sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

DÍVIDAS E PERDÕES...


Durante mais de três anos ouvimos por aí basbaques desdenhar da renegociação da dívida, como se fosse uma heresia ao catecismo da Troika e ao poder dominante na União Europeia. Em Portugal, Passos Coelho e Portas, os homens do leme, orientados pelas navegações políticas de Cavaco, todos ajoelhados no altar da austeridade, olhavam para os desvarios da exigência da renegociação como uma blasfémia e penso que tinham mesmo, nessas alturas, o desejo de se transformarem em talibãs para dinamitarem essa ideia. Um dos mentores, Victor Gaspar, outro fanático da austeridade, viu o falhanço "colosssal" da sua política de miséria e pobreza e foi servir outros senhores para Manattan.
Por cá, ficaram os serventuários dedicados da senhora Merkel, criados sem libré para servirem os interesses financeiros da Alemanha, e nessa função deve dizer-se que Passos Coelho foi imbatível, ao nível da Europa.
O problema é que a própria Comissão Europeia já começou a ver o beco sem saída em que se metera que, claramente, punha em causa a própria construção europeia. E aí estão as medidas de Mário Graghi, do BCE, com a injecção de milhões de euros para inverter os perigos de deflacção e do próprio Junker, na tentativa de criação de políticas potenciadoras de crescimento económica. Tudo o que Passos Coelho contrariou, durante estes anos, cá dentro ou nos areópagos europeus. A tudo isso, soma-se a vitória do Syriza, na Grécia, o que motivou da parte do Primeiro-Ministro um chorrilho de ofensas ao povo grego que mostra bem a doença do infantilismo político, para não lhe chamar outra coisa.
E, no entanto, a roda da História, que se move, tem outras histórias no cartório, diferentes exemplos, que mostram como as causas e os efeitos se interpenetram na política e tirá-los da opacidade é um actos de proveito e exemplo para todos. Um dia destes, o jornalista Joaquim Estefania publicou no "El Pais" um excelente texto sobre o problema da dívida e do seu perdão. Ele começa por citar Keynes e o seu livro Consequências económicas para a paz, escrito em 1919, onde lembra que "a política de reduzir o país à servidão durante uma geração, de envilecer a vida de milhões de seres humanos e de privar toda uma nação de felicidade seria odiosa e detestável", uma crítica às condições impostas pelo Tratado de Versalhes à Alemanha. Joaquim Estefania fala depois do pós Segunda Guerra Mundial e de um panorama em que uma Alemanha arrasada cumprisse as exigências impostas pelos vencedores. Chegou o Acordo de Londres de 1953, em que "25 países credores (dos maiores, mas também a Grécia ou a paupérrima Espanha de Franco, que todavia não conseguido superar os níveis de produção de antes da Guerra Cicil) acordaram perdoar 62% das dívidas contraídas pela Alemanha. Essa reestruturação  foi chave para que a Alemanha voltasse a ser uma grande potência. Em Outubro de 2010, 57 anos depois, a Alemanha acabou de pagar a dívida pendente".
Talvez a senhora Merkel, com a sua arrogância sempre na ponta da língua, não saiba destas contingências da História. Talvez. Mas quando Passos Coelho, um seu criado (dela, Merkel) diz que as propostas do Syriza são histórias contadas às crianças devia saber que a Grécia, tão martirizada pelos nazis, deu esta lição de solidariedade, quando a Europa ainda era um campo de destroços sociais causados pela barbárie nazi.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

