sábado, 18 de abril de 2015

VINTE E SETE MIL EUROS POR MINUTO...


Recolho do Blogue de Eduardo Pita, "Da Literatura", esta informação curiosa:
"Vinte e sete mil euros por minuto foi quanto perdeu o Grupo Espírito Santo entre Abril e Junho de 2014. Por minuto. É uma das revelações do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito ao colapso do império de Ricardo Salgado. O documento, que tem 380 páginas, teve como relator Pedro Saraiva, deputado do PSD. Lembrar: no momento em que, a cada minuto, 27 mil euros iam pelo cano, o Presidente da República, o primeiro-ministro e o governador do Banco de Portugal exortavam o bom povo a investir no BES".
Esta questão o escândalo do BES e do universo financeiro, do principal grupo económico do país, é um verdadeiro processo do capitalismo português, das suas falcatruas, das suas engenharias financeiras, da sua promiscuidade com o poder político, que aquele poder cavalga e domina. Um relatório de proveito e exemplo para quem quiser saber as linhas com que se cose este país à beira mar plantado.

LABIRINTOS DA MEMÓRIA


Há coisa de três anos, participei no Encontro de Hendaya, que evocou "o salto" e a emigração portuguesa, naquele lugar simbólico que era um sinal de liberdade e de superação da fronteira entre a mágoa e a França, como escreveu Manuel Alegre na "Praça da Canção". Foi um debate importante que visou,  também, resgatar a memória da emigração, ainda tão oculta na sociedade portuguesa.
Ficou, então, estabelecido, por minha proposta, que um segundo Encontro se realizasse, no Fundão. Por vicissitudes várias, não pôde o acontecimento ter lugar, logo no ano seguinte, nem depois, mas acontece agora, nos dias 23 e 24 de Abril, num fio temporal que é, também, uma boa forma de comemorar Abril.
Haverá um pouco de tudo, como se pode ver pelo programa: os documentários de José Vieira, as exposições de Gerald Bloncourt e de Gabriel Martinez: "Por uma vida melhor" e "Sala de Espera", debates em que a memória e o futuro da emigração, o impacto da emigração no tecido social, na economia e no imaginário, a dimensão dos luso-descendentes, estarão presentes num diálogo plural. E um momento especial: um tributo de gratidão a Eduardo Lourenço, a Maria Beatriz Rocha-Trindade e a Abílio Laceiras.
Labirintos da Memória: um acontecimento cultural a não perder.



sexta-feira, 17 de abril de 2015

JOSÉ MARIANO GAGO


Uma morte prematura que empobrece a ciência portuguesa. Um cientista admirável, que se empenhou como poucos na transformação da sociedade portuguesa, na dinamização da investigação científica e do ensino da Ciência, como factores indispensáveis à modernidade e ao progresso de Portugal. José Mariano Gago, antigo ministro da Ciência e do Ensino Superior de vários governos socialistas, morreu esta sexta-feira, em Lisboa, de cancro. Tinha 66 anos. Foi o primeiro ministro da Ciência e da Tecnologia que Portugal teve. Desempenhou essas funções, primeiro em governos de António Guterres, entre 1995 e 2002, e depois, entre 2005 e 2011, em governos de José Sócrates, juntando-se à pasta da Ciência e da Tecnologia o Ensino Superior. Físico de partículas, Mariano Gago era actualmente o presidente do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP). À procura das palavras certas para sublinhar a notícia, aproprio-me do comentário breve que Augusto Santos Silva, a propósito, fez no Facebook. Palavras certeiras:

"1. O Zé Mariano Gago era uma pessoa excepcional. Um cientista excepcional, um professor excepcional, um amigo excepcional, um político excepcional, um cidadão excepcional.
 2. Conheci-o, há muitos anos, na luta pela educação de adultos, como passo essencial para recuperar o atraso histórico português e colocar em bases certas o nosso desenvolvimento.
 3. É aquele que, nas últimas quatro décadas, mais lúcida e incansavelmente combateu pela ciência, a educação científica e a modernização tecnológica da economia e da sociedade.
 4. É o maior exemplo de compromisso público, de empenhamento, de ousadia e eficácia na ação, de intransigência perante a ignorância e a demagogia, que posso indicar aos mais novos.
 5. Hoje, que ele partiu, é um dia muito, muito triste."

