quinta-feira, 24 de setembro de 2015

OS SINOS DOBRAM PELA EUROPA


O espectáculo deplorável e doloroso que é a saga dos migrantes e refugiados que, transformados em condenados da Terra dos tempos modernos, clamam pelo direito à vida, procurando acolhimento na Europa. A situação, que não outra coisa senão uma crise civilizacional sem paralelo, pôs a nu a morte da Europa, cujo cadáver adiado os coveiros de serviço há muito tentam enterrar. A Europa ainda mexe, esbraceja, mas está morta naquilo que era na construção europeia o seu grande título de honra: o exercício de uma solidariedade sem margens e uma prática de exigência dos direitos humanos. Era um rosto de humanidade e uma caminhada de humanismo que era a síntese de uma cultura edificada no tempo e na sua geografia. Agora, tudo se vai desmembrando, não faltando exemplos políticos do desnorte, da indiferença e da intolerância. Bem pode a Informação, à escala global, reportar em imagens chocantes o drama de centenas de milhares de crianças, de crianças mortas ou perdidas no labirinto do arame farpado, do Mediterrâneo feito cemitério a céu aberto, que a Europa tolera agora muros e fronteiras e crimes contra a dignidade humana, mesmo em países como a Hungria que viveram a experiência de outros muros e desejavam então saltar as fronteiras para outra Europa. Enquanto a vergonha prossegue, acolho-me às palavras de Vergílio Ferreira, em Escrever, que pareciam adivinhar o futuro: "Que quer dizer a anunciada "morte dos deuses" face à proliferação de inúmeras seitas que trazem a destruição e a morte entre os seus dogmas? Porque não são na realidade "seitas religiosas" mas formas de aniquilação em nome de uma divindade já morta que lhes dêem uma justificação. Europa, Europa, Europa. Como te choro na ruína de ti. E te amo. E te sonho na grandeza que foi tua e para sempre se desvaneceu..."

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