quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

ALDRABICES, ALDRABÕES E O IMPOSTO DE MORTE....

Tão amigos que nós éramos...
Quando Eça, em 1871 (ver Campanha Alegre), escrevia que o país perdeu a inteligência e a consciência moral" e que "já não se crê na honestidade dos homens públicos", estaria longe de supor que em 2015 Portugal navegasse numa realidade tão sórdida, numa anquilose moral sem precedentes, em que os campeões da aldrabice se multiplicam como as moscas junto a carne apodrecida. O que ele não escreveria hoje. Para a festa ser completa, o Presidente da República também não quis ficar atrás e quis disputar ao Primeiro-Ministro o troféu de campeão da aldrabice (já era, com inteiro mérito, o campeão da asneira e do vazio cultural!). A descarada mentira que sua excelência proferiu sobre o Banco Espírito Santo é hoje objecto de uma crónica demolidora de João Miguel Tavares, no Público", Cavaco e a filosofia da linguagem. (Deixo aqui só o princípio
"Cavaco Silva, a 21 de Julho de 2014, na Coreia do Sul: "O Banco de Portugal tem sido peremptório, categórico, a afirmar que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo, dado que as folgas de capital são mais do que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa. E eu, de acordo com a informação que tenho do próprio Banco de Portugal, considero que a actuação do banco e do governador tem sido muito correcta.
Cavaco Silva, a 30 de Janeiro de 2015: "Eu já reparei que alguns dos senhores, e também alguns políticos, disseram e escreveram que o Presidente da República fez alguma declaração sobre o BES. É mentira. É mentira! Alguns invocam uma declaração que eu fiz na Coreia. Na Coreia, eu fiz três declarações sobre o Banco de Portugal. E mais nada"). 
A retórica pode ser uma boa arte de mentira, mas um Presidente da República, aldrabão, que se esconde nos malabarismos das palavras para enganar deliberadamente os cidadãos, é um sinal de perda de consciência moral, como dizia o Eça no século XIX.
No campeonato das mentiras, o Primeiro-Ministro, Passos Coelho, tem realizado boas performances, ao longo do mandato. Eticamente muito reprovável é quando ele faz crer que vai tudo a caminho do melhor dos mundos, que vem aí um paraíso de via reduzida, que a situação social no nosso país está um brinquinho, que o desemprego está a cair... Claro que os portugueses que sofrem no quotidiano os dias difíceis e de fome, que se suicidam por não terem horizontes de vida, que estendem a mão à caridade, sabem que tudo isso é uma refinada pulhice, e, no plano político, uma infâmia. Ainda recentemente o INE veio dizer que há dois milhões de pessoas em risco de pobreza (e muitas já ultrapassaram essa fronteira de indignidade), entre famílias com crianças a cargo, desempregados e menores de dezoito anos. Se quisermos falar de outro inferno na sociedade portuguesa, com traços de violência e desespero, citemos a situação precária e também de muita pobreza que envolve uma enorme franja de idosos.
Mas para o Primeiro-Ministro e os seu séquito de ministros, todos teólogos ou profetas do austeritarismo, que nós vemos em viagens de propaganda ou a debitar para os microfones e para as câmaras de televisão, que levam pela trela, a realidade ainda é motivo de riso e de optimismo canalha.
Nunca mais esqueci uma crónica de Carlos Drummond de Andrade que tive o prazer de publicar em 1980, no "Jornal do Fundão". Já que vale a pena repeti-la, uma vez mais, que é de proveito e exemplo:

TUDO BEM

O Ministro do Optimismo reuniu os repórteres e declarou:
--A situação não é tão grave como estão dizendo. Aliás, a situação não é nada grave. Quem foi que disse que a situação é grave?
-- Ministro, os números...
-- Nunca ouvi os números dizerem alguma coisa. Número não fala. Se falasse, reconheceria que tudo está sob controle.
-- Perdão, sob controle de quem? Indaga um repórter.
-- Quando as coisas estão sem controle, é porque estão sob controle de si mesmas, e esta é um questão muito delicada, é um controle intestinal, entende? Se não entender, não faz mal.
-- O custo de vida...
-- O custo de vida é uma ilusão. Não há custo de vida. O Governo sustenta maternidades gratuitas. Ninguém paga para nascer. Além disto, para facilitar ainda mais a vida, cogitamos de estabelecer o imposto de morte. Todos os mortos pagarão esse imposto. Assim, ninguém mais vai querer morrer, e está salva a pátria. Eu não disse?

Imposto de morte! Olha se estes tipos, por cá, se lembram de mais este expediente para sacarem! Não faltarão políticas para acelerarem o fim definitivo dos cadáveres adiados...


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

QUANTO VALE UMA VIDA?

