quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

TEMPOS SOMBRIOS

Em Agosto de 1971, a Censura não autorizou a publicação deste cartum no "Jornal do Fundão". Uma boa metáfora para os dias de hoje e para o crime contra o Charlie Hebdo
Costuma-se dizer, nos ofícios fúnebres de alguns mortos, antes de despacharem os cadáveres para a sonolência da eternidade, como um último elogio: a sua morte não foi em vão! Há uma semana que arrastamos connosco muitas perplexidades sobre os assassinatos à queima roupa perpetrados em Paris, tentativa de execução sumária do Charlie Hebdo, e tornamos recorrente o tema da liberdade de expressão e do jornalismo, como matriz maior do direito à informação. Às vezes, é nas situações trágicas que se ganha maior grau de consciência dos direitos e valores, essenciais à construção da felicidade numa sociedade digna desse nome. Em Portugal, cujos hiatos de liberdade numa história longa de séculos, são tão breves, a consciência pública da liberdade de informação e do complexo de direitos que gravitam à sua volta, como diria o querido amigo Gomes Canotilho, fica muito esbatida por um país cercado por debilidades culturais e cívicas, fantasmas de Censuras, medos de pensamentos autónomos. Talvez, por isso, os jornalistas imolados no altar do fanatismo religioso, tenha servido, no caso português para pensar um pouco melhor estas questões essenciais à vida.
Pensar melhor, dizia eu, e foi isso que me aconteceu num excelente artigo do filósofo e escritor Fernando Savater, publicado no "El Pais", intitulado "Obrigado a Wolinski e aos demais".
Ele fala na importância de Wolinski na sua formação (e não aconteceu isso com todos os da geração de 60?), mas o que verdadeiramente é importante no texto de Savater é menos a sua emoção pessoal e mais a reflexão que ele faz sobre o contexto político que dominam hoje a circunstância do fanatismo e do carácter desviante das religiões para a ignomínia.
Por isso, vou ao artigo de Fernando Savater por ser um texto para nos por a pensar naquela acepção que o Zeca avisava de que "não há só gaivotas em terra/quando um homem se põe a pensar". Diz Savater: "Foram executados por fanáticos? O que é um fanático? Chesterton disse que louco é aquele que perdeu tudo, absolutamente tudo, menos a razão. Os fanáticos perderam tudo, absolutamente tudo, menos o seu dogma religioso, ou nacionalista ou o que se4ja. Creio que o pior das religiões são aqueles que crêem absolutamente nelas e as utilizam como justificação para castigar o próximo. O laicismo é um requisito indispensável da democracia: afastá-lo ou relativizá-lo é ir contra a liberdade de consciência, que é a base de todas as demais. Um atentado como o de Charlie Hebdo não vai só contra a liberdade de expressão, mas também contra a liberdade religiosa, porque dentro desta cabem os que crêem e os que não crêem, os que rezam e os que blasfemam, S. Tomás ou Jacques Maritain e Nietzsche, Freud e Wolinski. Cioran disse que todas as religiões são "cruzadas contra o humor" e é coisa indubitável, pelo menos entre os que as tomam à letra".
Savater lembra, aliás, como todos sabemos, que o fanatismo teocrático não é exclusivo dos muçulmanos e recorda o que, há uns anos, se passou em Paris e das bombas que colocaram "extremistas cristãos em cinemas que programavam A ÚltimaTentação de Cristo ou Je Vous Salue, Marie!, para exemplificar que "as crenças religiosas são como enormes feras, amiúde esteticamente formosas, mas temíveis devoradoras de homens: não podem passear-se pelas urbes urbanizadas até que tenham sido bem domesticadas".
Há, no texto, de Savater, uma citação muito curiosa de Santayana: "não há tirania pior que a de uma consciência retrógrada ou fanática que oprime um mundo que não entende em nome de outro mundo que é inexistente".
Aí está, o que muitos fingem ignorar: é que o combate contra tudo isto inicia-se precisamente contra aquilo que forma a consciência retrógrada, os arcaísmos ideológicos, e isso só é possível com um combate verdadeiramente cultural, em que o medo de pensar não seja um crime e a palavra um pão que não pode ser aprisionado. É a receita contra os tempos sombrios.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

