sábado, 9 de maio de 2015

É PRECISO LEMBRAR!

Há 70 anos, rendiam-se as tropas alemãs e a derrota do nazismo abria horizontes de esperança e felicidade. Terminava um pesadelo, a "era de trevas", de que falava Brecht. Olhamos para esses dias de "cemitérios ao luar" e perguntamos, atónitos, como foi possível tanta vala comum, tanto genocídio, tanta banalidade da morte -- tanto crime contra a humanidade. Só passaram 70 anos. Como foi possível a indústria morte dos campos de concentração, com os seus milhões de mortes, as descidas quotidianas aos infernos de Auschwitz-Birkenau -- só a breve enunciação dessa palavra -- digamo-la, lentamente, sílaba a sílaba, como quem evoca um terror que não acaba nunca, é a eternidade do mal, a morte elevada ao infinito. Auschwitz é indizível o drama e o nome, Auschwitz, acorda em nós tamanho absurdo, os cadáveres empilhados, o ritual da "solução final", os fornos crematórios incessantes trituradores de vida. Este e outros campos, com os seus maquinismos da morte e o seu universo demencial, onde Deus morria todos os dias. A memória é uma lâmina funda que reabre feridas. Por estes dias, a RTP 2 transmitiu os documentários de Claude Lanzman, uma aproximação ao indizível. A memória possível da negação do Homem. Olhamos para antigamente e parece que dentro de nós há um terror que o espanto não consegue traduzir. O grito de Munch talvez habite, 70 anos depois do crime, a nossa perplexidade. É preciso lembrar.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

OSCAR MASCARENHAS


A inesperada morte de Oscar Mascarenhas, aos 65 anos, vítima de ataque cardíaco, põe de luto o jornalismo português. Ele tinha um compromisso total com a profissão -- "jornalista, sempre!" -- e essa circunstância que moldou a sua biografia exprimia-se na sua vocação sindical, que praticava com honra, e na defesa dos valores éticos que, dizia ele, eram inexpropriáveis da prática da informação. Num tempo em que parece não haver tempo para nada, Oscar gostava de ensinar e partilhar com os mais novos a sua experiência, as dificuldades que a realidade armadilhava, os labirintos da promiscuidade que os poderes gostavam de cavar aos jornalistas.
Era um defensor da língua, apostava num registo de dimensão literária, encarava o jornalismo como uma paixão insubstituível. O Oscar Mascarenhas esteve, sobretudo, no "Diário de Notícias", onde também foi Provedor do Leitor, trabalhou na "Capital", na Lusa, no "Jornal do Fundão". Aqui, foi meu sub-director. Partilhámos fraternalmente o espaço editorial, sempre na perspectiva que o exercício da crítica aos poderes era o património insubstituível do jornal, numa camaradagem a que a administração de Lisboa pôs termo estupidamente. Mas ainda houve tempo para incursões na gastronomia e nos vinhos regionais, que ele apreciava e recomendava. Nesses meses de convivialidade, só foi preciso um consenso. Eu sintonizava a Antena 2, mas o Oscar queria mais música. Apareceu um dia com um daqueles aparelhos para reproduzir CD,s -- muitas óperas -- e, então, houve um acordo amigável: Antena 2 na parte da manhã, a música escolhida pelo Oscar na parte da tarde. Se imaginar se pode a eternidade, estou a ver o Oscar Mascarenhas carregado de música clássica e de jornais, levantando a voz para os atropelos à liberdade de imprensa e às ofensas à gramática.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO

O anedotário político português está grávido de gargalhadas. É a hipocrisia ou o cinismo que extravasa para o quotidiano mostrando a pequenez dos dirigentes, a sua falta de coluna dorsal, o provincianismo das práticas, onde avulta sempre o papel inócuo do senhor Cavaco Silva, o presidente com p pequeno. Então, agora, foi a publicação de uma biografia de Passos Coelho com o sugestivo título Somos o que escolhemos, onde o primeiro-ministro faz revelações sobre a crise no Governo, em Julho de 2013, quando o "irrevogável" Paulo Portas pediu a "irrevogável" demissão do governo. No livro, afirma-se que Paulo Portas se demitiu por sms. Grande incómodo de Paulo Portas e do CDS pela alegada utilização do meio de comunicação electrónico. Vieram logo dizer que não foi por sms, mas sim por carta, embora não digam se a missiva foi entregue por mão própria ou se foi mediante registo, não fosse perder-se nos labirintos do PSD... Bem lá no fundo, o senhor Feliz e o senhor Contente, odeiam-se cordialmente...
Ora, neste caso, como diria Mc Luhan, o meio é a mensagem. E o que interessa sublinhar é a bifacialidade do comportamento de Paulo Portas, que fez do "irrevogável" a mentira política da legislatura e trocou essa acção de carácter por um prato de lentilhas, neste caso o seu reforço no aparelho do Governo. Em seu entender, pelos vistos, os fins justificam os meios para garantir a sustentabilidade (sua e do partido) no galarim da governação.
Daí que mereça apenas uma gargalhada, uma grande gargalhada, o incómodo de Portas e do CDS, quando não se incomodaram absolutamente nada com a falta de palavra dada, por mero jogo de conveniência política. Só para rir, mesmo!

