quarta-feira, 30 de setembro de 2015

VIVA A MARTELADA!

Antigamente, quando se martelava alguma coisa, os sujeitos que praticavam esses criminosos desvios, eram objecto de execração pública. A esses gabirus, que muitas vezes punham a saúde pública em risco, chamavam-lhes então mixordeiros e arrastavam consigo para sempre o anátema de pessoas pouco recomendáveis. Mas este verbo martelar, que já foi função nobre da gente boa dos ofícios, gasta agora o seu uso para traduzir a adulteração de contas, por ganância ou malandrice, do vinho e de outros produtos alimentares -- enchidos e toda uma panóplia de materiais de mastigação -- que põe os pobres consumidores de rastos ou a caminho do hospital, na esperança de se safarem de entregar a alma directamente ao Criador. Hoje, martela-se tudo. Martelam-se as contas do Orçamento, martela-se a informação das televisões e dos jornais, martelam-se as "sondagens", martelam-se as promessas eleitorais. Martela-se o diabo que os carregue. Pode até acontecer este diálogo, numa coligação da martelada.
-- Grande martelada é que vamos no governo apoiar os pobres, os desempregados e os pensionistas! -- exclamou, exuberante, Passos Coelho, no pequeno almoço com Paulo Portas -- E tu já martelaste alguma coisa?
-- Só mandei martelar os números das estatísticas, a Maria Luísa já tinha martelado as contas do défice...
-- Agora que a campanha eleitoral está no fim, é preciso martelar todos os dias, dia e noite! -- desenvolveu o primeiro-ministro, como se estivesse a dar a táctica para um jogo da bola.
Esta nova dimensão do verbo martelar banalizou-se de tal forma que, seja vinho martelado ou outros martelados produtos de degustação, seja números, provoca nos cidadãos uma dolorosa experiência. A exclamação dos indignados é muito sintética mas vernácula:
-- Que grande merda! -- costumam dizer as vítimas, enquanto não vomitam ou, de calças na mão, se vêem em apuros de grande inclemência.
Ora , num país em que os homens do leme da governação fazem da mentira o seu desporto favorito -- basta ver e ouvir a desfaçatez de Passos & Portas na campanha eleitoral ... -- não admira que utilizem o verbo martelar, com grande perícia. Soube-se agora que Maria Luísa Albuquerque, a ministra das Finanças, mandou martelar as contas do BPN para enganar os indígenas. Isto é, a mixordeira dos números, que Passos publicamente avalisa e defende, acha o martelanço uma atitude louvável. Viva a martelada! Viva a aldrabice! Vivam os mixordeiros da política!
Se os outros mixordeiros lesam gravemente a saúde dos portugueses, esta miss "Suwaps" e companhia envenena as contas e faz delas uma mixórdia que põe doente o país e a nós, suas vítimas, nos faz dizer, indignados:
-- Que grande merda! Isto, de facto, cheira mal...
E você, importa-se com a mixordice, ou deixa continuar a correr o esgoto, nas eleições de quatro de Outubro?

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