segunda-feira, 30 de novembro de 2015

ESTA NOITE, HÁ 47 ANOS...

Há coisas que não se esquecem porque a memória tem essa capacidade fantástica de inscrever nos passos da vida aquilo que gradua como essencial, no plano das emoções e dos acontecimentos. Nesse inventário, às vezes de pequenas e grandes histórias, outras vezes de vivências dramáticas dos quotidianos, mas quase sempre esse regresso fragmentário ao passado ensina-nos muitas coisas, sobretudo que o tempo, na ampulheta da sua unidimensionalidade indiscutível e certeira, pontuava os dias ou as noites de sobressaltos, quando não de pequenas esperanças que não eram outra coisa senão vagalumes na noite escura.
Ao ritmo da sua dimensão local, o Fundão teve os seus pequenos e grandes sobressaltos, alguns de dimensão tão absurda e irracional que hoje os mais jovens, que viveram sempre em liberdade, têm de fazer esforços de grande imaginação para poderem entender a realidade de então em toda a plenitude. Há 47 anos,a pequena vila que o Fundão era viveu um desses instantes, de brutalidade fascista, tão insólito que a população inteira, ferida no seu orgulho, viveu fundo uma indignação que não se apagou tão depressa.
No Fundão faz-se todos os anos, à última badalada da meia noite do dia trinta de Outubro, na dobra para o 1.º de Dezembro, uma manifestação popular em que se celebra a independência nacional. O pessoal junta-se no Pelourinho, fronteiro à Câmara, e com a banda a ajudar tocam-se e cantam-se o hino nacional e o da Restauração. É imemorial este "Portugueses celebremos..." ninguém é capaz de adivinhar o gesto colectivo originário, mas costuma-se dizer, como atestado de verdade e antiguidade, que já o avô do meu avô falavam desta colectiva afirmação de independência. Imemorial, portanto, tanto que a espuma dos dias nunca conseguiu diluir, fizesse chuva ou nevasse, o que às vezes acontecia...
É verdade que o país era uma prisão real ou virtual, como agora se diz, e, como dizia o Alçada, quando às vezes tocava a campainha não era propriamente o leiteiro ou o padeiro, mas a PIDE para prender pessoas de bem. E é verdade, também, que na multidão em movimento surgiam ousados vivas à independência nacional ou (mais baixinho) à liberdade.
Veio por essa altura para o Fundão um comandante da PSP, de nome Câncio (ou Canço?), um tipo de figura sinistra, óculos de fundo da garrafa, a que a farda dava facilmente uma imagem daqueles serventuários menores nazis, que apareciam nos filmes. Era especialista na repressão aos estudantes, em Lisboa. E, de facto, o sujeito, mal assentou lugar no Fundão,logo começou a fazer malfeitorias, em rusgas e vigilâncias políticas (como no 5 de Outubro), que mostravam a qualidade da besta e o seu carácter demencial sobre a forma como interiorizava a repressão fascista.
Então, na manifestação do 1.º de Dezembro, actuou. Pela calada da noite carregou sobre os manifestantes (que se reagruparam) e na rua João Pinto, onde se situava o Posto, barrou a via com guardas armados de metralhadoras, obrigando a dispersar os manifestantes (eu também lá ia), com tiros de intimidação. Foi uma noite de sobressalto, mas com saborosas vitórias finais.
Para a história ficar completa: houve meia dúzia de cidadãos que no dia seguinte os agentes identificaram para serem remetidos a tribunal. E foram. O delegado do Ministério Público, era o dr. Laborinho Lúcio que centrava as questões no carácter histórico (e imemorial) do acontecimento, e o juiz, o dr. José Marques, que, lembro-me muito bem, perguntou ao polícia Veríssimo (que corava com facilidade):
-- Há quantos anos está o sr. cá na terra?
E ele:
-- Ora, senhor doutor, há mais de vinte...
-- Nestes anos todos em que está no Fundão, lembra-se de algum ano em que esta manifestação não tenha sido feita?
-- Oh, não, Senhor doutor, é todos os anos!
E o juiz:
-- Então, qua andaram os senhores a fazer?
Foi tudo absolvido, claro.
E julgo poder fazer aqui uma confidência que há dois ou três anos, o dr. Laborinho Lúcio me fez, numa conversa à volta do meu e seu Fundão. Disse-me ele que, por esse tempo, escrevera ao seu superior hierárquico (salvo erro para Coimbra) explicando quem era a figura do Câncio ou Canço ou como raio o gajo se chamava. E sublinhava que esse chefe da Polícia tinha vindo para o Fundão -- não para resolver casos, mas para criá-los.
Estou em crer que isso terá contribuído para ter recebido guia de marcha.
Na altura, a Censura impediu que o caso fosse noticiado. Esta prova de Censura é um texto do "Jornal do Fundão", que pergunta: "É proibido festejar o 1.º de Dezembro?".
Escrevo isto ("para que conste") pouco depois das 18 horas. À meia-noite, ouvir-se-á o som das doze badaladas, e lá estarão outros, como os de 1968, a celebrar o 1.º de Dezembro com a determinação de sempre. "Portugueses celebremos..."

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