sábado, 14 de novembro de 2015

AGORA, A SAUDADE




NA QUINTA, HOJE. À PROCURA DE OUTROS PASSOS
Um dia como o de hoje, sem asa de vento e com aquele sol e céu azul que nos toldam os olhos de luz e que quando poisa nas coisas e nos detalhes da paisagem adquire uma dimensão fantástica de cores, a onírica certeza de que o Outono é sempre o melhor dos pintores, um dia assim devia ser imune a notícias irremediáveis, dessas que tingem as palavras de lágrimas e nunca gostaríamos de ouvir. Mas o tempo dos dias felizes é sempre escasso e a realidade pessoalmente dramática impõe as suas sombras, submerge o sol na névoa de nuvens, densas e tristes, que na irremediabilidade das circunstâncias parece apenas a injustiça de um destino, se destino houvesse para a dicotomia do justo ou do injusto.
O meu irmão mais velho, o José César Paulouro das Neves, ele que teve sempre uma geografia ampla de mundos, partiu prematuramente para a última viagem. Não teve tempo, decerto, para se despedir da "terra da alegria", como diria Ruy Belo, ou de repetir, com palavras de outro poeta, o Eugénio de Andrade, "estou de passagem/amo o efémero".
Por isso, hoje, quando a notícia se foi fazendo corpo com a realidade, acolhi-me às sombras das velhas árvores da Quinta e andei, como se estivesse no garimpo das coisas primordiais, pelos caminhos que ele gostava de fazer, repetindo passos irrepetíveis, olhando horizontes perdidos na memória de histórias vividas, a terra da alegria como casa comum que o tempo vai preenchendo de longos e definitivos silêncios.
Ainda há pouco, num livro que é sobretudo um universo de afectos, fui ao encontro de Pascoaes para dizer: quando falta tudo o resto, fica a saudade. E é já esse sentimento que me preenche, pois é aí que reside o vazio do silêncio, a ausência de palavras que só a memória pode substituir com fragmentários momentos de imagens fugidias, lembranças de tempos e lugares, ou de fotografias que, como dizia Lorca, são sempre uma ilusão breve de eternidade.
Estou aqui, à volta de palavras que me parecem gastas e sem uso, e só me lembro da grandeza de tudo o que aprendi com ele, dos horizontes culturais tão vastos e plurais que pareciam infinitos, da escrita como longa e paciente exigência, do conselho amável sobre leituras outras. Nele, penso que o diplomata obscureceu o escritor, mas lembro artigos notáveis que escreveu no "Jornal do Fundão", muitos com pseudónimos para fugir à bestealidade da censura, e nessas suas navegações não esqueço nunca que foi ele trouxe o Carlos Drummond de Andrade para o JF. Eu andava agora, na releitura e anotação de "O Romance de Camilo", de Aquilino, para discutir com ele os mundos de Camilo e Eça, S. Miguel de Seide ou o cosmopolitismo do autor de "Os Maias". Já não vou a tempo...
Sobre ele escreveu o embaixador e escritor Marcello Duarte Mathias, no "Diário da Abuxarda 2007-2014" (D. Quixote, 2015) meia dúzia de páginas que fazem um notável retrato do diplomata e do homem de cultura. O mesmo embaixador já noutro livro, mais antigo, "Diário da Índia" escrevera que Paulouro das Neves era quem melhor escrevia português no Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Este aceno de palavras, no frémito da notícia triste, já vai longo. Mas não queria deixar de citar, para pôr outra pessoa a falar, o texto que o embaixador Francisco Seixas da Costa escreveu hoje mesmo no seu Blogue, "Duas ou Três Coisas", e que é uma admirável prosa sobre o meu irmão Zé. Par lê-lo basta clicar no lugar do Blogue, aqui ao lado.

6 comentários:

  1. Um abraço de solidariedade, alargado ao Tomi, ao Norberto e mais família.

    João Luis Fortunato

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  2. Um abraço de solidariedade, extensivo a toda a família.

    José Maria Ramos Freire

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  3. Um grande abraço, Fernando.
    Perdemos um Homem notável.

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  4. Aceite a minha solidariedade neste momento tão sentido.

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