sábado, 2 de maio de 2015

PASSOS RESSUSCITA DIAS LOUREIRO

Que raio de país é este em que o primeiro-ministro vai a uma cerimónia pública desenterrar a figura de Dias Loureiro (que depois do escândalo do BPN se tinha sumido no anonimato), fazendo o elogio da sua história de vida como empresário de sucesso?
É, de facto, o sinal de uma forma de ser e estar na política, onde a moralidade e os princípios não contam, é a velha ideia de uma total impunidade para as figuras gradas do cavaquismo, como clientela partidária, é a expressão pública da ausência de valores que a ideia de política de Passos Coelho exercita e estimula.
Na triste circunstância de uma feira de queijos, em Aguiar da Beira, o primeiro-ministro, talvez porque o contágio do excelente queijo da serra lhe comeu a memória, ressuscitou Dias Loureiro, cuja acção no BPN o obrigou a demitir-se de conselheiro de Estado. A perplexidade que o acontecimento gerou, face às branqueadoras declarações de Passos, conduz a uma interrogação essencial: que gente é esta que (ainda) domina a política do país e não tem vergonha de um comportamento tão pouco condizente com os interesses do país?
Socorro-me do "Expresso on-line, para dar aos Leitores um retrato do que se passou em Aguiar da Beira:
"Passos dá Dias Loureiro como exemplo: "se queremos vencer na vida, temos de ser exigentes e metódicos" 
Na inauguração de uma queijaria em Aguiar da Beira, o primeiro-ministro fez um inesperado elogio público a Dias Loureiro, ex-administrador do BPN que estava presente na sala, como "empresário bem sucedido". A frase é curta mas surpreendente. Ontem, durante a cerimónia de inauguração da queijaria Sabores do Dão, em Aguiar da Beira, Pedro Passos Coelho fez um elogio público a Manuel Dias Loureiro: "conheceu mundo, é um empresário bem-sucedido, viu muitas coisas por este mundo fora e sabe, como algumas pessoas em Portugal sabem também, que se nós queremos vencer na vida, se queremos ter uma economia desenvolvida, pujante, temos de ser exigentes, metódicos", afirmou. Dias Loureiro é natural de Aguiar da Beira e foi secretário-geral do PSD, ministro e, mais recentemente, Conselheiro de Estado. Na sequência do escândalo BPN, de que tinha sido administrador, e de ter mentido ao Parlamento acabou por se demitir de conselheiro de Estado e se afastar da vida política".
Que raio de país é este?

sexta-feira, 1 de maio de 2015

MAIO, MADURO MAIO...


Lembro-me do 1.º de Maio desencadear a fúria repressiva da ditadura e da violência se abater sobre as manifestações de estudantes e operários que ousavam gritar à luz do dia a palavra Liberdade. Lembro-me dos mastins da Pide e das polícias de choque varrerem o Rossio, espancando e prendendo os que afirmavam a sua comum humanidade, na exigência de dignidade para um povo que vivia subjugado à mordaça. Lembro-me de nas vésperas do 1.º de Maio, os energúmenos da Pide "visitarem" o Tortosendo ou a Covilhã para prenderem operários e tentarem instalar o medo. Lembro-me de montarem metralhadoras apontadas às portas de fábricas numa intimidação absurda para neutralizar a data libertadora. Lembro-me de como a Censura impedia qualquer menção ao 1.º de Maio, incluindo nessa rasura também a Natureza (o mês das flores, o verde que te quero verde, a força de Maio como alegoria de renovação e esperança). Lembro-me de que, às vezes, se quebravam silêncios e proibições com um verso (a Praça da Canção, de Manuel Alegre, ou a canção de Adriano sobre a morte na guerra colonial: "Eu canto para ti um mês de Maio...) ou as cantigas do Zeca Afonso ("Maio, maduro Maio, quem te pintou...). Lembro-me das pessoas a ser varridas pela repressão na Praça do Rossio, espancando e batendo os que ousavam, contra a mordaça, dizer em voz alta a exigência de um país livre. Lembro-me outra vez dos versos do Manuel Alegre:

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu a,mor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.

O 1.º de Maio, irmão do 25 de Abril,  é o tempo anunciador do país novo. Sempre. Rostos de igualdade, cravos vermelho, canções de protestos, exigências de cidadania. Elevam-se no ar clamores colectivos. Pela felicidade. Pela vida digna. Contra escravatura modernas. Pela liberdade.



