sábado, 14 de março de 2015

UM ABRAÇO PARA O JOSÉ QUITÉRIO


De cada vez que abro o "Expresso". tenho pena de não encontrar lá a prosa de José Quitério, que todas as semanas, na sua rota gastronómica, nos ensinava mil e um coisa sobre a arte de comer e de beber, mas também sobre o território, com as suas geografias sentimentais, em que a mesa era sempre pretexto para pedagogia cultural. O David Lopes Ramos, que fez idêntico trabalho para o "Público (um jornalismo cultural que nem todos tinham a sensibilidade de reconhecer, por estupidez e incultura) e que nos deixou tão prematuramente, incidia a sua análise com maior exclusividade na matéria gastronómica, com especial incidência na enologia (sabia tudo sobre os vinhos de Portugal!); o José Quitério, felizmente entre nós, só abandonou o jornalismo por questão de limitação visual, mas as suas crónicas tinham sempre um sabor cultural. ele sabia tudo o que haveria para saber, da história e da cultura dos lugares, dos ambientes, dos restaurantes e dos rostos que cozinhavam o melhor da gastronomia portuguesa.  E sabia, também, o universo dos sabores que fascinava a vida dos escritores e do que eles próprios cozinhavam, o que es tá altamente documentado no livro que ele escreveu (entre outros), Escritores à Mesa (estou a citar de memória) que tem saborosas histórias  e fina ironia sobre figuras gradas da nossa literatura. Aliás, já neste espaço, desse livro admirável, retirei a história de Fialho sobre o famoso arroz de perdizes.
O José Quitério tem inúmeros textos para publicar. Hoje, ao abrir o "Expresso" lembrei-me dele e do prazer da leitura jornalística com que ele sempre me enriqueceu. Este é, por isso, apenas um abraço de palavras de afecto, palavras com parabéns pelo justíssimo prémio que lhe foi  atribuído pela Universidade de Coimbra.

quinta-feira, 12 de março de 2015

SIMBA!


Num país onde qualquer bronco possui armas, com a alegação de ser "desportista" de caça, e, depois, na sua acção predatória vemos os noticiários dos jornais e das televisões alimentados com assassinatos de mulheres a tiros de caçadeira, a expressão da violência mais absurda é uma banalização do mal que se exerce contra pessoas com a maior naturalidade. E, também, contra os animais, tratados muitas vezes como coisas que não fizessem parte do reino da natureza.. Talvez nem todos se dêem conta de que existe aí, nesse reduto criminoso, um défice profundo de cultura e de civilização, que também fere a dignidade do país.
É certo que não se devem misturar as coisas -- o Ary dizia ironicamente: "há que dizer-se das coisas/ o somenos que elas são/ se é um gato é um gato/ se é um cão é um cão" -- mas o que  eu quero dizer é que o que aconteceu em Monsanto, penso que nos terrenos baixos de Monsanto. onde a velha urbe não está confinada às casas com coração de pedra que fizeram uma aldeia subindo pela encosta acima, ou, se quisermos, à volta do castelo sobranceiro e historicamente inexpugnável, tão alto que Namora disse que ali as águias roçam as fragas, é um abominável acontecimento que envergonha todos.
O Simba foi assassinado a tiros de caçadeira, numa acção de pura bestealidade. Tenho pena de não o ter conhecido, de não lhe ter manifestado afecto, fazer-lhe umas festas de amigo. Tenho pena porque olho para a fotografia do Simba, para o seu ollhar de fidelidade, e apetece-me dizer aquilo que as pessoas que têm ou convivem com cães como o Simba, costumam dizer no ritual da sua morte: era um bom cão!
O caso do Simba coloca outras interrogações no país dos tais brandos costumes em que matar pessoas ou animais, ou destruir a natureza, uma árvore, um fio de água, o que seja, é um desporto em que alguns alarves se riem e revêem. Todos os anos, quando chega o tempo de férias, milhares de cães são abandonados e outros porventura executados subtilmente ou enviados para os canis onde ficam à espera da morte. Tudo isso parece natural, é a morte, como dizia o outro, às vezes a mera brutalidade de fazer o mal pelo mal.
Conto uma história que não localizo e que já foi há um bom par de anos (ainda os animais não tinham protecção legal). Um grupo de trabalhadores que consertavam uma estrada citadina, depois de uma pausa para almoço, preparavam-se para retomar a faina. Um deles, olhou para um cão sem dono, certamente, que lhes fazia companhia e ficava sempre, com o rabo a abanar, à espera de uma côdea sobrante do almoço. Ele vinha às festas, aproximava-se. Achou o tipo que a cor do bicho não era bonita e, pegando nele,  banhou-o no bidão de alcatrão. Sorriram alarvemente os outros e o bicho fugiu a ganir. Alguém tentou minorar o caso, mas o acontecimento ainda hoje me parece revelador de uma desumanidade que continua a conviver pacificamente na sociedade portuguesa. Este caso do cão do alcatrão, que eu já tentei ficcionar, apenas tem um desfecho surpreendente. As obras prolongaram-se, veio Agosto, um calor que aquece o alcatrão a níveis elevados, aquilo é um inferno. Precisamente, a ele, ao autor da brutalidade contra o bicho, numa operação menos cuidada, um bom pedaço de alcatrão caiu-lhe sobre a  mão e o braço: teve queimaduras atrozes e gritos, como da outra vez o cão tinha ganido. Desta vez, os assistentes não sorriram...
Volto ao Simba, que o veterinário que o tratava disse ser um animal não violento e meigo.
Volto a ele e lembro-me do Nero, admirável conto de Torga, nos Bichos, ou ao livro do Manuel Alegre, Cão como nós.
Como nós, repito eu. Quem já passou pela experiência de ver um cão a morrer e a despedir-se dos donos, nunca mais esquece aquele olhar, aquela percepção tão humana da morte. Como nós. O Simba, ferido de morte, ainda foi ter com a dona para morrer nos seus braços. Penso que o último olhar dele foi como aquele que eu já vi e Manuel Alegre tão bem descreve no Cão como nós. O Simba!

