segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

EM LOUVOR DO OUTONO

FOTOS DE GLAUCIA MALENA

Agora que as horas caminham rápidas para o solstício, e o Inverno começa a sentir-se nos ossos, lentamente, pela neve e pelo vento frio que está ventando (Mário Quintana), o sol breve que poisa a medo nestes dias de escassa luz ainda coloca "um frémito de emoção no meio da névoa", para utilizar um verso do grande Carlos de Oliveira. Apresso-me, por isso, a ir ao encontro da memória do Outono, que se despe vagarosamente das suas cores e nos deixa atónitos com imagens, sempre diferentes, da sua passagem de mais um ciclo. Há um verso de Sophia que fala de sombras e de luz: o Outono é rico nessa arte de tocar a realidade, e, tocando-a, dar-lhe uma surpreendente expressão de diversidade. Ponho-me a adivinhar a razão por que os poetas foram marcando este tempo com o anátema da melancolia. Vá lá saber-se porquê? Talvez apenas e só porque a simplicidade de uma folha que baloiça ao sabor do vento, e outra, e outra, são coisas para onde aponta a "bússola do coração" (outro verso, este de Albano Martins). Talvez. A roda do tempo, com os seus mistérios e as suas surpresas, os seus cantos primordiais, é tão rica no seu andar, que um compositor chamado Vivaldi compôs a Sinfonia das Quatro Estações, inventando com a sua música uma alegria universal para o ano inteiro, que também nos ensina a viver os dias como instantes únicos e irrepetíveis. Torga (sempre os Poetas!), que palmilhou o país, de lés a lés, e se comovia com os horizontes descobertos em altas montanhas ou com as surpresas de pequenos lugares de dimensão humana insuperável, ensinou-nos a ver a realidade com outros olhos, pois, dizia ele, devemos olhar uma paisagem tantas vezes quantas as necessárias para ela se tornar num "estado de alma". Foi assim, porventura, o seu registo de "Portugal".
Agora, nesta navegação breve sobre o tempo em que eu flutuo, como quem acena um adeus ao Outono, vou à procura do tal frémito de emoções transmutáveis em imagens que a memória arquivou, como quem recolheu uma bênção dos deuses indicativa de que o castanheiro da Índia quase despido, a mutação do cromatismo dos castanheiros e das carvalhas, os prodígios que vestem a terra, são apenas a surpreendente e cíclica renovação da vida. É um mundo de oferendas da natureza que todos os dias se oferece à nossa disponibilidade para ver e perceber o que Alain, nas suas Propostas sobre a Felicidade, deixou escrito e que eu cito de memória: às vezes, não é preciso ir longe, basta amar o que se vê.
Andava eu a deslumbrar-me com uma tília, de um amarelo intenso, a que a luz artificial da avenida dava mais vida, ou com os altos ramos do plátano, mais resistente ao calendário, quando uma amiga, a Maria Eugénia Ferrão, me enviou um conjunto de fotografias que eram, elas próprias, o melhor elogio ao Outono. Eram da Serra da Estrela, da parte de Manteigas, do Outono a despedir-se docemente, em todo o seu esplendor. Olhando para elas experimentava a velha sensação de eu próprio ter vivido já os detalhes desses caminhos captados agora pela mestria da brasileira Glaucia Malena, o que me leva sempre à ideia de Lorca: a fotografia prolonga a ilusão de eternidade, de presença.
Às vezes, como nestas imagens, basta olhar o céu e descobrir o bailado da luz entre as folhas das altas árvores ou viver o fascínio de caminhar sobre o chão de bosque daquela álea de carvalhos, atapetado de folhas -- que coisas fabulosas nos dá o Outono! Olho outra vez as imagens, cruzo-as com outras minhas, como num filme, adivinho que ainda há muitas folhas a cair, até as árvores ficarem descarnadas, e digo baixinho para mim:
-- O solstício já pode bater à porta...
Apropriando-me e transformando um poema do O'Neill:
"Está lá fora o solstício...
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao solstício
estar entre a gente!"



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