                                       



quinta-feira, 30 de abril de 2015

NO PAÍS DAS MEDALHAS, ONDE ESTÁ O MÉRITO?

Recolho, com a devida vénia, o seguinte comentário publicado no Blogue "Câmara Corporativa", publicado por Miguel Abrantes:
"Ontem, o Presidente da República distinguiu a Obra Diocesana de Promoção Social com o título de Membro Honorário da Ordem de Mérito. Hoje, a Polícia Judiciária tem em curso uma operação para detectar utentes-fantasma na citada Obra Diocesana. Está em causa a obtenção fraudulenta de financiamento do Instituto da Segurança Social. O ministro Mota Soares, enquanto troca o Estado social pelo assistencialismo, nunca se lembrou de que é preciso exercer um controlo apertado das transferências de dinheiros públicos?"

QUE PAÍS É ESTE?

Estive ontem a ouvir o discurso do Prof. António Sampaio da Nóvoa, em que o antigo Reitor da Universidade de Lisboa anunciou a sua candidatura à Presidência da República. Domesticada na reverência ao vazio que sopra (ainda) de Belém, não vi que a imprensa escrita tivesse dado às palavras do candidato o relevo que elas justificavam, quer como questão de actualidade, quer pela projecção que o orador fez do "Portugal futuro". Nuns casos, preferiu o comentário ao objecto da notícia, noutros arrumou a questão em meia dúzia de linhas que ficam longe de traduzir a substância do seu pensamento.
E, no entanto, num país habituado a um pensamento único, enredado na fatalidade dos números e na subserviência ao poder financeiro, num país que pratica pouco a introspecção ao presente e ao futuro (desconhecendo, ainda por cima, o passado) seria serviço público de informação dar voz a Sampaio da Nóvoa para se perceber, liminarmente, ao que vem o candidato e o que tem ele para nos oferecer.
Ora, ele começou por lembrar que "vivemos anos duros, duríssimos, de uma austeridade que tornou o país mais frágil, que trouxe a pobreza e a miséria de volta a muitas famílias portuguesas; de uma austeridade que criou mais desigualdades, que forçou a emigração, que aumentou a dívida". E questionou,logo, essa triste realidade, perguntando: "Que política é esta? Sem uma única ideia de futuro para Portugal. Que país é este? Que parece sem vontade, sem pensamento, sem rumo. Que política é esta? Que depois da crise nos anuncia mais crise, uma crise crónica, que priva os cidadãos de futuro, que os faz desconfiar das instituições e da capacidade do Estado democrático para defender o bem público e o interesse colectivo"
Há, nas suas palavras, um propósito de combate à anemia cívica e um estímulo à participação, como vector de revitalização da própria democracia: "Não podemos perder o país que conseguimos levantar nas últimas décadas, não podemos deixar que a crise se “normalize”, se eternize, e que deite por terra quarenta e um anos de democracia, destruindo um a um os ideais de Abril.
O que faz falta, o que nos faz falta, é uma outra visão, uma outra ideia do que pode ser Portugal no século XXI.
É em nome desse outro projecto, desse outro destino, que venho aqui, hoje, declarar-vos solenemente, e declarar a todo o país, que sou candidato a Presidente da República Portuguesa.
Não venho para deixar tudo na mesma. Venho para juntar os portugueses em torno de um projecto de mudança, para restaurar a confiança na nossa democracia e no nosso futuro. Com esperança. Com determinação. Com a coragem que os portugueses sempre revelaram nos momentos mais difíceis da sua história.
Faço-o com a responsabilidade maior que aprendi na vida: a obrigação de não ficar em silêncio, de não me omitir, de não me esconder, sobretudo num tempo tão duro, num tempo em que temos de estar presentes, de nos fazer presentes, sem hesitações, sem calculismos, sem medo.
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo. Bebe-se a coragem até de um copo vazio.
Se for eleito Presidente da República, exercerei as minhas funções com a absoluta determinação e liberdade de quem se entrega a uma causa maior, com total independência, com isenção e com um enorme sentido de responsabilidade.
Não serei um espectador impávido da degradação da nossa vida pública. O Presidente da República tem de restaurar a confiança dos portugueses no Estado de direito, nas instituições, na autoridade moral e na credibilidade de quem desempenha um cargo público
.
Tudo farei para reforçar a democracia, para estimular governos e oposições a cumprirem as suas funções com sentido reformista e de Estado, para consolidar a cooperação institucional, para promover uma maior participação dos cidadãos na vida política". 
Outra nota a reter condensa-se na defesa do interesse público: "Não permitirei, nunca, que o interesse nacional seja dominado por grupos de pressão, por corporações ou por interesses ilegítimos. Sejam eles quais forem. A ética republicana obriga-nos a colocar sempre o serviço público acima dos interesses particulares".  
"Porque sei que em torno de uma candidatura à Presidência da República se podem unir lutas generosas por um país diferente, por uma sociedade aberta, plural, inclusiva.
Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Chegou a hora demergir da noite e do silêncio", sublinhou Sampaio da Nóvoa que não deixou de lembrar: "Nas últimas décadas, os portugueses criaram condições como nunca tiveram no passado. Nas suas condições de vida. Na cultura e na educação. No conhecimento e na ciência. Na tecnologia e na inovação. Na criação literária e artística. Nas infra-estruturas e no território. Em tantos domínios que seria fastidioso enumerá-los. Ninguém consegue prever o futuro, nem sequer o futuro próximo, mas podemos preparar-nos, podemos consolidar as nossas capacidades, reforçar os nossos centros de ciência, de tecnologia e de inovação, investir nas pessoas, nos recursos da terra e do mar, no desenvolvimento das nossas estruturas produtivas.
Está aqui a chave para as sociedades do século XXI, sociedades que têm de ser capazes de produzir conhecimento e riqueza, para assim se relacionarem, com independência, num mundo global de interdependências.
Esta preocupação articula-se, directamente, com um novo posicionamento geoestratégico, no mundo e na Europa.
Depois do ciclo dos últimos quarenta anos, precisamos agora de reinventar uma visão estratégica para Portugal, que não se feche na Europa, e que se abra ao mundo e, em particular, ao mundo da língua portuguesa. A língua permite-nos identificar as ligações que, para nós, serão decisivas no plano cultural, económico e político. A força de Portugal no século XXI vai assentar, grandemente, na compreensão desta realidade, que tem consequências profundas no nosso modelo de desenvolvimento, na nossa organização interna e nas nossas relações externas.
É o reforço destas ligações, sobretudo no Atlântico Sul, que permitirá também consolidar a nossa geografia europeia. Precisamos de compreender, e de nos aliar, às forças de mudança e de renovação que, timidamente, se vão desenhando. É com estas forças que temos de trabalhar, pela democratização da União, pelos valores da coesão e da solidariedade, por responsabilidades partilhadas num núcleo duro de desafios comuns, onde, entre outras, são centrais as questões da luta contra o desemprego, da segurança, das migrações, da política externa, sem esquecer as políticas financeiras que abram soluções viáveis para o pagamento das dívidas soberanas". 