LEMBREI-ME DO VILHENA

-- ... Mas a rádio, a televisão e os jornais dizem que basta saber isto para garantir o futuro!
-- Então que novidades há sobre política nacional?
-- Não si. Ainda não li os jornais estrangeiros.
A dança dos  pauliteiros
Capitalismo paternal: -- Como você trabalha nesta casa há mais de quarenta anos, a gerência resolveu que, no próximo inverno, a sua secretária fique junto do aquecedor.
Habitações Económicas (ou a publicidade ao serviço do povo
Nestes dias de inquietação e raiva, lembrei-me do José Vilhena (hoje tão esquecido), que antecipou tanta coisa no tempo, que foi o autor com mais livros proibidos durante a ditadura, e o mais
persistente e demolidor crítico do cavaquismo (ele foi premonitório em relação à desgraça!), na publicação que intitulou O Cavaco. Escrevia e desenhava, ia contra a corrente das conveniências, era anti-clerical, era anti-Estado (no que o Estado tinha de corrupto ou de estigmas totalitários), era anti-militarista, era anti-castas sociais, era contra o país que se ajoelhava, era anti-hierarquias, era anti-capitalista (quando o capitalismo em Portugal era uma religião). Escreveu centenas de títulos, disse mal de todos, tinha um sorriso desarmante sobre a realidade que outros queriam impingir como xarope salvador.
Nestes dias em que "Je Suis Chrarlie" foi proclamação universal, lembrei-me do José Vilhena. À escala portuguesa também o tentaram suprimir (não fisicamente), mas não faltaram vontades, antes e depois de Abril, de lhe confiscarem o lápis e a imaginação. Lembrei-me,pois, do Vilhena, e do seu enorme talento, da sua capacidade infinita para o traço demolidor, da sua inteligência para nos fazer sorrir, sabendo ele que o ódio ao riso é próprio dos parvos. Doente, retirado num Lar, falo dele como artista e cidadão, gesto breve de amizade e afecto. E entre muitas coisas que poderia contar (a sua ligação ao Fundão e ao Jornal do Fundão e, sobretudo, a meu tio Armando Paulouro é inesquecível), escolho uma que tem um significado muito especial. (Outro dia, falarei do filme O 5.º Pecado, que realizou no Fundão).
Nosa anos 60, tempo mais duro porventura da ditadura salazarista, se é possível medira a Pulhice Humana (título de um livro de Vilhena), criou-se em Lisboa O Mundo Ri e a sua distribuidora a SPECIL Três nomes constituíam o projecto: José Vilhena, Armando Paulouro e Simões Nunes). Vilhena tinha uma relação quase fraternal com o meu tio Armando e lembro-me de uma vez lhe ouvir dizer que os dois eram sócios de produção de ironia. E eram. Conviver com eles era viver instantes únicos.
Em 1964, uma colecção de postais ilustrados com desenhos de Vilhena, intitulada Cenas da Vida Portuguesa - Personagens e costumes da 2.ª metade do século XX, levou a PIDE a desencadear uma forte repressão, tentando apreender os postais e prendendo Vilhena, Armando Paulouro e Simões Nunes.
Os desenhos irritaram Salazar. O humor também, então, era perigoso em Portugal e talvez isso explique a razão que, num país de tão ricas tradições sarcásticas, não haja hoje um jornal satírico neste país.
No outro dia, li uma crónica de Manuel Rivas que contava que, estando Voltaire na agonia, manifestou uma vontade: disse que era do partido do riso.
Hoje, ao lembrar-me do querido amigo José Vilhena, ofereço aos Leitores a colecção de postais (são 9) que enfureceu Salazar, que não partilhava o riso como saudável. À distância do tempo (são de 1964), penso que é Vilhena no seu melhor. Os seus desenhos ajudam-nos decerto a compreender uma perplexidade que parece acompanhar-nos todo o tempo: que raio de país é este?
Agitação social: -- Estes tipos estão cada vez mais subversivos. Não contentes em estender uma mão à caridade, agora pedem com as duas...

Turismo: -- Mostra a dentadura, Chico, para que os "camones" levem boa impressão cá do país.
Promoção social: -- Vamos lá... seja simpática comigo que eu sou pessoa para lhe aumentar o ordenado...
A técnica do pão pela imagem: -- Vai depressa chamar a tua irmã, que ela gosta muito deste prato.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

UM PAÍS NO CORAÇÃO





Ao Prof. Manuel Antunes
e à totalidade da sua equipa (isto é: aos que, todos os dias, reinventam vida)

