sábado, 25 de abril de 2015

QUANDO A LIBERDADE ERA PROIBIDA...



Ontem, estive no Jornal das 20 da SIC para falar do que era a Censura, partindo da experiência real do "Jornal do Fundão" e do seu combate pela liberdade de expressão. Ao longo do jornal da noite foram assim surgindo histórias e exemplos que davam bem a nota como quase tudo era proibido pela máquina trituradora do pensamento impondo aquilo que o poeta Ruy Belo, em versos muito belos, disse desse Portugal de pesadelo e angústias: "No meu país não se passa nada", "país sem olhos e sem boca. Falando de mordaça foi, ao mesmo tempo, uma maneira de falar de liberdade e de Abril.
Foi uma viagem ao antes da Liberdade, um exercício de memória ao tempo em que Salazar louvava a Censura dizendo que "tudo aquilo que não é publicado, não existe".
"No meu país não se passa nada", dizia então o poeta. E ontem, na SIC, pude mostrar cortes da Censura sobre a mínima actividade sindical (não era possível noticiar greves e a narrativa da informação era particularmente impiedosa face ao universo operário), sobre a saga da emigração, matéria que também era tabu (nem as condições de vida no país de origem, que levavam ao êxodo, nem as condições de vida nos bidonvilles, em França), sobre o controle do imaginário (a notícia muito breve de uma experiência de TV a cores em Madrid: aquilo que não vemos não podemos desejar), sobre Saramago (que também foi vítima do "lápis azul"), sobre o caso da suspensão do "Jornal do Fundão", em 1965, pela notícia do prémio literário atribuído a Luandino Vieira (a Censura: "os jornais regionais não têm nada que ter suplementos literários"!), sobre a crítica de tv e o Mário Castrim, sobre o condicionamento da informação sobre a cultura (os livros e o corte total sobre a "Praça da Canção", de Manuel Alegre, de que era proibidíssimo falar. Deixo aqui alguns exemplos materiais do que era a Censura, nas fotos excelentes do Pedro Loureiro.
Foi essa viagem à memória de uma ignomínia que ontem pude fazer, na SIC, para lembrar. Durante o programa, Manuel Alegre leu aquele poema belíssimo "É preciso saber porque se é triste" em que o poeta, nos seus versos de denúncia, "quer matar essa tristeza". E, sobre a Censura, sobre a mordaça à liberdade de expressão, que é um fenómeno de longa duração, eu citei Sophia, naquele poema fabuloso que é o "Pranto pelo dia de hoje", que eu reproduzo aqui para oferecer ao dia 25 de Abril, o dia da liberdade.

"Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas"

sexta-feira, 24 de abril de 2015

25 DE ABRIL: A COR DA LIBERDADE

Ainda hoje me fascina a a caligrafia plástica e poética de Maria Helena Vieira da Silva sobre o 25 de Abril, "o dia inicial, inteiro e limpo", como disse Sophia do novo tempo. A poesia esteve, de facto, na rua, na expressão colectiva de esperança e felicidade pura. Hoje, olhamos para antigamente e o fio de tempo é brisa que passa levando consigo vivências, instantes, vertigens de acontecimentos que fazem história, sorrisos de felicidade avulsa. Essas marcas temporais fazem corpo com a vida, essa pequena partícula de tempo que cada um, à sua maneira, acrescenta ao caminho que lhe coube. Dessa factualidade que a memória se encarregou de singularizar há sempre sinais luminosos de esperança, palavras que voam ao encontro do futuro, gritos ou gestos que fazem parte duma especial cartografia pessoal e íntima.
O 25 de Abril é uma reserva intacta desse imaginário que guardamos como universo primordial porque nele inscrevemos a palavra liberdade. De muitas maneiras, mesmo quando Abril parece uma ferida aberta nas desigualdades, é nas sílabas da palavra liberdade que, porventura como no poema de Eluard, regressamos ao fio de tempo, ao antes e ao depois, à noite da solidão e da servidão, e à luz do falar e do pensar em voz alta, e nos interrogamos como essa qualidade do viver colectivo que o 25 de Abril nos ofereceu é agora inseparável da própria capacidade de sermos felizes. Porque a liberdade é a grande qualidade que afirma o homem e, decerto por isso, tantos, em tão diversos lugares, em tempos históricos tão distintos, deram a vida por ela, para que outros a pudessem respirar.
Esse é o legado maior do 25 de Abril. O sonho que se tornou realidade. Parece que muito longe -- e afinal foi há quarenta anos -- este país sofria a inevitabilidade da sombra e do silêncio, da miséria mansa, da ausência de direitos elementares, tinha súbditos e não cidadãos, prisões e exílios interiores e exteriores, em vida vivia-se a morte. Tempos de servidão,como dizia o poeta, em trovas da noite mais triste.
Quarenta anos depois, esfumaram-se muitas esperanças, o desencanto habita esta nesga de terra, a pobreza e o desemprego regressaram como se os impostores do poder quisessem fazer outros condenados da terra. Espezinham-se direitos sociais, faz-se do trabalho uma quase escravatura, reduzem-se os idosos à condição de fardo. O país está doente de si próprio. O 25 de Abril parece uma imagem difusa, assassinam a esperança colectiva que ele semeou. Mas quando ouvimos os sons de Abril, quando recordamos os rostos dos que já partiram e fizeram da sua vida uma luta pela liberdade, a esperança reproduz-se e uma suave brisa sopra em direcção ao futuro. A cor da liberdade volta a desenhar-se no horizonte.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A MENINA DA BONECA

