sábado, 21 de março de 2015

O DIA DA POESIA


Na convenção do calendário, hoje é dia mundial da Poesia. Ora, a poesia é quando um homem ou mulher quiserem, como dizia o outro do Natal. Ainda assim, a conformidade ao calendário obriga à promoção de iniciativas, um pouco por todo o lado. E, por instantes, a poesia sai à rua. Escolho das muitas celebrações, a iniciativa de Castelo Branco, na Biblioteca Municipal de Castelo Branco, às 18 e 30. Um poeta fala de outro poeta. É António Salvado a lembrar-nos João Ruiz de Castelo Branco. O título da conferência é "João Ruiz de Castelo Branco, aqui ao nosso lado". Aqui está uma forma excelente de comemorar o dia mundial da Poesia.
Às vezes, basta um verso, outras um poema para tornarem um autor imemorial. João Ruiz é um desses casos. Bastou ter escrito a Canção, partindo-se, para se tornar imemorial. Aquele poema, publicado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em 1516, que Rodrigues Lapa definiu como "cantiga lindíssima, universalmente conhecida, cujo encanto parece residir, em parte, no sábio aproveitamento dos processos melódicos da expressão".
Festejemos então o Dia da Poesia com o poema de João Ruiz de Castelo Branco, a que a voz de Adriano Correia de Oliveira dá corpo:

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tam tristes os tristes,
tam fora d'esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.


João Ruiz de Castelo Branco, "Cancioneiro Geral"

sexta-feira, 20 de março de 2015

ECLIPSES

DESENHO DE ZÉ DALMEIDA
Hoje, houve eclipse parcial do sol. Durante duas horas, a lua tapou parte do sol. Dizem os entendidos que o fenómeno só se repetirá daqui a 18 anos. Por cá, podemos ficar descansados, que eclipses -- e totais -- são acontecimentos banais. Ainda agora, parece que houve um eclipse de uma "bolsa VIP" das Finanças, ninguém sabe como as coisas aparecem e depois desaparecem, como já antes acontecera eclipse semelhante com a papelada da Tecnoforma. Outro eclipse é o do BPN, que deixou de ter visibilidade. A imprensa e as televisões, nos seus critérios editoriais, também produzem muitos eclipses. Já ninguém fala do eclipse do Citius, que transformou a justiça numa coisa caótica, ou do eclipse verificado nas escolas, que deixou milhares de alunos sem aulas, durante meses. Eclipses curiosos são os da memória em que Passos Coelho se tornou verdadeiro especialista. E Cavaco também gosta sobretudo daqueles eclipses que esconderam a inventona das escutas em Belém (Lima também se eclipsou...) ou do que ocultou totalmente o problema das acções do BPN. Estes eclipses não são parciais. São totais. Fazem desaparecer notícias, ocultam acontecimentos e submarinos,fazem da responsabilidade política uma opacidade completa.
Às vezes, por cá, sobretudo na política, não é preciso a lua ocultar o sol. Quando a coisa não convém, ou é incómoda, tapa-se o sol com a peneira. É como diz o povo, e voz do povo -- voz de Deus!

VIVA O CINEMA!


No ano passado, o tema central andou à volta de "Filmes Proibidos", num exercício de memória de grande interesse histórico e social. Este ano os Encontros Cinematográficos, que começam hoje, na Moagem, no Fundão, reúne um qualificado painel de realizadores e gente ligada à Sétima Arte -- Andrea Tonacci, Victor Erice, Vítor Gonçalves, Pedro Costa, Sérgio Alpendre, José Manuel Costa, Vasco Diogo, Luís Nogueira, Luís Miguel Oliveira e Manuel Mozos -- assumindo-se como um acontecimento cultural relevante na região. Haverá filmes e debates e os Encontros mantêm uma ligação à UBI, na Covilhã, onde funciona, como se sabe, um curso de cinema. É lá que se realizarão Master Classes.
Assinale-se que a abertura apresenta um momento forte: a projecção, pela primeira vez em Portugal, de JÁ VISTO JAMAIS VISTO, Brasil, 2013, de Andrea Tonacci. É às 21 horas. Às 23, haverá um encontro com Andrea Tonacci e Sérgio Alpendre.
No sábado, às 15 e 30, ALUMBRAMENTO/ LA MORTE ROUGE / VIDROS PARTIDOS, de Victor Erice, e às 17 encontro com Victor Erice e Pedro Costa. Às 21 horas, será a vez do filme de Pedro Costa, CAVALO DINHEIRO.
Domingo, às 14 e 30, projecção de A VIDA INVISÍVEL, de Victor Gonçalves às 16 e 30, haverá encontro com Victor Gonçalves e José Manuel Costa. Às 18, um momento histórico: a projecção de A DESAPARECIDA, de John Ford. O Festival encerra com intervenções de Manuel Mozos, Luis Nogueira e Vasco Diogo.
Três dias em cheio para quem gosta de cinema. E, para além do mais, os Encontros Cinematográficos, que se devem muito à persistência de Mário Fernandes, assumem sempre um tom de festa da cultura, que é bom sublinhar.

quarta-feira, 18 de março de 2015

FOI VOCÊ QUE PEDIU UMA "BOLSA VIP"?