quarta-feira, 11 de março de 2015

FALTA DE CONSCIÊNCIA


Tive a pachorra de estar duas horas, frente ao televisor, a assistir ao debate quinzenal com o primeiro-ministro, dominado pela questão do que eufemisticamente se diz ter sido a falha contributiva de Passos Coelho à Segurança Social. Quer dizer, os anos em que ele se esqueceu de pagar a contribuição devida à Segurança Social, passando a pertencer ao grupo dos felizardos que vêem as dívidas prescritas (dizem que foram 107 mil, alguns tubarões e políticos como Passos devem estar metidos no saco!). Pagou, agora, tantos anos depois, porque um jornalista, o José António Cerejo, descobrira a marosca, e pagou, como ele disse, para poder usufruir benefícios futuros pela dimensão da carreira contributiva. Como dizia o Conselheiro Acácio, ele há faltas de memória...
Só por muita ingenuidade se poderia esperar que o debate desse qualquer coisa, para além das denúncias éticas ao comportamento do primeiro-ministro, que repetiu à exaustão os argumentos de pau pagador, que tem sido o seu grande leit-motiv retórico nesta questão. Um Parlamento mole na exigência da dimensão ética da política, oposições brandas, que tratam as questões da responsabilidade política com pinças. Como se esperava, a montanha pariu um rato.
O que me pareceu mais estranho é que o primeiro-ministro, por diversas vezes, se desculpou com duas situações que seriam suficiente para levar um político decente ao pelourinho. Passos Coelho martelou que as suas infracções contributivas, já depois de ter sido deputado, ocorreram por dois motivos principais: não ter consciência dos facto e não conhecer a lei. Sempre se ouviu dizer, que o desconhecimento da lei não aproveita a ninguém (pelos vistos aproveitou a Passos Coelho!). Mais grave, porém, é a confissão repetida de ausência de consciência, isto é, civicamente, o cidadão Passos Coelho vivia num universo vazio, em que só existia, do ponto de vista legal, aquilo que ele conhecia de carácter exterior à própria sociedade, porventura que os peões devem atravessar as ruas nas passadeiras, que um automobilista não pode passar um sinal vermelho e que não se pode fazer xi-xi na via pública.
Esta problemática da falta de consciência, que passou tão ao de leve pelas posições, exigia um murro na mesa, uma denúncia frontal sobre a contradição entre esse problema e o magistério do poder, ainda mais como primeiro-ministro. Se calhar pelo hábito das trapalhadas, os próprios deputados também já não equacionam a falta de consciência como uma doença grave num primeiro-ministro. E só assim se explica que Luís Montenegro (líder da bancada do PªSD) tenha vindo, quase no final, a dizer que saíra do debate mais convencido de que Pedro Passos Coelho era o homem indicado para nos governar durante mais cinco anos. Pelos vistos, também no caso dele a consciência não é presença de assinalar...