É PRECISO TER LATA!


A ministra Maria Luís, mais o ministro Marques Guedes e um obscuro secretário de Estado vieram dar conta ao país das decisões do Conselho de Ministros. E o que disseram, ou deixaram nas entrelinhas, é mais do que suficiente para pôr o povo com os cabelos em pé ou com as ideias em estado de sítio. De facto, o que vieram dizer é que a austeridade, pura e dura, é para continuar, mesmo que, como acontece no corte de salários, a medida signifique mais um desafio ao Tribunal Constitucional. E mais porrada nas pensões e por aí fora... Só para os patrões há boas notícias: mais descida no IRC, e, encapotadamente, descida do TSU à custa da descapitalização da Segurança Social.
Que é um governo com lata, nisso não haja dúvidas. Em ano de eleições, o governo veio anunciar medidas para 2016, 2017, 2018, e prometer a reversão da austeridade para 2019! É como se a fatalidade do governo, que nos caiu em cima, fosse uma pastilha elástica. Estarão eles convencidos que são eternos? Ou que os portugueses sejam assim tão estúpidos que batam palmas à eternidade do inferno em que eles transformaram o nosso quotidiano?
É preciso ter lata!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

UM CRIME DISFARÇADO


Imagens da manifestação que mobilizou o país contra o governo e a TSU
Quem não se lembra do levantamento do país quando Passos Coelho anunciou que sobre os trabalhadores iria recair a taxa de TSU, poupada aos empresários? Talvez alguns ainda se lembrem que foi esse grande protesto colectivo que fez recuar o governo na sua política contra aqueles que têm sido as principais vítimas do governo de Passos & Portas: os que ainda usufruem o direito ao trabalho. Os dois comparsas governamentais anunciam agora novamente, por caminhos ínvios, a diminuição da TSU aos patrões, à custa da Segurança Social. É a descapitalização da Segurança Social, mais um prego (e pesado) no seu caixão.
Na anemia cívica que percorre o país, poucos levantam a voz contra este crime anunciado. O meu amigo Carlos Esperança, que gosta de pensar em voz alta, escreveu uma nota no seu Blogue "Ponte Europa", que é um grito contra esta iniquidade. Eu amplio aqui a sua voz:

"O Governo encontrou na marionete, que dá a cara pela agenda ideológica, o mensageiro das más notícias e assumido carrasco das vítimas desta maioria e da conivência do PR. Passos Coelho anunciou a descida da Taxa Social Única (TSU), rastilho que fez levantar os portugueses contra o Governo e que, em setembro de 2012, o obrigou a recuar, com Paulo Portas, após o fracasso, a afirmar que não aceitaria que o ónus da redução recaísse nos trabalhadores. Então, transferiam-se os encargos das empresas para os trabalhadores, agora reduzem-se para as empresas e ninguém terá de os suportar, só a Segurança Social (SS) é espoliada. O crime é disfarçado. A redução da TSU não implica a subida das contribuições para a SS, pelos trabalhadores, e Portas benze o crime encoberto. Eles são feios, porcos e maus mas têm quem lhes ensine o disfarce. Segundo o PSD, a quebra de receitas da SS é compensada pela criação de emprego e, logo, de aumento do montante oriundo dos descontos por parte dos trabalhadores.Ninguém acredita, mas é preciso evitar a revolta de um povo que o sofrimento bloqueia e o medo paralisa. Está em curso o processo de falência da Segurança Social enquanto prossegue a cegueira ideológica e a insensibilidade social do bando que quer entregar os reformados, nos anos que ainda lhes restam, à inclemência do acaso. E não há um sobressalto cívico que transfira o terror para quem o fomenta?"

