quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O MUNDO DE FERNANDO ALVES

O meu café da manhã continua a ser um momento único porque dele fazem parte as crónicas do Fernando Alves. As suas palavras, carregadas do seu frémito de humanidade, procuram "o rumor do mundo", como diz um dos versos de Eugénio de Andrade. E esse rumor tanto pode ser buscado em latitudes longínquas, como nos detalhes do quotidiano, numa rua ou numa praça onde se ouvem ruídos, palavras e gestos, angústias e esperanças que compõem o retrato de um país chamado Portugal. Essa gente que passa e que, às vezes, parece que transporta o mundo aos ombros, olha-a Fernando Alves com a sensibilidade social de quem sabe que aquilo representa muito mais do que uma imagem rápida, fugidia quase: é o microcosmos de uma realidade mais vasta onde se reflecte a sociedade portuguesa. Fernando Alves é um cronista e, como Fernão Lopes ou Fialho, ou Ramalho, ou Eça, aprendeu no olhar dos outros a seleccionar a sua própria perspectiva, umas vezes com incisões oblíquas, outras com desmedida alegria pelo esplendor cromático das paisagens, numa sinfonia das quatro estações. Os olhos enchem-se sempre de um humanismo que o prende à terra, o que lhe permite ver aquilo que de verdadeiramente importante e significativo têm as vinte e quatro horas de um dia.
Hoje, pus-me à escuta da sua voz, tão sua, tão densa, perscrutando os seus sinais, que são sempre a expressão sonora de uma matéria solar feita de palavras. Então, conta ele (e os meus Leitores irão ouvi-lo), estava ele a uma mesa do café que dava para a rua, quando estacionou à porta uma mulher carregada de sacos, que vinha porventura da sua navegação diária pelos caixotes do lixo. Não digo mais nada, apenas os convido a pararem um momento e mergulharem no fascínio da crónica "A Menina de Lá", do Fernando Alves.
Sinais - TSF Rádio Notícias

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