quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ENGOLIR UM ELEFANTE

ILUSTRAÇÕES DE ZÉ DALMEIDA
Dizia-me um amigo, atreito às estatísticas e aos números. que nos últimos dias teria havido em Portugal um consumo muito excessivo de alka-seltzer. A causa, dizem os cientistas sociais, era a posse iminente do governo de António Costa. Dizia ele que, desde que se confirmou a existência de uma maioria de esquerda efectiva na Assembleia da República, como suporte de um governo democrático -- o governo de António Costa -- a azia povoara as hostes da direita, incapazes de engolir a realidade política. Olhava-se Passos e Portas, ouvia-se o Montenegro ou o Magalhães e percebia-se que o sapo não lhes passava na garganta. EStava ali atravessado como um himalaia. Aquilo já não era apenas azia -- era uma indisposição nauseante, como aquelas que os tipos da bola sofrem depois de uma cabazada (onde é que eu já vi isto?), então, como hoje mostrou à saciedade, na cerimónia de posse, na Ajuda, o insustentável Cavaco, a operação política já não consistia em engolir um sapo, mas um elefante!
Como no teste do algodão, o seu facies não enganava: raiva contida. Foi isso, aliás, que as suas palavras demonstraram, quando perorou, mostrando bem o seu contra-gosto à legalidade democrática, quando não uma ponta de ódio à Constituição que lhe travava a mão no seu propósito de dissolver a Assembleia da República, na sua teoria política de que se deveriam fazer tantas eleições quantas as necessárias até haver uma maioria conveniente à direita!
Quase com um pé no estribo para abandonar o Palácio de Belém, ainda teve o topete de ameaças para as quais nem sequer tem poder ou autoridade para tal função. Fazia lembrar aqueles incompetentes que, no trauliteirismo político, costumam dizer (já depois de bem agarrados, claro!):
-- Agarrem-me se não vou-me a eles e dou-lhes cabo do canastro...
É, claro, a vã glória dos cobardes ou a má fé dos desclassificados.
Olho, outra vez, a televisão, na rotina da sua reportagem. António Costa fala em mudança de política, no combate à pobreza e ao desemprego, na viragem do desastre austeritário. Lentamente, a câmara percorre o rosto de Cavaco, que está de gargalo levantado, e de viés, o primeiro-ministro que acabara de empossar. O que o plano revela é um esgar de amargura, um cinzentismo de indisposição. Terá ele engolido um elefante? -- pergunto, pensando que, neste caso, não há alka-seltzer que lhe valha...

Sem comentários:

Enviar um comentário