E noutro passo da sua intervenção: "É por isso que não aceitamos que o Estado deixe de assumir investimentos estratégicos nos sectores decisivos para o nosso futuro. É por isso que não podemos aceitar o desperdício de jovens, de jovens qualificados, a emigração forçada que manda para o estrangeiro “o melhor de nós”, que impede a normal renovação das gerações, tudo erros e mais erros, dramáticos, que estão a pôr seriamente em causa a sociedade portuguesa e o seu futuro.
Como Presidente da República esta será uma das minhas grandes causas: promover uma estratégia nacional de valorização do conhecimento e dos jovens, para conseguir que levem a sua vitalidade à economia e à sociedade, uma economia inovadora, de alta intensidade tecnológica, com fortíssimas preocupações sociais e ambientais.
Em última análise, é aqui que está a liberdade, é aqui que estão as condições da nossa soberania, é aqui que está a possibilidade de nos relacionarmos livremente com os outros povos.
Preparar-nos para o futuro também significa compreender a importância da coesão social e territorial.
Se for eleito, serei um Presidente presente, junto das pessoas, capaz de ouvir, de cuidar, de proteger, de promover a inclusão e a diversidade. Quero dizer-vos, olhos nos olhos, que não me resignarei perante a destruição do Estado Social, nem perante situações insuportáveis de pobreza, de desemprego e de exclusão, nem perante a precarização do trabalho, nem perante quaisquer outras circunstâncias que ponham em causa a dignidade humana". 