Inicia-se amanhã, no Fundão, o Colóquio "Os Labirintos da Memória: Emigração, Memória e futuro". A memória é o combate decisivo do nosso tempo e de cada vez que resgatarmos da opacidade do silêncio o esquecimento da história, estamos a contribuir para salvar o futuro. Neste acontecimento (dias 23 e 24), a que estou ligado do coração, há um conjunto de abordagens ao fenómeno da emigração, desde os filmes do José Vieira (que estará presente), às Exposições de Gerald Bloncourt e Gabriel Martinez, à presença de Eduardo Lourenço e Maria Beatriz Rocha-Trindade, aos debates dos vários painéis que irão realizar-se.
E há uma história de vida: a história da menina da boneca. Gerald Bloncourt fotografou nos anos 60, no bidonville de St. Denis, uma menina com uma boneca dos braços. No universo de infra-humanidade que rodeava a miúda, há um sorriso. Muitos anos depois, já depois do 25 de Abril, o fotógrafo encontrou a menina da boneca: chamava-se Maria da Conceição Tina. Gloncourt e Maria da Conceição Tina vão estar no Fundão sábado, na abertura da exposição "Por Uma Vida Melhor", às 11 e 30, no Casino Fundanense. Vão estar connosco. Olho a fotografia da menina, fixo o seu sorriso e digo para mim que, às vezes, é preciso imaginar Sísifo feliz.
Esta história da menina da boneca, é um comovente relato, que a jornalista Patrícia Carvalho publicou no "Público", em 2011. Vale a pena ler. Para que conste.

A MENINA DA BONECA CHAMA-SE MARIA DA CONCEIÇÃO TINA

por Patrícia Carvalho

Nos anos 60, Gérald Bloncourt fotografou uma criança portuguesa num bidonville em Paris, os bairros de lata construídos pelos emigrantes. A imagem haveria de se tornar num ícone da emigração portuguesa, mas o fotógrafo haitiano só este ano descobriu a sua identidade. Maria da Conceição Tina foi conhecê-lo a Paris e descobriu-se a si própria.