Há tantos anos que o Alexandre O'Neill (tanta falta que ele nos faz!) escreveu um verso que na sua sátira implacável retratava o desconhecimento de Portugal: país por por conhecer, por ler, por ler, por escrever, e muita coisa parece inalterável. Eu cito o verso de memória. Algumas vezes tem sido meu bordão para me indignar sobre um país que mal se conhece a si próprio, que gosta de estar à tona da espuma dos dias, que olha a realidade com lentes desfocadas, que tem prazer em iludir as questões (tanto lixo debaixo dos tapetes!), que desinformado de tudo, gosta de arrotar postas de pescada sobre "os grandes problemas", como os Acácios do Eça. É o país do faz-de-conta, que o senhor Cavaco Silva tanto banalizou durante esta década, é o país de tratar os cidadãos como idiotas, nunca lhes contando a verdade dos factos, pois a confidencialidade goza-se num certo Olimpo de imbecis que se julgam deuses...
O Eugénio, vou mais uma vez à sua poesia, tem um verso fabuloso que diz assim: o meu país é um corpo exasperado! E é tão pura a verdade, numa raiva que se mistura com desinteresse e esquecimento, que me lembrei dele a propósito de experiência pessoal recente, que me deu tempo, enquanto deitado, numa cama hospitalar, olhava para o tecto, para pensar nestas coisas, e, sobretudo, para perceber que a minha exasperação era menos poética e mais política. Os meus Leitores, que me aturam nestas prosas de circunstâncias, não se importarão que eu tire, uma vez mais, da opacidade, o Serviço Nacional de Saúde como realidade primordial e essencial à coesão social da nossa frágil sociedade.
E porque o histórico de experiências é vasto, leva-me a questionar, na peugada dos versos de O'Neill, que conhecimento têm os portugueses das coisas fantásticas que se fazem neste país, nos mais variados domínios, eles que estão todos os dias a ser alimentados por televisões e jornais sobre a realidade epidérmica de um país coberto de sangue e de crimes, onde os valores da consciência pública se penduram, com a maior das facilidades, no bengaleiro do mercado público (Manuel Alegre)?
Confrontado com questões pesadas, já o escrevi, percebi por experiência própria como o Serviço Nacional de Saúde é essa peça de matriz civilizacional que nos protege. No governo do cifrão, que vê a Saúde como uma grande oportunidade não admira que o queiram tornar um mero apêndice constitucional para vender a retalho. Eu, que o experimentei em duras circunstâncias, defendo-o como o ar que se respira (porque é da vida que se trata) Primeiro (por duas vezes) no Centro Hospitalar da Cova da Beira, depois para desfazer equívocos no IPO de Coimbra, e, agora, finalmente um hospital central os HUC, de Coimbra, na dimensão da sua unidade de referência que é o Centro de Cirurgia Cárdiotorácica, que o Prof. Manuel Antunes criou e dirige.
E sempre, nesta observação directa, como agora aconteceu, o que se vê naquele universo é o país transversal, com todas as suas cores sociais, às vezes um país socialmente frágil que se ergue para dizer, na sua forma de ser e estar, que é utente de um direito essencial que se chama Saúde. E tem, nessa condição, um sentimento de auto-estima.
Eu estive lá, pois. Não escondo que o trabalho de equipa e a dinâmica operativa, que a atenção primordial à pessoa, que a informação partilhada como naquelas aventuras humanas que têm por síntese a ideia de que todos fazem tudo em conjunto, que eu vi no Centro de Cirurgia Cárdiotorácica, me impressionou, pois no cômputo geral de tanta actividade, das questões mais rotineiras das questões cardíacas ou pulmonares, aos transplantes, há um enorme universo de pessoas que são reabilitadas, um mundo à parte onde se salvam pessoas.
Os portugueses conhecerão esta realidade, como outras de sentido igual ou parecido que existem também no Porto ou em Lisboa? Temo que não. Quantas reportagens os jornais fazem sobre estas matérias? Estão sempre mais ocupados na desgraça imediata que deixa sempre um travo amargo de país por cumprir.
Hoje, queria apenas, contrariando o livro do esquecimento que é a crónica oficiosa do país, deixar aqui este aceno de gratidão àquela Unidade que, à sua maneira e com o seu saber e o seu empenho, permite a tantos que continuemos a olhar o mundo à nossa volta. Dizia eu, coisas fantásticas se fazem ali. E nesse tempo longo em que olhamos para dentro de nós próprios com todos os vagares, ocorreu-me que os prodígios da ciência, que no fundo se impõem ao quotidiano, se cruzam com outros versos em louvor do homem, versos imemoriais de Sófocles (vou buscá-los à magnífica Antologia da Poesia Grega Clássica, de Albano Martins, na Antígona), e que na sua sabedoria eterna nos dão, afinal, uma infinita alegria de viver: Muitos são os prodígios, mas nenhum/é mais extraordinário do que o homem.
É isso que a cada hora ali se comprova como descoberta de todos os dias. Não o esqueço.