AUSCHWITZ


De vez em quando faz-se introspecção à crueldade e a memória que fica é sempre um sentimento de absurdo demencial que é a mesma coisa que dizer: uma irracionalidade levada ao infinito. Assinalaram-se (a 27 de Janeiro) os setenta anos da libertação de Auschwitz, ouviram-se testemunhos de sobreviventres (parece que já só há 300) e foi comovente vê-los a caminhar pelos lugares da memória da morte, rodeados de neve, a homenagear os milhões que ali foram mortos e gaseados. Quem alguma vez visitou um campo de concentração não terá esquecido a densidade do silêncio que paira sobre o espaço, parece que os pássaros demoraram muitos anos a regressar a esses locais de infra-humanidade. Só o silêncio parece a imagem adequada para a extensão do crime contra a Humanidade.
Depois de Primo Levi (Se Isto é um Homem), para quem a memória total do drama era uma impossibilidade, tornando a narrativa do holocausto impossível, depois dos poemas de Paul Celan ou das advertência de Adorno sobre o indizível que era Auschwitz, um certo pudor tomou conta das palavras, e, às vezes, preferimos refugiar-nos nas valas comuns das estatísticas tornadas mórbida linguagem da morte. Aí reside, porventura, o silêncio que se respira nesses lugares memoriais onde o homem foi tornado a negação de tudo. A realidade daquele universo não é passível de ser transportada para a imaginação. A pele da dor dos campos de extermínio, armados para a "solução final" é uma descida ao mais vil dos infernos.
Olho, outra vez, na reportagem que a televisão passa, os sobreviventes a pisarem a terra de Auschwitz,  vêm-me à memória as imagens de "Noite e Nevoeiro", de Resnais, o peso psicológico da viagem, como gado, para o campo de extermínio, e mergulho no romance fabuloso, As Benevolentes, de Jonathan Littel, que é uma narrativa aterradora sobre a produção da morte, em Auschwitz e noutros campos. Às vezes, a leitura (ou releitura) angustiada destes universos da violência e do absurdo, como é o caso do romance, ajuda-nos a perceber que para a natureza humana gerar monstruosidades e fazer do mal uma banalidade, basta um pequeno grão de areia na engrenagem dos povos. O resto (que é tudo) vem por acréscimo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O RADICAL DO LENÇO VERMELHO


O José António Freire Antunes, que morreu ontem em Paris, aos 61 anos, foi uma personalidade singular da vida portuguesa. Natural do Paul, Covilhã, fez o Liceu na Covilhã, e cedo revelou talento para a escrita e para o jornalismo. Nesse tempo, quando eu me cruzei mais com ele -- ganhou um Prémio de Reportagem "Jornal do Fundão", antes do 25 de Abril -- revelava já uma apreciável capacidade de observação sobre a realidade social, que plasmava em crónicas, numa escrita simples, como se requeria para a eficácia do texto.
O tempo imediato, que veio a seguir, fez dele um radical, assumindo uma militância determinada e de face descoberta no MRPP, num percurso que começou na Covilhã e viajou com ele para Lisboa. Afrontava tudo e todos, e na prática do seu radicalisamo ia para a primeira linha, levando com ele um lenço vermelho ao pescoço. Ingressara na Redacção do "Diário de Lisboa", onde pontificavam nomes grandes do jornalismo e da política de esquerda, e tornaram-se célebres, nos plenários de Redacção as suas discussões violentas com Mário Castrim.
Essa sua radicalidade, há medida que a vida amadureceu, transportou-a para o PSD, para onde foi como muitos dos seus camaradas de partido, e a esse espaço político levou a sua inquietação, chegando a disputar a liderança do partido, opondo-se a Marcelo Rebelo de Sousa. Perdeu, claro, mas a sua influência política ampliou-se quando Cavaco, então Primeiro-Ministro, o chamou para seu adjunto.
Mas  o José António Freire Antunes tinha outros planos, sobretudo a investigação histórica. E essa paixão, essa vocação para gastar anos no silêncio dos arquivos e das bibliotecas, levou-o a publicar uma obra que é um contributo importante para a compreensão da história contemporânea portuguesa, como são o caso das investigações feitas aos arquivos de Salazar e Caetano, por exemplo, ou a história das desavenças entre Kennedy e Salazar.
Eduardo Pitta, no seu Blogue (Da Literatura), lembrava ontem que alguns dos seus livros deviam ser reeditados: "Investigador de História Contemporânea, deixa uma obra de mais de vinte títulos sobre temas tão diversos como Sidónio Pais e a Primeira República, a posição de Portugal no contexto da Segunda Guerra Mundial, a luta dos Aliados pelos Açores, o marcelismo, a correspondência de Salazar e Caetano, a Guerra Colonial, Jorge Jardim e a descolonização de Moçambique, o 25 de Novembro, Sá Carneiro e a AD, a política externa com Espanha e os Estados Unidos, a presença dos judeus no nosso país, a Opus Dei em Portugal, uma biografia de Champalimaud, etc." 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O JORNAL QUE ANTÓNIO PAULOURO CRIOU