terça-feira, 10 de março de 2015

O EQUÍVOCO DINÁSTICO DE CAVACO

AILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Ontem, no Programa Prós e Contras, na RTP1, houve um momento verdadeiramente singular, quando o constitucionalista Reis Novais comentou as recentes afirmações do Presidente Cavaco Silva sobre o perfil que ele tinha na cabeça para quem lhe irá suceder em Belém. Independentemente do homem que ainda ocupa o Palácio de Belém poder supor (por algum delírio político) que tem alguma prorrogativa dinástica sobre quem será o seu sucessor, só o facto de permitir-se meter-se em tal matéria, quando deveria porventura estar mais atento ao perfil do primeiro-ministro, que ele tanto apoia (às vezes nem se sabe muito bem quem manda em quem!), que até na biografia tem uma carreira contributiva manchada.
Foi bom ouvir ontem o Prof. Reis Novais desmascará-lo, com todas as letras. Não é certamente por acaso que Cavaco Silva é o Presidente da República da história da democracia portuguesa com menor cota de popularidade. O retrato que dele fez Reis Novais talvez explique alguma coisa. Para ouvir clique
Câmara Corporativa

DÍVIDAS DE MAU PAGADOR


Achei curioso o sublinhado de Rui Tavares, no "Público", quando escreveu na sua crónica: "Diz muito sobre Pedro Passos Coelho que este tenha pensado dar uma novidade a alguém quando a semana passada nos anunciou que "não é um cidadão perfeito". Acrescenta o cronista: "Nós já tínhamos desconfiado, e nem foi preciso esperar pela sua biografia fiscal e contributiva".
Num país em que a decência ainda comovesse os políticos, o que se conhece, já, e foi confessadamente assumido, da fuga contributiva de Passos Coelho e dos processos de execução fiscal que o seu universo tributário desencadeou, não só os factos eram mais do que suficientes para o primeiro-ministro se demitir (e já agora também o tó-tó Mota Soares, que faz de ministro da Segurança Social e que logo veio desculpabilizar o chefe!), como os acontecimentos deveriam por as oposições e a consciência cívica do país em estado de sítio. Marcelo, no seu púlpito da tvi, sugeriu que ele pedisse desculpa aos portugueses, que tem sido a hábil estratégia dos ministros se desculparem das asneiradas, muitas vezes envolvidas no manto diáfano da mentira. 
Ora, num país em que os portugueses têm sobre a vida o cutelo dos impostos -- curiosamente ainda agora foi anunciado o brutal aumento do IMI!) -- tudo segundo aquela filosofia tão própria das Finanças "Paga, e não bufes!", sempre com a ameaça dos juros e das coimas, que são, de facto, execuções sumárias sem pistola ou fuzilamento -- a história da fuga tributária de Passos Coelho é um ultraje ao povo português. Meu caro Marcelo, isto já lá não vai com desculpas de mau pagador...
Eu já aqui escrevi sobre esta matéria, como os Leitores estarão lembrados. E se hoje volto a ela é porque o jornalista Sérgio Figueiredo publicou, na edição de ontem do "Diário de Notícias", um notável artigo sobre os lapsos do sistema. Ele conta a história de vida de um Pedro, castigado nos labirintos dos impostos, e talvez a narrativa nos ajude a perceber quanto a impunidade de Passos Coelho, com as suas falhas de memória, as suas desculpas mal amanhadas, as suas trapalhadas sem papéis da tecnoforma, são a expressão de uma impunidade que fere a dignidade de todos quantos sofrem no lombo as agruras fiscais do despotismo governamental. O texto de Sérgio Figueiredo explica tudo. 


