sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A PRIMAVERA A DESPONTAR




Hoje, o céu pintou-se todo de azul e o sol explodia numa luz magnífica, que nos fazia imaginar que já podíamos colher a Primavera com os olhos. Um pouco à toa, tomei o caminho à roda do Fundão, que faço muitas vezes (adapta-se bem às quatro estações) e que, a partir da Quinta das Sesmarias, me leva pela Alverca, por itinerários, ladeados de muros daquela pedra solta que tem a cor do tempo, um cinzento musgoso que parece imemorial e que, infelizmente, alguns se vão esboroando. lentamente. É um percurso que tem a ver com a relação arterial da água com um tempo em que ela fazia mover lagares de varas (como o dr. João Nabinho, que até produziu azeite para exportar em bonitas embalagens para o Brasil) e alimentava os campos, onde o urbanismo local ainda não metera o dente.
O sol brilhava, então, e a passarada, que não costuma consultar o calendário, regressara aos campos e às árvores para as suas sinfonias, a alegria porventura de julgarem estar já a anunciar a Primavera ou a proceder aos arranjos musicais para a sua sagração. É um puro prazer passar por ali, olhar a cidade e a Gardunha ao rés das flores, como os malmequeres (ou a margaça, como diz o povo), que se estendem em tapetes entre velhas oliveiras centenárias e, às vezes, cercam pequenas ruínas de antigas casas da lavoura em que a hera e outras plantas invasivas, a pouco e pouco, tomam conta do granito. Olham-se essas construções, algumas do tempo em que o Fundão era um meio rural produtivo e somos levados a pensar num mundo que ali viveu, rostos e pessoas dos primórdios que, à força braçal, foram dilatando o agro, fazendo-se a si próprias.
Agora, já a Alverca produz, também, a sua sinfonia aquática, a água que corre, água que ainda alimenta hortas (às vezes, vejo pessoas a hortar, como diria Machado de Assis) e pomares. Estão floridas as primeiras árvores, qualquer dia são as cerejeiras, aliás as primeiras a romperem o ciclo do frio são sempre as cerejeiras japonesas que embelezam uma ou outra praça. Os podadores já limparam as árvores, começam os rebentos a querer sair, ora digam lá se não podíamos, já, sentarmo-nos numa daquelas belas pedras trabalhadas pelos nossos avoengos pedreiros, e escutarmos, apenas com o canto sem pauta da passarada A Primavera, do Vivaldi. O dia estava, lá isso estrava, para isso, um sol capaz de aquecer todos os corações e que o próprio compositor, se pudesse, não desdenharia.
Que dia, penso eu, quando passo por aquela cameleira (ou japoneira?), à beira da estrada nacional, antes do Castelo, cheia de camélias vermelhas, uma árvore com uma copa e uma elegância monumentais, que não me canso de contemplar.
Os dias que aí vêm, dizem-me os entendidos nas questões do sol e da chuva, vão ter boa cara. Eu, digo-lhes, um pouco pessimista:
-- Tenham calma! Domingo é a Procissão dos Passos e quando mexem nos andores, o bom tempo dá em borrasca. Espero bem que o Senhor dos Passos, desta vez, não se chateie!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O MUNDO DE ARNALDO SARAIVA