Querido Gerald

Agora não tenho dúvidas. Aquela criança na fotografia sou eu. Ao princípio custou-me a acreditar. Olhava a imagem, nova para mim (o que parece inacreditável, já que ela até esteve exposta ao lado de outras imagens do Gérald, mais do que uma vez em Portugal, incluindo no Museu Berardo, em Lisboa, há apenas três anos), e revia-me naquele rosto, naquele sorriso. Reconheci a boneca que foi a paixão da minha vida, o espaço lamacento do de St Denis, onde passei dois anos com a minha família, mas tinha dúvidas. Desde logo, porque não me recordava de alguém me tirar uma fotografia. Sei que só tinha cerca de seis anos naquela altura, mas como é possível que não sobrasse nenhuma memória de um homem como o Gérald, de máquina fotográfica na mão, ali? Só de pensar na impressão que me deixou, quando o vi em Junho, em Paris, parece impossível. É tão alto. Um homem enorme, com umas mãos muito grandes e um olhar tão terno. Foi estranho, sabe, porque, quando o vi, a sensação que tive foi que já o conhecia.
O Gérald diz que naquele dia da foto, eu fiquei à espera que me fotografasse, sorridente. Se calhar foi por isso que me pareceu tão familiar, em Junho. É claro que nessa altura eu já estava cem por cento certa que aquela criança, que baptizara Petite Portugaise, era eu. Foi um percurso que fizemos juntos, recorda-se?
 Quando um amigo da minha terra natal, Vila Nova de Foz Côa, me telefonou, em Janeiro, e disse que eu tinha uma foto na Internet, no bidonville, lá em St Denis, eu não queria acreditar. Acho que não lhe cheguei a contar, mas este amigo era filho da dona Isabel que fez a viagem a salto para França comigo, a minha mãe e o meu irmão. Ele disse-me que queria mostrar a uma pessoa como tinha sido a vida de alguns foz-coenses em França, digitou bidonville no computador, e apareceu aquela fotografia.
Quando me contou, pensei que era impossível, mas ao ver a imagem, lá estava eu. Parecia eu. Era a minha cara, a minha boneca e nas mãos tinha a bola de azeite (filhós) tão típica do Natal português. Não sabe a quantas pessoas mostrei a imagem, inquirindo: acham que sou eu? Todos me diziam que sim. Incluindo a minha mãe. Mas a fotografia é tão bonita que tive medo que ela dissesse sim só por dizer. Só que não tinha como fugir à verdade e ainda bem que segui o conselho de outro amigo, que me incitou a desfazer as dúvidas, e o contactei. Nunca me vou esquecer como ficou emocionado, quando lhe disse que eu era a menina da fotografia. Nem como trocámos tantas mensagens, verificando datas e lugares, até não restarem quaisquer dúvidas.
Até Janeiro, eu era a Maria da Conceição, mãe de três filhos e professora de Português e Francês. De repente, passei a ser a criança na fotografia e não sabe o tanto que isto significou. Eu não estive muito tempo em França. Foram apenas seis anos, mas é um período que - admito-o hoje - sempre quis esquecer. Não vale a pena fugir das palavras e o que eu sentia era vergonha. Em Foz Côa e com a minha família, não me importava de falar dos tempos passados no bidonville e no pequeno T1 que o meu pai haveria de comprar em Aubervilliers, mas era assunto que eu não discutia fora desse círculo de conforto. Aqui, em Coimbra, praticamente ninguém sabia. Eu achava que as pessoas não iriam compreender a miséria pela qual eu passara e que o melhor era esconder esse período da minha vida. Já sei, já sei que está a pensar que eu estava errada e hoje concordo consigo.
Ao descobrir a minha imagem, ao descobri-lo a si, percebi o quanto entende o seu trabalho como uma forma de denunciar o que está errado. Conheço, finalmente, a forma como viveu intensamente a realidade da emigração portuguesa (e não só) nos anos 60, como sempre defendeu os seus interesses, mostrando as condições em que viviam. Vivíamos. Afinal, também é um emigrante em Paris, que fugiu de uma ditadura no Haiti, não é? Eu não. Eu queria fugir de tudo o que me lembrasse aquele período. Não via, conscientemente, documentários ou imagens sobre os bidonvilles.
Mas fiquei diferente depois de Janeiro. Tomei consciência que é preciso falar. É preciso mostrar o que a política da época nos fez passar, sobretudo agora, com a situação política que vivemos. Neste momento, infelizmente, apesar de tudo o que passámos, estamos a voltar ao mesmo. A minha filha do meio, de 24 anos, tem o curso de Enfermagem, mas não consegue arranjar emprego e está a pôr a hipótese de ir para o estrangeiro. Isto é muito triste para mim. Não só pelas saudades que terei dela, mas porque acho que estamos muito mal em termos políticos, quando um país não é capaz de aproveitar os seus jovens licenciados e os obriga a fazer, de novo, o que os seus pais ou avós já fizeram. A partir.
