sábado, 4 de abril de 2015

UM NOME, UM ROSTO


Numa espécie de Aleluia, começou-se a falar na candidatura do antigo Reitor da Universidade de Lisboa, Prof. Sampaio da Nóvoa, à Presidência da República.  Dizem uns, que é cedo para falar nisso; dizem outros que é um Académico, um intelectual. Alguns até torcem o nariz à dimensão cultural da sua personalidade. É certo que a burrice cria hábitos e por isso se diz que "contra a estupidez até os deuses lutam em vão!"
Ora estupidez não tem faltado para os lados de Belém. Como muitos portugueses, estou farto destes dez anos de Presidência de Cavaco, do alvará de estupidez que parece ter-se instalado na mais alta magistratura, da falta de cultura, da glorificação da jumentice.
Merecemos outro tempo!

"A CONSAGRAÇÃO DOS MORTOS PELA HIPOCRISIA DOS VIVOS"


José Pacheco Pereira assina hoje, no "Público", uma excelente crónica sobre uma temática que é muito definidora da mentalidade dominante portuguesa. "A consagração dos mortos pela hipocrisia dos vivos" é um texto notável, uma introspecção sem concessões a uma prática que, já nos anos 60, José Cardoso Pires considerava a banalidade da "recuperação post mortem". Saramago escreveu, a propósito, numa das suas crónicas "Deste Mundo e do Outro", que publicou no início dos anos 70, no "Jornal do Fundão, um texto cifrado para poder passar na Censura em que, falando do dr. Jekyl e Mr Hyde (que saíam de noite em busca dos mortos), analisa a tipologia dos "recuperadores de cadáveres" na área cultural. A Augusto da Costa Dias também não escapa esse traço longo da idiossincrasia portuguesa (Discurso Sobre a Liberdade de Imprensa / 1821) ao sublinhar que em Portugal "a História é um panteão escolhido com mortos bons 100%, com mortos sofríveis se se lhes amputar o que não era mesmo bom, o que era heresia, pensamento, fogo, inconformismo, génio, beleza da liberdade, ficando assim reduzidos a um décimo deles inteiros, e pacatamente exemplares como aqueles livros que podem andar em todas as mãos".
Pacheco Pereira toca na ferida:
"Não há tão bom revelador do que é a elite portuguesa do que a maneira como trata os mortos que entende serem “seus”. O festival de hipocrisia que avassala Portugal sempre que morre um consagrado “consensual” revela as nossas enormes fragilidades no espaço público, e uma mistura de reverência oca, de ignorância, de imenso provincianismo e de uma ritualização pobre e subdesenvolvida. E aqui os media e o poder político vivem em simbiose total. Merecem Eusébio, Herberto Helder, Manoel de Oliveira, José Silva Lopes, as homenagens dos portugueses? Merecem sem dúvida, mesmo do “país” se o houvesse. Só que não merecem estas “homenagens” político-mediáticas que tornam cada uma destas figuras peças de cera de um museu morto, que se empacotam numa prateleira logo que termina a exploração da sua morte e venha o esquecimento".
E mais adiante:
"Só que o povo não se põe a falar destes homens como se os conhecesse de intimidade, tivesse estudado a sua obra e por isso pudesse fazer juízo de valor. Essa presunção não tem. Herberto Helder é um completo desconhecido, pelo povo e pela maioria das nossas elites, que agora aparecem todas como íntimas de um poeta singular e difícil, que nunca leram e sobre o qual disseram não só as maiores banalidades, como enormidades. Manoel de Oliveira, que chegava ao povo mais por ter 106 anos do que pela sua obra, era “conhecido” por ser autor de filmes intragáveis, que ninguém via até ao fim, ou sequer até ao principio, e gozado por filmar horas de filme em que nada acontecia ou por fazer fotografia e não cinema. Fazia parte de um certo anedotário que servia para mostrar desprezo pela cultura e pelos intelectuais, ou então, no extremo oposto, como um génio intocável, que em tudo o que mexia produzia arte intangível na sua grandeza absoluta. Estas duas atitudes são aliás mais próximas do que se imagina, porque criam um ecrã sobre a obra que dificulta um julgamento equilibrado e o exercício crítico. A ignorância sobre Herberto Helder manifestou-se também por este mesmo desequilíbrio, reduzindo a história da poesia portuguesa do século XX a dois “génios”, Pessoa e Helder. Pelo caminho, já esquecidas, estão idênticas apreciações sobre, por exemplo, Eugénio de Andrade, Sophia e outros. Por ironia destas coisas, o menos comemorado, em parte porque todas as televisões, rádios e jornais já tinham há muito preparado as peças necrológicas para Manoel de Oliveira, e de Helder não havia muitas imagens, foi José Silva Lopes, o único que as nossas elites políticas conheciam, tal como os espectadores habituais do cabo, porque já não tinha mérito para ocupar os preciosos minutos da televisão generalista. Silva Lopes também teve até agora a singularidade de não ter tido internacionalmente as necrologias habituais, mas um pequeno artigo de opinião,  no New York Times, nem mais nem menos do que do Nobel da Economia Paul Krugman. Por isso, está tudo trocado, e uma coisa é a repercussão pública oficial, com direito a mensagem televisionada do Presidente no caso de Oliveira, e vários dias de luto nacional, outra é a realidade da relação entre estas personalidades e a consciência colectiva portuguesa, quer a do povo, quer a das elites. Tudo isto se passa num dos momentos em que a nossa elite política no poder mais afastada está de qualquer preocupação intelectual e, com algumas raras excepções, com elevados níveis de ignorância sobre qualquer matéria desta natureza. Por isso é que se agarram ao discurso pomposo da comemoração necrológica, que lhes dá uma espécie de álibi cultural que, de outra maneira, não poderiam ter. Quanto mais ignorantes, mais comemorativos, podia ser um axioma dos nossos dias".
José Pacheco Pereira dá um conselho bem simples e de seguro proveito e exemplo, que qualquer dos homenageados post-mortem apreciariam decerto: "Querem comemorar os nossos mortos consagrados? Ajudem os vivos a percebê-los e não a colocá-los numa prateleira, receando que o que haja de subversivo na sua criação saia de lá e chegue à rua. O poder precisa de múmias e não de arte ou cultura, e, nestes dias, a indústria de mumificação está em pleno".