Na parte final do seu discurso, Sampaio da Nóvoa reforçou o seu compromisso da seguinte forma: "Os portugueses sabem quem eu sou e de onde venho, mas não me candidato para ser Presidente apenas de alguns portugueses. Quero incentivar e apoiar muitas acções, de grande generosidade, que se têm desenvolvido em sectores muito diversos da sociedade, e que são prova da responsabilidade e da dedicação das pessoas, através da sua liberdade e da sua capacidade de iniciativa. 
Tudo farei para merecer a confiança dos portugueses, de todos os portugueses. Não esqueço que mais de metade dos eleitores se abstiveram nas últimas eleições presidenciais. Sei bem que o nosso combate por um Portugal mais livre, mais justo e mais solidário depende, em grande parte, da vontade destes eleitores, da vontade para irem às urnas, para se fazerem presentes pelo voto.
Não foi fácil a decisão de me candidatar. Tomo-a com total desprendimento, um desprendimento que me liberta. Quero que os portugueses saibam que, aconteça o que acontecer, renuncio a qualquer outro projecto, na vida política ou económica, para além da minha actividade docente. Quis dizê-lo, hoje, para que não haja dúvidas, para que tudo fique claro nas minhas intenções e motivações.
Tenho comigo a experiência de quase 40 anos como professor, em escolas, na universidade, no conhecimento. Tenho comigo a experiência de governo de uma grande instituição deste país. Tenho comigo a participação nas grandes causas que fizeram a liberdade, antes e depois de Abril.
Ao longo da minha vida, aprendi a distinguir e a proteger o interesse público, a fazer pontes e convergências com pessoas e instituições, a promover o diálogo, a arbitrar consensos, a aprofundar a cooperação, sempre num clima de confiança, sempre com uma visão de futuro, como na fusão das universidades em Lisboa.
Prometo agir com integridade e honradez, respeitando o valor da palavra, que é tão importante para mim, porque as palavras não são só palavras, são ideias, são sentimentos, são pessoas, são compromissos, são história e são futuro.
Não foi fácil a decisão de me candidatar.
Mas sei que quem espera nunca alcança. E sei que neste meu primeiro gesto já vai todo um caminho, um movimento que me ultrapassa, que vai muito para além de mim.
Disse, e repito: Portugal tem tudo para ser um país de referência no século XXI. Falta-nos uma vontade, um plano, uma ideia do que queremos e do que podemos ser.
O que vos proponho não é um sonho, nem uma ilusão, é uma certeza, é uma esperança. A certeza de que podem contar comigo. A esperança de que, juntos, vamos conseguir.
Temos de ser maiores do que os nossos problemas. Porque só os vencidos tombam no chão do medo.
A minha candidatura está nas vossas mãos. Darei tudo o que puder, o melhor de mim mesmo, mas sei que nada será feito sem o vosso ânimo, sem a vossa energia, sem o vosso entusiasmo.
A campanha eleitoral será realizada com grande contenção de custos e transparência de contas, recorrendo sobretudo às redes que cada um queira dinamizar nas suas terras, no seu trabalho, nas diferentes áreas temáticas. Não tenho outra força a não ser a vossa. Que cada um traga outro amigo também.
Peço a todos que se elevem acima da mediocridade, que não esmoreçam perante as dificuldades. Temos de ser fortes, de seguir em frente, de dar o exemplo.
A política não serve para justificar inevitabilidades, serve para abrir caminhos. Não podemos continuar à espera que nos salvem. A solução está em nós, estará sempre em nós. Foi isso que procurei dizer-vos, de várias maneiras, ao longo deste discurso".