 É certo que hoje falamos de uma emigração diferente. Na década de 60, éramos emigrantes com pouca cultura e hoje não é assim. E tudo era feito na clandestinidade. Nós, conforme lhe disse, fomos a salto, como toda a gente. O meu pai foi primeiro. Não éramos extremamente pobres, tínhamos uma vida razoável, em Foz Côa, mas o meu pai era um homem muito aventureiro e queria uma vida melhor. Ainda tentou ir para Angola, onde tinha família, mas o Salazar não deixou. Era preciso ter uma carta de chamada e foi-lhe recusada. Ele, então, decidiu emigrar.
Foi em 1962, um dos primeiros de Foz Côa a emigrar, mas muitos haviam de o seguir. A minha mãe ficou em casa, com dois filhos, eu e o meu irmão mais velho, que hoje ainda vive fora do país, em Espanha. Ela aguentou cerca de dois anos, com as poucas notícias do meu pai e o pouco dinheiro que havia. Depois, decidiu ir ter com ele, sem o avisar. Comunicou apenas à família lá na terra que, apesar de discordar, a ajudou a arranjar o dinheiro para pagar ao passador. Depois, começou a preparar-nos para a partida. Ela insistia que não podíamos contar a ninguém, mas eu não queria ir e dizia-lhe que ia contar a um vizinho, que pertencia à GNR.
Foi nessa altura que ela me prometeu uma boneca, assim que chegássemos a França. A boneca da fotografia, está a ver? A minha mãe cumpriu a promessa e comprou-a mal lá chegámos. Partimos mais ou menos nesta época do ano, no início de Novembro, nós os três, a dona Isabel com um bebé de colo e mais um homem de Foz Côa. Lembro-me perfeitamente de páginas da viagem. Lembro-me da escuridão, porque viajávamos sobretudo de noite, para não corrermos o risco de ser encontrados. Recordo-me do frio e das caminhadas, porque a viagem era feita sobretudo a pé. E ainda hoje tenho uma fobia que associo a essa época. Tenho pavor de ratos. Se vir um ratinho minúsculo, começo a gritar, perco o controlo e subo para cima da primeira coisa que encontro. Sabe porquê? Durante o dia éramos escondidos em grutas, buracos, e havia ratazanas até mais não. E, depois, era exactamente igual. Ainda para mais, as senhoras no bidonville adoravam contar histórias de ratos que subiam pelas camas e ratavam as orelhas às pessoas. Tudo à nossa frente, as crianças.
Da viagem também me recordo de irmos a caminhar nos Pirenéus, no escuro, e de ouvir o grito de um homem que caiu. Os trilhos eram estreitos, nós tínhamos de avançar sempre, ninguém parava, e acho que o homem deve ter morrido, porque caiu por ali abaixo e ninguém parou para o socorrer. Estas são as más memórias, mas também há coisas boas. Tenho paixão por chocolate, adoro-o, quem me quiser ver feliz é oferecer-me chocolate. E, que me recorde, a primeira vez que comi chocolate foi nessa viagem para França. Acho mesmo que a minha família nem conhecia o chocolate antes, mas na viagem era uma das coisas que nos davam para nos alimentar. Ainda hoje consigo sentir o sabor daquele chocolate.
Não sei quanto tempo durou a viagem, mas, quando chegámos a Paris, enfiaram-nos num táxi e largaram-nos num bairro de homens, dizendo que era ali que estava o meu pai. Não era verdade e valeu-nos um português que, por estar doente, não tinha ido trabalhar naquele dia. Ele teve pena de nós e ajudou-nos a chegar à morada certa. O meu pai partilhava um apartamento com vários companheiros, não havia mulheres. Imagine a cara dele quando nos viu. Nessa noite dormimos ali, mas precisávamos de uma alternativa e o meu pai não tinha dinheiro para arrendar uma casa.
Naquela altura, recorria-se às pessoas amigas e onde é que elas viviam? Nos vários. Nós fomos para St Denis e estivemos lá algum tempo, cerca de dois anos, numa barraca. Ainda consigo visualizá-la. Tinha uma divisão pequena à frente, que funcionava como sala e cozinha, e tinha outra atrás onde dormiam os meus pais, de um lado, e eu e o meu irmão, do outro. Era de madeira, revestida com placas. Casa de banho não havia, era uma, exterior, para toda a gente. E tomávamos banho uma vez por semana, numa bacia plástica. A minha mãe aquecia a água no fogão e tomávamos banho ali, naquela cozinha-sala minúscula. Se viesse a minha casa, hoje, o Gérald veria que tenho cinco casas de banho. Acho mesmo que são as divisões mais bonitas da minha casa e não tenho dúvidas que essa minha paixão vem dos dias no bidonville.