terça-feira, 5 de maio de 2015

NÃO PODIAM EXTERMINÁ-LOS?

Coisa incomum em Portugal é a persistência cívica e cultural de Maria do Rosário Gama, à frente da Associação dos Pensionistas e Reformados, a APRE, numa batalha sem tréguas às políticas contra os idosos (chamemos-lhe assim), denunciando propósitos de medidas desumanas, roubos e confiscos, recusando sempre o destino de miséria que este governo parece ter lançado sobre pensionistas e reformados. Maria do Rosário Gama, que foi professora prestigiadíssima do ensino secundária, abraçou esta causa e eu penso nela, na sua imagem de determinação, a correr entre a esperança e a crueldade, com os seus cabelos de prata, a fazer acenos de esperança e a dizer que é preciso lutar, sempre.
Lembrei-me agora outra vez do seu rosto e da sua imagem de resistente, quando as sombras negras voltam a pairar sobre a Segurança Social e sobre os direitos de pensionistas e reformados. De facto, o governo de Passos Coelho & Paulo Portas (o do "cisma grisalho") enviou para Bruxelas, como linha programática do Programa de Estabilidade, a garantia de fazer uma «poupança» de 600 milhões de euros nas pensões. O simples anúncio da medida levantou tal celeuma que passou à categoria de medida silenciosa, não se fala mais na "poupança". Mas é uma "poupança" escondida com rabo de fora. Dizem que ontem, em entrevista ao canal de TV da Bloomberg, Maria Luís Albuquerque "deixou escapar que a prioridade da direita Passos/Portas para a próxima legislatura é reformar o sistema de pensões, ou seja, fazer o corte de 600 milhões de euros". E, no documento dos economistas que elaboraram para o PS o retrato da macroeconomia portuguesa e sugeriram medidas para um década, a descida da TSU para as empresas e para os trabalhadores significa um rombo na Segurança Social que nos deve deixar inquietos, pois a Segurança Social e um dos esteios fundamentais do Estado social. A isso acresce que o líder dos economistas, Mário Centeno, veio falar numa dicotomia estranha, que espero não faça escola nas hostes socialistas. "Ou se cortam as pensões ou se criam postos de trabalho".
É bom que estes conselheiros económicos tenham memória da forma absolutamente brutal como pensionistas e reformados foram tratados nos últimos anos. E façam também contas a esse sofrimento e a essa dor que têm sido verdadeiras vergonhas de Portugal.
Repito aqui um texto que escrevi sobre esta questão, com palavras de indignação e denúncia, e ofereço-o a Maria do Rosário Gama. Ei-lo:

"Talvez não haja exemplo de maior desumanidade -- prática política verdadeiramente criminosa --, do que a relação conflitual que o poder instalado, segundo o figurino da Troika, estabeleceu com a geração mais velha, esse universo de pessoas que passou uma vida inteira a trabalhar, suportou desigualdades e servidões, comeu o pão que o diabo amassou, chega ao fim da linha às vezes numa situação socialmente frágil, e que ainda sustenta filhos e netos, cujas vidas este governo desgraçou. Essa geração mais velha é tratada agora com total desprezo, como se viver mais tempo fosse um pecado capital, que tem de pagar caro, em sofrimento e dor. Não percebem esses tipos que, assassinando a esperança aos mais velhos da tribo, estão, também, a matar os horizontes de futuro dos mais jovens. A grande maioria vive a equação dos dias com a sobriedade possível, conta os tostões que restam para perceber se ainda pode ir à farmácia comprar os medicamentos que o médico prescreveu, ou se o dinheiro do mês, ferido por cortes injustos, ainda dá para prolongar a sopa. Querem muito pouco, já falham as forças para a indignação do protesto, encontro muitos que me dizem apenas quererem que os deixem viver os dias que restam em sossego, e se possível ("não é pedir muito, senhor") não lhes retirem o sol que gozam como benesse suprema, num banco de jardim ou colados a um muro branco, ou de pedra larga, no resguardo quotidiano do Inverno. Às vezes, estão sozinhos, falam para si próprios as agruras da vida, ou acompanham as companheiras de uma vida nessas deambulações pelos bairros da cidade ou pelo largo da aldeia, onde os vizinhos são a solidariedade de proximidade que garante a felicidade possível dos dias. São felizes nessa precariedade, nesse padrão de vida austera, e muitos dizem-me que são felizes assim e só temem que venha o dia em que lhes tirem o sol e os remetam para aqueles lares que são espécie de armazéns onde se aguarda a vez de morrer. Os que eles temem, estão na comodidade fofa dos gabinetes, vivem à grande, não se lhe conhecem lágrimas sobre o quotidiano. Esses configuraram o país a uma austeridade demencial, que faz da vida um deve-haver de morte, e às vezes escapa-lhes a boca para a verdade e não disfarçam que os velhos quanto mais cedo partirem melhor, pois o universo da velhice é, na perspectiva deles, improdutivo e só dá despesa. Uma vergonha.
Fiquei a matutar nisto porque li o artigo de Pacheco Pereira, no "Público", intitulado "Os velhos: não é possível exterminá-los?", que é uma radiografia cruel sobre o que se está a passar em Portugal com essa geração, o que representa um retrocesso civilizacional lamentável. É um longo texto em que, na parte final, o autor utiliza a metáfora sarcástica de Jonathan Swift 
(“Swift escreveu em 1729 uma sátira sobre a pobreza na Irlanda chamada Uma moderna proposta para evitar que as crianças dos pobres irlandeses sejam um fardo para os seus pais e o seu país e para as tornar um benefício público). 
Pacheco Pereira escreve logo a seguir: “Aconselhava os pobres a comerem os filhos, como meio de combater a fome, “grelhados, fritos, cozidos, guisados ou fervidos”. Na verdade, quando se assiste a este ataque à condição de se ser mais velho -- um aborrecimento porque exige pagar reformas e pensões, faz uma pressão indevida sobre o sistema nacional de saúde, e, ainda por cima,protestam e são irreverentes --, podia avançar-se para uma solução mais simples. Para além de os insultar, de lhes retirar rendimentos, de lhes dificultar tudo, desde a obrigação de andar de repartição em repartição em filas para obter papéis que lhe permitam evitar pagar rendas de casa exorbitantes, até ao preço dos medicamentos, para além de lhes estarem a dizer todos os dias que ocupam um espaço indevido nesta sociedade, impedindo os mais jovens de singrarem na maravilhosa economia dos “empreendedores” e da “inovação”, será que não seria possível ir um pouco mais longe e “ajustá-los”, ou seja, exterminá-los?” 
 Estas palavras de Pacheco Pereira fizeram-me lembrar um grande escritor italiano, que eu cita com alguma frequência. Élio Vittorini, escreveu no pós-guerra uma novela que intitulou “Consideram-se mortos e morrem”. Agora, aqui, neste país do sul, tantos anos depois desses anos que respiravam tragédia e pobreza, lembro-me da ficção de Elio Vittorini para dizer que eles, os nossos homens do poder, consideram os velhos quase mortos. E querem matá-los".

