sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

OCTÁVIO PAZ E A CENSURA


O meu querido Fernando Alves, que todos os dias, com os seus "Sinais", na TSF, com as suas crónicas sempre tão cheias de poesia, mesmo quando, às vezes, fala de coisas tristes do quotidiano (tristeza, triste, tristeza, como dizia o poeta), procura tornar mais limpo o tempo que habitamos, deu recentemente voz a uma questão que me é particularmente próxima: a Censura. A Censura, como sabemos, é um reduto de ignomínia e de opressão, que fere de morte a dignidade humana. Eu tinha lido no "El Pais" um excelente trabalho, assinado por Victor Nunez Jaime, intitulado "Octávio Paz contra o censor franquista. O grande poeta e escritor, que viria a ganhar o Prémio Nobel da Literatura em 1990, foi então tratado pelos energúmenos censores ao serviço do ditador, como autor de "versos estúpidos" e "frases obscenas". Claro que ele triunfou sobre a morte que eram o que os censores consubstanciavam.
Pois foi. Então, o Fernando Alves, o nosso potra da Rádio, deu voz à sua indignação e fez corpo com ela, com as palavras, na crónica que aqui deixo aos meus Leitores. Basta fazer clique aqui: 2015-02-17 O hieróglifo sensível

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

PECADOS


Por rebate de consciência, ou sabe-se lá porquê, o presidente da Comissão Europeia, o Jean Claude Junker, veio reconhecer publicamente que a Troika tinha sido um erro e, nas políticas impostas nestes anos, haviam sido cometidos pecados contra Portugal, a Grécia e a Irlanda. O que ele queria dizer, de certa forma, é que o bastião da sua Europa provocara crises humanitárias (os tipos com boas digestões não gostam do termo!), ou crises sociais profundas, que é quase a mesma coisa. De facto, o senhor Junker, que manifestou desde que foi confirmado como chefe da Europa, uma certa moderação, não é cego e sabe bem os crimes procedentes das políticas definidas pelos obscuros funcionários da Troika, cujo nome ninguém recorda.
As palavras do senhor Junker tiveram hoje reacções lamentáveis por parte de representantes do governo português, a começar pelo ministro Marques Guedes (e outros) que as reputaram de "infelizes", como se o Presidente da Comissão Europeia tivesse subitamente enlouquecido e fugisse às regras da ortodoxia do catecismo a que a senhora Merkel se ajoelha e com ela um conjunto de políticos sem espinha dorsal, como é o caso do primeiro-ministro, Passos Coelho. Chegou-se ao ponto de a Alemanha querer apresentar Portugal como exemplo do que a Grécia deve fazer porque é o único caminho!
Há bocado, estava a ouvir a dr.ª Manuela Ferreira, na tvi, desfazer estes políticos de pacotilha, portadores de um lamentável servilismo, incapazes de terem uma posição autónoma, verdadeiramente europeia. Não são homens, são garotos disfarçados de políiticos, num carnaval de conveniência. Diz a sabedoria de Heraclito que não nos banhamos duas vezes na água do mesmo rio, mas de ciência certa muita água há-de correr debaixo das pontes até que a dicotomia política, aparentemente estabelecida no Eurogrupo, se dissipe num plano de razoabilidade.
O que o senhor Junker, de certo modo veio dizer, com a sua perplexidade, é que Europa é esta que tem existido para provocar sofrimento social, devastação de desemprego, uma morte real ou aparente. Que Europa é esta? Foi para isto que ela foi construída?
O senhor Junker falou em pecados. Pecados se remissão porque o mal está feito. Mas a palavra foi bem escolhida, pela carga simbólica que ela tem. Pecados. Pecados dentro da consciência destes beatos como Passos, Cavaco ou Portas, que andam sempre a bater com a mão no peito e a cantar hosssanas a pedir que o Senhor lhes perdoe as ofensas. Como na Barca de Mestre Gil, eles não embarcavam, pois ali não embarcava nem tirania divinal. E uma coisa é certa, podem conseguir algumas absolvições, mas do povo que tanto marterizaram só podem ter um verediccto: vão para o Inferno!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O ABISMO EUROPEU