domingo, 11 de janeiro de 2015

UMA PALAVRA PARA MILHÕES EM PARIS


Também eu, como se estivesse em Paris, e pudesse ser mais um a juntar-me à multidão, pensava nos rostos comuns, milhões de rostos, milhões de pessoas verticais e solidárias, milhões de pessoas que apenas transportavam consigo o legado de humanidade que outros lhes transmitiram como adn primordial e intocável, milhões de rostos, pois, que na humana condição de cidadãos afirmavam a repulsa contra a violência e o fanatismo, a intolerância e a loucura, o absurdo afirmado na expressão maior da sua crueldade, que é sempre aquela que parece gratuita e aleatória, um modo perverso de morte quando ela toca o silêncio dos inocentes,
A Paris planetária deste domingo acolhia-nos a todos, menos aos que demencialmente desejam aniquilar o homem e os bens civilizacionais, tudo aquilo que é a enorme conquista em que o homem se fez a si próprio. Todos, menos esses, se reviam nos rostos que se cruzavam com o nosso olhar de espectadores ainda atónitos pelas circunstâncias trágicas do crime contra o "Charlie Hebdo". Sim, é preciso dizer, contra algum moralismo balofo (Ferreira Fernandes escreveu um texto notável no "Diário de Notícias" sobre a blasfémia em que dizia: sagrada é a palavra!), que no crime de Paris se atingiu o coração da liberdade de expressão, tentando cercá-la pelo medo. E, por isso, os milhões que saíram à rua foram a afirmação que a irracionalidade pode tudo, proibir, ferir, matar), mas não nos tira o pensamento nem a consciência dos instantes.
Este mundo cada vez mais perigoso, que faz desfilar perante nós, tantos mortos, tantos genocídios, tantas guerras esquecidas, tantos senhores de armas e de guerras, faz-nos, às vezes, pensar numa ironia tremenda de Auden, num texto que precisamente intitulou O Massacre dos Inocentes, e que termina com estas palavras terríveis: "Quero que toda a gente seja feliz. Quem me dera nunca ter nascido."
Mas agora quero afastar para longe a ironia trágica de Auden e incorporara-me nos milhões que de rosto aberto afirmaram a comum humanidade em Paris. E chegar ao ponto de uma palavra sagrada: Liberdade. E vou ao poema, que tantas vezes li à procura de luz e esperança, que tem esse título e que o grande Paul Eluard escreveu para celebrar. melhor que todos, essa palavra mágica que nos faz olhar o mundo com outros olhos. O poema, que é longo, podia também ser lido a propósito de Paris (e talvez alguém o tenha feito ou, pelo menos, pensado nele!) e aqui o deixo na tradução sempre bela de Jorge de Sena:

Nos meus cadernos de escola
no banco dela e nas árvores
e na areia e na neve
escrevo o teu nome

Em todas as folhas lidas
nas folhas todas em branco
pedra sangue papel cinza
escrevo o teu nome

Nas imagens todas de ouro
e nas armas dos guerreiros
nas coroas dos monarcas
escrevo o teu nome

Nas selvas e nos desertos
nos ninhos e nas giestas
no eco da minha infância
escrevo o teu nome

Nas maravilhas das noites
no pão branco das manhãs
nas estações namoradas
escrevo o teu nome

Nos meus farrapos de azul
em charco sol bolorento
no lago da lua viva
escrevo o teu nome

Nos campos e no horizonte
nas asas dos passarinhos
e no moinho das sombras
escrevo o teu nome

No bafejar das auroras
no oceano dos navios
e na montanha demente
escrevo o teu nome

Na espuma fina das nuvens
no suor do temporal
na chuva espessa apagada
escrevo o teu nome

Nas formas mais cintililantes
Nos sinos todos das cores
na verdade do que é físico
escrevo o teu nome

Nos caminhos despertados
nas estradas desdobradas
nas praças que se desdobram
escrevo o teu nome

No candeeiro que se acende
no candeeiro que se apaga
nas minhas casas bem juntas
escrevo o teu nome.

No fruto cortadao em dois
do meu espelho e do meu quarto
na cama concha vazia
escrevo o teu nome

No meu cão guloso e terno
nas suas orelhas tesas 
na sua pata desastrada
escrevo o teu nome

No trampolim desta porta
nos objectos familiares
na onda do lume bento
escrevo o teu nome

Na carne toda rendida
na fronte dos meus amigos
em cada mão que se estende
escrevo o teu nome

Na vidraça das surpresas
nos lábios todos atentos
muito acima do silêncio
escrevo o teu nome

Nos refúgios destruídos
nos maus faróis arruinados
nas paredes do meu tédio
escrevo o teu nome

Na ausência sem desejos
na desnuda solidão
nos degraus mesmo da morte
escrevo o teu nome

Na saúde rediviva
aos riscos desapar'cidos
no esperar sem saudade
escrevo o teu nome

Por poder de uma palavra
recomeço a minha vida
nasci para conhecer-te
nomear-te

Liberdade.