quarta-feira, 29 de abril de 2015

PORTUGAL PEQUENINO

Quando se esperava que as medidas de estratégia económica ("Uma Década para Portugal"), que um grupo de economistas elaborou para o PS, viessem produzir um debate político, a sério, eis que o senhor Marco António Costa, do alto do seu comissariado político do PSD veio exigir que o documento fosse submetido a uma auditoria pela Unidade Técnica de Apoio Orçamental da Assembleia da República e ao Conselho de Finanças Públicas.
Ora, o documento nem sequer é um Programa de Governo, é apenas matéria para estudo, debate, análise. A ideia do senhor Marco António Costa, que tem decerto o beneplácito do chefe Passos Coelho, é a confissão de um desejo de subalternização dos partidos e, sobretudo, de condicionamento político, que viola o estatuto da democracia. Marco António Costa faz lembrar aqueles tipos no futebol que, não gostando de perder no campo, tentam ganhar na secretaria.
A sua teoria é um bom exemplo do provincianismo dos políticos que olham o país, sempre, como um Portugal dos pequeninos.
Sobre este tema, publica hoje Ferreira Fernandes, no "Diário de Notícias", uma belíssima crónica, que aqui deixo aos meus Leitores:

"E auditar os líderes que mentiram, pode?

por Ferreira Fernandes

O PS tem um programa económico para as eleições. Ele diz que vai burilar e só quando disser "este é o nosso programa" é que será o seu programa eleitoral (e, sabemos todos, de todos os programas, de todos os partidos, quanto isso é volúvel). Agora, Marco António, do PSD, quer que especialistas de apoio parlamentar façam uma auditoria ao programa do PS. Isso só pode ser uma chicana própria da época pré-eleitoral. Porque a ser mais que um truque, seria um golpe de Estado. Seria pôr a Assembleia da República e qualquer das suas comissões a dar bitaites aos programas eleitorais. Está-lhes a dar forte, aos políticos! Depois da tentativa de controlarem o "plano de cobertura eleitoral" dos jornais, querem, agora, controlar os programas eleitorais dos partidos. A reação dos jornais permitiu mandar aquela tentativa às urtigas; mas não é claro que a reação ao controlo dos programas seja tão cidadã. É que se a estupidez do PSD, neste caso da auditoria, é igual à de PSD, PS e CDS, no outro, pode haver a tentação de o PS querer correr o risco que os jornais, por princípio, não aceitaram. É sempre politicamente aliciante ser sujeito a um exame em que se pode passar. Ora, o problema não é de circunstância, é de princípio: quem garante que, amanhã, com outro Parlamento, não se manda uma comissão auditar, por exemplo, as siglas? "Verde", quão verde? Do "centro", mesmo?... Ou auditar líderes: esse mentiu da outra vez, não pode ser cabeça de lista.

terça-feira, 28 de abril de 2015

OS MORTOS DO NEPAL

Quando escrevi ontem sobre o sismo do Nepal, falei em mais de dois mil mortos. No inventário da catástrofe, o número (oiço nos noticiários) é já superior a 5 mil mortos e mais de dez mil feridos. E a contagem prossegue. À beira dos Himalaias, nas longínquas paragens asiáticas, o Nepal é um universo de pobreza, que o seu urbanismo e organização social reflectem. Um povo de camponeses, descoberto pelo turismo e pela riqueza patrimonial e cultural. Mas pobre. O Nepal foi agora castigado com este sismo devastador.
Uma reportagem do jornal "Guardian", citada pelo "Expresso" on-line, dizia que "no Nepal vive-se no limite da dignidade, da segurança, da saúde e da fé". Perderam tudo. Um habitante traduz essa realidade ao jornalista: "Está tudo enterrado!"



POLÍTICA E CASAMENTOS DE CONVENIÊNCIA

Sobre o "casamento de conveniência", que é o acordo eleitoral do PSD/CDS o secretário geral do PS, António Costa, veio dizer lapidarmente que aquilo "é mais do mesmo". Não podia estar mais de acordo com António Costa, tanto mais que ele voltou a pôr o acento tónico na urgência da política romper com a austeridade.
Sendo bom fazer estes sublinhados, é preciso dizer que também o PS precisa de não dar "mais do mesmo" aos portugueses, cansados das políticas dominantes que habitualmente são remetidas para o conceito esdrúxulo de "bloco central". É preciso abrir outros horizontes de esperança a um povo subjugado, espoliado e confiscado. É preciso "mudar a própria mudança". Não, de facto, ao "mais do mesmo". Como dizia Manuel Alegre, num dosa seus poemas de Abril, se calhar é preciso, outra vez, "que a lua estoire e o sono estale/e a gente acorde finalmente em Portugal". "Mais do mesmo", não! Definitivamente.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

