domingo, 8 de novembro de 2015

AO ANTÓNIO PAULOURO

Entre as palavras que disse, na cerimónia de ontem, no Fundão, à volta do centenário do nascimento de António Paulouro, tive a honra de ler um belíssimo texto de Hélia Correia, a escritora, Prémio Camões, que fazia parte do essencial universo de afectos do fundador do "Jornal do Fundão". Não podia deixar de o deixar escrito, também, neste espaço de liberdade que é "Notícias do Bloqueio". Aqui fica:

"Ao António Paulouro
O recurso a Camões conforta sempre aquele que não sabe o que dizer. Se há alguém que por obras valerosas se libertou da morte é o António. Por «obra valerosa» entendo mais essa marca tenaz e generosa a que se entrega a vida sem alardes do que a ostentação de um feito alto e sonoro. A obra valerosa é a de quem não se contenta com criar: fornece o terreno e os meios para que os outros entrem no círculo da bondade humana e ali comam e deem a comer.
Sobre essa obra valerosa já não sobra um pedacinho onde se possa redigir pois tudo está coberto de louvor. E esta amiga e admiradora chega sempre atrasada, quando chega, de modo que lhe resta esbracejar contra os lugares comuns que, esvoaçando, querem descer à página e sujá-la. Escrever sobre a grandeza e a coragem seria copiar o que está escrito. Escrever sobre a memória pareceria que se dobra o joelho à lei do tempo. Escrever sobre aquilo que perdura é sublinhar, sem jeito, uma evidência.
Há gente para quem devia abrir-se uma nova potência de linguagem, uma potência do que está submerso e não foi dito e nunca será dito mas constitui a singularidade e o motor de acção dos excepcionais. Com ela disporíamos de palavras justas e belas para formar um elogio, uma eu-logia, a boa fala, à sua altura. Com ela formaríamos um texto em que a pedra encaixando na pedra ergue a muralha e isso, sim, se assemelha a esta vida, forte, visível, duradoura, altiva. Implantada no sítio em que nasceu mas lançando de si páginas-aves, um clamor, uma espécie de poema que entrava pelas casas do país. Porque poema é isso: uma cadeia quase sem substância, muito frágil, sujeita a fogos e a proibições, palavras e papel. Dir-se-ia nada."

O embaixador Francisco Seixas da Costa, no seu Blogue "Duas ou Três Coisas", escreveu, também, um texto admirável sobre António Paulouro. Na referência simpática que me faz sublinho só o seguinte: não sou director do "Jornal do Fundão" desde final de 2012, precisamente por ter batido com a porta, por considerar que, por opção da administração maioritária da Controleinveste, o património de ideias, cultural e jornalístico de António Paulouro estar a ser gravemente ferido.

1 comentário:

  1. Mas...
    O Embaixador diz apenas que Fernando Paulouro "sucedeu" a António Paulouro na direcção do jornal...o que está correcto!

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