segunda-feira, 4 de maio de 2015

SINAIS QUE SÃO RETRATOS DO PAÍS

Nos sempre magníficos "Sinais" da TSF, Fernando Alves ampliou hoje a minha inquietação sobre a cena do queijo em Aguiar da Beira, onde Passos Coelho foi protagonista, naquilo que eu chamei nesta coluna a ressuscitação de Dias Loureiro. Ele chamou à sua crónica "Passos Dias Aguiar". Esta recuperação post mortem do homem que foi obrigado a demitir-se do Conselho de Estado -- um Conselho de Estado não pode funcionar com certas pessoas à mesa! --, que foi figura de proa dos negócios escuros da tribo cavaquista, que subtilmente desaparecera do mapa político e empresarial, leva-nos a pensar que em Portugal se calhar vale tudo -- até tirar olhos! O primeiro-ministro foi ao seu catecismo de virtudes buscar o exemplo de Dias Loureiro e agitou a excelência da sua biografia aos portugueses, como se estes fossem cego ou já não tivessem memória. Faltou dizer a Passos Coelho que Capone também foi um bom rapaz: só mandava os outros carregar no gatilho...
Fernando Alves foi, também ele, ao fundo da inquietação comum, e deixou-nos hoje mais um sinal dos seus "Sinais": a crónica sonora de um país moralmente moribundo. Oiçam o Fernando Alves: 2015-05-04 Passos Dias Aguiar

O QUE OS JORNAIS DIZEM OU NÃO DIZEM

Comentadores e jornalistas, que olham para a Constituição da República como os talmuudistas da Bíblia, não se cansam de verberar Sampaio da Nóvoa por afirmar, como candidato à presidência da República, que não ia ser "um espectador impávido da degradação da vida pública" e que na sociedade portuguesa era preciso acabar com a austeridade. Apressaram-se logo os que dominam o comentário político a colar à imagem deSampaio da Nóvoa o carimbo de "interventivo".
Curiosamente, no sábado, numa visita à Ovibeja, o candidato garantiu que nunca prestou declarações sobre a necessidade de um papel mais interventivo por parte do Presidente da República. "Nunca defendi isso", afirmou aos jornalistas, nesta sua sua primeira aparição pública, depois de ter apresentado, a candidatura às eleições presidenciais de 2016. "Vamos sabendo coisas pelos jornais coisas que nunca dissemos", ironizou, acrescentando: "Um Presidente da República tem funções muito claras, atribuídas pela Constituição da República Portuguesa e essas atribuições têm que ser exercidas".
Não me parece que os jornais tenham dado grande atenção ao esclarecimento de Sampaio da Nóvoa, instalada que vai ficando na narrativa da questão a ideia do "candidato interventivo". Talvez seja bom, para aclarar ideias, ler o que ele disse na entrevista ao "i": "O sistema da Constituição comete a responsabilidade de governação aos partidos e à Assembleia da República, mas faz eleger o Presidente por sufrágio universal e directo. Dá-lhe também uma responsabilidade e uma legitimidade grande Essa legitimidade faz-se não no jogo partidário mas numa relação mais directa com os portugueses. Se a interventivo estiver subjacente uma intervenção sistemática no jogo partidário, na tentativa de criar outros equilíbrios partidários, eu serei o Presidente menos interventivo do mundo. Se o interventivo quer dizer que me vou misturar na governação, constituir novos partidos, esqueça. Zero".
Sampaio da Nóvoa respondeu, também, aos que o acusam de "não ter experiência política": Custa-me muito aceitar que se possa dizer de alguém que foi secretário de Estado ou deputado da última fila de uma bancada qualquer que são pessoas com experiência política e que alguém que foi reitor de uma universidade, que teve as responsabilidades de governo que teve nessa universidade, que não tem experiência política. Depende do que queremos dizer com política. Política para mim é a polis, não tem outra raiz, é a raiz da res publica, a coisa pública. Tive de tomar muitas decisões difíceis em muitos lugares. Não tenho experiência no sentido partidário mas não creio que isso seja um factor. Muitos acusam-me de ingenuidade, de inocência. Por exemplo, tenho muita dificuldade em aceitar teorias conspirativas. A confiança gera mais confiança. Quando os portugueses percebem que estamos a falar olhos nos olhos, que não estamos a esconder nada, que estamos a dizer o que nos vai na alma, a experiência que tenho é que as pessoas no final acabam por responder positivamente a isso. A capacidade de construir confiança com as pessoas, eu tenho. Vai ser difícil? Claro... Agora sobre isto da notoriedade. Miguel de Unamuno dizia que em Roma antes de haver impostos não havia impostos. Eu sinto-me um bocadinho assim: antes de haver um Presidente da República que não vem dos partidos não tinha havido um Presidente que não vinha dos partidos. Mas chegará o tempo em que isso há-de vir. Não quero que haja nenhuma dúvida sobre esta matéria: eu tenho o maior dos respeitos pelas pessoas que ao longo de anos e anos militaram nos partidos".
É longa a entrevista. Mas vale a pena lê-la para se perceber o universo cívico e cultural de António Sampaio da Nóvoa.