NÃO SE OUVEM OS SINOS DE KATMANDU


Agora, que a catástrofe natural assolou o Nepal, olho a devastação humana e histórica em imagens dramáticas, e vem-me à lembrança o som dos sinos dos monumentos da Praça Pathan Durbar, na sua cadência marcada, a acordar o silêncio pesado de Katmandu, que só o bulício dos turistas importunava. Esses sons, tão nítidos no meio da serenidade, parecem ter ficado suspensos na memória que os arquivou ou seleccionou como momentos singulares. As sonoridades dos gongues, que atravessam o vale de Katmandu, são a síntese da fusão do budismo e hinduísmo, um acervo civilizacional único, que a Unesco, em larga medida, classificara. Agora, calaram-se os sinos e não há bulício de turistas, o olhar doce das crianças fechou-se em lágrimas e espanto. "Um sismo devastou o Nepal e a sua história", diz a informação com as imagens da destruição e dos trabalhos de salvamento. Ninguém sabe quantos morreram, ao certo, já contabilizaram mais de duas mil pessoas.
Outra vez a memória a martelar: os sinos, o património de velhas civilizações, os rostos amendoados das paragens longínquas da Ásia, lá ao fundo as montanhas nevadas da cordilheira do Evarest. O silêncio foi substituído pela luta pela sobrevivência na catástrofe natural e humanitária. Os sinos ficam dentro da cabeça.

CAMINHAR NOS LABIRINTOS DA MEMÓRIA

Na sessão de encerramento, Eduardo Lourenço foi distinguido com a Medalha de Ouro no Fundão. O momento da imposição pelo secretário de Estado da Emigração, José Cesário. Ao lado, o presidente da Câmara, Paulo  Fernandes
No tempo do café, Eduardo Lourenço com Fernando Paulouro e Manuel Vaz Dias
Dois dias a caminhar pelos "Labirintos da Memória", constituíram uma jornada memorável de um diálogo de altíssima qualidade em que não faltaram momentos surpreendentes, como as sessões e a conversa com o realizador José Vieira, à volta dos seus documentários, onde avulta uma narrativa muito de primeira pessoa, com um universo vivido dentro do drama da emigração portuguesa, que não é outra coisa senão um microcosmos onde podemos outras emigrações. É nesse sentido que os filmes de José Vieira, falando de nós, fala do mundo, numa expressão de dimensão universal, que é a marca das verdadeiras obras de arte. Não faltou emoção aos "Labirintos da Memória", com expressão maior na presença do fotógrafo Gerald Bloncourt e da "petite portugaise", a menina da boneca, que se transformou num ícone deste drama trágico-terrestre, como eu lhe chamo. e que o fotógrafo fotografou nos anosa 60. Conceição Tina, que hoje voltou a França para dar aulas num liceu francês, contou, com as fotografias de Bloncourt em fundo, a sua saga individual e familiar, aos seis anos, quando foi "a salto", com a mãe e um irmão (o pai já estava em França há dois anos), nessa viagem que é impossível imaginar ou descrever em palavras, através dos Pirinéus, ao frio e à fome até Hendaya, a fronteira da liberdade. Esse registo, de que aqui já demos nota, num outro post, foi um desses instantes de emoção que, por ser singular, nunca se esquecem.
Há um mundo ainda a ver, à volta dos "Labirintos da Memória": duas exposições que se complementam e interpenetram no acervo documental que oferecem aos nossos olhos: "Sala de Espera" (o trânsito das famílias portuguesas na gare de Hendaya, em busca de outros destinos, de Gabriel Martinez, que pode ser vista na Moagem, e "Por um Mundo melhor" (sobretudo o universo dos bidonvilles), de Gerald Bloncourt, no Casino Fundanense. Um e outro documento são raízes essenciais de uma saga épica dos portugueses, uma indispensável memória histórica e social.
Essas raízes alargaram-se aos debates dos vários painéis, em que se cruzaram testemunhos inter-geracionais de grande riqueza, a análises que trouxeram mais luz sobre o fenómeno estrutural que é a emigração na sociedade portuguesa.
A atestar a qualidade e a importância deste debate plural, destes "Labirintos da Memória", sublinha-se a presença de Eduardo Lourenço (a quem o Município do Fundão atribuiu a Medalha de Ouro da Cidade) e que, como sempre, teve palavras luminosas sobre a questão migratória, problemática que conheceu de perto durante a sua longa estada em França, os seus "labirintos da Saudade".
Tive a honra de ser, com o Abílio Laceiras (que foi homenageado durante a iniciativa) e com o Manuel Vaz Dias, velhos companheiros destas jornadas, um dos organizadores destes "Labirintos da Memória". Se houve a possibilidade de resgatar algumas dessas memórias, fiquei também feliz pela homenagem feita à Prof. Maria Beatriz Rocha-Trindade, verdadeira pioneira em Portugal sobre os estudos universitários nesta matéria, e pela decisão do presidente da Câmara da minha terra ter anunciado interesse pela criação de um Arquivo Regional da Memória, que poderá trabalhar, também, a questão da história oral. Isto quer apenas dizer, pois, que os "Labirintos da Memória" vão continuar.