VICTOR JARA: JUSTIÇA PÓSTUMA


Às vezes, a esperança tem razão contra a ignomínia. Há muitos crimes sem castigo, mas acontece que a impunidade de sujeitos que, pela natureza da sua acção criminosa, tão infra-humana e tão contra a humanidade, é visada pela justiça, porque há quem não desista da luta pela dignidade humana. Foi o que aconteceu agora, com o assassino e torturador de Victor Jara, que foi detido e irá ser julgado nos Estados Unidos, onde se encontrava fugido. O crime, como se sabe, aconteceu em 1973, na sequência do golpe do ditador Pinochet.
Trata-se do ex-militar chileno Pedro Barrientos. Umtribunal do distrito de Orlando (Flórida) concordou em julgar o ex-militar e aceitar a demanda apresentada por Joan Jara e Amanda Jara, mulher e filha do cantor. No entanto, diz a notícia, o tribunal rejeitou julgar Barrientos por "crimes contra a humanidade". Uma das organizações que tem a seu cargo a acção judicial, a Center for Justice and Accountability (CJA), aplaudiu a decisão adoptada pelo tribunal, mas disse que é "decepcionante" que tenham sido excluídos os crimes contra a humanidade. "O assassinato de Víctor Jara e os milhares de crimes cometidos sob o regime de Pinochet deveriam ser chamados pela sua natureza, como crimes contra a humanidade", assegurou Almudena Bernabeu, advogada do CJA. "A família Jara está perto de conseguir esse esperado julgamento", expressou a CJA, que apresentou a acção em 2013, juntamente com os parentes do cantor.
Barrientos, tenente aposentado do Exército chileno e cidadão americano, tinha solicitado em Março a rejeição deste processo por considerá-la csem fundamento de "jurisdição". O ex-militar, com residência em Deltona, no norte da Flórida, é acusado nos Estados Unidos de "tortura e assassinato" de Víctor Jara durante a "detenção em massa de milhares de intelectuais e líderes políticos". Jara foi assassinado cinco dias depois do golpe militar de 11 de setembro de 1973, após ter sido brutalmente torturado, durante vários dias, num local onde permanecia detido com centenas de partidários do derrubado governo de Salvador Allende. O governo chileno solicitou em 2012 aos EUA a extradição de Barrientos e o Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior constituiu-se como assistente no caso.
Esta, a notícia. Ainda hoje, a distante lembrança do mecanismo de tortura até à morte, a que foi sujeito Victor Jara, desaperta em nós todas as angústias e todas as lágrimas, pelo que envolve de desumanidade, de violência absurda contra a dignidade do homem, contra a vida. De vez em quando, ouvindo-o cantar, lembro-me de Victor Jara e um dia escrevi uma prosa indignada que deixo a seguir, longe de imaginar que o responsável material pela acção criminosa seria detido, 43 anos depois. Para ser julgado.

O cantor, que fazia da canção uma arma, tornou-se um símbolo da batalha por um mundo fraterno e justo. As suas canções constituíam uma música de esperança e ouviamo-lo como se ele fosse um daqueles poetas cujas sílabas procuram uma “humanidade nova a inventar”. Victor Jara era a voz do Chile democrático do Presidente Allende, mas as suas canções passaram por cima das fronteiras como música universal em louvor do homem. Quando Pinochet, com a cumplicidade americana (Kissinger, lembram-se?) fez o golpe fascista e tomou de assalto La Moneda, pondo fim a uma experiência democrática de socialismo, Victor Jara logo foi encarcerado. O que lhe aconteceu depois sabe-se e ainda arrepia só de ouvi-lo contar. Os torcionários de Pinochet queriam calar a sua voz, mas fuzilá-lo não era talvez suficiente. Antes do golpe final foram-lhe partindo lentamente os dedos das mãos, perigosos porque tocavam viola, cortadas as mãos, desfigurada a face e a boca, corpo do delito de cantar. Foi um homem desfigurado, totalmente aniquilado na sua estrutura humana, um corpo de massa informe, que os carrascos de Pinochet despejaram naqueles locais sombrios que eram os cemitérios ao luar de Pinochet. Entre muitos crimes contra a humanidade, o assassínio de Victor Jara comoveu o mundo. 

