quarta-feira, 7 de outubro de 2015

RITUAL DOS NOVOS VAMPIROS

Há anos, na catedral de Palermo, vi um sujeito de fatinho preto, cabelo preto a brilhar, bem anafado, que percorria os altares do templo, fazendo as genuflexões da regra e beijando a medalhinha que sacava da corrente dissimulada no peito. Observei-o mais atentamente e a imagem do homem ficou-me na memória, porventura por uma daquelas suspeitas que um indivíduo a passear pela Sicília, a pátria de D. Corleone, pode lançar no seu íntimo:
-- Este tipo pode bem ser da Mafia!
E, de facto, nunca se sabe se o ritual do beijinho na medalha da Virgem, nos sucessivos altares, não corresponde à liturgia dos tipos que os mafiosos despacham com tiros na nuca ou com outras mortes igualmente expeditas. É, se calhar, um fenómeno inerente à natureza humana, esse comportamento dos tipos que fazem as piores malfeitorias, crimes até, devastações sociais e depois, como o tal tipo (muito cinematográfico!), que se calhar era da Mafia, compõem a melhor máscara de beatitude, ajoelham aos altares dos santos e beijam as medalhinhas, recatadamente, em privado.
Lembrei-me dessas máscaras de circunstância, do ar subitamente beatífico e bondoso dos senhores Passos Coelho e Paulo Portas, quando, sabendo que não poderiam governar do alto da arrogância e do fanatismo Além-Troika com que tornaram a vida dos portugueses um inferno, vêm agora com uma retórica solidária, com a preocupação do combate às desigualdades e à pobreza, que eles entusiasticamente produziram nos quatro anos da sua legislatura como maioria absoluta!
Esse jogo de máscaras só é possível num país tão desmemoriado, tão distante da realidade cruel do quotidiano das pessoas, como Portugal parece que é, a ajuizar pelo recente comportamento colectivo. Não é possível encontrar um lugar (isto às vezes não é um país, é um lugar...) que combine de forma tão persistente esquecimento e anemia cívica. Vejam só a desfaçatez, segundo a notícia que hoje publicava o "Público". Diz o diário que no texto do acordo entre o PSD e o CDS, que se comprometeram a entregar a Cavaco para a formação do Governo, "entre os objectivos definidos está o de defender e reforçar o Estado Social" e a materialização de um modelo em que a parcela de investimento público será selectiva e focada em pequenas e médias obras necessárias". 
A situação é absurda, nem Kafka poderia imaginar uma coisa destas. Dois chefes políticos propõem-se agora, só para se manterem no poleiro do mando, fazer tudo aquilo que destruíram no plano social, demitindo o Estado das suas obrigações solidárias em relação aos mais fracos, saqueando salários e pensões, lançando na margem desapiedadamente os desempregados de longa duração e assassinando a esperança aos mais jovens.
Oiço falar estes tipos, compondo novos papéis na sua forma de representar a política, e volto a pensar nos tais sujeitos que fazem as piores coisas à felicidade humana, nem é preciso apertar o gatilho, e depois vão beijar as medalhinhas e a bater no peito...
Quem os pode levar a sério.? Só outro tipo, de igual coturno, que por acaso é Presidente da República.

1 comentário:

  1. Esta atitude dos governantes portugueses só é possível porque sabem que aqueles que têm sob o seu poder não reagirão mais que aquilo que reagiram até aqui.
    A passividade de uns, autoriza a prática da mentira sem limite dos outros. Até quando? Resta a saber.


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