Na abertura da exposição "Por Um Mundo Melhor", de Gerald Bloncourt. Na foto: José Vieira, vereadora Alcina Cerdeira, Gerald Bloncourt, Conceição Tina (A Menina da Boneca) e Manuel Vaz Dias.


   

domingo, 26 de abril de 2015

"O CARVALHAL É NOSSO!"



Em poucos lugares as comemorações do 25 de Abril ficariam tão bem como na freguesia do Souto da Casa, que é emblematicamente uma terra de liberdade (uma terra que a Oposição derrotou a ditadura!), onde a dimensão dos valores colectivos ainda extravasa, em memórias, para o quotidiano. Então, no Souto da Casa, no dia 25 de Abril, para lá da cerimónia institucional da data libertadora, promovida pela Câmara, houve um colóquio subordinado ao tema "Carvalhal --o povo e a liberdade", que assinalava também os 125 anos da Tomada do Carvalhal, essa gesta colectiva em que o povo se opôs à usurpação de direitos ancestrais de um baldio. E também a música do Zeca: o grupo "Cantar D'Amigo" do Adelino Pereira, do Bé Freire, do Zé Emílio e do Rui Freire foi fantástico na viagem que proporcionou pelas canções do Zeca Afonso, essas sonoridades que ficaram para sempre nossas companheiras na demanda de futuro. E a exposição documental que o Diamantino Gonçalves e o João Barroca realizaram como memória do Carvalhal.
O colóquio, que a Junta de Freguesia e o dr. Lourenço Marques organizaram, foi um momento alto que abriu luz sobre a história do Carvalhal que, como a Prof. Iria Gonçalves sublinhou, no final, merece investigação mais profunda. E foi uma honra poder participar nele, onde tive oportunidade de falar da carga simbólica de resistência que o acontecimento transporta e da urgência em retirar da sombra (um desafio à historiografia) as lutas camponesas pelos baldios, algumas das quais tiveram episódios de violência, com a intervenção do exército, como aconteceu na Capinha e na Fatela, por exemplo.
Foi bom ouvir o prof. Joaquim Candeias da Silva fazer a história longa do Souto da Casa, sublinhando aqui duas informações relevantes: há 800 anos os moradores do Souto da Casa já se queixavam ao rei contra a tentativa de usurpação de terras dos senhores. O povo venceu. E, há 500 anos, em 1615, no tempo de Filipe II, nova demanda, novas tentativas de usurpação de um baldio. O povo voltou a vencer. Sempre, como há 25 anos, contra a tentativa de apropriação da família Garrett.
Foi bom ouvir o prof. Luís Filipe Oliveira relacionar o sucesso popular e colectivo do Carvalhal com a presença de gente de saberes no Souto do Caso, que ajudou em outras batalhas a contribuir para a vitória do povo.
Foi bom ouvir o dr. Miguel Campos, que traçou o universo jurídico dos baldios e chamou a atenção para a modificação do regime jurídico, nascida da disposição legal aprovada em Outubro último, cuja constitucionalidade está em causa, advertir que pode chegar o dia em que a legenda "O Carvalhal é nosso" pode ser alterada.
O souto da Casa tem pergaminhos de resistência e de valores comunitários que a memória regista e todos os anos, colectivamente, se celebram como grande festa popular. Foram esses valores e as canções do Zeca que no dia 25 de Abril deram as mãos numa bonita festa, apesar da chuva. Lá estavam os rostos de comum humanidade na alegria da partilha, o sentimento de pertença, como se a canção fosse alegria: em cada esquina um amigo/em cada rosto igualdade.