Agora, um dos mastins da tortura, vai ser levados a tribunal. A justiça póstuma é apenas um breve sinal contra a impunidade. Porque às vítimas ficam sempre por fazer muitos gestos de amor, muita felicidade, muitos beijos e alegria, como Jorge de Sena escreveu num poema célebre a propósito dos fuzilamentos pintados por um pintor chamado Goya. Fica sempre muita vida por haver. No caso de Victor Jara, ficou, também, a memória feita de canções pela liberdade. Não pode haver melhor lembrança.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

NUNO TEOTÓNIO PEREIRA: O ARQUITECTO DAS BATALHAS CÍVICAS


Num país que gosta tanto de fazer justiça a título póstuma, esquecendo normalmente os gestos de ternura e o reconhecimento do mérito aos vivos, temos que saudar a atribuição do Prémio Universidade de Lisboa 2015 ao arquitecto Nuno Teotónio Pereira. A distinção acontece aos 93 anos de uma vida singular no plano criador e no plano humano. A biografia de Nuno Teotónio Pereira, se é muito importante em relação aos horizontes novos e rasgados que abriu na arquitectura portuguesa, também o é pela exemplaridade cívica e cultural, pela coragem que a sua vida reflecte na dura luta contra a ditadura de Salazar e Caetano. Foi um combate que travou como acto pleno de cidadania, pela liberdade, contra a guerra colonial, como se fosse a consciência moral de um povo. Foi preso e brutalmente torturado, mas Nuno Teotónio Pereira assumia esse compromisso com a humildade de quem cumprira apenas um dever na batalha pela liberdade e pela dignidade de um país.
É por isso que a Universidade de Lisboa, ao anunciar a atribuição do Prémio, sublinha justamente que ele distingue o exercício "brilhante" na área da arquitectura e como "figura ética" da sociedade portuguesa. Diz o júri que Nuno Teotónio Pereira contribuiu "de forma notável para o progresso da ciência e da cultura e para a projecção internacional de Portugal". E acrescenta: "Mais do que um profissional brilhante na área da arquitectura, assume-se como uma figura ética que, desde sempre, soube afirmar posições de grande vigor cívico". Destaca igualmente a "sua vasta obra na cidade de Lisboa, que inclui três prémios Valmor", uma obra marcada "pelo constante e o intemporal" e "permanentemente comprometida com a necessidade de se construir uma sociedade cada vez mais justa e cada vez melhor".
Ao Nuno Teotónio Pereira, aquele abraço!



RECUSAR A MORTE ANTECIPADA


Viver sem ideias, é uma espécie de morte antecipada. Agora, que estamos em Abril e a evocação de "o dia inicial, inteiro e limpo" (Sophia) se aproxima, é bom reflectirmos sobre a anquilose que tolhe a vivência democrática, o desgraçado índice de participação cultural, a vida sem ideias dos que se consideram mortos e morrem. É preciso pensar esta realidade que, como dizia o poeta da Praça da Canção, que "em nós semeia esta vileza/ e envenena ao nascer qualquer ideia".
Uma das notas mais eloquentes da anemia cívica portuguesa prende-se com uma certa incapacidade para tomar a crítica como elemento imprescindível da vida colectiva e seiva vivificante da democracia. Não é apenas a crítica um direito elementar, barómetro de cidadania, mas uma condição fundamental para materializar o desenvolvimento. Numa sociedade como a portuguesa, tolhida por autoritarismos de longa duração histórica, com as suas fogueiras de intolerância e de silêncios, a mentalidade colectiva facilmente se tornou refém de medos e de indiferenças, uns e outras geradores de súbditos que ainda pensam que o direito a elevar a voz é recurso eivado de perigosidades. O Prof. José Gil, longamente tem discorrido sobre este fenómeno traumático nacional, para explicar como estes estigmas inquisitoriais e salazarentos, tão contrários ao nosso tempo, se inscrevem, ainda, com nitidez, no quotidiano português. A liberdade implica essa responsabilização do pensamento em voz alta, essa exigência da pluralidade de ideias, essa ousadia emergente da vida em comunidade.
Os poderes não gostam, todavia, de conviver com a crítica. Em grandes e pequenas questões, em macros ou micros realidades políticas, o direito ao pensamento (que nunca pode ser único) e a sua formulação pública, funde-se na própria dignidade da vida. Os políticos acham, todavia, que o dever de responder aos cidadãos é uma maçada e que a democracia, na sua vertente participativa, uma grande chatice. Interiorizam a condição de “vacas sagradas”, só objecto de reverências, mas isso só é possível na metafísica das religiões e dos mitos. Entre nós, banalizou-se há muito uma dicotomia – crítica objectiva e crítica maledicente – que nunca teve outro objectivo estratégico senão neutralizar a sua prática, domesticá-la,isto é, fazer dela um mero processo do interesse dominante.
Ora, a verdade é que, como todos sabem, a defesa do interesse público configura hoje, numa sociedade politicamente cada vez mais complexa, a necessidade de mobilizar a atenção da sociedade civil como exigência crítica de intervenção nas coisas que, afinal, nos dizem respeito imediato e são parte da nossa vida comum. Não é favor – é direito. A cidadania comporta esse traço distintivo de comportamento, como normal. E a cidade faz-se e refaz-se, na busca intemporal de progresso e de bem-estar, na participação cívica e na afirmação cultural da crítica dos seus habitantes, cidadãos e não súbditos ajoelhados à verdade olímpica, e absoluta, do poder. Não há tábus. E a participação, na diversidade que o pluralismo potencia, é um contributo muito importante para a vida quotidiana. Se quisermos salvar a democracia e revitalizar a política, então, temos que rever conceitos, e assumirmos, todos, a humildade de encarar a participação cívica como bem inestimável.
Falamos de crítica como essencial ao debate das ideias, e não de trauliteirismo. Pensar o país, como pensar a cidade, é sempre um desafio colectivo. E jamais poderá ser feito sem ideias. Muitas ideias. Como um dia Antero respondeu aos esbirros que proibiram as "Conferências do Casino", também os que amam verdadeiramente a democracia podem interrogar: -- Mas Excelentíssimos senhores, é possível viver sem ideias?"

