quinta-feira, 3 de setembro de 2015

SERMÃO DE PAULO AOS JOTINHAS

É bem verdade que a ironia é uma essencial arma da crítica, e o Embaixador António Russo Dias bem a tem exercitado, como já tenho referido neste espaço. Num tempo em que o anedotário político parece não ter limites, o nosso diplomata zurze em verso, na melhor tradição satírica, que é veia mestra da nossa literatura, muitos desses aspectos da política à portuguesa. Agora, chegou a vez de Paulo Rangel e ele bem merece a ironia demolidora do poeta. Aqui os deixo para deleite dos meus leitores, com um abraço de gratidão a António Russo Dias. Ei-los:

"Onde se conta a verdadeira história do Sermão de Paulo aos Jotinhas

De preto vestido, dedinho espetado,
voz de roberto, está encantado!
Peripatético, a falar aos jotas
sente-se um sábio perante idiotas.
"Eu é que sei, olhem bem p'ra mim,
falo em Bruxelas, ouvem-me em Berlim.
Já fui do governo, quase presidente
(pensa para si, não muito contente,
'foi um pobre tolo que me venceu
e o Grande Chefe devia ser eu')
E segue o sermão de S. Paulo à jota,
mas ficou-lhe a dor daquela derrota...
"Se eu lhe desse agora a resposta
e o fizesse perder a aposta?"
Pensa o rapaz com os seus botões:
"Lixo o partido que perde eleições,
Lixo-me a mim que pareço tolo.
Mas também te lixo, meu grande parolo;
lixo-te a ti, minha alma danada,
que há cinco anos me deste a banhada!"
Ri-se para dentro, sente-se maroto.
"Vais ver agora, seu rato de esgoto.
Meu grande malandro, palerma sinistro
que até chegaste a primeiro-ministro".
E num arroubo de inspiração,
sabendo-se alvo de toda a atenção,
modula a vozinha de palhaço rico
E grita ao público que assiste ao circo:
"Duvidam vocês, ó pobres rapazes,
que os do PS são muito capazes
De forçar tribunais, comprar magistrados
só para safar os apaniguados?
Mas olhem para nós, gente impoluta,
que manda prender qualquer filho da puta
que roube, enriqueça a receber suborno
ficando o Estado com a ponta de um corno!
Vede os submarinos, olhai o Loureiro,
a Tecnoforma e aquele dos sobreiros,
os do BPN, o gajo da Gaia e outros que tais
E se mais houvesse prendiam-se mais".
Cansado mas feliz, de alma lavada.
Depois de ter dado aquela porrada
Sai o pequenote contente e ufano.
Aplausos, luzes e caiu o pano"
1/9/2015

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