quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A POLÍTICA BIFACE

CAVACO O OBSERVADOR, SEGUNDO ZÉ DALMEIDA
Se quiséssemos um exemplo da política biface, encontrá-lo-íamos, com grande nitidez, nas peripécias que, na sequência da posse conferida por Cavaco Silva, este governo de via reduzida tem dado para enriquecimento do anedotário nacional. Já não é o problema das suas contradições internas -- há dias o ministro Fernando Negrão dissera não estar o executivo disponível para um governo de gestão e agora Passos Coelho veio já dizer que não se importará (haverá vento de Belém a soprar?) --, é a própria natureza da política que parece contaminada pela bifacialidade, isto é, pelas duas caras no mesmo rosto.
Os jornais noticiaram, de facto, e não foram desmentidos, que Passos Coelho, logo na primeira reunião do Conselho de Ministros do governo de via reduzida, tinha pedido aos seus ministros para irem estudar o programa eleitoral do PS para enxertarem no programa de governo que a Coligação vai apresentar à Assembleia da República.
Quem tem memória do que Passos & Portas, e outros adjuvantes menores, disseram do programa do PS, certamente recordará que eles sublinharam que tudo aquilo era, afinal, a forma de conduzirem o país ao desastre, depois dos quatro anos de excelência (excelência na pobreza, no desemprego, na destruição do Estado Social, já se vê...) com que as criaturas governamentais da Coligação de Direita brindaram os portugueses. Disseram mais do que Maomé disse no toucinho, mas agora, para se salvarem do naufrágio do Poder, gostariam que o PS lhes atirasse uma bóia, já que o colete de salvação que Cavaco lhes entregou parece não ser suficiente. Quer dizer, para se manterem e aos seus apaniguados nos braços do governo, estariam agora dispostos a passar uma borracha sobre a radicalidade da política proposta aos portugueses como catecismo irrevogavelmente sem emendas.
A bifacialidade é não só uma falta de vergonha e de pudor, na exposição pública de uma aldrabice de circunstância, como também uma ofensa à inteligência dos portugueses.

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