sexta-feira, 3 de abril de 2015

TEATRO DIVINO

Miguel Torga à escrita
Este tempo da Quaresma é um território aberto a fundas memórias. A Semana Santa, como se dizia, era um tempo denso em que a história de Cristo, na amplificação do drama do sua morte, era aquilo a que Aquilino chamou de "teatro divino". Só com a Ressurreição, quando se cantava a Aleluia, começava o novo tempo. Até lá, bandos de miúdos (onde a minha geração se revê) andavam atordoando os ares para dar mais peso à agonia de Cristo, que tinha o seu climax na procissão do Enterro do Senhor, que se iniciava no Calvário, depois de um potente sermão de um pregador, que vinha de fora, para contar a história tim-tim-por-tim-tim. Hoje, o "teatro divino" é mais selecto e o esquife de Cristo, sob o pálio, há muito que deixou de ser transportado pelos senhores padres do Seminário. O "teatro divino" transformou-se produto de consumo turístico, o que não é mau, pois obriga a tradição a fazer exercícios de imaginação criando uma maior amplitude cultural, como acontece no Fundão com a Quadragésima, e que ontem se viu na Procissão do Ecce Homo.
Nos velhos tempos, o dia de Sexta-Feira Santa implicava obrigações, que o Poder subtilmente instilava no quotidiano, a Emissora Nacional só transmitia música clássica, de cariz fúnebre, e, às três horas (que o calendário registava como a hora da morte de Cristo), os homens, na rua e nos cafés levantavam-se e tiravam o chapéu, guardava-se um minuto de silêncio compungido, e os bombeiros punham a sirene a tocar, para o pânico ser total. Em som de fundo, ouvia-se o ribombar das matracas.
Aquilino, na sua fabulosa Aldeia retrata esse ambiente dolente com grande ironia: "Nesses dias de treva as janelas das casas, em observância com a pragmática, fechavam as portadas. O comércio aderia. O senhor Pereira pesava o bacalhau em voz baixa, com gestos comedidos, e os caixeiros que tinham gravata preta punham-na. E como não, se à noite, no afogo das cerimónias quaresmais, se encontravam com as meninas e ia morrer um Deus? Os altares estavam velados com crepes e lençarias pintadas, pois não seria decoroso que a jucunda graça da Senhora dos Remédios, o manto garrido de S. João, a estola sarapintada de estrelas de Santa Catarina continuassem a alegrar os olhos e a perfumar o mundo na hora lacrimosa(...)".
Mas é Miguel Torga, nos Contos da Montanha, que no conto intitulado "A Ressurreição" dá expressão maior ao microcosmos da Paixão, numa aldeia perdida. Vale a pena ler:

A RESSURREIÇÃO

Não há em toda a montanha terra tão desgraçada e tão negra como Saudel. Aquilo nem são casas, nem lá mora gente. São tocas com bichos dentro.
Apesar disso, Cristo Nosso Senhor, aos domingos, digna-se visitar a aldeia na pessoa do padre Unhão, que vem rezar missa ao nascer do sol. O padre apeia-se da égua, assoa-se a um lenço tabaqueiro encardido, tosse, dá duas badaladas no sino, e entra numa igreja tão escura e tão gelada que se lembra sempre duma pneumonia dupla. Diz o intróito com muita solenidade, sobe as escadas de granito, lê, treslê, vira-se, volta-se, benze-se, e, por fim,prega. É sempre uma descompostura de cima abaixo. Que ninguém presta. Que os pais são assim, que as mães são assado, que as filhas são porcas, que os filhos são brutos, que é tudo uma miséria.
Saudel, abismado, ouve. Depois, à saída, põe-se a ruminar Quem irá dizer lá em cima tão mal do povo? Os homens cavam de manhã à noite, as mulheres parem quantas vezes a Virgem Maria quer, os rapazes e as raparigas vão com o gado... Quem irá meter coisas daquelas nos ouvidos de Deus?
Seja quem for, o certo é que no domingo seguinte, Nosso Senhor, sempre pela boca sem dentes do abade, recomeça a ralhar. Que o fim do mundo está perto e que não haja ilusões. Todos para as profundas dos infernos! Os velhos, as velhas e os novos. Ficam só as ovelhas.
Saudel, aí, desespera. Chora umas lágrimas negras, barrentas, e geme como quem uiva. Os rebanhos na serra sem pastor! O que não teriam de Saudel no céu!
E o pior é que nem o próprio padre Unhão descortina saída para semelhante calamidade, depois da falência do remédio que tentou. Seguro de que a misericórdia divina tudo pode, resolveu salvar o desterrado lugarejo e a sua endenominhada gente, através dum acto colectivo de expiação. Endoenças. Estava a Semana Santa à porta. Realizasse o povo endoenças, e remisse os pecados na dor e na oração.