Memorável momento em que Arnaldo Saraiva fala da poesia de Eugénio de Andrade, na sessão das Jornadas da Beira Interior, em Monfortinho, em que o poeta leu o inédito "As Mães"
Tenho dito e repetido, muitas vezes, que o Prof. Arnaldo Saraiva alia a uma obra científica no domínio da literatura e da cultura -- em que, além da poesia, tem uma vasta produção ensaística de referência, e uma forma de estar que já o fez participar como actor em filmes, guionista, cronista, tradutor, que mais sei eu? -- uma rara capacidade de intervenção nos vários domínios culturais, e assim o ouvimos proferir conferências que se tornam referenciais pela originalidade e profundidade temáticas ou o vemos cumprir a função de divulgador.
Nessa dupla acção, o país e a região devem-lhe muito. Eu próprio, que me parece conhece-lo desde sempre,  me pude tornar cúmplice ou parceiro de múltiplas iniciativas, no tempo do "Jornal do Fundão" (onde foi cronista brilhante), e fora dele, quando a sua presença era necessária para apresentar um livro ou celebrar uma instituição, como o caso da Casa de Cultura José Marmelo e Silva, no Paul, ou a memória de escritores como o autor de O Adolescente Agrilhoado, ou de outra figura paulense (lamentavelmente esquecida) Augusto dos Santos Abranches, Escritor e Agitador Cultural da Lusofonia.
Arnaldo Saraiva, gosta de colocar-se ao rés da fala do povo a que pertence e daí o seu interesse por tudo aquilo que, no reino da estupidez, é considerado de uma certa margem (não foi por acaso que um seu livro antigo se chama precisamente Literatura Marginalizada) e aí o temos a estudar ou a registar a expressão das coisas tradicionais -- imemoriais músicas ou lendas e costumes, mesmo que, às vezes, não percebam o alcance da prosa como aconteceu numa curiosa crónica sobre a Procissão dos Bêbedos em Casegas...
Não é possível falar de Arnaldo Saraiva sem sublinhar o papel que ele teve na divulgação da obra de Eugénio de Andrade (recorde-se o grupo de ensaios que reuniu em O Génio de Andrade) ou os trabalhos realizados e publicados sobre Fernando Pessoa (quando ainda não estava muito na moda!) ou o Modernismo Brasileiro e o Modernismo Português, de que é, sem favor, o grande especialista.
Mas hoje, Arnaldo Saraiva tornou-se tema de "Notícias do Bloqueio" porque tenho sobre a mesa de trabalho livros novos de sua lavra, que, no fundo, vêm ao encontro de tudo aquilo que escrevemos.
Veja o leitor: DAR A VER E A SE VER NO EXTREMO O POETA E A POESIA DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO, que é um livro muito curioso porque Saraiva, teve uma relação de amizade funda com o poeta brasileiro, dá elementos absolutamente indispensáveis (vivências, encontros, acontecimentos), a quem quiser conhecer, realmente, o autor de Morte e Vida Severina. Anoto o registo que se faz da visita que João Cabral ao Fundão, a convite do "Jornal do Fundão"e a entrevista que neste mesmo jornal publicou do poeta sobre Drummond de Andrade, que foi colaborador do JF; outro título importante, acabado de sair, é Os Órfãos do Orpheu. um livro precioso pela articulação que faz com o Brasil e pelo desenho do contexto nacional em que a aventura do Orpheu se desenvolveu. O autor explica que se trata de "orfãos na vida antes de o serem na arte, orfãos reais  antes de o serem simbolicamente" assim "os principais colaboradores do Orpheu vieram a encontrar nesta revista, cujo nome está  foneticamente tão perto do nome "orfão", uma imagem da pátria e da mátria, o lugar -- real e simbólico -- da protecção natural, do ignorado afecto ou ou da garantida identidade (...)
Nas suas navegações culturais, Arnaldo Saraiva tem o Brasil no coração. E o Brasil, posso dizê-lo, sem receio de exagero, também o tem no coração. Ele que ocupa uma cadeira na Academia de Letras do Brasil, tem prestado relevantes serviços, motor de iniciativas que os media ignoram, como aconteceu com a notável exposição (honra à RTP que fez uma reportagem do Recife) Teia de Cordéis., que reúne as colecções de Arnaldo Saraiva sobre Cordéis Portugueses e de Maria Alice Amorim sobre os Cordéis Brasileiros. O catálogo, esteticamente muito bonito, inclui textos dos dois investigadores, e mostra bem a admirável beleza de edições hoje raríssimas impressas nos séculos XVII, XVIII e XX.
Género de crítica acerada, pessoal ou política, que circulava pelo povo, o Prof. Arnaldo Saraiva fez questão de assinalar nas notas sobre os folhetos, os condicionalismos censórios da licença -- "Com Licença", "Com todas as licenças", -- do Santo Ofício, do Ordinário, do Paço, da "Real Comissão de Censura", da "Real Mesa da Comissão Geral sobre o exame e censura dos livros", da Mesa do Desembargo do Paço, da "Real Mesa Censória", da "Comissão de Censura, da "Direcção Geral de Espectáculos", etc".
Pode imaginar-se como a literatura de cordel era esquartejada...
Trabalhador incansável das Letras, Arnaldo Saraiva não pára de surpreender-nos (para nosso bem e prazer) com os seus "ofícios de paciência" que nos deixam sempre mais ricos.




quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O PAÍS DA MEMÓRIA ASSASSINADA


