quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

SAMPAIO DA NÓVOA E OS SILÊNCIOS

Nunca esqueci o que um dia li num livro que, nos anos 60, se confrontava com alguma marginalização. Era "Aden-Arábia", de Paul Nizan, em que o autor fazia reflexão sofrida sobre a guerra. Acontece que o autor do prefácio, um texto longo, de escrita densa, era Jean Paul Sartre. O que eu não esqueci, na roda dos anos, foi a história contada por Sartre. Lembrava ele que um grupo de consagrados escritores tinha ido visitar o velho André Gide, já então em fase descendente da vida. Um deles, resolveu inquirir o Mestre, perguntando-lhe:
-- Qual é a melhor receita para ocultar um homem?
Gide olhou para eles e respondeu com uma palavra sábia:
-- Silêncio!
A sociedade portuguesa tem sido fértil na utilização expedita desse método para ocultar homens, ideias, estilizar essa espécie de morte antecipada que tantos dividendos produzem na política e nas políticas. Na área da informação, há verdadeiros especialistas na arte de fazer desaparecer pessoas ou acontecimentos, por mais respeitável que seja o interesse público que os determina. Este ilusionismo sobre a realidade é feito, genericamente, com a receita identificada por Gide: silêncio! Aí reside, porventura, uma razão suplementar para identificar a anemia cívica, que é, também, um dado estrutural de que ninguém fala, pois é muito filho do silêncio...
Talvez valha a pena sobrepor estas questões ao universo das eleições presidenciais, que são a menos de dois meses, para breve reflexão sobre a subalternização informativa atribuída ao acto eleitoral, e, dentro da subalternidade, o subtil favorecimento de alguns candidatos: há sempre rostos mais iguais do que outros.
O caso mais nítido de programada opacidade é o que acontece com o candidato Sampaio da Nóvoa, o primeiro a anunciar a candidatura, bem longe das legislativas, cuja candidatura se tem desdobrado em iniciativas sobre problemas cruciais da sociedade portuguesa, da Educação à Saúde, às realidades sociais como a pobreza e as desigualdades, ao martírio da juventude e ao Portugal futuro, para usar o título do poema de Ruy Belo. Bem sei que nestas eleições há sempre divisores comuns para facilitarem a tarefa do candidato da Belém. Mas há estranhas coisas por aí.
Há dias, contou-me um amigo que gerara alguma indignação o silêncio com que as televisões (parece que só um canal passou imagens em passo de corrida). Não disse um especialista, há anos, com escândalo, que a televisão era tão eficaz a vender um sabonete como a eleger um Presidente da República? Um dos canais, dizia o meu amigo, desculpou-se que nesse dia não era possível dar cobertura ao acontecimento de Sampaio da Nóvoa, pois na agenda da candidatura de Marcelo não havia qualquer iniciativa!
Quanto a mim, que há muito reafirmei que Sampaio da Nóvoa é o meu candidato, espero bem que a sua rara força de humanismo, de cultura e de solidariedade estilhace o cerco de silêncio que os donos da informação lhe querem impor, como forma de ocultar o Homem que queremos ver em Belém.

2 comentários:

  1. Caro Fernando Paulouro,
    felizmente que aind há vozes como a sua que denunciam estes silêncios ensurdecedoras da democracia. Creio que é tempo de, com o seu precioso contributo, mobilizar um conjunto de personalidades que possam formalizar e dar corpo a este protesto exigindo a intervenção da ERC. É completamente inaceitável o que se está a passar e é urgente agir. Muito obrigada!

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  2. Estou completamente de acordo com a Lúcia! É preciso denunciar isto, porque os donos da informação já escolheram o seu candidato e a manipulação é descarada!

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