quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

RECEITA PARA O ANO NOVO

Não como mera afirmação de calendário, rotinada pelo costume, mas como desejo sincero de esperança, que é alimento primordial de futuro, este é o tempo e a hora de saudar os mais de 200 mil leitores que me acompanham, nestes dois anos de "Notícias do Bloqueio", compartilhando votos de um Ano Novo feliz, pois a felicidade é aquela coisa mínima a que todos temos direito. Então, corações ao alto, na exigência de um tempo novo e verdadeiramente de mudança, de uma sociedade mais justa e igualitária, onde as crianças não chorem por pão, os cidadãos não morram por omissão de tratamento nos Hospitais, os mais velhos não sejam trucidados pela miséria e os mais jovens possam olhar o futuro com um sorriso nos lábios, não sendo condenados ao exílio para sobreviver. Não sei se falar em Estado Social, depois de quatro anos e meio de um poder fanático que, em larga medida, o esvaziou e tentou destruir, não é um aceno de tristeza em instantes de festa. Mas é decerto o mínimo exigível, no plano humano. Ouvimos a música da esperança, mas tão despojados da nossa cidadania tudo nos parece do domínio da utopia.
Daí que um 2016 de exigência cívica e de participação colectiva na Res Publica seja também um voto a partilhar para a construção da mudança. E é, por isso, que agora e aqui, deixo aos meus queridos Leitores, um poema de Carlos Drummond de Andrade (Receita para o Ano Novo) e aquela música de Mozart, que nos parece oferecer o paraíso (Eine Kleine Nachtmusic). Drummond, lá está, reclama contra a indiferença e apatia; Mozart leva-nos para os continentes do sonho. Uma boa forma de dizer: feliz Ano Novo!, companheiros de jornada.

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

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