sexta-feira, 23 de outubro de 2015

"DIRECTAMENTE DO WC"

Na sordidez de um jornalismo que é um atoleiro ético e de feridas deontológicas, há um campeão dessa prática lamentável, para quem não há limites e a informação é simples jogo de dividendos. Como dizia um poeta da liberdade, há sempre tipos que penduram, no bengaleiro público, a consciência. Esta ferida que atormenta o jornalismo, o sensacionalismo a qualquer preço, a informação direccionada ao que de mais mórbido tem a natureza humana, não é questão nova. Albert Camus, nos seus tempos do "Combat", no tempo de esperança da libertação, a seguir ao pesadelo e ao absurdo da Segunda Guerra, advertia que o interesse público é que deveria ser determinante na produção da informação  e que, se durante anos e anos habituarmos os leitores ao mero sensacionalismo, eles não desejarão outra coisa.
Hoje, num tempo em que a Informação, a diversos níveis, se atola na lama para conquistar audiências, era bom que os jornalistas portugueses reflectissem sobre estas coisas comuns a uma classe que assim, todos os dias, se desprestigia e prostitui.
Hoje, numa soberba crónica, intitulada"Entretanto, directamente do WC", Ferreira Fernandes põe o dedo na ferida. Vem no "DN" e aqui a deixo, para proveito e exemplo, dos Leitores:

"Eu tenho um excelente amigo que tem o hábito de me atender o telefone com um: "Olá, amor." Não gosto. Mais, engalinho. Raramente saudei assim e nunca o fiz sem fortes motivações afetivas. E, julgo, tive sempre o escrúpulo de guardar a palavra para situações íntimas. Do tipo: "Isso é só um pardal, amor", quando a minha filha, 2 anos, olhava para um galho, no Jardim Zoológico, em vez de ver a girafa. Calculem como eu me sentiria se, um dia, pelo aleatório que é isso de escutar telefonemas, pelo irresponsável que é isso de magistrados alimentarem pombos e pela pulhice que é a de alguns jornais fazerem manchetes com o que os pombos sujam os beirais, se o meu nome aparecesse num título: "Olá, amor!"... Ontem, um homem que fez uma carreira com - e digo a palavra muito usada e pouco acertada, mas nele completamente adequada -, com classe, António Guterres, apareceu na capa dum jornal, como tendo dito a alguém: "Arranjaste um bom tacho." A conversa telefónica era completamente privada. De um para um. Um abuso, portanto. Eu diria o mesmo, um abuso, se, em vez de "arranjaste um bom tacho", se estampasse nos quiosques uma manchete dizendo: "Olá!", com o complemento de informação de que António Guterres disse-o a Angelina Jolie, num telefonema privado. Como o jornal em questão é o mais vendido em Portugal, pode parecer que nos é natural que esse abuso passe por natural. Lamento confirmá-lo: é, para muitos é mesmo natural."

Nota de rodapé, o jornal que é motivo da crónica de Ferreira Fernandes é o "Correio da Manhã".

1 comentário:

  1. Pois que evocamos Camus : "l faut mettre ses principes dans les grandes choses, aux petites la miséricorde suffit ".
    Camus (Albert)

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