sábado, 5 de dezembro de 2015

FERNANDO MATOS SILVA E OS FILMES PROIBIDOS

JOÃO MOTA E MARIA DO CÉU GUERRA
FERNANDO MATOS SILVA
Há quanto tempo eu não via o Fernando Matos Silva e não lhe dava um abraço por tudo aquilo que ele já deu ao cinema português, por tudo quanto lutou para fazer também do cinema uma "liberdade livre", como no verso do António Ramos Rosa, por tudo aquilo que construiu, fazendo cinema, pela memória colectiva! Foi como se retomássemos prosa antiga, num universo de amigos e de afectos. Encontrámo-nos no Fundão, onde ele veio participar, trazendo consigo dois filmes (o "Mal-Amado" e "Acto dos Feitos da Guiné") num ciclo de cinema centrado nos filmes proibidos. É uma iniciativa louvável que vai em várias edições -- já cá esteve Manuel Mozos e a sua fabulosa memória da censura cinematográfica -- acontecimento que junta à volta do cinema e dos seus autores, gente jovem  do curso de cinema da UBI, e que aqui dão passos em frente, visitando o cinema por dentro, num diálogo aberto com realizadores ou especialistas da história do cinema português.
Então, Fernando Matos Silva, venha de lá outro abraço!, sempre no seu jeito despretencioso para falar da sua arte, falou de si e do cinema, da memória (e de memórias dilaceradas) que ele transportou para um cinema sobre o seu país e também sobre o Império que se desfez depois de Abril.
"O Mal-Amado", é preciso dizê-lo, foi totalmente cortado pela Censura a a película apreendida, já muito perto do 25 de Abril (terá sido o último filme proibido). 1973/74. O que nos dá i filme é, sobretudo, o ambiente sufocante da sociedade portuguesa, com a densidade de quotidianos sofridos onde a felicidade era proibida. O fio condutor da história, com uma subtil relação com a guerra colonial, põe a nu como as relações sociais, mesmo as amorosas, eram dominadas pela posse e por isso, decerto, o romance vivido entre Maria do Céu Guerra (tão jovem!) e João Mota acabará em tragédia. Já o "Acto dos Feitos da Guiné" é uma leitura da História que o autor contrapõe à "Crónica dos Feitos da Guiné", de Zurara, fazendo um registo da guerra na Guiné, contado na primeira pessoa, em que a guerra explode na violência brutal do conflito colonial. Memória dilacerada do realizador Fernando Matos Silva, que também por ali andou. O filme é de 1980. Proibido? - perguntará o leitor. Não, escondido, não exibido, que é outra espécie de censura, como aliás ficou provado com outros dois filmes, do realizador albicastrense Luís Alvarães ("O Oiro do Bandido" e "Malvadez"), que não puderam respirar com o público, bloqueados dos circuitos de exibição.

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