sábado, 14 de fevereiro de 2015

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Há pouco mais de um ano, nasceu este Blogue: "Notícias do Bloqueio". A utilização de um poema que  eu amo, de Egito Gonçalves, escrito em 1952, que é um poema absolutamente referencial da resistência portuguesa ao fascismo, foi, da minha parte, um compromisso de indignação contra tudo aquilo que, nos versos de Egito, eram um acto de liberdade e de indignação, contra uma situação infame e um reduto territorial, o nosso país, reduzido a um espaço de infâmia e opressão. O poema, do mesmo passo que denunciava a infra-humanidade de um país chamado Portugal, era um aceno forte de esperança, alimento que se reproduziria no meio da sociedade bloqueada.
Com a devida distância, há muitas situações convergentes com a situação de então, se exceptuarmos a tipologia da ditadura salazarista, com os seus mecanismos repressivos objectivos (ainda ontem escrevemos sobre o assassinato do General Humberto Delgado!), e a realidade de hoje tem também os seus redutos de ignomínia e de pobreza, tem igualmente mecanismos do medo a funcionar
e a programar a desesperança quotidiana. A colocar, pois, uma exigência de consciência cívica e de indignação colectiva.
Essa a razão primordial deste espaço chamado "Notícias do Bloqueio". Escrito como um diário fugaz, lugar de observação da realidade nossa e alheia, exercício de pensamento em voz alta, sempre a favor do contra. Ao lume dos dias, salvo algumas vicissitudes pessoais, assim se foi cumprindo a expressão quase diária deste pensamento contra o estado de coisas a que tudo isto chegou. E o que é exaltante, nesta narrativa imediata, é o universo de amigos e leitores com quem distribuo as palavras, essas palavras que, como dizia Neruda dos versos, devem ser repartidas como o pão. É um universo planetário, que tendo o seu epicentro em Portugal, chega às Américas ou à China, à Rússia, a Londres ou a Paris, a Bruxelas, ao Brasil e à República Checa ou ao Malawi, por exemplo, fazendo desta pequena plataforma de pensamento local, um espaço planetário, no sentido em que as palavras voam, como queria João Guimarães Rosa, e viajam por cima das fronteiras reais ou imaginárias. Cem mil é coisa pouca, decerto. Mas a aventura tem pouco mais de um ano, ainda mal começou a andar. "Notícias do Bloqueio" cá estará como elemento de inquietação social e cultural. Para que "a esperança se reproduza", como dizia o poema de Egito, que agora aqui deixo aos meus Leitores, como tributo de gratidão a um poeta esquecido (um grande poeta) e como alto momento de criação poética.

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

HUMBERTO DELGADO: O CRIME FOI HÁ 50 ANOS


Algumas vezes recordei o poema belíssimo de António Machado sobre o assassínio de Federico Garcia Lorca, quando o poeta escreve "Viram-no caminhando entre fuzis...." e depois, sobre o instante do drama, a sua arte poética diz: "O pelotão de verdugos não ousou mirá-lo nos olhos".
Mas há, nesse poema sobre o crime que foi em Granada, uns versos que hoje voltei a ler para mim, em voz baixa, porque no calendário dos crimes que a história regista, se assinalam os 50 anos em que o General Humberto Delgado foi assassinado em Vilanueva Del Fresno, a dois passos da fronteira portuguesa. O crime, urdido na patologia doentia da repressão salazarista, nesse universo tão próximo que era ele e a sua circunstância, a Pide, teve requintes de crueldade porque o matadouro onde ceifaram as vidas de Delgado e da sua secretário, não foi pacífico, ele não quis morrer como gado. É verdade que também neste caso o Tribunal de Santa Clara, que julgou o caso depois do 25 de Abril, se portou miseravelmente e os juízes que nele participaram ficaram com as mãos cheias de sangue.
A história regista como, em 1958, na farsa das eleições presidenciais, o General, como candidato da Oposição, levantou a esperança e alma colectiva nacional, numa vitória que o salazarismo roubou ao povo português. Rancoroso, o beato de Santa Comba, nunca perdoou o desafio, e iniciou o ciclo de perseguições que obrigaria Delgado ao exílio. Mas ele nunca se rendeu. Conspirava para derrubar o regime (isto é: antecipar o 25 de Abril) e só a morte o podia calar.Foi esse o crime que envolveu matadores (os pides que foram a Villanueva Del Fresno fazer o serviço) e os outros autores que mandaram carregar no gatilho ou, simplesmente, abater o General.
Passam hoje 50 anos desse crime sem perdão. Não sei se os verdugos foram capazes de olhá-lo nos olhos, mas poderiam bem ser também para ele os versos de Machado. "Viram-no andar sozinho com Ela (a morte, acrescento eu)/sem medo da sua foice".
No silêncio que imperava em Portugal, na censura férrea do salazarismo, lembro-me da voz de Manuel Alegre, aos microfones da Rádio Portugal Livre, quebrar essa omissão proclamando que o General fora assassinado em Villanueva Del Fresno. Lembro-me disso, das palavras tomarem uma súbita força,como se quisessem dizer que o crime não poderia ficar impune. O 25 de Abril ainda demorou a chegar. Mas a figura de Delgado, que Salazar e os seus comparsas quiseram enterrar em terras da Raia, desfigurando os rostos, emerge hoje como o herói sem medo que fez tremer a ditadura, que, aliás, nunca mais foi a mesma.
É esse sentido que o poeta Manuel Alegre exprime no poema lhe dedicou como o retrato nítido do General sem medo, como o povo lhe chamou:

Humberto Delgado

Vivia junto ao risco e junto ao perigo
E onde outros eram sim ele era não
E onde outros eram cinza ele era chama

Combatia de frente o inimigo
E os matadores sabiam que viria
Porque por si ele nunca deu ninguém
Nem tinha sina de morrer na cama

De peito para a bala ele corria
Do alto da sua morte ei-lo que vem
De cada vez que Portugal o chama.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

UMA POSIÇÃO MORAL


Antes do 25 de Abril, na ditadura feroz do salazarismo (que alguns gostam de branquear como regime ditatorial português suave), proliferavam os abaixo-assinados, contra os atropelos aos direitos humanos, contra a censura e a repressão, contra a pide e os tribunais plenários (esses virtuosos juízes que eram o sustentáculo da repressão e que, depois de Abril, jamais foram beliscados ou responsabilizados pela sua miserável actuação criminosa. Mas os abaixo-assinados, as cartas colectivas dirigidas às vezes ao presidente do Conselho ou ao chamado Presidente da República, eram sobretudo uma forma de marcar uma posição moral e uma denúncia contra a opressão do povo português.
Lembrei-me agora desses tempos sombrios porque ontem um grupo de notáveis da sociedade portuguesa, que reune figuras das mais destacadas da vida cívica, cultural e científica do país, escreveu, a propósito da situação da Grécia,  uma carta-aberta ao primeiro-ministro Passos Coelho defendendo que é do "interesse de Portugal contribuir activamente para uma solução multilateral  do problema das dívidas europeias".A carta representa uma apelo para que Passos, no Conselho Europeu de hoje, em Bruxelas, não defenda a inalterabilidade da "política de austeridade". O documento lembrava ao primeiro-ministro que "o momento actual oferece uma oportunidade que não pode ser desperdiçada para um debate europeu sobre a recuperação das economias e das políticas sociais dos países mais sacrificados ao longo dos últimos seis anos. É por isso também do interesse de Portugal contribuir activamente para uma solução multilateral do problema das dívidas europeias reduzindo o peso do serviço da dívida em todos os países afectados, que tem sufocado o crescimento económico, agravando a crise da zona euro. Pela mesma razão, é ainda necessário que Portugal favoreça uma Europa que não seja identificável com um discurso punitivo mas com responsabilidade e não humilhe Estados membros, mas promova a convergência que não destrua o emprego e as economias mas contribua para uma democracia inclusiva".
No tempo de Salazar uma missiva deste tipo iria parar às mãos da pide e, porventura, alguns dos signatários seriam conduzidos a Caxias, para interrogatório (com tortura, claro). Agora, ops tempos são outros e a forma de manter o monolitismo do discurso de pensamento único (que é o que ocupa o crânio do sr. primeiro-ministro) radica na indiferença. Para Passos o que se pede é uma heresia, uma afronta ao altar europeu da senhora Merkel, em que ele é oficiante menor, e, por isso tenho todas as dúvidas que ele sequer abra a carta.
Mas, também aqui, os ilustres signatários, que não são ingénuos e muito menos idiotas, com este gesto marcam uma posição moral, que contraria o carácter infamante que têm sido as declarações de Passos Coelho (e, já agora, as de Cavaco) sobre a Grécia. A posição moral, como no tempo da ditadura, era uma bofetada contra o reino da estupidez. Mas desta vez a "besta" não pode mandar dar "safanões a tempo"...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