terça-feira, 14 de abril de 2015

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA


Num país que gosta tanto de ajustar contas com o passado recente, há questões que morrem no limbo do esquecimento ou ficam suspensas na densa gaveta dos tabus que não vale a pena aprofundar para apurar as causas ou medir as consequências que provocaram na sociedade portuguesa. É melhor não se falar nisso, pensam porventura os directamente envolvidos, que nesses ajustes de contas com o passado nunca querem medir, também, as responsabilidades das decisões tomadas. Foi o que se passou com o chumbo do PEC 4, que cimentou uma santa aliança entre os partidos à esquerda do PS (PCP e BE) e a direita (PSD e CDS) para derrubar o governo de Sócrates. É certo que o PC sempre se arvorara contra a política dos PECs, de uma forma frontal, e no seu encalce seguiu sempre o BE. A direita queria a Troika e, como se viu desejava ir além dela, com as consequências devastadoras que se conhecem. A explicação à esquerda, é sempre minimalista: depois do PEC 4, viria o 5 e por aí fora. E, nessa inevitabilidade, justificam, afinal, a vinda da Troika, que foi uma espécie de bando de malfeitores, acolitados por Passos Coelho e Portas. O povo, como sempre acontece, é que sofreu e está a sofrer na pele as consequências.
Ora, esta semana, no caderno de Economia do "Expresso", Nicolau Santos faz a história da vinda da troika para Portugal estabelecendo as diferenças entre o que se passou no nosso país e em Espanha, onde na aplicação da austeridade há nuances que traduzem a diferença de qualidade entre uma e outra intervenção. A canga portuguesa é substancialmente maior e a devastação social mais intensa. É um longo artigo, mas nesta parte, que a seguir ofereço aos Leitores, se contém o essencial de uma história que tem sido por aí muito mal contada.