"Os lapsos do sistema 

por SÉRGIO FIGUEIREDO

1. Pedro nem podia imaginar que a conta bancária estava bloqueada e esperava que o seu salário fosse depositado pela entidade patronal antes do fim do mês. Mas o seu banco alertou para o inesperado: uma dívida à Segurança Social impedia-o de qualquer movimento de saldo. Transferência direta, levantamento em cash, um mero débito automático para liquidar o habitual: a mensalidade da casa, a conta da luz, do gás, da água ou as telecomunicações. Pedro tinha um emprego estável, um patrão cumpridor, era enfim um cidadão normal e exemplar, mas descobriu que devia. Ao Estado. Mais de três mil euros, exatamente 3.581,17 euros. Estava incrédulo, ficou baralhado. Porque era verdade, no banco estava lá tudo registado, o número do processo, o número do ofício, o número da penhora. Sem saldo disponível, faz a vida com os rendimentos de trabalho, socorreu-se do número de apoio do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social. Disseram que "tinham enviado uma carta". Que não recebeu. Nem na Segurança Social havia provas de que alguém a tivesse recebido. Ainda assim, foram-lhe à massa. Sem apelo, só agravo. Pedro não conseguiu sequer protestar. A menina, no outro lado da linha, era solícita, simpática e despachada. Consultou, abriu ficheiros, não parou de procurar até perceber o problema: a "qualificação na conta corrente deve ter sofrido algum erro provocado por lapso do sistema". Desculpe?! Sim, só podia ser um lapso no sistema porque o "aferimento era superior ao IAS" e, por isso, Pedro estava "isento por acumulação de enquadramentos". Pedro era ingloriamente um contribuinte em falta. Como não é um sujeito passivo, quis resolver o equívoco (que não era seu) e desbloquear o dinheiro (de que necessitava). Além das despesas do dia-a-dia, tinha uma nota de liquidação do IMI. Pior que dever ao Estado é não poder evitá-lo por culpa do Estado. Só o Centro Distrital da Segurança Social podia anular a dívida "erradamente identificada". Pedro não é tonto mas ficou atordoado. E reclamou por carta, pedindo urgência no levantamento de penhora e uma justificação por escrito, para evitar cadastro no Banco de Portugal. Evidentemente telefonou, não podia esperar. A mesma simpatia, novos pedidos de desculpas, o funcionário explicou o que devia ser feito - e a primeira coisa era uma conversa presencial nos balcões de atendimento do Areeiro. Pedro trabalha, tem horário e tarefas para cumprir. Era vítima do lapso do sistema, ainda assim acatou o sacrifício e solicitou marcação. Arranjaram-na, para daqui a um mês e meio. Devia ter explodido. Mas Pedro é educado. E o senhor com quem falava também. Não tinha culpa, nem um, nem outro: "ligue-me às cinco da tarde". O nacional-porreirismo entrava em cena. O sistema, frio e ineficaz, driblado por gente humana, sensível à aflição alheia e com brio profissional. Afinal, Pedro tinha razão e paciência. Mas começava a faltar-lhe esperança. Recuperou-a dois dias depois, quando finalmente foi recebido por uma outra funcionária. Nova agradável surpresa. Sem conhecer o caso, entendeu-o perfeitamente. Pedro, a esta altura, já estava um especialista. Falou da "acumulação de enquadramentos" e soube explicar o "aferimento superior ao IAS" e qual foi o "lapso do sistema". E agora? Caso resolvido. Nada disso. O processo tinha de subir à hierarquia. Pedro pediu para falar com a chefia, mas não era assim tão simples. A comunicação superior chegaria, três dias depois, em forma de carta, remetendo para artigos do Código dos Regimes Contributivos. Comunicava a correcção do erro, sem o admitir, sem uma palavra sobre a conta bancária, há um mês abusivamente congelada. As cartas não faltavam, desta vez do departamento de comunicação e gestão do cliente do Centro Distrital: "bom dia, informa-se V. Exª que a dívida já foi anulada". A Segurança Social afinal respondia, mas não esclarecia o que pretendia fazer. Agora Pedro era encaminhado para a avenida da República, tinha de se deslocar ao IGFSS - o primeiro sítio para onde tinha telefonado. Mais uma funcionária exemplar, analisa o processo, confirma tudo, mas a penhora mantém-se. Solidária com a situação, chega a dar o seu telefone privado e promete que, no espaço de uma semana, o caso fica resolvido. Assim foi: cinco semanas depois, a conta bancária é descongelada. Na última conversa telefónica, uma confissão extraordinária: "é uma história que se repete, está a acontecer a muitas pessoas". Não era, portanto, um azar de Pedro. Apenas a fatalidade de todos nós.

