segunda-feira, 16 de novembro de 2015

TEMPO DE MEMÓRIA



Os meus Leitores hão-de desculpar-me esta exposição íntima, e eu, no preciso momento em que escrevo, não deixo de ficar dividido entre o silêncio e a palavra, porque a morte na dimensão pessoana não é outra coisa senão a contingência de alguém deixar de ser visto, tornando essa realidade pungente a verdade que outro poeta deixou: a vida é o que resta da morte. Então, meus Caros, no caso destas memórias apressadas sobre meu irmão Zé, talvez o mais razoável fosse plasmar aqui o poema célebre de Walt Whitman ("Blues Fúnebre"), que é a expressão da dor levada ao mais alto grau, e, por isso, aqui o deixo, na magnífica tradução de João Barreto Guimarães:

"Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta."

Não é por acaso que nestas palavras doridas, me encosto, como se precisasse desse abrigo fraterno, à poesia, porque era disso que muitas vezes falava com ele, que foi sempre meu leitor benévolo e crítico, espécie de conselheiro literário, que me tornou leitor do "Magazine Litteraire" ou as novidades do ensaísmo e da ficção de matriz anglo-saxónica. Agora, olho para antigamente, e vejo nitidamente quando lhe devo nas navegações literárias que prossegui depois, e, também, de que foram os seus passos no empenhamento cívico e na defesa da Liberdade que moldaram o meu ser e estar no mundo. Essa cumplicidade foi sempre uma forma arterial de respirar a vida e a escrita.
Devo ceder este espaço de palavras livres a outros e faço-o, com gratidão, ao jornalista António Melo que publicou um texto (reproduzido em "Fascismo Nunca Mais") sobre a dimensão cívica do Zé César. Aqui o deixo:


JOSÉ CÉSAR PAULOURO DAS NEVES - morreu um democrata a quem luta contra o fascismo deve muito Para muitos era mais conhecido por embaixador Paulouro das Neves, para os do Fundão, onde nasceu, e para os de Coimbra, onde se formou em Direito, era o José César. Está assinalado com um seta, na foto tirada na prisão de Caxias, em 24 de março de 2012, que ilustrou uma reportagem que o José Pedro Castanheiro fez para o Expresso sobre os 50 anos da crise académica de 1962, que o António Pedro Ferreira fotografou. Ele e o António Taborda, que é o 4º a contar da esquerda, a espreitar, também do Fundão e colega de curso do José César, são de uma crise académica anterior, a da luta contra o Decreto-Lei 40900, de dezembro de 1956, que visava transformar as associações estudantis em delegações da Mocidade Portuguesa. O papel que desempenharam nessa crise e o apoio que deram na de 1961/62 fizeram que fossem ilustres convidados deste dever de memória que assinalou o Dia do Estudante de 1962, proibido pelo regime salazarista e que por isso se fez nas ruas, entre cargas policiais e tentativas de apaziguamento. José César recordou o que foram esses tempos de sombria convivência, onde um esbirro ou bufo da PIDE tinha o poder de interceptar cartas e suprimir conversas, apenas porque lhe parecia que um deles podia ser «politicamente suspeito, precisamente numa crónica intitulada Dever de memória, publicada na revista que comemorou os 64 anos do "Jornal do Fundão", em dezembro de 2009. Ironiza com uma carta datada de 1967 à qual nunca respondeu porque só disso se dela se deu conta quando numa visita tardia, porque sempre indesejada, aos arquivos da PIDE, na Torre do Tombo, a encontrou entre outras devassas, tendo Manuel Branco por remetente, agora arquiteto, então exilado em Grenoble. Pequeno sinal mas que dá o retrato de um país onde mesmo os chefes de correio eram serventuários da polícia e indignos profissionais. Vale a pena ler a crónica, que anexo, pois o estilo conciso e a prosa com a semântica exata, era uma característica do embaixador Paulouro das Neves, como realça o seu colega Seixas da Costa, num texto que também anexo e vai junto com o testemunho magoado e saudoso do Fernando Paulouro Neves, longos anos diretor do Jornal do Fundão e irmão mais novo de José César. O seu corpo vai estar em câmara ardente a partir das 16h de segunda-feira numa das capelas mortuárias da Basílica de Estrela. O funeral realiza-se na terça-feira, saindo para o cemitério do Alto de São João às 14h.
Texto enviado pelo jornalista António Melo.

Apenas um acrescento: a querida Helena Pato, numa mensagem solidária que me enviou, lembra os presos políticos que defendeu no Tribunal Plenário.

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