Saudel, lanzudo como os carneiros, nem sequer percebeu. O que eram Endoenças?
E foi preciso o pároco explicar. Eram a Paixão e a Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo, representadas ao natural. Vinham o Senhor padre Gaspar, o senhor padre Abel, o senhor padre Artur, o senhor padre Rego... DE Cristo, Nosso Senhor, fazia o Coelho, que nem de encomenda para o papel.
-- O Coelho?!!! -- e Saudel olhou, assombrado, o homem da Joana Perra.
-- Tem semelhanças...
-- Com Nosso Senhor Jesus Cristo!! -- e a mulher, que nunca dera dez réis pelo marido, um lingrinhas que nem filhos lhe fizera, media o consorte de cima abaixo.
-- Tanto quanto possível -- esclareceu o prior.
-- De Herodes, talvez o Daniel. De Judas...
-- Eu não! -- defendeu-se o Albino.
-- Tu mesmo De Centurião, o Roque. De soldados, os quatro filhos do Zeferino. De Verónica, a Isabel...
Saudel deu com a cabeça nas fragas, a matutar no caso. 
(...)

Segue-se que na Quinta-Feira Santa, à noite, a povoação mudara inteiramente de fisionomia. O seu nome, agora, era Jerusalém, e a multidão assistia de coração alanceado ao martírio do Salvador. E que martírio! O Armindo, a Caifás, duro como um chavelho. O Arrranca, a testemunha, ninguém queria saber. A Rosa, uma coninhas de Maria Madalena, se havia de agarrar num estadulho e começar a eito, não senhor. A chorar, a adorá-lo, meu Deus, meu Jesus, e mais nada. O Carlos, a negá-lo três vezes. Com gente assim, que havia opobre do Coelho fazer?
Olha, deixar-se imolar como um cordeiro inocente. Apenas os juízes, do Pretório, deram a sentença, então os filhos do Zeferino não lhe atiram com uma cruz de castanho para cima do lombo, que pesava para aí quatro arrobas, não o fazem subir o cerro do Calvário, e lá não o pregam, não o içam, e não lhe metem pela boca dentro uma esponja de fel?! Só a tiro. 
(....) Diante de um tal sofrimento, Saudel olhava o Coelho e via-o Cristo mesmo a valer, a dar a vida por nós. E foi com orgulho que a Perra,  às tantas, o viu inclinar a cabeça e ficar-se. 
(...)

Apararam-no as Trindades, muito asnas no papel de Santas mulheres, e deram-lhe sepultura numa eça armada no meio da igreja. Entraram com ele pela porta lateral, estendido na mortalha, cada um a pegar na sua ponta, e encafuaram-no no buraco da urna. Os Zeferinos, claro, apenas eles o depositaram lá no fundo, logo ali como corvos a guardá-lo.
-- Ordem de Pilatos!
(....) À noite, num dos intervalos das cerimónias, a Perra foi ter novamente com o prior. O homem morria-lhe mesmo, sem uma pinga de caldo há tanto tempo.
-- Se morrer, rezo-lhe o responso. Começou tem de acabar.
Resignada, foi ela meter um cibo à boca edar penso aos bois.
Mas de manhã não pôde mais. De joelhos, chegou-se ao túmulo.
-- Manuel...
Aresposta foi um empurrão do filho mais novo do Zeferino.
-- Tire-se daí!
Fariseus!
Até que bateu o meio dia. O padre Unhão deu o sinal, e começou a cantar.
-- Ale...ale...ale...lu...ia....
A Matilde, que fazia de anjo, apareceu, sem se saber como, à beira da sepultura, levantou-lhe o tampo, e mostrou-a aberta e vazia.
-- Non est hic...
Quê?! Não estava lá?! Não estava lá o Coelho?!!
De olhos arregalados, atónita, a multidão não queria acreditar no que via. Nem vivo, nem morto?!