José Carlos Saldanha
Às vezes, há momentos  que nos deixam atónitos e nos dão uma tristeza imensa pela forma como, em pleno século XXI, a condição humana é encarada como coisa nenhuma. No deve-haver dos sujeitos do governo, já se percebeu -- e hoje voltou a ouvir-se -- a vida humana é uma questão de preço. Chama-se José Carlos Saldanha. É um homem fragilizado pela doença, mas hoje arranjou forças para irromper pela comissão de inquérito, na Assembleia da República, onde o ministro da saúde, blá-blá-blá, falava do caos nas urgências, e apontou o dedo ao ministro para dizer duas ou três verdades. Palavras que no ambiente solene e austero de uma sala do Parlamento eram uma lâmina afiada contra aquela hipocrisia governamental que carrega os seus preçários e as suas contabilidades, que gira só à volta de um economicismo de morte (digamos as coisas como elas são!), na retórica miserável que salvar vidas não é coisa prioritária. Portadores de Hepatite C, os doentes precisam de um medicamento para não morrerem. O medicamento é caro. Os médicos que os tratam prescrevem-no, cientes de que, sem ele, é a morte a prazo para os pacientes. As administrações hospitalares ou as comissões de farmácia torcem o nariz. É caro! Remetem para o Infarmed, que se tornará uma espécie de Deus para decidir quem irá sobreviver e morrer. Anda-se nisto há um ano, o Ministério da Saúde a discutir com a farmacêutica que tem a patente, para baixar o custo, e o doentes, à espera, a morrerem como podem
Que disse o cidadão português José Carlos Saldanha que gerou um silêncio comprometedor e um sentimento de perplexidade? Virou-se para o ministro da Saúde e disse, simplesmente: "Não me deixe morrer! Eu não quero morrer... Acabem com isto, por favor". Ele não sabe quanto tempo terá de vida, mas por ele (e pelos outros), disse uma coisa muito importante: "A doença é silenciosa, mas eu não me vou calar!"
Acho que houve um silêncio pesado na sala. Horas mais tarde, o Primeiro-Ministro, Passos Coelho, dizia que "os Estados devem fazer tudo para salvar vidas, mas não custe o que custar". Assim mesmo. Eu não sei quanto custa uma vida humana, mas Passos Coelho, nos seus canhenhos  de números apodrecidos, deve saber.O que isto também quer dizer é que, em certas circunstâncias, só os ricos se podem salvar!
Um dia destes, uma senhora de 83 anos, grande figura da literatura universal, grande escritora mexicana, Elena Poniatowska, face à corrupção e à violência no seu país dizia: "Não é que me doa o México, o que me dá é vergonha!". Olho à volta do meu país, para o cerco de desumanidade que o cerca, e aproprio-me das palavras de Elena: "Não é que Portugal me doa, mas envergonha-me!"

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

UMA VOZ

O Prof. João Videira Amaral
Da letargia cívica que cerca o Fundão, que deixou de reagir mesmo a questões essenciais dos seus direitos, como é o direito à saúde e a exigência do seu Hospital não ser desmembrado do Centro Hospitalar da Cova da Beira, isto é: não ser minimizado como estrutura do Serviço Nacional de Saúde, levantou-se uma voz autorizada a dizer quanto essa ideia peregrina da sua devolução à Santa Casa da Misericórdia representa um retrocesso. Falo do artigo que, sobre o tema, o Prof. João Videira Amaral publicou no "Jornal do Fundão".
Já aqui havíamos dito, como o verniz do pré-acordo celebrado entre o Ministério da Saúde, a União das Misericórdias e a Misericórdia do Fundão, representava aquilo em que este governo tem sido de uma eficácia extraordinária: esvaziar o Serviço Nacional de Saúde, como questão central do Estado, e fazer todo o tipo de fretes a negociatas, muitas vezes encobertas com a capa das chamadas IPSS, onde as Misericórdias têm parte de leão.
O Prof.João Videira Amaral é um dos mais reputados catedráticos da Faculdade de Medicina de Lisboa, autor de larga bibliografia sobre questões da Saúde, que teve um papel notável, como Pediatra, na transformação que colocou Portugal em posição cimeira, no plano internacional, no tocante à saúde infantil. Transcrevo do seu texto: "A não ser que a Misericórdia deseje transformar um Hospital ligado a outro (o da Covilhã, com ligação à Universidade e à Faculdade de Ciências da Saúde),concentrando recursos e aplicando um modelo de modernidade, num hospício semelhante aos do séc. XIX, ou casa de repouso ou ainda centro ambulatório em sobreposição ao actual centro de saúde do SNS".
Esta ironia do Prof. Videira Amaral articula-se com uma citação de um um texto que escrevera em 2012, onde colocava questões a que ninguém, ainda, respondeu. Perguntas: "Quando se fala em manter as valências, o que se quer significar? E pergunto como? Que valências? Que recursos humanos? E materiais? Com as dificuldades que vivemos como é feito o recrutamento de médicos? Irão ser "roubados" ao hospital da Covilhã? Ou o modelo previsto é um hospitalzinho (de nome apenas)? E qual a posição dos cidadãos do Fundão que têm direito ao SNS e necessitam de internamento com certa diferenciação de cuidados? Como se garante a qualidade do serviço prestado Estes aspectos carecem de explicação...."
Quase ao mesmo tempo em que o Prof. João Videira Amaral, vinha ao Fundão o negociador-mor da União das Misericórdias com o Governo, dizer que "a União das Misericórdias vai reivindicar a abertura de um bloco operatório no Hospital do Fundão". e o senhor Provedor, que é pessoa estimável, explicava que "devolução" não quer dizer privatização.
Sabemos todos como, no âmbito da Saúde, os hospitais privados que por aí há se transformam num excelente negócio, sobretudo à custa da mama do Estado, que os favorece do ponto de vista financeiro, em detrimento das estruturas do Serviço Nacional de Saúde.
Que o negócio está na calha, reconheceu-o (conferindo-lhe algum mistério) o ministro da Saúde na visita recente que fez a Castelo Branco, o problema agora é de tempo. A coisa pode demorar e depois...