A União Europeia e os seus braços  obedientes, como o Eurogrupo, tem os seus tentáculos dominadores na informação. Enfeudada aos grandes interesses financeiros, serventuária de bancos falidos, criou o mito que, na conjuntura de crise que se vive, só a austeridade fanática, é o caminho. Uma mentira transformada politicamente em verdade. Um caminho que, como os portugueses também já sentiram, só conduz ao abismo da tristeza e da pobreza, espécie de condenação a que os países mais frágeis estão irremediavelmente condenados.
No último Euro grupo foi lançado um ultimato à Grécia. Os ultimatos, em história, dão sempre maus resultados, ou, pelo menos, são péssimos vaticínios. Ontem, escrevi que "o Cavalo de Tróia já está dentro da União Europeia. Cada dia que passa a metáfora torna-se mais evidente. O que espanta é que o Eurogrupo, que reúne os ministros das Finanças, se tenha tornado em rebanho com carne de obedecer. Ficamos perplexos com os silêncios da França (os tipos serão mesmo socialistas) e com a Itália, de Renzi.
Parece-me, por isso, esclarecedor o artigo que o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis publicou hoje no "New York Times" e que o "DN" reproduziu. Vale a pena ler.


Não há tempo para jogos na Europa

Yanis Varoufakis
ATENAS— Escrevo este artigo à margem de uma negociação crucial com os credores do meu país — uma negociação cujo resultado poderá marcar uma geração, e tornar-se mesmo um ponto de viragem quanto aos efeitos da experiência da Europa com a união monetária.
Teóricos dos jogos analisam negociações como se elas fossem jogos de divisão de bolos em que participam jogadores egoístas. Por ter, na minha vida anterior, na qualidade de académico, estudado durante muitos anos a Teoria dos Jogos, alguns comentadores precipitaram-se a concluir que, na qualidade de ministro das Finanças grego, estava a conceber bluffs, estratagemas e outras opções, tentando obter uma posição de vantagem apesar de dispor de um jogo fraco.
Nada podia estar mais longe da verdade.
Quando muito, o meu passado de Teoria dos Jogos convenceu-me de que seria uma completa loucura pensar nas actuais deliberações entre a Grécia e os nossos parceiros como um jogo de regateio a ser ganho ou perdido através de bluffs e subterfúgios tácticos.
O problema da Teoria dos Jogos, como eu costumava contar aos meus alunos, é o de assumir como dado adquirido os motivos dos jogadores. No poker ou no blackjack, esta premissa não é problemática. Contudo, nas actuais deliberações entre os nossos parceiros europeus e o novo governo grego, aquilo que se pretende no fim de contas é forjar novos motivos. Criar uma nova mentalidade que transcenda divisões nacionais, dilua a distinção credor-devedor em prol de uma perspectiva pan-europeia e que ponha o bem comum europeu acima da mesquinhez política, dogma nocivo se generalizado, e da mentalidade nós-contra-eles.
Como ministro das Finanças de uma pequena nação, com enormes restrições orçamentais, sem um banco central próprio e vista por muitos dos nossos parceiros como devedor problemático, estou convencido de que temos uma única opção: afastar qualquer tentação de tratar este momento decisivo como um ensaio estratégico e, em vez disso, apresentar honestamente os factos da economia social grega, apresentar as nossas propostas para que a Grécia volte a crescer, explicando os motivos pelos quais elas são do interesse da Europa, e revelar as linhas vermelhas que a lógica e o dever nos impedem de ultrapassar.
