessa questão tão dilemática, e, ao mesmo tempo, tão reveladora da espinha dorsal (ou a falta dela) dos jornalistas ou de quem os dirige nas gazetas.Resume-se o caso à sucessão de títulos que o jornal realista Le Moniteur vai exibindo, à medida que Napoleão Bonaparte, desembarcando no sul de França vindo do exílio na ilha de Elba, se aproxima de Paris. Ei-los: «O antropófago saiu do seu covil»; «O ogre da Córsega acaba de desembarcar no golfo Juan»; «O monstro dormiu em Grenoble»; «O tirano atravessou Lyon»; «O usurpador foi visto a 60 léguas da capital»; «Bonaparte avança a grandes passos, mas nunca entrará em Paris»; «Napoleão chegará amanhã às nossas muralhas»; «O Imperador chegou a Fontainebleau»; «Sua Majestade Imperial fez a sua entrada no Palácio das Tulherias, por entre os seus fiéis súbditos».
A caricatura certeira traduz, duma forma muito nítida, a subserviência ao Poder, sempre que as regras do jogo ditam a sua vitória, e, nesse sentido, poderíamos dizer que é intemporal o retrato, pois bem sabemos nós, portugueses, como os títulos e os jornalistas ou os comentadores de galeria e horário nobre, mudam ou vão mudando de opinião,  consoante muda a direcção do vento que sopra do Poder, mesmo que às vezes a brisa seja suave e doce… Claro que as relações da Imprensa com o Poder não se colocam hoje com a crueza que o jornal francês estampou na primeira página; agora, há maneiras mais subtis e peritas que, como diz o verso de Sophia, nem sequer podem ser bem descritas! Estilizou-se um fenómeno que não era novo, mas se tornou estrutural dos novos modelos de jornalismo, configurou-se a sua ideologia à exacta medida dos interesses financeiros ou de grupo, fez-se do jornalismo, não poucas vezes, a voz de um dono que já nem sequer tem rosto.
Manuel Vasquez Montalbán foi um grande escritor e jornalista catalão -- lembramos sempre, na sua ficção, “Os Pássaros de Banguecoque” ou o “Assassinato no Comité Central” -- escreveu nos anos 70 um livro que foi premonitório sobre o jornalismo que aí vinha, a galope. Chamava-se “Inquérito à Informação”. Ele falava, com alguma ironia -- que era traço essencial da sua escrita -- das mutações em curso na Informação. E dizia que o jornalismo era uma estranha profissão que fazia correr Papas (com as suas admoestações...), campeões dos Negócios da China (com o seu dinheiro…), sujeitos com ambições desmedidas de poder e de visibilidade social. Montalbán advertia que, no século XIX, um editorial do “Times” sobre a guerra da Crimeia demitia um primeiro-ministro (a Imprensa era na verdade um quarto poder), mas agora, lembrava ele, todo o poder caía dentro de uma entidade difusa e sombria a que se chamava “sistema”, uma espécie de polvo, acrescento eu, difícil de de decifrar. Pois é: é dentro do sistema que as coisas estão.
Na minha experiência profissional, onde o jornalismo talvez fosse uma paixão romântica, lidei com manda-chuvas da comunicação social, e nunca mais me saiu da memória, a liturgia de uma retórica sobre Informação que falava recorrentemente em negócio. As cabeças deviam estar cheias de cifrões, mas isso levou-me a compreender que, mesmo num jornal em que a Cultura tinha sido decisiva para a dimensão nacional e de singularidade no panorama da imprensa portuguesa, que era (e é) seu grande património, ela, a Cultura, já não fazia parte do negócio… motivo, aliás, porque os jornais a arredaram para debaixo do tapete, como lixo. E percebi, também, o grau de analfabetismo sobre esta matéria que distorcia o pensamento dos decisores: desconfiava sempre que eles não liam livros, e, se calhar, nem jornais… Criaram-se modelos, impuseram-se narrativas condensadas, aferidas ao que poderia ser mais interessante ou alienante para as audiências, fazendo tábua rasa da velha definição de que o jornal era para explicar as coisas. O sistema exigia, agora, brevidade, os jornais estavam reféns da rapidez da informação da rádio ou da televisão, que era (ou devia ser) mais rápida do que a sombra, como os tiros que Lucky Luc sacava da pistola...
Há muito que eu reflicto sobre esta questão e sobre ela escrevi textos que inseri nos dois volumes da “Crónica do País Relativo”. Manifestei sempre inquietação sobre o empobrecimento editorial dos jornais, sobre o espaço medido a régua e esquadro, que leva a omissões e a fazer uma escrita de lana-caprina, abdicando de um critério de exigência e afunilando a realidade, mormente nas suas vertentes sociais e humanas. Não nos iludamos: a via reduzida desse jornalismo também está a condenar à morte os jornais.