"Anatomia e dissecação de um colossal falhanço  

1. A 4 de abril, Angela Merkel elogia os esforços do Governo português para combater a crise, através de um novo plano de austeridade, o PEC 4. Com o apoio da chanceler alemã e do presidente da Comissão Europeia havia a real possibilidade de Portugal conseguir um resgate mais suave, idêntico ao que Espanha depois veio a ter. O primeiro-ministro, José Sócrates, dá conta ao líder da oposição, Pedro Passos Coelho, do que se passa. Este, pressionado pelo seu mentor e principal apoio partidário, Miguel Relvas, recusa-se a deixar passar o PEC 4, dizendo que não sabia de nada e que não apoiava novos sacrifícios. O seu objetivo é a queda do Governo e eleições antecipadas (ver o livro “Resgatados”, dos insuspeitos jornalistas David Dinis e Hugo Filipe Coelho). O Presidente da República, Cavaco Silva, faz um violento ataque ao Governo no seu discurso de posse, a 4 de abril, afirmando não haver espaço para mais austeridade. Os banqueiros em concertação pressionavam o ministro das Finanças. Teixeira dos Santos cede e coloca o primeiro-ministro perante o facto consumado, ao anunciar ao “Jornal de Negócios” que Portugal precisa de recorrer aos mecanismos de ajuda disponíveis. Sócrates é forçado a pedir a intervenção da troika. Merkel recebe a notícia com estupefação e irritação.
2. O memorando de entendimento (MoU) é saudado por políticos alinhados com a futura maioria, por economistas de águas doces, por banqueiros cúpidos e por comentadores fundamentalistas e bastas vezes ignorantes, pois, segundo eles, por cá nunca ninguém conseguiria elaborar tal maravilha. Hoje, pegando nas projeções para a economia portuguesa contidas no MoU, é espantoso constatar a disparidade com o que aconteceu. Em vez de um ano de austeridade tivemos três. Em vez de uma recessão não superior a 4%, tivemos quase 8%. Em vez de um ajustamento em 2/3 pelo lado da despesa e 1/3 pelo lado da receita, tivemos exatamente o contrário: uma austeridade de 23 mil milhões reduziu o défice orçamental em apenas 9 mil milhões. Em vez de um desemprego na casa dos 13%, ultrapassámos os 17%. Em vez de uma emigração que não estava prevista, vimos sair do país mais de 300 mil pessoas. E em vez da recuperação ser forte e assente nas exportações e no investimento, ela está a ser lenta e anémica, assentando nas exportações e no consumo interno. A única coisa que não falhou foi o regresso da República aos mercados. Mas tal seria possível sem as palavras do governador do BCE, Mario Draghi, no verão de 2013, ou sem o programa de compra de dívida pública dos países da zona euro? Alguém acredita que teríamos as atuais taxas de juro se não fosse isso, quando as agências de rating mantêm em lixo a nossa dívida pública? Só mesmo quem crê em contos de crianças. (…)»

EDUARDO GALEANO: O ESCRITOR DAS "PALAVRAS ANDANTES"


Vão tristes as notícias para a literatura. Depois de Gunther Grass, foi depois a vez do escritor uruguaio, Eduardo Galeano, também partir, deixando-nos uma saudade que só poderá ser mitigada pela leitura dos seus romances e dos seus poemas. Poucos escritores terá havido tão empenhados na defesa da liberdade e dos direitos humanos na América Latina, como Galeano, que foi preso político e sofreu o exílio para escapar à morte que as ditaduras militares, então no poder da ignomínia, lhe quiseram sempre infligir. Construiu a sua obra e edificou um pensamento livre e o seu livro As veias abertas da América Latina tornou-se um clássico, embora o escritor, mais tarde, viesse considerá-lo um livro da juventude ("o tempo passou e descobri diferentes maneiras de conhecer e de me aprofundar na realidade").
Multipremiado, recebeu o prêmio Casa de Las Américas em 1975 e 1978, e o prêmio Aloa, promovido pelas casas editoras dinamarquesas, em 1993. A trilogia Memória do fogo foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, EUA) em 1989. Em 1999, Galeano foi o primeiro autor homenageado com o prêmio à Liberdade Cultural, da Lannan Foundation (Novo México). A sua bibliografia conta obras como:De pernas pro ar, Dias e noites de amor e de guerra, Futebol ao sol e à sombra, O livro dos abraços, Memória do fogo (a qual integra As caras e as máscaras, O século do vento), Mulheres, As palavras andantes,Vagamundo, As veias abertas da América Latina,
Gostaria de ter sido jogador de futebol e este desporto foi paixão de vida. Galeano falava com ardor da seleção celeste. Dizia sobre a relação do seu país com o o futebol:
– É uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguai foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.
A paixão era tanta que, em tempos de Copa, Galeano pendurava uma placa com os dizeres "Cerrado por futebol" ("fechado por futebol"), na porta de casa, entre as bandeiras do Uruguai e do Nacional, sua equipa do coração.
Foi sempre um escritor comprometido e solidário com "os ninguéns", que ele tratou num poema que identifica muito a sua obra. Aqui o deixo, como "palavras andantes", evocando o seu universo criador:
“As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.”


