terça-feira, 6 de outubro de 2015

JOSÉ VILHENA: O RISO COMO SALVAÇÃO



--Que notícias há de Portugal?
--Não sei, ainda não li a imprensa estrangeira...

No sábado, no período de reflexão do acto eleitoral, como se quisesse dar uma última gargalhada sobre o país da austeridade e da sacristia, o José Vilhena partiu definitivamente para a longa viagem. Ele estava, há muito, já de certo modo ausente, mas talvez nenhum outro humorista (e Vilhena era muito mais do que um humorista!) tenha, depois de Bordalo, cumprido tão persistentemente uma crítica demolidora ao sistema, antes e depois do 25 de Abril. Nesse aspecto, foi um trabalhador incansável, aliando um talento superior na caricatura dos detalhes e do fundo da sociedade portuguesa, os seus figurões e os seus tubarões de navegação em terra, a uma capacidade extraordinária como autor de uma literatura popular que incomodava os poderes e as suas superestruturas repressivas. Poucos, como ele, perceberam o ensinamento de Eça, quando ele mandava rir, lembrando que "o riso é uma filosofia", "muitas vezes o riso é a salvação e em política, pelo menos, o riso é uma opinião". Uma opinião com peso.
A vida de José Vilhena, polifacetada nessa prática, foi enorme e não vejo outro que ombreie com ele essa totalidade da crítica, esse olhar demolidor, essa força plástica à volta de um papel branco. Eu tive a sorte de, muito jovem, de me sentar à sua mesa, mais para ouvir, que era sempre uma mesa fraterna onde eu via os meus tios Armando e António Paulouro, o Simões Nunes que foi, com o Armando Paulouro e o José Vilhena Vilhena, o trio de O Mundo Ri. Mas o verdadeiro companheiro, na realização de O Mundo Ri e na edição dos livros do José Vilhena, até ao 25 de Abril, foi Armando Paulouro. Aliás, já o lembrei neste espaço, publicaram a célebre colecção de postais sobre "A vida portuguesa na segunda metade do séc. XX", que enfureceu Salazar, que os mandou prender pela PIDE. Nessa altura (estão neste Blogue) reproduzi-os a todos tendo escrito: Em 1964, uma colecção de postais ilustrados com desenhos de Vilhena, intitulada&Cenas da Vida Portuguesa - Personagens e costumes da 2.ª metade do século XX,levou a PIDE a desencadear uma forte repressão, tentando apreender os postais e prendendo Vilhena, Armando Paulouro e Simões Nunes.Os desenhos irritaram Salazar. O humor também, então, era perigoso em Portugal e talvez isso explique a razão que, num país de tão ricas tradições sarcásticas, não haja hoje um jornal satírico neste país.
No outro dia, li uma crónica de Manuel Rivas que contava que, estando Voltaire na agonia, manifestou uma vontade: disse que era do partido do riso.Hoje, ao lembrar-me do querido amigo José Vilhena, ofereço aos Leitores a colecção de postais (são 9) que enfureceu Salazar, que não partilhava o riso como saudável. À distância do tempo (são de 1964), penso que é Vilhena no seu melhor. Os seus desenhos ajudam-nos decerto a compreender uma perplexidade que parece acompanhar-nos todo o tempo: que raio de país é este?"Retomo o texto que escrevi em Janeiro, sobre o autor alguma vez mais proibido em Portugal. Se ainda as houvesse, tinha ido parado à fogueira, ele e a sua obra (lembremo-nos, depois de Abril, do que foram "A Gaiola Aberta", O Moralista", "O Cavaco"!): Nestes dias de inquietação e raiva, lembrei-me do José Vilhena (tão esquecido), que antecipou tanta coisa no tempo, que foi o autor com mais livros proibidos durante a ditadura, e o mais persistente e demolidor crítico do cavaquismo (ele foi premonitório em relação à desgraça!), na publicação que intitulou O Cavaco. Escrevia e desenhava, ia contra a corrente das conveniências, era anti-clerical, era anti-Estado (no que o Estado tinha de corrupto ou de estigmas totalitários), era anti-militarista, era anti-castas sociais, era contra o país que se ajoelhava, era anti-hierarquias, era anti-capitalista (o capitalismo é em Portugal uma religião). Escreveu centenas de títulos (lembremo-nos de A História Universal da Pulhice Humana) disse mal de todos, tinha um sorriso desarmante sobre a realidade que outros queriam impingir como xarope salvador.
Nestes dias em que "Je Suis Chrarlie" foi proclamação universal, lembrei-me do José Vilhena. À escala portuguesa também o tentaram suprimir (não fisicamente), mas não faltaram vontades, antes e depois de Abril, de lhe confiscarem o lápis e a imaginação. Lembrei-me, pois, do Vilhena, e do seu enorme talento, da sua capacidade infinita para o traço demolidor, da sua inteligência para nos fazer sorrir, sabendo ele que o ódio ao riso é próprio dos parvos. Doente, retirado num Lar, falo dele como artista e cidadão, gesto breve de amizade e afecto. E entre muitas coisas que poderia contar (a sua ligação ao Fundão e ao Jornal do Fundão e, sobretudo, a meu tio Armando Paulouro é inesquecível), escolho uma que tem um significado muito especial: O 5.º Pecado, filme que realizou no Fundão e que infelizmente se perdeu (vi a montagem de parte do filme) foi um desses momentos altos, de que um dia falarei com tempo.
Nos anos 60, tempo mais duro porventura da ditadura salazarista, se é possível graduar a ignomínia, criou-se em Lisboa e a sua distribuidora a SPECIL. Vilhena tinha uma relação quase fraternal com o meu tio Armando e lembro-me de uma vez lhe ouvir dizer que os dois eram sócios de produção de ironia e deveriam ser pagos apenas para terem ideias. Conviver com eles foi viver instantes únicos".Há tempos, em Lisboa, lembrei precisamente O Mundo Ri e muitos dos livros de José Vilhena foram impressos na tipografia do Jornal do Fundão. Vilhena deve ter sido o autor mais proibido pela Censura. A propósito de um livro da Specil, há um relatório do Censor que Cândido de Azevedo transcreve A Censura de Salazar e Marcelo Caetano e que é elucidativo: “... O distribuidor – a firma SPECIL, editora de “O Mundo Ri” e também distribuidora de todos os livros do “Vilhena” é contumaz em toda a espécie de abusos e de negaças em relação à Censura. O compositor e impressor – o Centro Gráfico das Beiras - Fundão, que outra coisa não é que o assaz conhecido "Jornal do Fundão", em cujas oficinas têm sido impressas inúmeras obras indesejáveis, é portanto altamente suspeito".

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