2. Esta história não é aquela que ocupa os jornais e abre os noticiários dos últimos dias. Mas é real. E, pelos vistos, frequente. Pedro não é Passos Coelho, não é primeiro-ministro. A vítima destes lapsos do sistema chama-se Maria Correia. Um sistema, dois países. Quem não paga todos os impostos, quem não desconta o que deve à Previdência, não é necessariamente um delinquente fiscal. É um relapso e só tem de acertar as contas. Sobretudo se um dia acaba a chefiar o Governo. As dívidas de Passos Coelho não beliscam a sua seriedade enquanto cidadão, mas atingem a sua credibilidade política, o que não é pouco. Já um Estado que trata as Marias de uma forma cruel e implacável, que confisca primeiro e nem pergunta depois - e, ao mesmo tempo, resolve os problemas de figurões com paninhos quentes - não pode ser uma pessoa de bem. Não há moralismos na história fiscal de Pedro, na via-sacra de Maria, mas há uma moral para resgatar a quem está verdadeiramente desprotegido - e para elogiar no funcionalismo público. Não são os funcionários que discriminam o cidadão aflito do político acossado. É o sistema. Que Passos Coelho tinha a obrigação de aniquilar. Esta é a sua maior dívida."


segunda-feira, 9 de março de 2015

DEVER DE MEMÓRIA SOBRE UM AMIGO


Houve um tempo em que as cidades e a região tinham um conhecimento exacto das pessoas, do seu percurso cívico e social, do seu contributo para o desenvolvimento  da terra natal como lugar de afecto e do território mais amplo que, no fundo, não é mais do que um nó de terra que nos une (ou devia unir) a todos. Houve um tempo em que as pessoas tinham a consciência nítida de que, na obra colectiva que é uma cidade, os rostos eram parte inteira dessa fotografia infinita e intemporal que é a história da terra.
Houve um tempo... Agora, tudo se desvanece no efémero, numa corrida contra o tempo onde muitas vezes nem sequer há lugar para o registo apressado do obituário, geralmente arrumado entre anúncios em que o morto, se tiver sorte, pode ter alguma visibilidade na imagem compósita da necrologia. Isto tem a ver, também, com outra coisa: a memória que gradualmente se vai perdendo das pessoas e das coisas, das cidades, das vilas, das coisas que ainda têm uma identidade comunitária.
Neste meu respirar de palavras, devo confessar que fiquei atónito ao descobrir que um Amigo, um velho Amigo, alguém que também inscreveu o seu nome na construção do progresso da região e da cidade da Covilhã, uma personalidade singular, naquilo que este conceito tem de pessoa aberta ao seu tempo, mesmo quando essa abertura, como antes do 25 de Abril, numa cidade muito estratificada socialmente, implicava algum risco, mas exprimia uma valor essencial que era a tolerância e uma natural capacidade para o diálogo. Estou a falar no senhor Manuel Rogério Mesquita Nunes (morreu no di 1 de Março), e eu vi arrumado no JF, de que ele foi amigo grande e solidário, entre esse obituário tipo vala comum.
Ora, Manuel Mesquita Mesquita Nunes, merecia algumas linhas, mesmo de passagem, como hoje é uso. Foi um dos principais empresários têxteis da Covilhã, era um uma pessoa muito prestigiada, homem de carácter, mas foi muito mais do que isso: esteve ligado a múltiplas iniciativas decisivas para o desenvolvimento da região, a principal das quais, penso eu, foi o Grupo de Trabalho da Cova da Beira, cuja história rigorosa está por fazer. Tinha 93 anos e a Covilhã no coração. A última vez que me cruzei com ele foi em circunstância hospitalar, há uns dois meses e tal, mas despedi-me dele longe de supor que seria a última vez que o vi. Conheci-o, era eu muito jovem, no Rotary Clube da Covilhã, sobretudo antes do 25 de Abril, sobretudo quando aquele clube, am acções muito articuladas com António Paulouro e o "Jornal do Fundão", teve um papel cultural e de debate de ideias, muito importante. Gostava de conversar com ele e esse prazer repetiu-se pelo tempo fora. Curiosamente, ele estimulava a minha escrita imediata de jornalista, concordava muito comigo sobre as grandes questões da região,  as batalhas comuns, tive sempre ali um Amigo verdadeiro que me festejava de cada vez que me via, quando essas circunstâncias se tornaram mais raras no fio de tempo que é a vida.
Dizia eu que Manuel Rogério Mesquita Nunes era uma personalidade singular. Não terá sido por mero acaso que num livro de Manuel da Silvas Ramos, Café Montalto, que é um painel violento (menos ficcional do que se pensa) do ponto de vista social, em que os conflitos no mundo operário, entre trabalhadores e patrões, têm expressão muito dura, a figura de Manuel Mesquita Nunes adquire uma dimensão humana muito especial.
Não admira. Ele gostava da liberdade. E algumas vezes -- isso sei, eu -- contribuiu para alguns que lutavam na sombra contra a ditadura. Tenho saudades dele.