Nem de propósito, há tempos li uma extensa entrevista que Jill Abramson, que foi a primeira mulher a dirigir o “The New Yorque Thimes”, concedeu ao diário espanhol “El País”, em que abordava essa questão da narrativa jornalística, como problemática primordial do futuro da Informação, e que, por isso, acho pertinente partilhar convosco. Afirma Jill Abramson, que tem o crédito de ser grande jornalista e professora em Harward, que ainda “há espaço para a narrativa pausada e bem escrita”. O seu pensamento é claro: “Estão-se produzindo grandes mudanças, mas os princípios continuam os mesmos. Há mais de cem anos, o famoso poeta Matthew Arnold definiu o jornalismo como a arte de contar histórias com um fim, com um sentido, e creio que é uma boa definição. O apetite para ler reportagens assim, bem contadas, é maior que nunca. Os leitores querem que os jornalistas lhes contem grandes relatos que abordem questões sérias”. Sublinho, ainda, uma outra afirmação da ex-directora do “The New Iorque Thimes”: “Há fome de boa narrativa. Quando esta adopta a forma de jornalismo, tem que ter um sentido. Tem que ilustrar um problema social ou explicar como a gente real sofre para viver e quais são os problemas económicos”. É nesse sentido que outro grande escritor e jornalista, Manuel Rivas, diz que “o jornalismo é um conto”.
Voltando ao chão nosso da Imprensa Regional. É um conceito difuso, em Portugal, onde se gosta de dividir o mal pelas aldeias, e aí, porventura, radica o facto de nele caber todo o tipo de publicações, a maior parte das vezes meramente locais. Ora o que deveria definir objectivamente a Imprensa Regional era a sua territorialidade. E nesse sentido, honra lhe seja, a Imprensa Regional, alguma Imprensa Regional, antecipou até o conceito de região, o que não foi coisa pouca num país centralista que gosta de olhar para o umbigo e abomina as regiões, impondo uma cultura de horizontes mais largos do que o acanhado bairrismo local, com as suas abençoadas guerras do alecrim e da mangerona. É verdade, também, que o seu êxito é tributário do mau trabalho da imprensa dita nacional e de referência (não será, também ela, regional, confinada que está, em larga medida, ao seu território originário?), que abandonou o país real, sempre à espera que o Interior lhe fornecesse para matéria informativa questões insólitas, fenómenos do Entroncamento, ou porventura meninos que nascessem sem cabeça! Porque todo o resto é silêncio, só quebrado quando algum ministro ou presidente a traz atrás de si a Informação pela trela. Isso ajuda a perceber como a Imprensa Regional é crucial, seja para as regiões ou, até, para as precárias unidades sociais, que só com ela têm ligação ao mundo. Daí, também, o seu carácter de serviço público, pois supera uma limitação fundamental: o direito à informação.
A Imprensa Regional ainda é um leão adormecido, como a considerou o Prof.  Alexandre Manuel, que estudou a imprensa regional católica, retratando um universo global de 1,2 milhões de exemplares por semana? O distrito de Castelo Branco, por exemplo, era ainda há quatro anos, o primeiro na leitura de jornais regionais. A roda do tempo, que na produção de informação é inexorável, coloca outras exigências de profissionalismo (libertação de paroquialismos doentios) e gestões menos débeis, ao mesmo tempo que a Imprensa Regional será tanto mais forte quanto mais reflectir projectos sólidos, com territórios configurados à necessidade informativa, virtualizando sempre o carácter de proximidade que a torna verdadeiramente insubstituível relativamente à imprensa de matriz nacional, para não falar na importância da sua ligação às comunidades portuguesas, num fortalecimento da pátria idiomática.
Às vezes, estamos a falar nestas coisas e parece-nos, no contexto das mutações tecnológicas que tanto aceleraram a História, que ficámos reféns do tempo e tudo já não fosse mais do que meros arcaísmos, sem adaptação à realidade. Talvez isso contenha dentro de si um admirável mundo novo, com avatares do progresso e dos charmes das tecnologias, que está longe, ainda, da nossa História imediata, que é aquela que o jornalismo tece, na emergência dos quotidianos.
De qualquer forma, volto a Manuel Rivas, que no outro dia escreveu uma crónica admirável sobre aquilo a que ele chamava “o clube da felicidade clandestina”. O jornalista espanhol aborda o problema do “desaparecimento da imprensa, dos diários em papel e de revistas e magazines”, que ele diz ser alguma coisa “mais real do que uma profecia”. Não sei se é nostalgia, mas Manuel Rivas lembra  que há milhões de pessoas que todos os dias pela manhã, e às vezes, à tarde, tomam no mundo uma decisão épica e liberal: “comprar um jornal em papel”. E, no final, depois de todo o pessimismo sobre o futuro imediato, acaba por dizer: “Talvez os milhares, os centos de milhares, os milhões de pessoas que todos os dias abrem um jornal ou um livro em papel não façam parte de uma reserva em extinção. Eu, pelo contrário, vejo-os como adolescentes que desfrutam um primeiro amor. São o Clube da Felicidade Clandestina”.
Por mim, não desdenho tal condição, embora saiba que habito um país que, em matéria de leitura de jornais e de livros se situa na cauda da Europa. E, sobre tudo isso, como quem avisa a navegação, apetece-me pedir de empréstimo a Antero de Quental, a célebre pergunta ao intendente da polícia, sobre a proibição das Conferências do Casino, e, sabendo já a resposta: não é possível viver sem ideias, inquirir também: -- Mas excelentíssimos senhores, é possível viver sem jornais? A resposta só pode ser um rotundo não. O último jornal ou o último livro significariam sempre a vitória do silêncio e do esquecimento sobre a inteligência.

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