quarta-feira, 21 de outubro de 2015

LUATY BEIRÃO

Lembro-me bem como era antes do 25 de Abril, em Portugal. Lembro-me bem do que era lutar pela Liberdade. Lembro-me bem das palavras e dos gestos que se levantavam contra polícias e mordaças. Lembro-me bem de como um punho fechado no meio da multidão era ao mesmo tempo sinal de rebelião e de esperança. Lembro-me bem de bandeiras e cartazes levantadas como gritos colectivos contra a ditadura que era uma ofensa ao coração da Humanidade. Lembro-me bem de tudo isso, e de mais: de como a solidariedade por cima das fronteiras, às vezes uma palavra, ou uma canção, às vezes uma atitude ou um protesto, eram suplemento de esperança e de vida. E, então, era como se respirássemos um pouco melhor dentro da asfixia em que vivíamos.
Essas imagens fragmentárias vêm ao meu encontro quando vejo as notícias do que está a acontecer ao jovem Luaty Beirão, em Luanda, preso político que, há mais de trinta dias, prossegue uma greve de fome para reivindicar direitos elementares que, num Estado de Direito, seriam irrecusáveis. Ele quer, apenas, justiça!
Lembro-me outra vez de coisas que a memória gravou: das notas oficiosas da ditadura portuguesa falando sempre em actividades subversivas conta o Estado, em conspirações que eram mero pretexto para desencadear os mecanismos repressivos, das acções dos resistentes ao serviço de potências estrangeiras.
Penso que é um registo universal o momento daquele homem que ergue nas mãos uma bandeira vermelha e atacado brutalmente pelas forças repressivas continua a erguer teimosamente a sua bandeira, como se nela estivesse inscrita a palavra Liberdade. Era ele e a sua circunstância. E quando ele caiu, a sua imagem ganhava subitamente uma força universal que ninguém podia parar. Assim Luaty Beirão. Passa, rápida, na tv, a imagem do seu rosto, o olhar fundo, como se fosse o retrato anunciado de um crime político, em tempos de cólera.
Penso nele, enquanto a imagem se desvia, como no homem da bandeira vermelha. O seu gesto reproduz-se, lentamente, à escala universal. Em toda a parte onde estiver um homem de boa vontade, o seu coração baterá um bocadinho mais depressa, inquieto com a situação de Luaty Beirão. Se pudesse dizer alguma coisa a Luaty Beirão, dizia-lhe o poema de Sophia, como se ali estivessem as palavras mais exactas para se aporem a um nome: Luaty Beirão.

"Porque os outros se mascaram mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não."

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