domingo, 8 de março de 2015

FOLIAS


Já tenho aqui criticado Vasco Pulido Valente, sobretudo quando a prosa resvala para a arrogância e um certo umbiguismo, que se tornam insuportáveis. Mas só por estultícia ou estupidez se poderia menorizar o seu génio como cronista, que enfileira na melhor tradição da crónica herdade dos grandes cultores do século XIX. Gosto sempre de o ler, mesmo que a discordância provoca alguma irritação, o que, aliás, só quer dizer que a crónica cumpre a sua perfeição. A crónica de hoje, no "Público" é excelente e trata de uma questão crucial de uma sociedade democrática: a informação. Aqui está um bom retrato de uma doença informativa que conduz ao nosso desgraçado e proverbial subdesenvolvimento cultural. Aqui fica. Vale a pena ler e meditar.

"FOLIAS DO NOSSO TEMPO

Não admira que neste banho cultural, a política tenha pouco a pouco adoptado a natureza da televisão. 

Basta ligar a televisão para se perceber o estado de indigência intelectual e política a que chegou o país. A informação, que já foi sofrivelmente sensata, embora parcial e sumária, tem hoje o critério editorial do antigo semanário “O Crime” e da imprensa cor-de-rosa e desportiva. Para começar, os portugueses são presenteados com horas do que antigamente se chamava “casos crapulosos”: a facada, o tiro, o roubo, a violência doméstica, histórias de tribunal, considerações de réus, de testemunhas, de advogados, de “populares”, da polícia e de um ou outro comentador de serviço. Depois do “crapuloso” vem o “acidente” e a catástrofe: desastres de avião e de automóvel, incêndios, tempestades de vento ou neve, inundações, tudo o que meta feridos, mortos, miséria e sangue.
Isto ocupa muito mais de metade do noticiário médio. O resto consiste numa pseudo-reportagem desportiva, ou seja, no dia-a-dia do futebol. A televisão não perde um jogo ou um golo que possa  interessar a meia dúzia de fanáticos de um clube qualquer. Segue os treinos. Esclarece sobre o “plantel” da equipa A ou da equipa B, sobre os lesionados, sobre os castigados, sobre os “duvidosos”. Entrevista treinadores na véspera e no minuto seguinte aos “clássicos” e não- “clássicos” do campeonato. Jorge Jesus, por exemplo, é seguido com uma persistência e um zelo com que não se segue nenhum ministro, o primeiro-ministro ou Presidente da República (agora tão retirado que o boato da sua prematura morte já corre pela província). E, através de tudo isto, Ronaldo, sempre Ronaldo, infinitamente Ronaldo.
O tempo que sobra (e o jornal da TVI, para só falar nele dura uma hora e meia) vai para festas: festas de cozinha, festas de vinho, festivais da alheira, do presunto e do chouriço, de quando em quando as prodigiosas fabricações do chefe A ou do chefe B e, continuamente, o sabor e o aroma dos tradicionais produtos deste nosso querido Portugal (que não se vendem nos supermercados, nem nas mercearias de Lisboa). Não admira que neste banho cultural, a política tenha pouco a pouco adoptado a natureza da televisão. Com um esforço sublime consegue concorrer, e colaborar, com os “valores” que regem os noticiários e não pára de nos dar novos motivos de interesse e estima: a barafunda Sócrates, a barafunda BES, os mistérios do “Visa Gold”, o velho incumprimento fiscal de Passos Coelho, a prisão de um inspector da polícia, a mentira impenitente e descarada no parlamento e fora dele. Portugal acaba com certeza por se transformar num “filme negro” (anos 40), sem Bogart, nem Bacall. E nós, pachorrentamente, assistimos na nossa cadeira".