A grande diferença entre este governo grego e o anterior tem duas vertentes: estamos determinados a combater interesses para dar um novo impulso à Grécia e conquistar a confiança dos nossos parceiros e estamos determinados a não ser tratados como uma colónia da dívida que deve sofrer aquilo que for necessário. O princípio da maior austeridade para a economia mais deprimida seria pitoresco, se não causasse tanto sofrimento desnecessário.
Frequentemente, perguntam-me: e se a única forma de assegurar financiamento for ultrapassar as linhas vermelhas que estabeleceu e aceitar medidas que considera serem parte do problema e não da solução? Fiel ao princípio de que não tenho direito a fazer bluff, a minha resposta é: as linhas vermelhas não serão ultrapassadas. De outra forma, não seriam verdadeiramente vermelhas, seriam um mero bluff.
E se tudo isto trouxer muito sofrimento ao seu povo? Perguntam-me. Está, certamente, a fazer bluff.
O problema desta linha argumentativa é o de partir do princípio, de acordo com a Teoria dos Jogos, de que vivemos numa tirania de consequências. Que não há circunstâncias nas quais devemos fazer o que é correcto, não como estratégia, mas por ser…correcto.
Contra este cinismo, o novo governo grego irá inovar. Iremos cessar, independentemente das consequências, acordos que são errados para a Grécia e errados para a Europa. O jogo do “adiar e fingir”, que começou depois de o serviço da dívida pública grega não poder ter sido cumprido em 2010, vai acabar. Acabaram-se os empréstimos – pelo menos, até termos um plano credível de crescimento da economia para pagar esses empréstimos, ajudar a classe média a recuperar e resolver as terríveis crises humanitárias.  Acabaram-se os programas de “reforma” que se dirigem aos pobres pensionistas e a farmácias familiares e mantém intocável a corrupção em grande escala
O nosso governo não está a pedir aos nossos parceiros uma solução para pagar as dívidas. Estamos a pedir alguns meses de estabilidade financeira que nos permita criar reformas que uma extensa camada da população grega possa assumir e apoiar, para podermos voltar a ter crescimento e acabar com a nossa falta de capacidade de pagar as nossas dívidas.
Pode pensar-se que esta retirada da Teoria dos Jogos é motivada por uma qualquer agenda de esquerda radical. Nem por isso. Aqui, a maior influência é Imannuel Kant, o filósofo alemão que nos ensinou que a saída racional e livre do império da conveniência é fazer aquilo que é correcto.
Como sabemos que a nossa modesta agenda política, afinal de contas a nossa linha vermelha, em termos kantianos, é a correcta? Sabemos, olhando nos olhos dos esfomeados nas ruas ou contemplando a pressão sobre a nossa classe média, ou considerando os interesses dos diligentes trabalhadores de cada aldeia, vila e cidade na nossa união monetária. No fim de contas, a Europa só recuperará a sua alma quando recuperar a confiança das pessoas, pondo os interesses delas na linha da frente.
Yanis Varoufakis é o ministro das Finanças da Grécia. Publicado no New York Times

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O CAVALO DE TRÓIA DENTRO DA UNIÃO EUROPEIA


