quarta-feira, 11 de novembro de 2015

ÀQUELES QUE NÃO PUDERAM VER


À memória de Urbano Tavares Rodrigues e de outros companheiros que já não puderam testemunhar os instantes que estamos vivendo, com a união da esquerda.

Ontem, quando via o programa do governo da Coligação da Direita ser rejeitado, na Assembleia da República, pelos votos comuns da esquerda, lembrei-me de Urbano Tavares Rodrigues. Era como se estivesse a vê-lo, com a sua voz afectuosa de homem bom e os seus gestos sóbrios, as mãos a vincarem a força das palavras, a partilhar comigo velhas inquietações e desalentos sobre a incapacidade da esquerda se aliar no essencial, isto é, em relação à vida concreta das pessoas e à construção de uma felicidade possível na sociedade portuguesa. O Urbano, que foi das pessoas mais tolerantes que conheci, via passar os anos e os anos, a devastação social a cavar a desgraça do povo, as políticas de direita impostas como espécie de eternidade, e era sobre isso que ele me dizia, com a sua voz doce, que a esquerda não poderia persistir a desbaratar o capital de esperança que era a sua própria razão de ser. A união da esquerda era, para ele, a possibilidade real de promover a mudança, alterando as coordenadas políticas selvaticamente ultra-liberais que semeavam as desigualdades e a pobreza: os infernos quotidianos que os capatazes da Troika ampliavam, a sorrir. O Urbano dizia-me que só a unidade da esquerda poderia colocar fim a esse retrocesso civilizacional, que feria a dignidade da condição humana e fazia do Homem a medida de coisa nenhuma. Era aí, também, que residia uma certa responsabilidade histórica.
Agora, que há um governo do PS, com suporte parlamentar de toda esquerda - BE, PCP e PEV - Urbano faria um sorriso largo, e, porventura, poderia dizer-me, como se estivesse a pôr a escrita em dia que "a esperança, afinal, tem sempre razão".
Lembrei-me dele ontem, quando o governo de Passos & Portas caía fragorosamente, sem os seus apaniguados quererem perceber que a queda era a própria derrota dasua incapacidade política, e nessa lembrança, que passou como um vento, passaram subitamente vários rostos de amigos e companheiros que teriam sorrido a este acontecimento histórico, se não tivessem ficado pelo caminho. 
A História move-se.

2 comentários:

  1. Uma oportunidade de oiro.
    Se quiserem e forem capazes.
    António Costa: I Have a dream
    Novembro, aniversário do dramático dia 25 na calçada da Ajuda, com meio país político a ver realizado o sonho do major Melo Antunes: o partido comunista a participar na normalização do regime, via António Costa – If…
    Se...
    Do Compromisso Portugal duvidoso a uma Santíssima Trindade improvável, que fazer?
    Contas externas (Agosto): superavit conjunto das Balanças Corrente e de Capital a +20,3%; Balança Corrente a +343%; na Balança Corrente, défice dos Bens diminuiu de € 5.770,3 milhões para € 5.603,6 milhões; superavit dos Serviços a +3%, rubrica Turismo a +11,6%; défice dos Rendimentos a -15,3%; Balança de Capital de superavit inferior ao de 2014: € 1.486,4 milhões contra € 1.744,5 milhões…ligado à chegada de fundos estruturais (Tavares Moreira, blog 4ª República)

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