sábado, 16 de maio de 2015

VERDES ESTÃO OS CAMPOS

Num dia sereno, todo aberto ao sol, pastorear os olhos pelos campos do Mondego, à roda de Montemor-o-Velho, é benção divina que não se paga. Os olhos, nesta altura, enchem-se de verde, os campos foram abertos e preparados para o arroz, e mostram em todo o esplendor a geometria debruada de água. Nestas andanças, aceno sempre a Afonso Duarte e à sua poesia, à raiz com que fez corpo na sua Ereira ("Guernessy abandonada"), numa identidade profunda com a terra, como os seus versos tão limpidamente traduzem. Olho, uma e outra vez, este sol e estes campos, a sua lonjura por cima dos diques, e logo me vem à memória as páginas admiráveis de Carlos de Oliveira, em O Aprendiz de Feiticeiro, sobre a Ereira no denso silêncio da partida do poeta Afonso Duarte. Verdes estão os campos, povoados de pássaros, na sinfonia primaveril de um Maio pintado de cores. Até se encontram por aqui cegonhas felizes.    

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A POESIA DE ALBANO MARTINS

Hoje, às 21.30, vou à Biblioteca Municipal de Gaia, falar de um querido amigo, que é um grande poeta. Albano Martins. A essa qualidade dos seus versos, junta-se uma biografia onde transparece a sua fidelidade à terra, a esta Beira fundanense que foi o seu território privilegiado de infância, onde a sua poesia mergulha, numa presença onde, muitas vezes, encontramos o esplendor da paisagem, das árvores e dos pássaros, das ribeiras e das casas, da escola, dos animais e das pessoas, da substância do tempo que faz a combustão do seu fazer poético. Poeta e homem da cultura, tradutor de primeiríssima água, como só os poetas podem ser, desde à poesia clássica grega, aos poetas italianos ou castelhanos (lembremo-nos de Neruda), Albano Martins tem uma singularíssima obra criadora e é, também, um professor a quem a literatura muito deve. Com ele, descobrimos luminosas palavras e o prazer da leitura é sempre aventura primordial.
Então, vou subir a Vila Nova de Gaia para dar um abraço ao querido Poeta. E falar como se fosse em busca da cartografia elemental da sua poesia, isto é ir ao encontro (ou reencontro) da geografia da Beira na biografia dos seus versos.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

ESQUELETOS DO FASCISMO

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Há sujeitos que saem dos armários onde os esqueletos do fascismo dormem o seu sono da ignomínia, e, como se fossem mandatados por esses  fantasmas de antigamente, afrontam a liberdade e o Estado de Direito, a vida civilizada, com propostas que não têm outro fim senão mistificar a História e ferir de morte a democracia. Alguns desses, que saem do armário ou vão lá procurar inspiração para essas maroteiras, fazem propostas cínicas e esdrúxulas que não escondem a hipocrisia que colocam como benção na prática política. Veja-se Cavaco Silva e a forma como, ao dar a Ordem da Liberdade a Santarém, fez uma provocação menor a Salgueiro Maio, o que saiu dessa cidade na madrugada de 25 de Abril, afrontando as tropas da ditadura, para conquistar o Carmo e fazer render Marcelo Caetano. É que, em Santarém, dizer 25 de Abril, é dizer Salgueiro Maia, e dizer Salgueiro Maia, é dizer Abril. Cavaco, quando primeiro-ministro, preferiu dar pensões a pides e vetar Salgueiro Maia, que então se encontrava já gravemente doente. Joaquim Duarte, na sua tribuna livre que é O Ribatejo, chamou a esta táctica de diluir a memória -- uma vergonha.
Outro abencerragem dos armários do fascismo surgiu, também, em Santarém, onde, numa assembleia municipal propôs que se trocasse a comemoração do 25 de Abril pelo 25 de Novembro, num propósito provocatório de desejar que o tempo voltasse para trás, como dizia o fado. O Carlos Esperança, no seu Blogue "Ponte Europa" já lhe deu com a arreata. Leio: "A Assembleia Municipal de Santarém numa traição a Salgueiro Maia e à sua memória, prepara-se para aprovar uma moção do deputado municipal do CDS/PP, António Borba, para substituir a sessão comemorativa do 25 de Abril, que recusou fazer, por uma outra, a do 25 de novembro, enquanto não comemora o 28 de maio. É a História que está a ser reescrita por nostálgicos da ditadura, o regresso a valores que o bando que se apoderou do PSD e o seu ornamento da coligação – o CDS –, permitem, com o silêncio de quem exonerou da lapela o cravo, do quotidiano a Constituição e de Belém o espírito de Abril".
Apetece dizer a estes tipos: regressem aos armários dos esqueletos! Não conspurquem o país de Abril.
Santarém, tão celebrada por Garrett, não merecia este enxovalho. E Salgueiro Maia merecia outros políticos. Porque ele terá sempre razão,como no poema de Manuel Alegre:

Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

DIEGO CARCEDO

Diego Carcedo no Vietname
Uma das coisas boas do jornalismo é a experiência de dilatar o universo de amigos, aqueles amigos que ficam para uma vida. Uma dessas vivências é a amizade que se consubstanciou no conhecimento de Diego Carcedo, grande jornalista, que sabia como poucos seleccionar a realidade naquilo que ela tinha de verdadeiramente interessante para a informação. Num retrato apressado, ele gosta que lhe chamem, sobretudo, repórter de televisão, pertencendo àquela estirpe dos repórteres que gostam de ver mundo, como o Hemingway, envolvendo-se nas situações de conflito onde a vida é sempre um risco, como fez o Diego no Vietname ou na Argentina.
Mas é muito mais do que isso o meu amigo Diego Carcedo: além de jornalista, professor universitário e historiador, presidente da Associação Europeia de Jornalistas, e amigo de Portugal, país que ama e cuja cultura conhece fundo. Uma das coisas que nos tornou próximos foi o combate pela memória e a luta pela liberdade de informação. O Diego foi correspondente da TVE em Lisboa e Washington, director da TVE e em Portugal viveu a aventura libertadora do 25 de Abril, sobre a qual escreveu o livro A Revolução dos Cravos. Escreveu sobre os labirintos do franquismo (sempre a memória), Entre Bestias y Héroes. Los Españoles que Plantaram Cara al Holocausto, que desmonta a enorme mentira segundo a qual Franco teria ajudado os judeus. Pois bem, há dias o "El Pais" recordava aqueles que o diário espanhol chamou os "artesãos" da televisão. Os grandes repórteres. E lá estava o Diego (com uma fotografia enquanto jovem, na guerra do Vietname), ele que foi um dos pioneiros de um dos grandes programas de televisão, Los reporteros. Na reportagem, Diego dizia que "lhe couberam reportagens muito boas, como a da última etapa da guerra do Vietname". E lembra: "Fomos dos últimos a sair de lá. Há umas imagens, que emitem constantemente, nas quais se me vê a correr diante das bombas. Estava morto de medo." Depois, tocou-lhe, também, cobrir a independência da Guiné-Papúa, onde reinava o canibalismo, e, diz o jornal, a sua entrevista a Idi Amin, no Uganda, vendeu-se a meio mundo. Agora, olha para esses dias, e sublinha que "hoje as reportagens carecem do risco e da aventura de antes".
Um dia destes há-de vir aí, já combinámos com a Fernanda Gabriel, comer uma posta de bacalhau e prolongar a conversa, se calhar em Monsanto, onde a surpresa dos horizontes infinitos corta de emoção o coração. Encher os olhos desta Beira tão diversa, que ele gosta de palmilhar, recolhendo paisagens para encher a alma. Aquele abraço, Diego!

terça-feira, 12 de maio de 2015

ALMAS PENADAS

Eduardo Catroga deu ontem uma extensa entrevista ao "Público". O negociador do PSD, junto da Troika, que ajudou a configurar, com o PS, o Memorando, acaba de transformar-se em "alma penada", segundo o conceito que Passos Coelho criou, nas comemorações dos 40 anos do PPD/PSD (digamos assim...) para aqueles que elogiaram o documento que um grupo de economistas produziu para o Partido Socialista. Catroga enfileira assim no grupo de "Almas Penadas", onde, sem citar os nomes, o primeiro-ministro inclui, por exemplo, Manuela Ferreira Leite e José Pacheco Pereira. Quando o líder do PSD dava vazão ao seu humor, num discurso em que fez o elogio da excelência das políticas que conduziram ao alastrar da pobreza, à dilatação brutal do desemprego, ao corte e ao confisco de salários e pensões, e muitas outras devastações no Serviço Nacional de Saúde e na Educação, por exemplo, a plateia ria-se muito, não sabendo nós se os sujeitos se riam da própria desgraça que abateram sobre o povo português. E um dos que mais ria, que as televisões focaram abundantemente, era o senhor Durão Barroso, que bem pode limpar as mãos à parede pelo que fez (com Aznar e Blair) como criado do senhor Bush no embuste da invasão do Iraque, e depois na desgraçada presidência da União Europeia, onde, de certeza, não fica para a História.
Catroga, que com as suas fidelidades ao PSD, alcançou brilhantemente o chorudo "tacho" de chairman da EDP, veio agora dizer, porventura sinal de que os ventos estão a mudar e ele não acredita no êxito eleitoral da coligação, que "o PSD atrasou-se na redução da despesa pública e devia pedir desculpa aos portugueses" pois "em vez do colossal aumento de impostos (ele disse colosssal?), deveria ter feito uma colossal redução de despesa". Para Catroga, o PSD e o primeiro-ministro deveriam "fazer autocrítica por não ter pedagogia das medidas e sofrer com isso".
Nunca se sabe até que ponto estas críticas tardias de Eduardo Catroga, sempre taticamente tão subserviente a Passos Coelho, não são lágrimas de crocodilo. Mas uma coisa é certa: ele não escapa à categoria de "Alma Penada", um conjunto de fantasmas que pairam sobre São Bento ou sobre o palacete de S. Caetano à Lapa.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

SUCESSOS

António, no "Expresso", continua a ser uma espécie de consciência crítica do país. Eis como ele viu a ressuscitação que Passos Coelho fez de Dias Loureiro. A ironia como exercício de inteligência, a gargalhada contra a política pusilânime. E uma gargalhada é sempre uma seta apontada à iniquidade do poder e às tropelias de um primeiro-ministro sem princípios.