Como o prior ensinara, mal o anjo disse o latim, os filhos do Zeferino puseram-se em fuga pela nave fora. E foi então que a Perra, saída do estupor em que ficara, gritou aqui-del-rei pelo seu homem.
Solidário com aquele desespero justificado, Saudel em peso caiu como um abutre em cima dos quatro facínoras e da tropa fandanga por conta de quem estava a soldo. Não faltava mais nada! Faziam-lhe trinta judiarias, crucificavam-no, davam-lhe sumiço, e ao fim ó pernas para que vos quero! Ora ali tinham. Eles e o resto da comandita.
Transformada num campo de guerra, a igreja era um lago de sangue. De nada valia o furor do padre Unhão, a clamar em altos berros do altar contra aquele remate selvagem da santa cerimónia. Surdos às razões do abade, só atentos à voz íntima da indignação, todos vingavam como podiam a injustiça cometida, numa viril resssurreição do sagrado humano, que apenas o sino, a repicar lá fora, parecia compreender e festejar".


quinta-feira, 2 de abril de 2015

NA MORTE DE MANOEL DE OLIVEIRA




Tinha 106 anos, mas a notícia da sua morte, acabada de chegar, tem uma dimensão de acontecimento inesperado, que nos deixa atónitos. Manoel de Oliveira. Ele assistiu à passagem do cinema mudo para o cinema sonoro, do preto e branco para a cor, presenciou as grandes mutações culturais no domínio da Sétima Arte, mas o seu interesse cultural era muito mais vasto, designadamente na relação com a literatura ou o teatro, podendo dizer-se que nele, na sua arte, a importância da palavra era determinante, daí a sua articulação arterial com a imagem. Não é de estranhar que o seu mundo cinematográfico tenha, por isso, ganho esse estilo de sobriedade e de qualidade narrativa, que provinha de um cimento de afectos com grandes escritores, como foi o caso de José Régio ou Agustina Bessa Luís ou mesmo de Raul Brandão, cujas obras transportou para o cinema.
Bo acanhado (e muitas vezes provinciano) panorama da cultura portuguesa, o caso de Manoel de Oliveira, no reconhecimento internacional da sua obra, é um caso muito singular. Ele rompeu barreiras e fronteiras e as suas obras desencadearam o interesse de grandes críticos e de Festivais Internacionais, que o homenagearam. Uma obra original, um estilo muito próprio, que na arte só acontece quando os autores se tornam clássicos. A sua longa filmografia conta com a participação de grandes actores portugueses (citemos só Luís Miguel Cintra), mas também de nomes maiores do cinema mundial, como foi o caso dos seus actores Marcello Mastroiani, Catherine Deneuve, John Malkovich, Michel Piccoli oi Irene Papas.
Na dimensão humana, era uma personalidade fascinante. E, de tal forma que, sendo o realizador mais velho do mundo no activo, os dias eram preenchidos sempre a sonhar novos projectos. Mais um filme... e outro e outro... Na conversa, transpirava essa juventude, essa abertura de espírito que, às vezes, fazia supor que o Manoel de Oliveira seria eterno. Ele, aliás, brincava com essa ideia das pessoas o rodearem para o apoiar nos seus diversos andares. Um dia no Porto, na jubilação de Arnaldo Saraiva, mostrou-me a sua inseparável bengala e disse-me:
-- As pessoas não percebem que isto é apenas um adereço!
Há uns anos, veio ao Fundão participar no "Cinema-te em Abril", e, quando lhe falámos no hotel onde ficaria, pediu-nos discretamente:
-- É possível ficar num hotel com piscina, que logo de manhã eu gosto de dar umas braçadas...
Manoel de Oliveira (que foi campeão de salto à vara e vedeta do desporto automóvel) construiu uma imensa obra. A sua capacidade de saber olhar para as coisas, para as pessoas e para as paisagens, a sua lucidez para analisar a história portuguesa, na longa duração das suas contradições (veja-se Não ou a Vã Glória de Mandar,por exemplo) faz do seu cinema um fenómeno intemporal, que continuaremos a ver com o mesmo fascínio com que vimos pela primeira vez Aniki Bóbó ou Douro, Faina Fluvial e Acto da Primavera.
Como os poetas com os versos, a sua biografia está nos seus filmes. Tão grande, tão diversa, muitas vezes genial. Manoel de Oliveira.