Mas, em geral, a sensação que tenho é que nós, as crianças, éramos felizes. Aliás, o Gérald disse-me que do que mais gosta na minha fotografia é de eu parecer uma criança feliz. Eu também acho que era. Os adultos trabalhavam imenso, mas nós ficávamos no bidonville, à guarda de uma senhora que tomava conta de todos. Durante esse tempo, não fui à escola. Só quando nos mudámos para Aubervilliers é que ingressei na escola primária. E, agora que falo nisso, deixe-me contar-lhe algo que ainda hoje me enche os olhos de lágrimas.
Quando fui ter consigo a Paris, a 26 de Junho, para que, finalmente, nos pudéssemos conhecer, não fui directa a sua casa, recorda-se? Estão a fazer um documentário sobre a sua vida e quiseram entrevistar-me antes de nos vermos. Até filmaram o nosso encontro, minutos depois, como se deve lembrar. Mas, antes, quando me preparava para aquela entrevista num jardim perto de sua casa, eu pensava que seria tudo muito fácil. Acreditava que aquele período estava arrumado na minha cabeça e que não teria qualquer dificuldade em responder às perguntas que me fizessem. Mas a verdade é que foi muito difícil para mim.
Foi a primeira vez que tomei consciência do motivo pelo qual, aos 12 anos, disse à minha mãe que queria regressar a Portugal. E vim, ficando a viver com a minha avó até os meus pais regressarem também, cerca de um ano depois. Durante a entrevista, fez-se luz. Deu-me uma dor de cabeça tão forte, mal conseguia falar, tivemos de interromper a entrevista, antes de eu admitir o que tinha tentado esquecer. Eu tinha uma professora primária muito racista. Tratava-me por la petite portugaise, mas não com a intenção que o Gérald teve, quando pôs esse nome na minha fotografia. A forma como ela o dizia magoava-me, porque era discriminatória. Eu tentava ultrapassar isso, estudando, sendo boa aluna, mas não conseguia, porque era sempre a petite portugaise. Só este ano é que me apercebi disto, e foi duro. Foi o facto de o Gérald e a sua fotografia, tirada há tantos anos, terem entrado na minha vida que me levaram a assumir, plenamente e perante toda a gente, esta minha vida de emigrante.
Hoje, acredito que é preciso falar. É preciso falar muito sobre tudo o que passámos. Sei que o Gérald, apesar dos 85 anos, continua a fotografar, continua a denunciar a miséria que existe, sempre que pode. E ainda bem que assim é. Mas deixe que lhe diga - duvido que alguma das pessoas que fotografa se sinta, alguma vez, como eu me senti, quando vi que a minha fotografia estava exposta na sua sala. Como eu me senti quando, naquele dia em que o visitei e em que demos um abraço tão forte, o Gérald me disse que eu sempre tinha feito parte da vida da sua família, que os tinha acompanhado sempre, eternizada naquela imagem, pendurada na sua sala, que quis divulgar a preto a branco, mas que era originalmente a cores, como as cópias que me deu.
Eu sou a petite portugaise dos bidonvilles miseráveis de Paris. Mas sou também a Maria da Conceição, tenho 52 anos, um marido que continua a gostar muito de mim, apesar de tantos anos de casamento, três filhos maravilhosos e, agora, estou a ir atrás de um sonho antigo. Fui professora quase durante 30 anos, mas desde Agosto que já não sou. Adorava dar aulas, adorava estar na sala de aulas com os meus alunos, mas detestava a papelada toda em que o ensino actual está mergulhado. Por isso, arrisquei, e estou a dedicar-me ao artesanato e à pintura, sonhos antigos que me acompanharam sempre. Só não fui para Belas-Artes porque, naquela altura, só havia escolas no Porto e em Lisboa e era impensável para a minha família eu ir sozinha para uma dessas cidades. Acabei em Coimbra, a estudar línguas, porque era aí que tinha um tio um pouco mais velho. Não me arrependo, mas agora acho que tudo se conjugou para ir atrás deste sonho antigo. Quero abrir uma loja de flores e artesanato. Vamos ver. Quero encontrar o Gérald de novo, surpreendê-lo. Espero que isso possa acontecer em breve. Por enquanto, quero que saiba que a sua petite portugaise já não tem vergonha do seu passado e é uma mulher feliz.