Eu vi, no debate quinzenal com o primeiro-ministro, na Assembleia da República, Passos Coelho dizer que não havia nenhuma "bolsa Vip" na Autoridade Tributária. Não era a primeira vez que o primeiro-ministro deliberadamente mentia -- quando não mente invoca falta de memória -- e, portanto, sabe-se que a verdade não é virtude que ele goste de levar para a política. De facto, a própria existência de uma coisa deste tipo, em serviços tutelados pelo Ministério das Finanças, conduz logo à suspeita dos meios que justificam os fins e a uma matriz totalitária de controle de cidadãos (quem serão os Vips da bolsa?), com a qual um Estado de Direito não pode pactuar. Então a coisa soube-se numa acção de formação de umas centenas de inspectores tributários, Por ingenuidade ou burrice, o formador falou na "bolsa Vip" explicando que era pecado tocar nessa tecla, reservada, de resto, a comissários políticos de inteira confiança. Quem denunciou o caso foi o Sindicato, e, enquanto a denúncia andou no universo sindical, como é costume, primeiro-ministro e outros seus empregados no governo, desmentiram. Podia lá ser uma coisa dessas! Hoje, o director-geral, confirmando a existência da bolsa, demitiu-se tentando explicar o inexplicável. O incomparável secretário de Estado, Paulo Núncio, lavou as mãos como Pilatos, isso é lá com os funcionários (sabe-se lá se a ideia foi de algum contínuo!), o governo não sabe de nada, e o primeiro-ministro veio logo dizer que mantinha total confiança política no seu secretário de Estado. Já se sabe que vai longe o tempo em que os governantes assumiam responsabilidades políticas e se demitiam por questões éticas. Vão lá agora com essas...
Quem andou a seguir este caso foi a revista "Visão", que anuncia novidades na edição de amanhã. Entretanto, pode-se abrir um pouco o véu à matéria em questão, no artigo de Manuel Carvalho, para ajuizarmos melhor o calibre dos aldrabões que nos governam. Leiam s.f.f:


"O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais terá entregue, em outubro passado, uma lista de contribuintes VIP à direção de segurança informática do Fisco. Paulo Núncio nega, mas a VISÃO soube junto de fontes das Finanças que a decisão terá sido tomada no auge do "caso Tecnoforma", envolvendo Passos Coelho.
Corria outubro do ano passado e estava na berlinda o "caso Tecnoforma", envolvendo o Primeiro-Ministro. De acordo com as informações recolhidas esta quinta, 12, pela VISÃO junto de fontes da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), terá sido por essa altura que Paulo Núncio entregou à direção de segurança informática do Fisco, coordenada por José Manuel Morujão Oliveira, uma lista de contribuintes mediáticos, da área política, financeira e económica, a cujo cadastro fiscal terá, entretanto, sido aplicado um filtro que permitirá detetar, em minutos, quem acede à denominada "Bolsa VIP", embora o sistema ainda não esteja totalmente afinado.
O termo "Bolsa VIP", refira-se, foi usado por Vítor Lourenço, chefe de divisão dos serviços de auditoria da AT numa ação de formação para 300 inspetores tributários estagiários, realizada a 20 de janeiro, na Torre do Tombo, em Lisboa, tal como revelámos, com pormenor, na nossa edição desta semana, já nas bancas, recorrendo a testemunhos diretos da sessão.
 O Governo tem desmentido, através de várias vozes, entre as quais a do próprio chefe de Governo, Pedro Passos Coelho, a existência da referida "Bolsa VIP". Contactado pela VISÃO já na tarde desta quinta-feira, o gabinete de Paulo Núncio voltou a garantir que o titular da pasta "não entregou qualquer alegada lista de contribuintes VIP à AT no ano passado". Contudo, as nossas fontes asseguram que a elaboração da mesma terá partido da tutela e entregue à área de segurança eletrónica do Fisco em outubro, altura em que, ao que apurámos, o cadastro fiscal do Primeiro-Ministro já tinha registado várias centenas de visualizações. A existência de uma lista de contribuintes famosos nas Finanças, cuja consulta "indevida" poderá originar mais de 140 processos disciplinares a funcionários da AT, foi revelada numa formação para 300 inspetores tributários.
A VISÃO conta na edição desta semana o que lá foi dito e por quem. Além do Primeiro-Ministro, também Paulo Portas e Manuela Ferreira Leite estarão na alegada "Bolsa VIP", que incluirá outros governantes e políticos, a alta finança e grandes empresários. Que mistérios guarda a máquina fiscal?"

