terça-feira, 24 de novembro de 2015

"SAUDADES DE MIM"

Voltar à escrita, regressar à respiração arterial das palavras, olhar serenamente para os dias antigos, e, como se tivesse a mão do homem que trabalha a pedra, cinzelar a memória com acontecimentos e histórias vividas, sorrisos de dias felizes, pôr a prosa em dia contigo em longas conversas sobre as navegações no espaço e no tempo: os lugares que configuram e cimentam existências e afectos. Voltar à escrita, ter ou dar notícia da primeira neve, olhar a Gardunha e tentar reter o cromatismo surpreendente das árvores (penso sempre que Van Gogh gostaria de beber aquelas cores para a densidade das suas telas), parar outra e outra vez sobre as coisas, as casas, os lugares, as velhas ruas, as árvores centenárias que perderam a idade, a sinfonia dos pássaros ou a música aquática dos dos fios de água, e perceber nos detalhes ou nos grandes-planos que enchem os olhos, a grandeza dos horizontes próximos ou longínquos: a festa da vida olhada com novos olhos, como queria Proust. Voltar à escrita para viver o tempo escasso que nos coube em sorte. Voltar à escrita como exigência, também, de memória ténue de um fio temporal comum.
Vejo as palavras caírem sobre o branco do computador, como os passos na areia ou na neve, que desaparecem à medida que caminhamos, e penso que o chão verbal se edifica aqui, sílaba a sílaba, como breve despedida e tributo de gratidão. Aqui, neste espaço, que é pessoal e por isso aberto ao intimismo das emoções do universo próximo, publiquei textos e referi outros alheios sobre a partida, sempre prematura, sempre irremediável, de meu irmão José César. Outros, na imprensa, completaram um retrato que, de muitas maneiras e mais uma, era singular e único. Reler os textos, passar os olhos pelas evocações, é agora como fazer a mão do homem que trabalha a pedra e lhe dá a força que supera a efemeridade.
Então, cruzou-se comigo neste instante uma história, que guardei sempre como daquelas vivências que ficam presas a nós para sempre. Eu conto. Eu estava no "Jornal do Fundão" e um dia ligou-me o José Cardoso Pires, querido amigo, escritor dos maiores que a literatura portuguesa já teve. A sua voz que eu conhecia tão bem e me soava sempre como a a expressão cristalina do seu carácter, uma voz, já se vê, feita de firmeza, de tonalidade forte, que lhe dava uma maneira ao mesmo tempo pausada e agreste no falar. Nesse dia, quando o telefone tocou, percebi-lhe que o tom firme estava pontuado de emoção, como se a voz do Zé tentasse iludir as lágrimas.
-- Tenho um texto para si que gostaria de publicar no JF -- disse-me, acrescentando logo tratar-se de uma evocação de José Rabaça, que nesse dia tinha morrido. Ele, que não era muito dado à prosa emocional e trabalhava a palavra até ao osso, explicou-me que o Rabaça fora muito mais do que um companheiro e um amigo -- fora um irmão! Era isso que ele queria escrever e escreveu.
O texto chegou -- penso até que foi o último artigo que publicou num jornal -- e eram, de facto, duas páginas de emoção funda, com um título que eu não esqueci nunca e que dizia apenas: Saudades de mim!
Agora, como uma luz, as palavras do Zé Cardoso Pires vieram ao meu encontro para caírem no branco da página do computador, desta vez na evocação breve do meu irmão. É isso: olhamos para o tempo, rebobinamos o filme dos dias vividos, e temos saudades de nós. Tomando de empréstimo as palavras do Cardoso Pires, é o que me apetece  escrever agora e aqui, ao mesmo tempo que inscrevo um sentido tributo de gratidão aos amigos que fizeram chegar até nós o conforto da amizade em tantas e tantas palavras solidárias. Talvez isso atenue as "saudades de mim". Talvez.

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