sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

UM PRÉMIO E ALGUMAS NOTAS


A atribuição do Prémio Gazeta de Mérito, que aconteceu esta quarta-feira, em Lisboa, motivou tantas mensagens de congratulação, de viva voz ou no FB, que só encontro o traço firme da amizade verdadeira como justificação. O que para mim, em dias particularmente pesados de inquietação, se gradua entre as coisas de importância superlativa que podem acontecer a um pobre mortal, sobretudo no "país relativo" onde o mérito é menos motivo de regozijo e mais razão das pequenas invejas e ressentimentos, que são elementos identificadores do provincianismo cultural português.  Neste caso, não posso queixar-me disso. Então, quero aqui deixar um abraço muito grato a todos que quiseram partilhar comigo este instante singular de uma longa carreira. E por isso, também, deixo o texto que li na cerimónia do salão nobre da CGD, em que esteve presente o ministro da cultura. Tudo por obra e graça do Clube de Jornalistas. Ao meu texto, que intitulei "Respirar com Palavras", junto no final (falta de modéstia minha, desculpem) a crónica de Fernando Alves na TSF, os seus fabulosos Sinais, e uma nota do Baptista-Bastos, o nosso BB, escrita há tempos, na sua A Caneta das Sete Léguas, "Jornal de Negócios"


RESPIRAR COM PALAVRAS

Trago aqui palavras de coisa nenhuma para expressar o tributo de gratidão que devo aos meus pares, corporizados na prestigiada instituição dos jornalistas portugueses, o Clube de Jornalistas, pela distinção que quiseram conferir-me, atribuindo-me o Prémio Gazeta de Mérito. Não há, decerto, galardão mais honroso a quem faz da vida uma biografia de palavras e respira com elas o fio de tempo que é a realidade. Neste instante de emoção funda, devo evocar, sem os citar, para não cometer injustiças, como ensina Borges, os camaradas com quem fiz corpo na aprendizagem de um ofício que foi sempre de uma grande exigência no combate de privilegiar o valor fundamental da liberdade de expressão, antes e depois do 25 de Abril. É com eles, pois, que devo repartir humildemente este Prémio e deixar aqui apenas inscrito o nome de António Paulouro, que acompanhei persistentemente no combate de uma vida inteira por um jornal livre.
Quando a vida se transforma no livro de todos os dias que é o jornalismo, onde nos escrevemos, e, escrevendo-nos, fazemos a crónica do tempo nosso e dos outros, as palavras são o alimento primordial que reelabora a memória, e, de certo modo, são a pele da alma do jornalismo, como alguém chamou também à literatura.
De todas as maravilhas que há no mundo, respirar com palavras (“são como um cristal, às vezes um punhal”, na síntese perfeita dos versos de Eugénio de Andrade), é dos maiores fascínios da aventura humana, pois é através delas, das palavras, que o homem se projecta na aventura de se fazer a si próprio e se liberta dos velhos atavismos que mitologias pacientemente fabricadas oferecem como dias fatais do nosso calendário. É esse o chão verbal do jornalismo: porque as palavras são a vida, e as vidas, na sua diversa matéria de sonhos, são as palavras.
É talvez por isso que me atrevo a lembrar aqui o que um dia ouvi dizer ao querido e saudoso José Cardoso Pires, quando falávamos de um país de pessoas exiladas dentro dele e de si próprias, um país de liberdades expropriadas e de Censura, um país onde todas as angústias encerravam as horas dos dias, como castigo que a nós, mais jovens, parecia para a eternidade. Dizia então o Zé, com a sua voz firme, que verdadeiramente importante era a forma como cada um forjava a morte, vivendo. Queria ele dizer na sua, que a vida lavrada de palavras, implicava a particular responsabilidade cívica e cultural de não permitir, nunca, que nos considerassem mortos por antecipação e nos encerrassem nalguma espécie de túmulo, por muito luxuoso que fosse, ou, o que era o mesmo, que nos matassem antes de tempo pelo silêncio, que é uma técnica muito exercitada em Portugal, ainda hoje, sempre que o pensamento livre e a exigência de liberdade se levantam na bruma dos dias.
À distancia do tempo, olho para essas palavras e descubro nelas projecções premonitórias. Vivemos agora dias que parecem voltar a ter eco no poema de Alexandre O’Neill sobre a sociedade portuguesa, quando os seus versos diziam “o medo toma tudo”. Aí o temos de novo, com pézinhos de lã ou nem tanto: o medo de pensar em voz alta (nas Redacções também, não vá o diabo tecê-las...), o medo da precariedade do emprego e da pobreza, o medo de existir, como escreveu José Gil.Tempos difíceis (também nas Redacções ou sobretudo nas Redacções) de um quotidiano triste e cinzento, onde a liberdade é equação cada vez mais difícil de resolver.
Daí as palavras e o seu combate. À imprensa e à informação, como pão essencial da liberdade, cabe parte inteira desse combate. na selva difícil em que campeões de negócios tomam conta do universo da comunicação social, em que analfabetos irrecuperáveis dizem que a cultura “não interessa ao negócio” e capatazes do cifrão vivem alegremente a sua brutalidade na glória dos despedimentos.
Tudo isto se resume num combate que converge numa palavra: Liberdade. E, ligado a ela, uma outra: esperança. Reafirmando, uma vez mais, a minha gratidão pela forma como quiseram honrar as palavras que tenho lavrado no inventário dos dias, lembro-me agora (e não é por acaso!), do Manuel António Pina, meu Poeta, meu Jornalista, meu Cronista. E meu e nosso Amigo, cuja ausência ainda é dor funda dentro dos nossos corações. E lembro-me dele por causa do caminho que todos os dias é preciso recomeçar, que ele tão bem deixou impresso nos seus versos: “Isto ainda não é o fim nem o princípio do Mundo/Calma. É apenas um pouco tarde”.
Bem-hajam, como diz o falar colectivo da minha terra.

Sinais - TSF Rádio Notícias


Prémio Gazeta para um grande jornalista
Fernando Paulouro, grande jornalista, dos maiores de que a profissão ainda se pode e deve orgulhar, foi distinguido com o prémio Gazeta de Mérito, do Clube de Jornalistas. É a consagração dos seus pares a um profissional honrado e talentosíssimo, que continuou (até que maus fados e incompetências sórdidas se aliaram para o mandar embora) o trabalho de seu tio, António Paulouro. Ambos fizeram do Jornal do Fundão um título de nobreza da Imprensa portuguesa, e tanto um como outro transformaram o semanário das beiras numa grande referência moral e profissional. Fernando Paulouro reuniu, ainda não há muito, em dois volumes, sob o título o'neiliano "País Relativo", parte das crónicas admiráveis que publicou no seu jornal de sempre. O Clube de Jornalistas, uma vez mais, procedeu a uma homenagem justíssima, e os camaradas e amigos de Fernando Paulouro com isso se congratulam. Eu, em particular. 

1 comentário:

  1. Muitos Parabéns, Fernando;

    https://www.youtube.com/watch?v=TTwbbEhYQ5k&index=9&list=PLIFU4Ee44Ij-QLHI6pLdBBmzIqSDRywIj

    Umm Abraço do BB

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