Este trabalho foi escrito a partir de conversas com Maria da Conceição e o fotógrafo Gérald Bloncourt

COLÓQUIO "LABIRINTOS DA MEMÓRIA"




terça-feira, 21 de abril de 2015

MUDAR DE POLÍTICA


Socorro-me da notícia do "i" para dar uma imagem essencial do programa apresentado pelo PS sobre
o cenário macroeconómico, que  o líder socialista encomendou a um grupo de economistas, liderado pelo Prof. Mário Centeno. António Costa avisou, no entanto, que se trata de um "relatório técnico" que ainda terá de ser aceite pelos órgãos do partido. Ainda assim, o líder do PS admitiu que as medidas associadas ao quadro apresentado "inspiram e motivarão a elaboração do programa de governo". Em traços largos, o plano apresentado esta terça-feira prevê que em 2019 o país esteja a crescer 2,6%, com um défice de 0,9%. Um "saldo final virtuoso", como lhe chamou Costa, que também diz que o relatório "não é a Bíblia. E estes senhores [apontou para os economistas na primeira fila] não são os apóstolos". O cenário vai "enquadrar e servir de base ao programa de governo" que o PS apresentará a 6 de Junho e permitirá dizer, garante o líder do PS, que o compromisso que o partido vier a assumir foi "avaliado e testado".
O plano apresentado ao líder do PS inclui, entre outras medidas:

1. A redução gradual da sobretaxa de IRS em 2016 e 2017;
2. Redução do IVA na restauração;
3. Reforço investimento até 2019, pela aceleração da execução dos fundos comunitários;
4. Complemento salarial anual para rendimentos mais baixos e para contribuinte que tenham apresentado declarações de rendimentos nesse ano;
5. Redução temporária da contribuição dos trabalhadores para a segurança social (9,5% em 2016, 8% em2017 e 7%em 2018);
6. Reposição dos "mínimos sociais", no Rendimento Social de Inserção, Complemento Solidário para Idosos e abono de família, para valores anteriores a 2012;
7. Imposto sucessório para heranças de valor superior a 1 milhão de euros;
8. Limitação da contratação a prazo a situações de substituição de trabalhadores;
9. Repor salários na função pública já em 2017.
Depois da apresentação feita pelo coordenador do grupo de trabalho, Mário Centeno, António Costa afirmou que "é preciso acelerar o regresso à normalidade em Portugal".

Apresentado o plano, que é um documento de noventa e tal páginas, logo se apressou o PSD, pela voz de José Matos Correia, que costuma ter um tom cordato, a dizer cobras e lagartos da iniciativa socialista. Ainda não o tinha lido, mas afirmava já que era um "programa do logo se vê", "despesista", um "regresso ao passado" e por aí fora. Ora, depreende-se da reacção pouco serena do vice-presidente do PSD, um incómodo político assinalável, pela diferença de política apresentada, que é fundamental para a fundamentação de uma alternativa.
É um documento para analisar equacionando-o na necessidade de colocar um ponto final na política de pobreza que tem assassinado o país.
Queria o PSD unanimismo na austeridade? Queria o PSD conhecer as medidas do PS? Ora, tome lá! É caso para dizer, como se diz na bola, quando se sofrem golos:
-- Embrulhe!

segunda-feira, 20 de abril de 2015

CONDENADOS DA TERRA E DO MAR


Vemos, ouvimos e lemos... a tragédia do Mediterrâneo e ficamos suspensos de como a morte ali se instalou como pura banalidade. Os mortos do Mediterrâneo, tantos, sem nomes e sem rostos, são a derrota cruel de uma ideia de civilização e o estigma de um tempo em que as desigualdades, a pobreza, a morte anunciada de guerras esquecidas e distantes, os Iraques, as Líbias, as Sírias, o Médio Oriente, a fome e o trágico destino destinado às áfricas do desespero, se transformaram no apelo dos novos condenados da Terra (lembram-se de Franz Fannon?) à luta pela sobrevivência. Tornou-se lugar comum dizer que o Mediterrâneo é um imenso cemitério. Há anos, que este êxodo se transformou num extenso inventário da morte. Morrem às centenas pelo direito à vida. As imagens repetem-se, obsessivas no registo do drama. Não podemos ignorar. Nestas circunstâncias, há sempre piedosas declarações de políticos, papas, instituições e países que se dedicam à exploração dos bons sentimentos. Quem vê, quem sofre, só pode ampliar indignações: que raio de mundo é este? O Mediterrâneo está cheio de cadáveres e de lágrimas. Os sinos dobram por nós! Pela Europa, que nestas questões tem privilegiado mais o cifrão do que a humanidade.
Estou com o embaixador Seixas da Costa (Blogue Duas ou Três Coisas) quando ele propõe:
"O que a Europa podia fazer, e não faz, é promover políticas decentes e eficazes de cooperação para o desenvolvimento nos Estados emissores de emigrantes, que fossem estímulos para a fixação das populações. Basta consultar as conclusões das cimeiras entre a UE e os países africanos para se ter um completo e bem elaborado catálogo do que neles se proclamou, assinou e não se cumpriu".
Reproduzo também aqui a excelente crónica de Fernando Alves:2015-04-20 O que naufraga