António Paulouro trouxe Juscelino Kubitschek ao Fundão, em 1963, visita que despertou a ira de Salazar 
A sessão com João Cabral de Melo Neto, de que fala Cardoso Pires
Com Eugénio de Andrade e Egídio Namorado
Com Fernando Lopes Graça
Há 69 anos, em 26 de Janeiro de 1946, António Paulouro materializava um sonho: nascia o "Jornal do Fundão".  O Fundão era una pequena e harmoniosa vila, nesse tempo confinada a um núcleo urbano restrito que se confundia com a matriz rural envolvente, a torre da igreja via-se de todo lado e a vida decorria na ilusão de uma paz que a realidade social desmentia a toda a hora. Muitos julgaram que o projecto estaria condenado à efemeridade que ilustrava a história dos jornais locais. Ao arrepio da tradição local, provinciana e de sacristia, António Paulouro sonhara outras ousadias para o seu jornal, aquilo cuja síntese vem no primeiro editorial, como propósito informativo e compromisso social irrecusável: "Estaremos ao lado dos que trabalham e dos que sofrem..." Estas palavras definiriam aquilo que se tornou, pelo tempo fora, a marca identitária de um jornal de causas, tendo sempre como denominador comum a região. De certo modo, onde havia um caso humano ou a expressão colectiva de um drama, estava o "Jornal do Fundão". Foi essa diferença que dilatou surpreendentemente o jornal, que já não cabia unicamente na terra que o cabeçalho orgulhosamente afirmava, e se tornou tributo informativo de uma região por inteiro, num país que não as continha nem queria ter, que gostava de dividir os males pelas aldeias na programação de uma mentalidade arcaica e provinciana, no que o provincianismo tem de patológico atraso social e cultural.
A obra de António Paulouro foi sempre em sentido contrário, sempre para além do tempo que era o seu, e o "Jornal do Fundão" ganhou um genuíno sentido de inquietação e de indignação colectiva, aquilo que se poderia dizer uma espécie de última instância onde as feridas sociais da região tinham expressão livre, porta-voz de questões incómodas, rompendo tabus políticos da ditadura e pondo a nu, como aconteceu com os mineiros, por exemplo, a desumanidade de um regime iníquo. A essa perspectiva, somou António Paulouro a ideia de que a cultura constituía um elemento primacial da informação e do desenvolvimento e um direito inquestionável das populações. O "Jornal do Fundão" tornou-se, nesse combate, ao mesmo tempo de resistência e de afirmação cívica, um caso singular na imprensa portuguesa, com suplementos literários que hoje fazem parte da História da Literatura e tribuna de opinião que acolheu os maiores nomes da cultura portuguesa do século XX. O jornal tornou-se um caso nacional, que Salazar tentou silenciar, em 1965, com a suspensão por seis meses e, depois, com a obrigatoriedade de apresentação de provas de página à Censura, em Lisboa, caso único na história da imprensa portuguesa.
Nessa aventura de resistência, que eu tive o privilégio de acompanhar, António Paulouro jogou tudo o que tinha para jogar. Os próceres do Salazarismo, com o senhor Soares da Fonseca à cabeça, até fizeram uma reunião no Seminário brindando ao que eles disseram então estar consumada "a morte dessa pústula que era o "Jornal do Fundão". Enganaram-se. No respaldo dos mecanismos repressivos do regime, tão abençoados por eles, não podiam prever a têmpera de resistência e de carácter de António Paulouro, que resistiu a tudo: à tentativa de destruição económica, à Censura, às ameaças dos esbirros. Às tentativas de mordaça. ele respondia, sempre: "Não me vão calar!"
E não calaram. Na sua prática de jornalismo, que era ao mesmo tempo exigência de liberdade e afirmação solidária pelos direitos  dos outros (os que sintomaticamente não tinham direitos!), deixou páginas admiráveis, como a fantástica narrativa, O Romance de António Castanheira, textos que ainda iluminam os dias.
À distância do tempo, não vejo outra personalidade do século XX português que possa ombrear com ele no desafio de fazer do Fundão uma pátria comum, mas especial, à escala do país. Escrevi muitos textos sobre António Paulouro (alguns estão nos dois volumes de Crónica do País Relativo), frequento com prazer de leitura as suas prosas, tenho a noção exacta do mundo que veio ao meu encontro com a sorte de ter sido o mais duradouro companheiro de jornada na aventura que foi o "Jornal do Fundão". Tantas histórias...
Neste ano de 2015, que assinala também o centenário do nascimento de António Paulouro, há uma memória de palavras que jamais se apagará, síntese de uma obra notável, o seu "Jornal do Fundão", que um dia (em 1973) o José Cardoso Pires definiu assim:

"... A Beira Baixa não é uma simples designação etnográfica ou administrativa nem um lugar-comum de caciquismo político -- longe disso. De muitas maneiras e mais uma é isso que me faz ver o Jornal do Fundão. Descreve-me uma área do meu país, com a sua ambiência existencial e a sua equação social mas sem transigir nos bairrismos que alimentam as folhas provincianas e que servem ao impressionismo retórico dos cronistas citadinos. Pelo contrário. Conta, faz a reportagem semanal duma região, mas jamais a amesquinha com as sempre bem vindas aguarelas da pax ruris nem com as enternecedoras modéstias paroquiais. A sua sobriedade  é outra, a sua comunhão mais profunda. Encara com persistência e sem arrogâncias, este nó da terra no vector da actualidade do país: naquilo que o seu particular tem de nacional, e depois, de universal. No que há nele de sintomático da realidade comum a nove milhões de cidadãos.
Um programa assim, de informação actualizante, recusa à partida o isolamento conformado a que se votava até então a imprensa regional. E aqui, na Cova da Beira, o módulo difícil começa a ganhar corpo e expansão até atingir as dimensões e o prestígio que se lhe reconhece à escala nacional". E, num outro passo, Cardoso Pires sublinha: "... Não vou desfiar, longe de mim, os nomes de escritores de primeira grandeza que nele têm colaborado, nem pormenorizar empreendimentos editoriais, concertos que promoveu, prémios de jornalismo, sessões de convívio, espectáculos, sei lá. Apavoram-me os relatórios de elogio e as efemérides de magnas sessões. Em todo o caso não resisto a lembrar que foi neste Jornal que João Cabral de Melo Neto veio encontrar pela primeira vez com alguns dos seus camaradas portugueses. E que igualmente aqui um outro escritor, Alves Redol, meu amigo, teve a última intervenção pública da sua vida".

O José Cardoso Pires falava do jornal de António Paulouro. E hoje, fui buscar as suas palavras num aceno duplo de saudade. Fazem-me falta aquelas ousadias contra os poderes, fazem-me falta as palavras austeras de António Paulouro (se aqui houvesse jornalistas...), fazem-me falta os seus textos a desafiarem a Censura, faz-me falta o seu jornal, quando cada linha era um risco que se corria e todos ficávamos felizes como se acrescentássemos um pouco mais a um destino
que se cumpria.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

SYRIZA, A VITÓRIA CONTRA O MEDO

Alexis Tsipras: um dia histórico
Uma das consequências mais importantes da concludente vitória do Syriza (ficou apenas a dois deputados da maioria absoluta) é a derrota do medo. A miserável chantagem de alguns políticos, que se julgam donos da Europa (da senhora Merkel a Junker e outros funcionários menores da Comissão Europeia), a mão do medo sempre aberta sobre o eleitorado grego, a ameaça da retaliação, feita de forma directa ou mais subtil, não funcionou e os gregos, como se assumissem uma responsabilidade civilizacional milenar, vieram dizer que a austeridade e a pobreza, a exclusão social e a morte (lembrem-se os suicídios públicos) não são os caminhos da matriz europeia, da sua cultura ou da história da sua construção. A Grécia, com a vitória de Tsipras, mostrou que a democracia pode funcionar, como alternativa clara ao poder dominante, e que o futuro pode ser menos tempo do que alguns julgam. Foi, aliás, isso mesmo, que o líder vencedor, Alexis Tsipras, proclamou ao povo grego e à Europa: "Hoje, os gregos fizeram História".
A grande lição radica na insubmissão ao medo, na rebeldia contra a ameaça, na ousadia de afirmar uma realidade política diferente, na capacidade cívica de dizer aos velhos e gastos partidos tradicionais que as coisas podem ser de outro modo e que, apesar de tudo, as brutalidades sociais e intolerâncias dos catecismos das Troikas, inventadas pela Europa do cifrão, ainda não mataram de todo a esperança. Ontem, na Praça Sintagma, ela, a esperança, reproduziu-se à escala europeia.
A escritora e poeta Hélia Correia, que ama a cultura grega indo lá buscar raízes para a grandeza da sua obra literária, escreveu um livro de poemas, A Terceira Miséria, que é sobretudo um grito contra a forma coma a Europa tratou um país que contém na sua história a chave da nossa civilização.
 A terceira miséria é esta
a de quem já não ouve
a de quem já não pergunta
a de quem já não recorda
-- escreveu Hélia Correia.
A vitória do Syriza é, também, uma forma concreta de "interrogar esta mundividência ocidental, o seu racionalismo cartesiano, os seus modelos políticos falhados", no fundo a pesada anquilose de que fala o livro de Hélia. Para os senhores da Europa e seus criados (vem logo à lembrança como um pateta, Passos Coelho, atento e venerador da senhora Merkel, arauto das políticas de pobreza e desgraça, sacristão da Troika), que querem matar de vez o modelo social europeu, que são inimigos jurados da coesão social, às vezes, a democracia tem destas coisas: é uma chatice... Olha-se-lhes para as fuças e estão cá com uma azia e um medinho...