domingo, 20 de setembro de 2015

O MEDO DE EXISTIR


ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Não me canso de voltar à imagem do livro do Prof. José Gil, Portugal, o Medo de Existir", como expressão contemporânea da longa duração, na sociedade portuguesa, das Inquisições e dos Inquisidores, da intolerância à solta de todo o tipo de autoritarismos, dos 48 anos de fascismo, da Censura como fenómeno castrador do pensamento e das ideias. No fundo, aí residem muitas das sequelas da doença que atravessa o país, aí se encontra a raiz do medo que tolhe a participação cívica do povo e o remete para os guetos do caciquismo e da manipulação partidária e informativa, tão ao gosto do poder dominante, e, agora, visível, quase transparente, no período eleitoral que nos bateu à porta. O caceteirismo político e a mentira, tão configurados pelo discurso ideológico de Passos e Portas, os irmãos siameses do Portugal prá Frente, apostam muito nos traços traumáticos do medo de existir. Basta analisar, com alguma atenção, as intervenções dos cavaleiros de Além da Troika, para percebermos como a chantagem do medo nos faz lembrar os tempos salazarentos do "nós, ou o dilúvio", cavando a ilusão de uma pureza ideológica assente nos "superiores interesses da nação" e no ar sacrificial de uma devoção à pátria, que são soberbas aldrabices para consumo eleitoral. Um pouco a gozar, Aquilino, o grande Mestre, gostava de dizer que, depois de morto o ditador, haveríamos de ter salazares empalhados a colocarem pesadíssimas cangas em cima do lombo. Parece que eles andam por aí, com disfarces e máscaras, claro, mas com o propósito de se servirem do país como um feudo político, com todo o conservadorismo ideológico, com toda a liturgia de cedência aos interesses de igrejas e ao mundo financeiro, no elogio da pobreza, fazendo regressar Portugal à "apagada e vil tristeza" de tempos idos. José Pacheco Pereira, em dois artigos publicados há dias, O Jacaré e a Lagartixa (O Dia Seguinte), na Sábado, e O que vai decidir as eleições é o Portugal que cada um vê. Mais nada, no Público, reflecte sobre essas situações do medo e da apatia cívica.

Pensar o dia seguinte

No primeiro artigo, Pacheco Pereira, avisa:
"Se o PAF ganhar, haverá pela primeira vez em Portugal um forte reforço da direita política e ideológica, cimentada por uma poderosa coligação de interesses económicos. Na verdade, esse reforço já existe, mas devido à forma como correu a campanha de 2011, a sua legitimidade e liberdade de acção estavam coagidas. Pode não conseguir cumprir o seu programa não escrito e a sua agenda escondida, mas uma onda de arrogância política abrirá caminho para muitos ajustes de contas. Os alvos serão os sociais-democratas do PSD, os democratas-cristãos do CDS, os socialistas de esquerda, os sindicatos, os reformados e pensionistas, os trabalhadores da função pública, os municípios que não sejam do PSD, os trabalhadores com direitos, os desempregados de longa duração, etc. O centro político será varrido do mapa, e a sua principal consequência é o toque de finados pelo PSD como partido do centro, centro-esquerda e centro-direita. O Tribunal Constitucional estará também no ápex da conflitualidade política. Isto, no pressuposto de que a coligação encontra forma de governar em minoria, o que, caso ganhe e haja um tumulto no PS, não é de todo impossível com um PS mais "amigo". É por isso que esta eleição é muito importante para Passos, Portas e para o núcleo político e económico que se juntou ao actual Governo, desde think tanks conservadores (que já existiam, mas não tinham a agressividade, nem a capacidade de colocar pessoas e ideias nos sítios certos), a sectores empresariais que beneficiaram das políticas governamentais não só em apoios directos, como em legislação orientada para os seus interesses como aconteceu com toda a legislação laboral. Como se vê pela campanha do PAF, que transpira riqueza por todo o lado, e por alguns investimentos estratégicos feitos com antecedência (como o Observador), não lhe faltam nem vão faltar meios".

O Portugal que cada um vê

No texto publicado no Público, Pacheco Pereira analisa a ideia instilada de que não há alternativa e os políticos são todos iguais, que conduzem ao desinteresse pela política e aumenta a legião dos que estão zangados com isto tudo. É o universo dos portugueses "que empobreceram, que perderam casa e carro, que estão hipotecados e empenhados sem saída, que viram outros membros das suas famílias emigrarem, ficarem sem emprego ou a atravessar dificuldades económicas". E a estes se juntam "os mais velhos, pensionistas e reformados com pensões cortadas, ou adultos sem emprego, sem esperança, que sabem que, até morrerem, é tudo sempre a descer". E etc. Diz o historiador, a concluir o artigo: "É por isso que os resultados eleitorais vão depender do Portugal que está mais próximo de cada um. Se, e só se, estes portugueses zangados com o mundo votarem. Como muitos perderam e só poucos ganharam, como muitos perderam muito e os poucos que ganharam ganharam muito, colocar estes zangados na apatia cívica e usar o seu desespero para os atirar para um gueto antipolítico é um programa de quem não quer mudar nada. É também por isso que o amorfismo, o adormecimento, a apatia, o futebol no dia das eleições, o circo todos os dias até lá, são armas decisivas da coligação para ganhar as eleições".
Por isso, a coligação aposta tão veementemente no medo de existir.

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