"A memória histórica de um país é a sua literatura".  Quem o afirma é o escritor Julio Llamazares, numa excelente entrevista que concedeu ao "Babelia", do "El País", no último fim-de-semana. Ele escreveu um romance, Distintas maneras de mirar el agua, em que trata do desterro esquecido dos vizinhos de aldeias que foram submersas em pântanos, durante o franquismo. Histórias de compatriotas seus, memória dos territórios de infância que foi a descoberta do seu mundo ou dos seus mundos. Realidades submersas. ocultas pelas águas como, entre nós, aconteceu em Vilarinho das Furnas. Diz Llamazares sobre essas pessoas arrancadas às suas pequenas pátrias: "São os judeus espanhóis do século XX". A certa altura, o escritor espanhol avisa que "saber que Espanha é depois do Camboja o país com mais mortos em valas comuns, deveria fazer-nos pensar". E explica: "Memória histórica é uma redundância. A memória histórica de um país é a sua literatura e a sua arte.. Reduziu-se à Guerra Civil mas memória histórica também são os pântanos, a expulsão dos judeus... Estar contra a memória é como estar contra pensar ou sonhar. Podem obrigar-te a tudo menos a não recordar, ou a recordar. A vida resume-se a uma luta entre memória e esquecimento, e o trabalho dos escritores é recuperar tudo o que possas ao peso do esquecimento".
Lavrando palavras (quantas vezes, quantas?) em louvor da memória, contra a opacidade do silêncio, que é uma espécie de morte muito praticada em Portugal -- e não só, note-se, no tempo da ditadura!, tocaram-me as palavras de Llamazares, sobretudo quando ele valoriza a literatura como elemento imprescindível da memória histórica. Vivemos no país em que os assassinatos da memória são uma espécie de caça sem defeso.  A literatura portuguesa é um enorme cemitério:os maiores construtores da Língua portuguesa, os grandes criadores do pensamento cultural português, jazem no seu destino de esquecimento a que uma pátria analfabeta -- trauma de séculos, de censuras do Santo Ofício e muitas outras, de ausência de liberdade ou de liberdade vigiada -- os condenou. Antigamente, ainda havia um estratagema do regime: morto o incómodo e subversivo escritor, tentava-se a sua recuperação post mortem, numa estratégia de apropriação oportunista que recebia geral repúdio.
Hoje, estão mortos, numa quietude que é para não incomodarem o subdesenvolvimento cultural em que o país vegeta. A literatura é a memória de um país, mas no cemitério da "comarca das letras" (expressão de José Cardoso Pires), quem fala neles? Quem os lê? Aquilino, Raul Brandão, Ferreira de Castro, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, José Marmelo e Silva, Vergílio Ferreira, Jorge de Sena, Cesariny ou mesmo Eugénio ou Sophia, para falar apenas em alguns mais próximos de nós e não ir aos clássicos, sobre os quais recaiu o mesmo imemorial esquecimento que é o ódio à literatura. Quem pratica o prazer da leitura como aventura sistemática, indispensável não só à formação da pessoa, como à sua própria felicidade? Há sempre revólveres de trazer por casa e por instituições para dispararem contra tudo o que cheire a cultura. E, no entanto, ainda que muitas bestas (no mando ou fora dele) não o compreendam (pois em grande parte não frequentam a leitura...) sem ela, a cultura, o mundo não pula nem avança. E sem literatura, a memória vai morrendo aos poucos. O deserto avança

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

UMA QUESTÃO DE DIGNIDADE


Há situações que já não podem deixar de ser encaradas como caricaturas de um país que se torna cómico pelas afirmações de figuras emblemáticas do Estado, como é o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, para não falar nos seus adjuvantes menores. Se a vida dos portugueses fosse um mar de rosas, as gargalhadas eram tantas, o grau de comicidade era
como se a política fosse um corso permanente de carnaval.
A última vez que o o senhor Passos Coelho foi ao Parlamento, a semana passada, ao ouvi-lo dizer que a Troika e o Programa de Ajustamento não tinha beliscado a dignidade dos portugueses -- queria contrariar as afirmações de Jean Claude Junker, que confessara que a Troika tinha sido um erro e as políticas desencadeadas se afirmaram pecados cometidos contra a dignidade de Portugal, da Grécia e da Irlanda! -- lembrou-me aquela passagem da Campanha Alegre, do Eça, em 1871:
"-- O Parlamento é uma vergonha -- diz-se nos cafés."
Neste caso, as palavras de Eça só se ajustam pela intervenção de Passos Coelho. Uma vergonha. De facto, o senhor Passos Coelho sentiu-se incomodado com as palavras de Junker. A s políticas da Troika e da União Europeia feriram a dignidade de Portugal, da Grécia e da Irlanda. Foi um erro. Ora, para Passos Coelho, o fanático que foi além de Troika, a dignidade de Portugal não foi tocada, ficou imaculada como a Virgem Santíssima.
Face a esta mentira descarada do senhor primeiro-ministro, convém inquirir o seguinte: sua excelência não conhece o número real de desempregados (não o das estatísticas), quase um milhão, sua excelência não sabe que há dois milhões de portugueses no limiar da pobreza, sua excelência não percebeu que em cada três crianças, uma vive num universo de pobreza, sua excelência não sabe dos suicídios que têm ocorrido no país pela falta de horizontes de esperança, sua excelência não sabe que tudo isto é o resultado triunfante da sua política Além da Troika?
Mas convém também perguntar ao primeiro-ministro que conceito tem ele da dignidade. Acha que ser digno é ser pobrezinho para ir para o céu? Acha que ser digno é não ter comida para dar aos filhos? Acha que ser digno é "matar" a vida das pessoas com desemprego?
Pelo que, visto tudo isto, talvez tenha acontecido esta fatalidade: sua excelência o senhor primeiro-ministro nunca leu a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a Declaração dos Direitos das Crianças, os Relatórios dos Índices de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas e, muito menos, meteu o dente na Constituição da República Portuguesa.
Assim vai ele ferindo a vida dos portugueses... como no dia em que foi mentir ao Parlamento. Uma vergonha!