TOLENTINO DA NÓBREGA: CIDADÃO LIVRE E JORNALISTA INDEPENDENTE


As batalhas pela liberdade de imprensa constituem a defesa da Democracia, no que ela tem de mais sagrado. De tal forma que, costuma dizer-se, diz-me como vai a liberdade de imprensa (o direito à informação) e eu te direi o estado da democracia do teu país. Tolentino da Nóbrega, na insularidade democrática da sua Madeira, onde o poder absoluto de Jardim era um cutelo sobre a liberdade de expressão, impondo o medo e a subserviência, foi sempre uma voz livre, rompendo essas limitações com a prática de um jornalismo cívico (atrevamo-nos a dizê-lo), nunca deixando de seleccionar a realidade naquilo que verdadeiramente era o essencial. Os direitos, a sociedade, as pessoas: a expressão de uma escrita com dimensão cultural. A sua morte (tão prematura) deixou, de facto, um vazio no jornalismo português, embora o seu exemplo, a sua exemplaridade cívica e cultural permaneçam para iluminar os caminhos do quotidiano. Por isso, um grupo de cidadãos veio lembrar que era bom distingui-lo com a Ordem da Liberdade. Eu sou um dos peticionários. Deixo aqui o texto hoje publicado no "Público".

Um grupo de jornalistas, amigos muito próximos e pessoas desde sempre ligadas à comunicação social decidiu vir a público defender a atribuição da Ordem da Liberdade, a título póstumo, ao jornalista Tolentino de Nóbrega, falecido no passado dia 7 de Abril, no Funchal. Os subscritores desta tomada de posição entendem que o legado de Tolentino de Nóbrega constitui um nobre e distinto exemplo do exercício da profissão de jornalista. Praticou-a, durante 43 anos, com um enorme e intransigente sentido de independência a que aliava um firme e simultaneamente suave compromisso com a defesa da liberdade de expressão. Desde o Comércio do Funchal, onde se iniciou em 1972, até ao Público (passando pelo Diário de Notícias do Funchal, A Luta, Expresso e O Jornal), as sempre difíceis condições políticas, sociais e culturais que enfrentou nunca o impediram de praticar um jornalismo sem medo, marcado pelo rigor e por um escrupuloso respeito pelas normas da ética e deontologia profissionais. Como lembrava o jornal Público, onde, na qualidade de correspondente, trabalhou desde a fundação e durante 25 anos, Tolentino de Nóbrega “leva consigo um catálogo completo dos tipos e formas de pressão” que um profissional do jornalismo pode conhecer. Sofreu condicionamentos de toda a ordem para exercer a sua função. Recebeu ameaças e intimidações físicas, com prejuízos materiais para a sua vida pessoal e familiar. “Se houve lugar difícil para se ser jornalista” nos 40 anos da nossa democracia “foi a Madeira”. Esta pública inospitalidade não o impedia de soberanamente defender e exaltar com paixão a terra onde nascera há 63 anos. Antes aliava a uma elevada consciência cívica, uma atitude de reconhecida modéstia, sem a mais leve exibição ou ostentação de qualquer heroísmo. É por isso tempo de fazer justiça à sua memória, reconhecendo o seu exemplar exercício do jornalismo, e o seu corajoso e perseverante comportamento de resistência à intolerância. Mais do que todas as profissões de fé que possam ser feitas na liberdade de expressão e de informação e na democracia, são os exemplos dados em vida por profissionais e cidadãos como Tolentino de Nóbrega que devem ser exaltados e comemorados. Distingui-lo com a Ordem da Liberdade, embora a título póstumo, cumpriria, na opinião dos subscritores, esse dever, que cabe ao Estado.
Adelino Gomes, Agostinho Jardim Gonçalves, Ana Sousa Dias, António Loja Neves, António Perez Metelo, Áurea Sampaio, Bárbara Reis, Clara Ferreira Alves, Cláudia Azevedo, Diana Andringa, Emanuel Sá Silva, Eugénio Alves, Fernando Paulouro, Francisco Pinto Balsemão, Helena Marques, Jacinto Godinho, Joaquim Catanho Fernandes, Joaquim Fidalgo, Joaquim Furtado, José Alberto Lemos, José Carlos Vasconcelos, José Goulart Machado, José Jorge Letria, José Paquete de Oliveira, José Pedro Castanheira, Leonel de Freitas, Luís Filipe Malheiro, Luís Humberto Marcos, Manuel Pinto, Maria Antónia Palla, Maria Flor Pedroso, Mário Mesquita, Mário Zambujal, Miguel Sousa Tavares, Nicolau Santos, Nuno Pacheco, Pedro Camacho, Pedro Sousa Carvalho, Ramón Font, Rosário Martins, Rui Ludgero Olim Marote, Simone Duarte, Sofia Branco, Sónia Matos, Teresa de Sousa.

