quarta-feira, 28 de outubro de 2015

DÚVIDAS E ENGANOS

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Na Itália, o homem que um dia disse que não tinha dúvidas e nunca se enganava,reafirmou que não tirava uma linha ao que disse na lamentável declaração presidencial, não sobre a indigitação de Passos Coelho, mas sobre os petefes que colocou ao facto da maioria dos portugueses ter votado à esquerda. E deixou no ar que, sexta-feira, vai repetir a dose. De facto, nunca tendo dúvidas, que é o que acontece a quem acredita em dogmas e não tem capacidade de racionalização, Cavaco Silva tem a imagem errática de quem ama o engano. E afirma-o com uma retórica que é sempre de subalterno e de terceiríssima categoria no plano da filosofia constitucional.
Ainda há dias, a jornalista e escritora, Almudena Grandes, escrevia uma crónica, com o título de "Perdedores", em que chamava Cavaco à pedra. Dizia ela que "para a direita, a aritmética não é uma ciência, mas opinião". "É a que, sem ir mais longe, impulsionou o presidente de Portugal, o conservador Cavaco. Silva, a encarregar de governo a Passos Coelho, sabendo de antemão que não poderá fazê-lo , porque uma oposição disposta a formar um governo de esquerda, impedi-lo-á no Parlamento português. Os números da dívida e o défice que Cavaco invocou para contrariar a vontade popular carecem de importância quando a direita se arrisca a perder o poder. Ainda que seja evidente que os portugueses tenham votado que Passos não continue a governar, se há que fazer outras eleições, fazem-se, por muito dinheiro que custem. E se ocorrer à esquerda apresentar-se numa coligação perfeitamente legítima, se fica a passear o fantasma dos sovietes, como fez Esperanza (Aguirre) sem o mínimo pudor. Vale tudo, porque a Europa se converteu num casino, e nos casinos, já se sabe, a banca ganha sempre".
Oiço novamente Cavaco a gaguejar a sua conversa do não arrependimento. Não ter dúvidas sobre uma realidade constitucional pode ser uma quadrada estupidez.

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