terça-feira, 17 de março de 2015

AMÉRICO RODRIGUES E AS PRATELEIRAS POLÍTICAS


De vez em quando, pergunto aos amigos comuns:
-- Que é feito de Américo Rodrigues?
Eles lá me vão dando conta do seu emparedamento no velho edifício do Paço da Cultura. Claro que a minha pergunta tinha sempre um fundo de provocação, no sentido de reafirmar que, com o seu afastamento do TMG, a Guarda subalternizou-se no plano da programação cultural, área onde se tornara polo de referência.
Lembrei-me, aliás, dele, do Américo, num destes fins-de-semana. No Teatro Avenida em Castelo Branco, que tem ocupado, com a visão inteligente de Carlos Semedo, o vazio que a Guarda aos poucos foi criando à volta da cultura. Estava lá, no Teatro Avenida, assistindo ao espectáculo de Rodrigo Leão. Casa cheia e, enquanto a música de Rodrigo Leão e dos seus músicos povoava o silêncio da sala, entrecortada por aplausos, voltou à memória acontecimentos idênticos na Guarda, com o mesmo sortilégio da companheira música.
Américo Rodrigues já não mexe os cordelinhos da programação cultural. E a realidade é que a Guarda ficou muito mais pobre, embora alguns, que apenas pensam o imediato, pensem que não. A prateleira em que o colocaram até podia ser cómoda, mas ele fez sempre acção cultural, cá fora, num exercício de liberdade livre, para usar um verso de Ramos Rosa, de quem ele foi amigo.
Essa liberdade livre traduz-se, por exemplo, no espectáculo de teatro do seu grupo, "Teatro do Calafrio", que no dia 16 de Abril leva à cena o espectáculo "Empresta-me um Revólver até Amanhã", numa dramaturgia construída a partir de O Canto do Cisne e Trágico à Força, de Anton Tchekov. O grande dramaturgo coloca o teatro dentro do teatro, e, sobretudo, a paixão por essa aventura de fazer do palco um "teatro do mundo", como expressão maior do drama e da condição humana. Este Teatro Calafrio já deu origem a uma associação cultural (uau!), a Associação Calafrio. E este sábado, às 16 e 30, no ciclo contradizer, à volta do mote "A poesia vai acabar?" (verso do Pina) -- questão a que responderá José Manuel Mota da Romana -- e depois os poemas tomarão conta do tempo, os poemas do querido Manuel António Pina.
Ah, já me esquecia! Hoje, dizendo tudo isto, era só para dizer, também, que o Américo Rodrigues está agora na Biblioteca Eduardo Lourenço. Espero que não seja outra prateleira! Acho que estará feliz agora, no meio dos livros, a biblioteca é sempre um universo, como dizia Borges, e mais feliz estará por estar num espaço que convida ao sonho e tem como patrono o nome de Eduardo Lourenço, seu amigo, também!

domingo, 15 de março de 2015

UIVEMOS, DISSE O CÃO!


O país está cada vez mais cinzento, sem sombra de optimismo e nesga de esperança, o quotidiano é uma narrativa de dramas e de sangue, espécie de apocalipse que as televisões amplificam e os jornais especializados no sangue à flor da rua exploram até à exaustão. Clara Ferreira Alves, na sua última crónica da revista do "Expresso", num breve passeio por Lisboa, dava conta do ambiente de desespero que extravasa para o comportamento das pessoas, numa exasperação que é a melhor imagem de um país sem horizontes de futuro. Diz ela, a certa altura da crónica: "Saio e tenho uma conversa que vai a passar e que me conhece da televisão. Começa a falar de impostos, do IMI. Regressa a exasperação. As pessoas dizem todas a mesma coisa, que os políticos são uns ladrões e que estão fartas de pagar impostos. O IMI perde o travão e os políticos perderam o travão da vergonha. O Estado parece tomado por uma seita que começa a ser odiada, e será conveniente não menosprezar a zanga das pessoas".
Curiosamente, no "El Pais" de hoje, domingo, Manuel Vicent publicou uma excelente crónica, intitulada "Arde la casa", que  é também um grito de desespero sobre a situação social em Espanha e no mundo. E começa com uma parábola de Buda: "Se a tua casa está ardendo, sai dela correndo sem te perguntares o que se passa lá fora. Não importa se na rua chove, faz frio ou calor ou está cheia de inimigos. Foge antes que caia o telhado sobre a tua cabeça".
"A casa em chamas é agora este governo e este Parlamento servidos por um cúmulo de políticos mafiosos, estúpidos ou medíocres; são as instituições do Estado apodrecidas até à raiz pela corrupção: é a própria asfixia ante a ruína dos valores morais ou estéticos que ainda o sustentavam. Não há forma de olhar para alguma parte da casa que não vejas como avançam as chamas", escreve Manuel Vicent, que descreve a descrença generalizada e que termina a crónica desta forma: "Salve-se quem puder, é a consigna geral. Foge, amigo, disse Buda. Está ardendo a casa".
Está ardendo a casa comum, que nos representa a todos, e assim ficamos cada dia mais desarmados sobre o sistema (este totalitarismo envernizado que nos caiu em cima). Saramago, num dos seus últimos livros, colocou uma epígrafe muito simples, mas que sintetiza tudo, num tempo de morte arbitrária: "Uivemos, disse o Cão". Uivemos!