Longas-metragens

Curtas e médias metragens

Outros filmes

  • 1937 - Os Últimos Temporais: Cheias do Tejo (documentário)
  • 1958 - O Coração (documentário, 1958)
  • 1964 - Villa Verdinho: Uma Aldeia Transmontana (documentário)
  • 1987 - Mon Cas (1987)
  • 1987 - A Propósito da Bandeira Nacional (1987)
  • 2002 - Momento (2002)
  • 2005 - Do Visível ao Invisível (2005)
  • 2006 - O Improvável não é Impossível (2006)
  • 2011 - O Conquistador conquistado (2011), curta-metragem inspirado pela escolha de Guimarães como Capital Européia da Cultura.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

CHAPELADAS!


Um curioso comentário de Augusto Santos Silva no Facebook:
"1. Espectacular a contagem de votos na Madeira.
2. Pelo que consegui perceber, só na Camacha as oscilações de contagem para contagem eram de mais de uma centena de votos, no PSD, e de dezenas de votos na CDU (os interessados).
3.Ficou a ideia de que se fosse preciso esgaravatar e encontrar outro erro, para forçar outro resultado, facilmente se conseguiria.
4. OK. Pode ser que tudo agora mude.
5. E a Madeira fique jardim só pelo motivo de o seu mar, as suas levadas e as suas flores serem uma maravilha."
Não deixa de ser uma originalidade para o PSD: perder uma maioria absoluta na Madeira, durante duas horas... Já foi alguma coisa, em termos de mudança!

HERBERTO HÉLDER, OUTRA VEZ


Hoje, o "JL" dedica uma boa parte da edição a Herberto Hélder.  Lá se publica uma curiosa carta do poeta, quando, no Porto, quiseram celebrar os 25 anos da sua poesia. Herberto Hélder escreveu, então: "Dizem-me que é difícil ser ingrato para quem mostra querer-nos bem. A mim não me custa nada. Houve uma homenagem no Porto em minha intenção, na qual não fio tido, nem achado. Não agradeço Agradeço apenas que me deixem quieto E agradeço-lhe, a si, que publique estas linhas, poucas, que é para não mas agradecerem. Agradeço ainda a mim próprio não ser um cadáver, e isso, que é tudo, não o agradeço a mais ninguém".
Nesta edição, a querida Maria Leonor Nunes traça uma biografias de Herberto Hélder falando da sua colaboração na imprensa. Ora, o poeta teve larga colaboração no "Jornal do Fundão", basta citar o caso do Suplemento sobre a Poesia Experimental, no "& etc..." e na revista NOVA, de que foi co-director com António Paulouro e António Sena. A verdade é que o JF, na parca notícia que publicou sobre a morte do poeta, também omitiu essa presença de Herberto Hélder...

segunda-feira, 30 de março de 2015

UM PAÍS DE CEGOS

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Diz-se, por aí, que há um país de cegos. De cegos, que vendo, não querem ver. Uma das questões que podem inscrever-se, sem receio de caricatura, no anedotário da política à portuguesa, é o problema da Regionalização. Por caminhos ínvios, com a complacência ou aplauso, de forma expressa ou subtil, do universo partidário, realizou-se um Referendo que remeteu a Regionalização para o dia de S. Nunca. As desculpas de maus pagadores, de uns e outros, face ao ónus das políticas que instituíram o país do risco ao meio, e promoveram a sangria humana e a pobreza do interior, desaguaram em promessas de descentralização, que verdadeiramente nunca se materializaram no território. Uma das causas do "Jornal do Fundão", inscritas no seu património editorial, foi sempre a de criar uma cultura de região, que fosse capaz de pensar este território à escala do país. E de tal forma que António Paulouro organizou as Jornadas da Beira Interior, três edições que se articularam também com o espaço ibérico da Raia ("Raia traço de união"!) e que terão sido, de facto, os maiores fóruns de debate sobre a realidade regional realizados em Portugal. A Beira Interior ganhou raízes na dimensão institucional. Até que... o Poder, sempre apostado em dividir o mal pelas aldeias,  inventou essa coisa cómica que são as comunidades urbanas, sem ponta de identidade, apenas um propósito fragmentário para satisfazer desígnios de "barões" regionais com pés de barro. Dilataram-se os bairrismos e as divisões, odeiam-se os autarcas, todos, um pouco menos cordialmente. Agora, numa entrevista ao JF, a presidente da CCDRC, Prof. Ana Abrunhosa, veio de novo falar na Beira Interior como plataforma agregadora do território regional. Um dia destes, recolhendo textos de António Paulouro para um volume antológico (é este ano o centenário do seu nascimento), descobri esta reflexão escrita no número 143 do "Jornal do Fundão", de 1948 (ano III do "Jornal do Fundão") que tem q.b. de actualidade: "Parece que vai realizar-se um Congresso das Beiras. De que província somos nós que tão afastados destas coisas andamos?"