MULHER: TODOS OS DIAS A MESMA LUTA PELA DIGNIDADE!


Num tempo em que se assinalam tantos dias internacionais, numa banalização que esvazia acontecimentos celebratórios, costuma dizer-se, pelo menos em relação a efemérides com indiscutível dimensão ética e de humanidade que deviam ser sublinhadas todos os dias. O Dia Internacional da Mulher tem seguramente essa carga simbólica que o torna um acontecimento à escala planetária digno de lembrar a mulher como elemento cósmico determinante, centro do  mundo, que potencia um imprescindível hino à vida.
Representando humanamente a mulher essa forças centrípeta, tão forte que é fácil elevá-la à condição de mito, não deixa de ser absurdo que, por todo o mundo, a Mulher seja vítima, não só de subalternidades sociais e cívicas, mas de fenómenos de discriminação tão fortes que, às vezes, como é possível que as sociedades tenham regredido tanto do ponto de vista humanitária. Como se a condição feminina arrastasse o peso de uma desigualdade ontológica, vindo do fundo dos tempos, estivesse condenada a arrastar por todo o sempre, como Sísifo, uma pedra de submissão, de sujeição, de limites de humanidade. Há, no universo feminino, muitos crimes por omissão. Nos países onde as leis sobre as mulheres regrediram quase à pedra lascada, a morte é um horizonte sempre presente e a vida (palavra que aqui só pode ser um eufemismo) é um inferno quotidiano. Despojadas de direitos, lapidadas, violentadas, a morte é quase sempre a libertação possível. Quem teve a sorte de nascer noutros quadrantes, olha habitualmente para essas realidades iníquas como qualquer coisa distante que nada tem a ver connosco, como se o homem e a mulher não fossem a medida de todas as coisas!
E, no entanto, há um rio subterrâneo de violência contra as mulheres que corre pelos países que se orgulham de ser mais desenvolvidos, com outros graus civilizacionais, talvez até se arvorem de brandos costumes.
Portugal também entra nesse jogo em que a violência contra as mulheres se salda em dezenas de assassinatos por ano, em feridas expostas ou escondidas. Um jogo de opacidade, de muitas sombras, de agressões psicológicas sofridas no interior de uma coisa chamada lar. Uma violência existe, anda por aí à solta, há, também, neste âmbito, muitos coniventes sem canastro. Um dos fenómenos mais impressivos sobre a repressão oculta que se exerce sobre as Mulheres é o medo. Quase estive tentado a deixar aqui uma parte do poema de Carlos Drummond de Andrade, Congresso Internacional do Medo, mas resvalei par outras temáticas mais prosaicas.
Neste Dia Internacional da Mulher eu queria daqui enviar um abraço solidário a uma Associação que, no plano social e cultural (esta é, também, uma questão cultural, olá se é!) tem realizado um alto trabalho cívico. Falo da COOLABORA que, estando na Covilhã, está na região toda, e tem prestado serviços inestimáveis na batalha pela eliminação da violência contra a mulher. Tenho tido a honra de colaborar em iniciativas suas e tenho a consciência nítida da COOLABORA ter evitado, à sua escala, qauilo que alguns costumam designar como fatalidades sem remédio.
Hoje, é Dia Internacional da Mulher. E se há alguma coisa que louva e dá um expressão particular a esta data é a poesia. A Mulher faz parte da arte poética (haveria poesia sem amor?), como o ar que respiramos. De tal forma que não faltam versos a celebrar a mulher como elemento vivo de esperança e de futuro, mesmo quando as noites mais tristes nos caem em cima.
Como um aceno, uma flor, como uma rosa ou um cravo vermelho, como uma um sorriso ou um beijo, deixo aqui dois poemas: um do Daniel Farias, que morreu aos vinte e tal anos, e era um grande poeta (que é o primeiro) e outro do Manuel Alegre (que faz parte da Praça da Canção, escrita há 50 anos e em que a mulher é um canto de esperança.

Há uma Mulher a Morrer Sentada

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

A Rapariga do País de Abril


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Quando vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.

MANUEL ALEGRE, PRAÇA DA CANÇÃO