quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A POLÍTICA DE FACA E GARFO

ILUSTRAçÃO DE ZÉ DALMEIDA
Vinda dos fumos do século XIX, às vezes em consequência do trauliteirismo nacional, há em Portugal uma tendência, que se foi tornando hábito, de fazer do recurso ao banquete a forma por excelência de desagravo político. Cristalizou essa prática para enaltecer chefes de facção ou, até, para exprimir fidelidades caninas, que não poucas vezes encobrem clientelismos ou pagamento de favores a barões e caciques ocasionalmente desapeados da galeria partidária.
Às vezes, o exercício mandibular, acicatado por fomes milenares ou sofreguidões de circunstância, entalam na mastigação vivas de gargantas pouco avezadas a falar em voz alta. Não ganhou a pátria grande coisa com a política de faca e garfo, mas certo é que a gastronomia se dilatou na exigência de imaginação para oferta do menu a mercado tão rendoso. Seja como for, as mil e uma maneiras de fazer bacalhau firmaram os seus méritos em democrática disputa com a posta mirandesa ou a feijoada de búzios. O que foi um acrescento às glórias nacionais.
Rodaram os anos e a prática parece que não encolheu, antes se apurou às exigências do momento, designadamente aos dias toldados da crise e da fominha mansa, tão portuguesa. Daí que a távola redonda ou assimétrica, tanto faz, passou a ser palco privilegiado de afirmações políticas, cortejos  de indignados, reparações a ataques fulanizados, e, até, a ajuste de contas de facções feridas nos seus interesses.
Ainda esta semana, os indignados ou descontentes com um Acordo do PS à esquerda, capitaneados por Francisco de Assis, ungido em espécie de santo para excomungar os socialistas de um pecado original tão grave que todos iriam parar directamente ao inferno se porventura ainda houvesse brasas atiçadas por diabos vermelhos e azeite a ferver em caldeirões para fritar os hereges em lume brando.
E, pensando bem, há lá melhor remédio para descontentes do que a faca e o garfo à volta de tenros leitõesinhos da Mealhada, saídos do forno, com o frisante para aveludar a goela!
A estratégia para afogar o descontentamento gorou-se porque o malvado do António Costa, outro diabo, marcou reunião magna socialista para o dia aprazado.
Vão inflamar-se os descontentes, lá isso vão. Assis e os apaniguados ficaram com os leitõesinhos atravessados na garganta, o que é um grave desvio ideológico. Se não houvesse esquerdas é que era bom... Sempre papávamos os leitões na Mealhada, olarú!

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