PASSOS GRÁVIDO DO PENSAMENTO ÚNICO


Enquanto as Urgências rebentam pelas costuras,  enquanto morre gente na longa espera, numa situação caótica que põe a nu não só o desprezo pelo Serviço Nacional de Saúde como expressa uma política que privilegia os vícios privados, em detrimento do interesse público, enquanto num país chamado Portugal a pobreza regressou e é já, como antigamente, uma fatalidade que permitirá um dia às suas vítimas paraísos póstumos, enquanto as escolas de música e de ensino artístico, outra das conquistas culturais relevantes do 25 deAbril, são asfixiadas financeiramente, Passos Coelho ri-se das coisas (faria bem em ouvir Manuel Ferreira Leite) e grávido do seu pensamento único diz, como Salazar, que em Portugal é assim porque não poderia ser de outra forma... E ri-se da Grécia (ele sabe lá o que a civilização ocidental deve historicamente à Grécia!) quando ela, com o seu primeiro-ministro Tsipras, articula a situação da crise grega com toda a crise europeia, porque a Europa arrasta na sua agonia uma crise de princípios e de identidade que é uma espécie de morte antecipada.
Regressado ao chão nosso, paro, escuto e olho no problema da Saúde. E anoto, de um comentário de António Bagão Félix, no "Público":
"No Estado Social, há dois tipos de bens: os que se concretizam através de transferências (pensões e prestações sociais e os que se concretizam pela provisão de serviços (saúde e educação). Se o efeito de medidas  socialmente regressivas logo se concretiza nas transferências, cortando, restringindo ou bloqueando prestações sociais, a redução ou deterioração da actividade e serviços na Saúde não é imediata, só se fazendo sentir diferidamente. As transferências do OE para o SNS foram em 2010 de 8.698 M€, sendo que em 2014, desceram para 7.720 M€ (-11,2%). Mais do que o previsto no memorando da tróika!"
E, no entanto, ouvimos a retórica de alguns basbaques da maioria (deputados ou ministros) a manipularem números, na ilusão infantil (contos para crianças...) de que os portugueses são idiotas e não percebem, na vivência directa dos dramas do quotidiano, essas mentirolas de conveniência.
Pela minha parte, oiço-os, às vezes, em longas diatribes celebratórias das suas políticas austeritárias, e lembro-me de um comentário que ouvi um dia ao dr. Rolão Preto. Um ministro de Salazar fazia um longo discurso (aquilo era um discurso mais pesado que a espada de D. Afonso Henriques) e alguém se aproximou de Rolão Preto para lhe perguntar:
-- O que é que ele tem estado a dizer?
-- Nada! -- respondeu o outro. Ele só tem estado a falar...
É o que stes tipos fazem, hoje: falam, falam, para não dizerem nada!

SÓ QUANDO DEUS QUISER...


Os meus amigos do Benfica, para se desculparem da leitaria do último minuto de ontem, no derby de Alvalade, dizem-me, a falta de melhor desculpa, de que é a imponderabilidade que faz a beleza do futebol. Neste caso a imponderabilidade significa um enorme "paio", daqueles que fazem alguns acreditar em milagres... Mas não me lembro de ver um jogo entre os dois velhos rivais, o Sporting-Benfica exige (ou devia exigir) sempre uma boa dose de ousadia, em que o SLB se apoucasse tanto numa postura tão medrosa ) ou merdosa), de tal forma que o guarda-redes do Sporting, Rui Patrício, não fez, durante os 90 minutos, uma única defesa! É caso para dizer que, à saída, lhe deviam exigir bilhete porque, afinal, ele esteve ali apenas como espectador!
O embaixador Seixas da Costa, que pratica uma ironia inteligente sobre questões maiores ou menores da realidade quotidiana, no seu Blogue ("Duas ou Três Coisas") deixou um comentário breve sobre o jogo, que aqui deixo com a devida vénia:
"O Sporting provou que se mantém um clube essencialmente católico: só ganha quando deus quiser. E parece que este não quer..."