segunda-feira, 13 de abril de 2015

A MORTE DE GUNTHER GRASS


Acabo de ler a notícia da morte do escritor alemão Gunther Grass. Tinha 87 e a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1999, foi um galardão justíssimo, ao consagrar uma obra que resgatou, em larga medida a memória dos traumas nazis da sociedade alemã, ao mesmo tempo que reflectiu sempre tudo aquilo que dizia respeito à condição humana, que é sempre um grande destino da literatura. O seu empenhamento na introspecção à sociedade alemã, aos seus fantasmas e às suas ruínas, numa escrita que iluminava o tempo das narrativas, conferiu-lhe a condição de "consciência moral da Alemanha". Era, por outro lado, um escritor empenhado nas denúncias das injustiças sociais e das mortes que marcaram a contemporaneidade e reflectiu a amargura da gradual morte da Europa. Era uma voz autónoma da esquerda.
Na notícia que o "Público" publica na edição on line, sublinha-se que  Gunther Grass "era considerado um porta-voz da sua geração" e um "defensor de causas de esquerda" e que se "manifestou por exemplo contra as intervenções militares no Iraque". O jornal lembra ainda: "Em 2012 foi considerado persona-non-grata por Israel, depois de ter comparado a acção deste país com os regimes ditatoriais. Ficou proibido de entrar no país, tendo recebido até críticas dos próprios alemães. Houve mesmo um pedido à Academia Sueca, que foi rejeitado, para que ao escritor fosse retirado o Nobel da Literatura. Também em 20112, o escritor publicou um poema de apoio à Grécia. Chamou-lhe A Vergonha da Europa e não se conteve nas críticas à atitude da chanceler alemã Angela Merkel. O Nobel da Literatura lembrava a história da Grécia, a quem a Europa muito deve. “Tu vais definhar privada de alma sem o país que te concebeu, tu, Europa”, escreveu Günter Grass, num poema com 12 estrofes de dois versos cada".
Na sua biografia regista-se: "Membro da Academia das Artes de Berlim, Günter Grass, que ganhou o reconhecimento internacional com O Tambor de Lata publicado em 1959, recebeu, além do Nobel, distinções tão importantes como o Prémio Literário Príncipe das Astúrias, o Prémio Internacional Mondello ou a Medalha Alexander-Majakovsky. Em 2006, o escritor contou a sua história numa polémica autobiografia, na qual confessou que se alistou nas Waffen-SS, uma unidade de elite da Alemanha nazi, quando tinha 17 anos. Descascando a Cebola aborda a vida do escritor entre 1939 e 1959. Grass relembra aqui a sua adolescência numa Alemanha devastada pela guerra, o seu trabalho como mineiro e a decisão de fugir para Paris, em França, onde escreve O Tambor de Lata, O Tambor de Lata é o primeiro volume da chamada "Trilogia de Danzig" (os outros são O Gato e o Rato e O Cão de Hitler), em que Grass recria com ironia e humor cáustico o ambiente da sua cidade natal, Danzig (actualmente a cidade polaca de Gdansk), antes e durante a II Guerra Mundial".

"ÍNDICE DO SITUACIONISMO"


Recolho do ABRUPTO, de José Pacheco Pereira, um comentário que fez na revista "Sábado", que versa o tema da propaganda governamental, reforçando o texto que publicou no "Público" e que, aliás, já sublinhara nesta página (ver O livre curso da Propaganda). A caricatura que ele faz do situacionismo é certeira e só mostra o estado de doença que está a minar Portugal. Aqui fica:

"ÍNDICE DO SITUACIONISMO: ORIENTAÇÕES DO SPIN PARA ESTES DIAS 

Sempre que há um bom número, falam 10 ministros e secretários de Estado, com as câmaras de televisão atreladas. Agora fala também o Presidente. Mais o primeiro-ministro, a ministra das Finanças, o ministro da Economia, o homem dos chapéus todos, Paulo Portas, e, por fim ou ao princípio, Marco António e Marques Mendes. Falam pelo menos em três ocasiões diferentes da mesma coisa. Como não podia deixar de ser, cada bom número é um gigantesco sucesso, mesmo que não se repita no mês seguinte. Quando há números assim-assim arranja-se uma comparação estatística que os torne bons números. Fazem-se as comparações convenientes e esquecem-se as mais rigorosas. Compara-se muitas vezes o incomparável. As séries mudam, umas vezes para começar em 2008, outras em 2011, outras na década anterior. Falam os ministros mais habilidosos no exercício, a começar por Paulo Portas, que até um mau número torna num bom número".

