domingo, 20 de setembro de 2015

RAÍZES

CONCERTO DO CANTE ALENTEJANO E DA MÚSICA DA BEIRA
OS GAITEIROS DE LISBOA
O que mantém vivo o fascínio dos Chocalhos, para além da memória de transumância e dos badalos das ovelhas que comporta, é o espaço convivial e a música que se partilham na geografia urbana antiquíssima de Alpedrinha. Às vezes, até parece que os grupos de bombos se vão atropelar na multidão, mas a verdade é que não há engarrafamentos musicais. E há sempre aquele grupo espontâneo dos irmãos Freire, fantástico conjunto dos sete instrumentos que agrega sempre mais um, a dar nota que a alegria está ao alcance de qualquer um... desde que saiba música, claro. Também lá fui partilhar alegria e amizade. E foi bom ver ouvir dois espectáculos de excelente qualidade, no cenário fabuloso  do Chafariz Real e do Picadeiro, que marcaram Os Chocalhos de 2015.
Na sexta-feira, houve uma combinação mágica entre o cante alentejano e a música tradicional da Beira, aqui com a voz que me comove sempre da Leonor, acompanhada pelas adufeiras do Paul. Um cruzamento que foi uma síntese de diferenças entre regiões, mas onde a música foi a expressão de um traço comum, mostrando que no manancial da música tradicional portuguesa as fronteiras regionais se atenuam sempre, de alguma forma, embora no final se impusesse o traço forte e identificador dos Bombos de Lavacolhos, sempre fantástico na sua autenticidade.
Ontem, sábado, foi a vez dos Gaiteiros de Lisboa que, de certa maneira, estavam a tocar em casa, pois um dos elementos polarizadores do grupo, o Rui Vaz, é filho de alpetreniense. E, logo a abrir, tocaram e cantaram um velho romance, colhido por Michel Giacometti, nas suas andanças pela Orca. Foi uma dedicatória que os Gaiteiros quiseram fazer a Giacometti e aos recolectores de música tradicional portuguesa, que percorreu todo o concerto. As sonoridades fortes do grupo, com suporte musical de grande qualidade, e uma dimensão na área da percussão, tão densa e tão forte, que parecia um tan-tan interior que nos ligava à terra imemorial, que é o território da música tradicional. Excelentes momentos que iluminaram as noites de Alpedrinha.

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