segunda-feira, 5 de outubro de 2015

QUE PAÍS É ESTE?

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Não faltam, na história portuguesa, exemplos de como o povo, por anemia cívica, anátemas ideológicos, medos e atavismos ancestrais, se comporta como se gostasse que  a canga da servidão e da submissão à sua própria desgraça, aos seus infernos quotidianos, colocada sobre o cachaço fosse mais pesada e imutável, quase eterna. Essa maneira de olhar, avergoada ao medo da mudança, essa forma de ficar refém da política que é contra ele e o desfaz em mil e uma malfeitorias, essa condenação à pobreza, aos salários de miséria, aos confiscos fiscais, às navalhadas nas pensões parece não fazerem parte da memória colectiva.
É, pelo menos, assim, que eu vejo os resultados eleitorais de ontem. Não me comprazo na felicidade dos que cantam hossanas a uma aritmética de esquerda, sabendo, como sei, por experiências transactas e pelo tempo de vivência democrática que a a esquerda portuguesa é, porventura, a mais estúpida do mundo, pois nunca consegue sentar-se à mesa nem para se pôr de acordo sobre a defesa do Estado Social, sobre as políticas socialmente inclusivas, sobre aquilo que é primordial em defesa da humanidade e da felicidade dos portugueses. Cada um, O BE e o PCP, à sua maneira, conta os seus votos, os seus mandatos e siga o baile... da retórica da oposição, na Assembleia da República, enquanto o PS se dissolve também nos seus medos e nas contradições da sua condição de cliente rotativista do Poder. A direita, claro, sempre mais pragmática, une-se no essencial, mesmo que odeie bem lá no íntimo, e leva a água ao moinho, com os seus apoios mediáticos e financeiros, com o seu ar beatífico e desculpabilizante dos seus crimes sociais, da sua insensibilidade humana, da sua indiferença face ao sofrimento colectivo. Que outro povo, depois do que passou nestes quatro anos, ainda seria capaz de bater palmas aos carrascos.
Dizem que agora, face ao carácter minoritário da coligação vencedora, vem aí um sarilho. Depois das imprecações e dos insultos, depois da guerrilha verbal, vêm agora abrir os braços a uma paz podre. Quem poderá ir nessa cantiga?
Vivemos tempos sombrios, densas nuvens pairam por aí. O país vai ficar ainda menos habitável. Volta a escrever o que um dia já editei neste espaço, como se a história fosse uma parábola para os dias de hoje.
Isto faz-me lembrar, sempre, a história que Manuel Rivas um dia contou sobre tempos sombrios. Vivendo inquietações comuns, observador da realidade da crise, ele lembrou-se de um filme, "Os Companheiros", em que Mastroianni, um professor em fuga, se apeia numa pacata estação de caminho de ferro e pergunta:
-Que país é este?
E alguém responde:
-Este é um país de merda!
Essa estação do professor em fuga poderia ser algures, por aqui, num país chamado Portugal.

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