domingo, 12 de abril de 2015

SUBMARINOS VOADORES

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
No Blogue Duas ou Três Coisas, de Francisco Seixas da Costa, que eu aconselho nesta página, encontra-se sempre boa e proveitosa matéria de reflexão. Não é só a qualidade da escrita, sempre muito fluente e na procura incessante da simplicidade, é, também, a ironia que marca os textos, quer versem a actualidade política, quer adquiram a dimensão memorialística sobre Vila Real, por exemplo, ou sobre as suas vivências diplomáticas.
Deixo aqui, com a devida vénia, um dos últimos posts, intitulado "Submarinos Voadores":
"Aquela minha amiga, figura pública do espetáculo bem conhecida, charlava com o taxista que a transportava sobre a política caseira. Rapidamente percebeu que o discurso do motorista era "avançado" (para quem não saiba, é a expressão que, durante a ditadura, se utilizava para designar gente "bem à esquerda"). Depois de primeiramente zurzir, como é de óbvia regra, o inquilino cessante de Belém, vieram à baila as próximas eleições, E aí, ao nosso homem, virando-se para a passageira e com gesto largo de mãos, saiu-lhe esta:
- Ó minha senhora. O que eu gostava mesmo, para dar a volta a isto, é que os comunistas ganhassem. Aí sim, até os submarinos voavam!"

LIGAÇÕES PERIGOSAS


Notícia o último Babelia (11 de Abril) que "Umberto Eco escreveu uma paródia feroz sobre o jornalismo e a política". O livro foi agora publicado em Barcelona (em Portugal, quando será?), na editora Lumen, e a narrativa que Eco urdiu em Número Cero gira à volta de um jornal criado "não para ser lido pelo público, mas para extorquir dinheiro aos poderes estabelecidos": "Bastam uns poucos jornalistas devidamente dirigidos e apenas umas dezenas de exemplares para intimidar os destinatários seleccionados. Tudo muito barato e higiénico, sem os custos de uma publicação, que sempre deixa uma regueira de sangue".
Em Portugal, não faltam casos de imprensa que existe para intimidar alvos devidamente seleccionados. Todos conhecemos situações dessas. Mas ao contrário do livro de Umberto Eco, por cá é para vender papel, fazendo sangue...
Achei curiosa uma das descrições que Babelia singularizava de Número Cero. "O seu repórter mais aguerrido, de nome Bragagadocio, exclama em plena febre investigadora que "os jornais não estão feitos para difundir, mas para encobrir notícias". E num outro passo: "Sucede o facto X, não podes obviá-lo, mas, como põe em apuros demasiada gente, nesse mesmo número marcas uns grandes títulos, de pôr os cabelos em pé, e a tua notícia se afoga no grande mar da informação".
No livro de Eco, "o director da redacção fantasma veta inclusivamente nos números zero qualquer notícia que possa beliscar os interesses do proprietário, quer se trate do assassinato do juiz Falcone às mãos da Mafia ou dos subornos a políticos para conseguir contratos: a realidade é apenas um elemento aleatório que deve submeter-se à vontade de amedrontar".
O escritor César António Molina, que comenta o livro, lembrando: "A queda da imprensa em mãos irresponsáveis é a mordaça que os corruptos impõem à democracia e significa a destruição das raízes da própria democracia. Um jornalismo que só serve para fabricar dossiers.  Esta falsa novela de Eco (...) é todo um requisitório contra o estado de ruína em que se tornou a sociedade italiana desde o fascismo até aos nossos dias".
O problema é que esta forma de seleccionar a realidade, duma certa imprensa, tem contornos geográficos mais vastos. A denúncia de Umberto Eco é mais vasta. Quem não pensa nestas coisas a propósito da sociedade portuguesa?