       

domingo, 19 de abril de 2015

UM PAÍS DE CEGOS CHEIO DE OBSERVADORES

Um amigo meu enviou-me uma lista que é um longo inventário dos Observatórios, que existem na sociedade portuguesa. Contabilizam-se nada mais, nada menos, que 119, criados para todas as medidas e feitios, muitos verdadeiramente mirabolantes. Acontece que já em 2012 eu tinha escrito sobre o assunto (de então para cá parece que há menos um!), uma crónica que  incluí no VOL II de Crónica do País Relativo e que não resisto a reproduzi-la aqui. Eis a crónica:

"Houve quem se tivesse dado ao trabalho de fazer o inventário dos Observatórios oficiais existentes em Portugal, e contabilizou 120! É um extenso rol, cuja virtude principal é mostrar a capacidade de imaginação dos portugueses para inventarem ocupações que habitualmente ficam caras ao Estado e não servem absolutamente para nada.
Seria curioso saber se (devia dar uma excelente investigação académica) o que têm produzido estes cento e tal Observatórios e qual o seu contributo para a solução dos problemas da sociedade portuguesa. Ninguém sabe, também, quanto custa este folclore da observação da realidade. Que vêem eles? Olham a árvore e a floresta? Vêem perto ou vêem longe? Ninguém conhece a nitidez dos olhares ou a natureza das medidas que tamanha observação desperta.
Este vício dos Observatórios pode, decerto, ser conjugado com procedimentos de outras observações sobre a realidade portuguesa, que têm enchido de estudos as gavetas de ministérios, câmaras municipais e outras instituições da administração pública. É o produto de outras observações e outros Observatórios, estes da esfera privada, e os observadores (os autores dos estudos) são quase sempre os mesmos, que envernizam estudos antigos e os oferecem como novos, de acordo com as necessidades da cosmética política de ocasião! E custam muito caro, pipas de massa, que os especialistas e os coordenadores são habitualmente meninos vorazes à mesa do Orçamento.
As áreas da economia e do território têm sido particularmente férteis nessas negociatas em que os estudos são, muitas vezes, apenas matéria para baralhar e dar de novo, como em qualquer jogo de azar. Aqui está outro inventário  que devia ser feito: os estudos parados nas gavetas, a repetição dos temas, os esforçados autores de tanto pensamento e acção.
Tudo isto é paralelo de uma e outra nociva prática governamental: a descontinuidade das políticas públicas. De cada vez que muda um governo, alto e pára o baile. Suspende-se o que está a ser feito, mesmo que o projecto em curso seja essencial aos interesses do país. E se o caso está estudado até ao osso, mandam-se fazer mais estudos aos "especialistas" que têm cartão dos partidos do governo, bem aconchegado no bolso, muitas das vezes para adiá-lo para o dia de São Nunca... Estamos fartos de ouvir membros do governo, a começar pelo primeiro-ministro, falar em estudos encomendados para analisar melhor as questões...
É assim um país de cegos cheio de Observatórios, que não vêem um palmo à frente do nariz. Nunca se viu tão pouco!"