Estão sorridentes os ministros das Finanças do Eurogrupo, assim os mostram as televisões, com o bloqueio à possibilidade de um acordo com a Grécia. Estão felizes, mas é uma felicidade envernizada de desgraça. Há sempre um grande plano do ministro das Finanças da Alemanha, Schauble, gesticulante e sorridente, se não estivesse na cadeira de rodas quase o julgaríamos o maestro de uma orquestra, pronto para dirigir a partitura previamente escolhida. Então, dizem os noticiários de hoje, que o Eurogrupo, esses crânios que têm semeado a miséria pela Europa, não aceita qualquer acordo sem que a Grécia, abdicando eticamente de tudo o que defendeu perante o povo grego, diga um sim total que quer continuar o programa de resgate, que agora termina. O Eurogrupo também censurou expressões como calamidade humanitária, que é, aliás, o conceito que melhor traduz as consequências sociais das políticas desenhadas pelos senhores da Troika, burocratas menores de (i)legítimos superiores.  Dizem mais os noticiários: que a posição do Eurogrupo é um ultimato até à próxima sexta-feira e ponto final.
Não me parece que tudo isto tenha outro objectivo senão humilhar a Grécia e o governo democraticamente eleito. O pior é que eles, os burocratas de Bruxelas, sabem bem que as suas políticas foram um desastre social sem igual, como, aliás, a generalidade da sua política, como se viu com o caso da Ucrânia. Nessa calamidade humanitária -- de 300 mil pessoas sem luz eléctrica, sem água, com um desemprego massivo, com fome, com suicídios -- a União Europeia, digamo-lo sem medo, tem as mãos cheias de sangue. Com a destruição do Estado Social Europeu, estão a destruir a própria ideia de Europa. É por isso que a Grécia, impondo alternativas, lhes caiu em cima como uma bomba! Neste desnorte, parece nem quererem perceber que se joga, também, na articulação da União Europeia com a Grécia, muito mais do que os milhões de euros e a estabilidade da moeda única: joga-se uma questão fundamental do coração geopolítico da Europa em relação ao mundo.
Esses tipos do Eurogrupo não devem ser muito versados em Homero, não frequentam decerto os clássicos gregos (sempre poderiam perceber um pouco melhor a sua importância fundadora para a democracia ocidental) e desconfio que, muitos deles, por analfabetismo congénito, não sabem sequer o que representa a história do Cavalo de Tróia... Não percebem, por isso, que o Cavalo de Tróia está dentro da União Europeia e das suas muralhas ideológicas. Esta guerra com a Grécia merece esta metáfora por inteiro. E se prosseguirem os seus rizinhos hipócritas e estúpidos talvez um dia venham a chorar sem remédio lágrimas de crocodilos...

domingo, 15 de fevereiro de 2015

PORTUGAL COMO QUESTÃO


Fui ontem à Biblioteca Eugénio de Andrade participar na apresentação do novo romance de Manuel da Silva Ramos, Impunidade das Trevas (detalhes do quadro "Portugal, rumo à Vitória"). Comigo, estava Mário Fernandes que fez um brilhante ensaio sobre a literatura de Manuel da Silva Ramos que este romance, aliás, consubstancia. Os livros do autor de  Os Três Seios de Novélia são sempre surpreendentes pela forma como a sua ficção mergulha na realidade, sempre sem concessões paroquiais de linguagem, sempre naquela perspectiva barthiana de que escrever é estar contra. Estar contra a sociedade infamante que nos oprime, estar contra a apatia cívica, que é patologia traumática do povo português, estar contra a impunidade dos corruptos, estar contra a densidade do medo quotidiano que nos cerca, estar contra a hipocrisia moral dos que se arvoram em magistrados da consciência, estar contra as desigualdades que nos impingem como o céu possível e de circunstância. É isso a literatura de Manuel da Silva Ramos e a Impunidade das Trevas é um eloquente requisitório contra a miséria moral, contra a política de mentira, contra o regime que colocou em cada português uma canga difícil de sacudir.
Impunidade das Trevas é um retrato de Portugal, que se desenrola em vários capítulos, protagonizados por Camila, uma prostituta de luxo, que se torna confidente de um professor de literatura em França, Domingos Souto, ocasionalmente em Portigal. Os dois acabam por viver um amor que nunca se concretizará, pois Camila acaba por morrer. As histórias reportadas ao narrador são uma espécie de galeria da classe dominante - banqueiros (falidos), empresários de vária ordem, militares, políticos, etc. --estão lá todos. É uma espécie de Portugal na cama, mas o doutor Freud não desdenharia de conduzir estas personagens, tão recortadas na sua psicologia, ao seu divã...  E como estivéssemos numa luta de classes de matriz sexual, a heroína sai dos bares e dos hotéis de luxo num proselitismo sexual para satisfazer mendigos e doentes em territórios periféricos suburbanos, de pobreza absoluta.
O romance é um libelo acusatório contra a política dominante -- Passos Coelho e Cavaco não escapam -- as questões sociais como a saúde constituem temáticas centrais, às vezes a narrativa explode numa ironia surpreendente como no capítulo que descreve o julgamento de banqueiros (um é o dono do Espírito Manso!), a que se junta outro, num tribunal que é um interior de um cofre forte. No julgamento, o colectivo absolve os banqueiros e condena o escrivão, que figura como voz da consciência pública...
O que Manuel da Silva Ramos descreve é um "país que cheira a mofo e a fome. A fascismo glauco". E, por isso, desabava: "o espaço que deixam ao cidadão, entre uma conversa afiadísssima, o fantasma do cancro e uma fiscalidade inquisitorial, é nulo. (....) A mim não me enganam! Portugal não tem rumo. Nem vitórias. Só há uma maneira de nos voltarmos a entesar: é o povo pegar em armas".
O que Manuel da Silva Ramos descreve, com crueza, é um povo de mortos-vivos, ou nem isso. Não resisto, pois, a oferecer uma página que marca o epílogo de a Impunidade das Trevas. Apreciem:

"O PRIMEIRO a levantar-se foi Soares, o coxo comunista. Pegou na bandeira vermelha que estava enrolada ao fundo do caixão. Cá fora,viu na tumba ao lado da sua uns cravos vermelhos todos viçosos e colocou dois na lapela.  Rapidamente saiu do cemitério a assobiar Dava grandes passadas de herói. "Gostava que estivessem comigo o enfermeiro Santos, que me tirava a mucose da garganta, e o auxiliar Albino, que me levava ao banho", pensou.
O segundo a erguer-se foi Dimas, o tipógrafo anarquista. Tinha, curiosamente, morrido depois de mais uma manifestação contra a austeridade. Os camaradas tinham-lhev posto ao pescoço um lenço preto, e agora ele erguia-o triunfalmente. Saiu do cemitério todo contente. "Gostava que estivessem aqui comigo o médico sagaz, que não me soube operar o coração, e o enfermeiro Amândio, que fez todos os possíveis para que eu não morresse", pensou.
O terceiro a por-se de pé pertencera à Juventude Socialista e morrera muito novo, de leucemia. Erguia-se Saraiva, num cemitério recatado de província. "Gostava que estivessem aqui comigo as enfermeiras Sofia e Clara, que trataram de mim antes de eu morrer e que me chamaram "meu querido" e "meu amor" antes de eu partir", pensou.
O quarto a erigir-se era o homem Clara, que tinha o braço descaído à direita. Rezava muito e confessava-se depois de fazer mil falcatruas. Às vezes, dentro dele, manifestava-se um homem do povo, simples e humano, caloroso e generoso, mas rapidamente o metiam numa qualquer arrecadação. "Gostava que estivessem aqui comigo as enfermeiras Diana e Ângela, que, no fim, me levavam a comida à boca, e aquele doente baixinho desconhecido que vinha à entrada do quarto e me perguntava sempre se estava melhorzinho", pensou ele,vendo três vultos que o esperavam.
O quinto a empinar-se foi um jovem de nome Martins, que morrera de uma dívida à Segurança Social e de uma dose infinita de comprimidos. Levantou-se como um indignado. Deu um pontapé na tampa do caixão e saiu. Pensou: "Gostava de ir acompanhado pelos tipos do INEM".
Quando os cinco desembocaram na grande praça, já lá estavam milhares de manifestantes. Pertenciam todos à mesma condição. Todos tinham os mesmos objectivos. Todos tinham a mesma ira. Todos ignoravam as palavras de ordem.Não era marchar contra o Parlamento. Nem a favor do vento. Soares, contente, continuava a não coxear. Às tantas, olhou para trás. O que viu deixou-o espantado. Milhares de pessoas de olhos bem abertos marchavam como eles, decididas. Saíam de becos, ruelas, ruas laterais, avenidas e formavam um cortejo infinito. Deviam ser os muitos mortos de Portugal e Ilhas Adjacentes, pensou.
Combateremos, manifestaremos, combateremos, manifestaremos, manifestaremoscombateremos até ao dia da nossa morte.
Ámen".