sexta-feira, 27 de novembro de 2015

LEMBRANÇA DE MÁRIO BARRETO

DESENHO DE JOÃO ABEL MANTA
Poucos se dão conta: o persistente assassinato da memória que atravessa os dias que vamos vivendo é um fenómeno de morte que nos vai matando lentamente a todos, como se a vida se tornasse num subtil (ou nem tanto) panteão de apagamentos e supressões. É como se as cidades estivessem condenadas a um gradual livro do esquecimento, produzido ao sabor de analfabetismos ou preconceitos ideológicos. Na pressa dos dias, agora configurados à chamada aceleração da História, a "alma" das cidades parece já não ter tempo para aquilo que alguns chamam as questões prosaicas que não poucas vezes são fragmentos identitários da história colectiva ou elementos vivos da poética das cidades, como dizia Pierre Sansot. Nessa voragem, se esquecem ou rasuram nomes e se remetem rostos à opacidade, que é outra espécie de morte. E, no entanto, essas pessoas e esses rostos deram muitas vezes um contributo notável ao complexo processo de uma cidade se fazer a si própria.
Situo hoje, nestas palavras, um lugar de memória: Castelo Branco. E um nome: Mário Barreto. Soube agora, em leitura atrasada de uma crónica do Costa Alves, no "Reconquista", da morte de Mário Barreto. "A cidade não conhece Mário Barreto. Arriscaria dizer que a cidade não quis nem quer conhecê-lo", diz Costa Alves, e talvez não haja como ele, decifrador de tempos, para medir o ritmo dos dias, nas suas rotinas e nos seus fascínios.
Pus-me a pensar nos anos sessenta e na passagem da década numa cidade que, sendo capital do distrito, respirava os tiques do provincianismo, bem visível na figuração política e no conservadorismo dominante. Era aquilo que Torga classificou de "cidade de secretaria e guarnição". Mas se olhássemos mais atentamente para a realidade descobríamos pequenas ilhas em louvor do pensamento e da liberdade. À medida que os anos sessenta caminhavam para o fim conheci por dentro essa realidade, no convívio com um escol notável de pessoas que faziam da cultura um acto da libertação e do diálogo com a nova geração uma aprendizagem comum. Como não lembrar o dr. Vasco Silva e a sua casa, na velha rua das Olarias, que era uma espécie de escola permanente de cultura e civismo, ou a bondade e a paixão do cinema do dr. Armindo Ramos, do Carlos Vale, sempre inquieto e em sobressalto com a acção política imediata.
E havia o Mário Barreto que, como outros (o Vasco Silva, o Tito Zuzarte, o eng. Roque Barata) havia sofrido a prisão e as torturas da PIDE, pelo crime de ter pertencido, como outros, ao Partido Comunista. Aprendi muito com eles todos, mais de forma persistente com Vasco Silva, num companheirismo admirável sempre com livros e música, e tudo o que fosse arte, à mistura, na vivência de leituras, sobretudo na Bélar, na Avenida Primeiro de Maio, que na altura era para nós uma espécie de lugar de culto cultural.
Olho agora para o Mário Barreto, que também era professor, com magistério cívico e de ideias. A discrição era, nele, uma virtude tão natural como o ar que se respira. caminhava pelas ruas num anonimato quase total, mas também ele, o professor de matemática, tinha uma cultura vastíssima e fazia da leitura uma aventura quotidiana. Às vezes, quando a tarde começava a descer sobre a cidade, subíamos com ele aquela rua estreita, que sobe dos Três Globos e vai dar à Senhora da Piedade e acolhíamo-nos à sua casa, ao espaço da biblioteca, onde tinha os seus livros (era uma verdadeira biblioteca de combate!) e os seus discos, a sua companheira música. Ouvíamos Shostakovitch e outros compositores da grande música russa, e, sobretudo, falávamos e ouvíamo-lo longamente explicar as questões mais fundas daquela filosofia que era menos para interpretar o mundo do que para transformá-lo!
Olho outra vez para esses dias, para os rostos, para a riqueza de tudo o que nos ensinaram não como professores, mas como companheiros de viagem. Lembro-me deles,com afecto. E, às vezes. em fugazes encontros com o Carlos Vale tentamos pôr a memória em dia. E lembro, também, os que se sentavam comigo à roda das mesas dos cafés (na Bélar ou no Arcádia), discípulos aplicados na universidade da vida: o Carlos Ambrósio Ferreira, o Ulisses Garrido, o João Ruivo, o Ambrósio Ferreira (mais puto e a abrir caminho como artista plástico), o João Teixeira, que já praticava a arte poética e publicou um livro que dizia haver ultramar e ultramorrer!
Também havia miúdas, tão jovens e inquietas como nós, que não cito para não me esquecer de nenhuma, que eram bestiais, umas ainda estudantes outras já professoras, e que connosco partilhavam a ideia do poema de Herberto Hélder, que cito de memória: todas as mesas são boas para o pensamento! 
Era na velha Assembleia que se dava expressão a essa persistente aprendizagem do convívio com os Mestres, em múltiplas actividades culturais (lembram-se das sessões de jazz do Luís Pio, das exposições, dos colóquios sobre a República e a "Seara Nova" com a presença do António Reis?) Caramba, como éramos felizes, com esta ideia de combater o fascismo, à luz do dia. A Assembleia: ainda hoje lembro a publicação que lá foi produzida pelos mais jovens e que sintomaticamente se chamava "Guernica". Fiz uma notícia sobre isso, que me deu um enorme prazer e que a Censura, em parte, deixou passar.
É assim. A partir na notícia triste do Mário Barreto, poisei, por momentos, nos prazeres da memória, que era o que Adriano gostava de fazer, segundo deixou escrito Margarite Yourcenar.


1 comentário:

  1. Alguém disse que a memória é o único paraíso de onde não podemos ser expulsos. É triste que a contribuição de tantos se consuma na voragem dos dias, mas é próprio da condição humana que assim suceda. De qualquer forma, bem haja por ter evocado tais dias, a nossa liberdade presente também é fruto do vosso combate passado, por muito que a tomemos como algo de garantido...

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