domingo, 29 de março de 2015

"LAVAR AS MÃOS E O OLHAR"



Não há como a Primavera para vermos e ouvirmos o hino à alegria que a natureza, pródiga e boa, nos oferece. Anda um homem cismado, sob o peso da tristeza e de mil dramas, e, de súbito, os campos irrompem na sua mutação e os pássaros, com as suas sinfonias, ocupam os seus territórios, numa renovação de esperança e de vida. À medida que os dias se dilataram em claridade, os sinais imediatos dessa transmutação logo vieram avisar-nos, um pouco na dianteira do calendário, que é mais solene a fabricar as fronteiras das estações. Atento a essa realidade, comecei por ver a carvalha, por cima do Verdinho, que é uma espécie de emblema natural da Praça do Município, desde que o velho olmo monumental morreu de velhice, a pintar de verde novo a sua ramagem, depois a lenta combustão temporal poisa no castanheiro da Índia, com as novas folhas. Se andarmos um pouco mais, à roda do Fundão, pelos caminhos próximos, que nos levam da quinta das Sesmarias à Alverca, o esplendor é outro. Também o arado já abriu a terra para outras sementes. Ei-la, no desenho do seu rigor, como que preparada a régua e esquadro, à espera... As cerejeiras, pessegueiros e macieiras e outras árvores do pomar da Cova da Beira já começaram a florir e se olharmos a Gardunha, ao longe, vemos que a neve branca dos cerejais já explode no seu cromatismo fantástico. É um vento que passa, é tudo muito rápido. O sol apressa o respirar da terra. Este é o tempo das cerejeiras em flor.
Vergílio Ferreira, em Escrever, livro feito de pensamentos ao arrepio dos dias, que Helder Godinho organizou, chama a atenção para este espectáculo da Primavera que não se deve perder. Escreveu ele: "A luz, a luz. A Primavera enviou já a sua mensagem e só é preciso estar atento para a não perder. Não é a luz sumarenta do Outono ou a luz pesada do Verão.É uma luz nítida e ainda fria dos gelos do Inverno. Recorta as coisas pelo seu limite e elas emergem inteiras do seu ser. Essencialidade da vida, é a altura de lavarmos nela as mãos e o olhar. Entender aí a nossa relação com elas e sermos nós também na inteireza do que somos. Aprender a ver o mundo na sua estrita realidade sem um ver que nos cegue como o fogo do Verão a a moleza outonal. Aprender o limite dos excessos de nós para conhecermos a alegria que nos não cansa ou a melancolia que tem pacto feito com a morte. Existir uma vez ainda no recomeço de existir. E saudar a vida ainda, como se pela primeira vez".
É esse sentimento primordial que se colhe, como quem abraça uma flor. É o coração da terra a respirar. Basta olhar, mesmo que ande um homem cismado, caminhando sob o peso da tristeza dos dias que correm...