sexta-feira, 22 de maio de 2015

QUANDO UM FESTIVAL LITERÁRIO É COMO AS CEREJAS


O II Festival Literário da Gardunha vai estender-se até Junho, quando acontecerá a sessão de encerramento, um diálogo entre o Professor Eduardo Lourenço e o humorista e escritor Ricardo Araújo Pereira, com moderação de Carlos Vaz Marques. A transferência da data ficou a dever-se ao facto de Eduardo Lourenço, por motivos familiares, ter sido obrigado a deslocar-se a França, um imponderável que não poderia ser previsto. Em Junho, em pleno esplendor das cerejas, será, pois, o encerramento em beleza do Festival Literário da Gardunha.
Um Festival diferente, sempre em viagem pelos lugares imaginários, numa articulação entre a literatura e a natureza, com os horizontes da Gardunha a serem dominantes, como vai acontecer sábado, à tarde, junto à "Casa do Guarda" ou domingo de Manhã, em Alpedrinha, onde, já o ano passado, foi trazida à superfície a obra de Maria Gabriela Llansol, que foi lugar de infância e de afecto daquela escritora e sobre Alpedrinha escreveu. Foi, então, Hélia Correia quem nos trouxe textos de diário de Maria Gabriela Llansol, que esperamos possam ser editados no Festival do próximo ano.
Mas o II Festival Literário começou no dia 18, com as residências literárias de Valério Romão em Castelo Novo, de Tatiana Salem Levy nas Donas e da fotógrafa Céu Guarda, que tem palmilhado a Gardunha em busca das suas singularidades. Valério Romão esteve, também, na Escola Secundária a falar com alunos e, na Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade, Rui Pelejão e Jorge Flores, autores de "A Volta a Portugal em 80 dias", estão a realizar um Workshop sobre escrita de viagens.
Então, o programa prossegue hoje com a apresentação do romance de Inês Pedrosa, "Desamparo", às 18 e 30, no Casino Fundanense, com apresentação de Margarida Gil dos Reis. Amanhã, no auditório da Moagem começam as mesas, e, às 21 e 30, também na Moagem, haverá teatro, "Portugal, Meu Remorso", direcção artística de João Reis e Ana Nave, a partir de textos de Alexandre O' Neill.
Um fim-de-semana cheio de literatura e poesia, que o mesmo é dizer: cheio de palavras e de cerejas!

quinta-feira, 21 de maio de 2015

VOTE DECÊNCIA!

Há, no próximo domingo, eleições autonómicas e municipais em Espanha. A mudança qualitativa, no universo partidário, registada no país vizinho -- basta falar no "Podemos" e nos "Ciudadanos" e na sua forte expressão social para percebermos como a política ali vai em sentido diferente --, confere ao acto eleitoral um interesse cívico muito diferente do que acontece nos países onde o arco governamental se esgota nos chamados partidos do Poder. Uma coisa é iniludível: o cansaço que o eleitorado vai manifestando em relação ao rotativismo na política, e, também, a degradação do "arco do poder" relativamente à corrupção, aos favores, ao esvaziamento social da prática política. Há alguns anos que não vejo Miguel Ángel Aguilar, um ilustre jornalista do "El Pais",  com quem me encontrei em colóquios e debates na Ágora, realizados na Extremadura, para debater questões da informação e das realidades periféricas e transfronteiriças. Ele vinha de Madrid, com o seu saber, enriquecer o diálogo, que era sempre a várias vozes de um lado e outro da fronteira.
Li, agora, no diário espanhol, uma crónica de Miguel Ángel Aguilar, sobre o momento eleitoral, que é de proveito e exemplo para todos. "Vote decência", escreve ele, advertindo: "... atrevo-me estimado leitor a dizer-lhe, recuperando a distância crítica da terceira pessoa, defina-se contra o latrocínio e vote decência". E noutro passo da crónica: "Solicitar ao leitor que vote decência é preveni-lo de que só assim poderá depois exigir um comportamento de acordo. Qualquer outro voto desabilita quem o emite a queixar-se depois. Porque aqueles que se aproveitaram dos seus cargos para levar o dinheiro nos seus bolsitos ou encher os dos afilhados e amiguinhos, consideram que as eleições os deixam a salvo e fora das responsabilidades políticas que lhes eram exigíveis. Repetimos, vote decência no próximo domingo".
Eu li as palavras de Miguel Ángel Aguilar, e não pude deixar de pensar como está aqui uma palavra de ordem que seria útil praticar nas próximas eleições legislativas, em Portugal. Bem precisamos, todos, dessa reivindicação eleitoral. Vote decência!, digo eu, também, como exigência cívica, para pôr cobro à indecência reinante.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

HÁ CINQUENTA ANOS...

A notícia da atribuição do Prémio 
E a notificação da suspensão do "Jornal do Fundão"
Este mês de Maio também evoca estranhas e brutais acontecimentos do tempo da ditadura. António Valdemar escreve hoje, no "Público", um excelente texto sobre o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores pela atribuição do Prémio de Novelística a Luandino Vieira, pelo seu livro Luuanda. António Valdemar diz no seu texto: "Entre todos os acontecimentos, o que teve mais graves consequências ocorreu com o Jornal do Fundão (que foi suspenso no dia 26 de Maio) O texto assinado por Alexandre Pinheiro, membro do Júri, provocou (apesar de visado pela Censura) a suspensão do jornal por seis meses, uma multa pesada e um regime especial de censura, em Lisboa, em vez de serem mandados, como era costume, para a delegação de Castelo Branco. Será um dos temas das comemorações do centenário do nascimento de António Paulouro, fundador e directos do Jornal do Fundão. Também será, porventura, um dos capítulos da obra de investigação de Fernando Paulouro Neves acerca da "História da Censura".
Valdemar vai ao encontro desses dias de chumbo do salazarismo, da violência gratuita, do ódio à cultura. E lembra que "o ministro Inocêncio Galvão Teles, no despacho que exarou, classificava Luandino Vieira “um indivíduo condenado criminalmente a 14 anos de prisão maior por actividades de terrorismo na província de Angola”. "Luandino Vieira encontrava-se, com efeito, no Tarrafal, a cumprir 14 anos de prisão. Era um dos implicados no “processo dos 50” julgado pelo Tribunal Territorial de Angola. Provou-se, contudo, que não fabricava bombas, nem colocava explosivos para concretizar ações armadas. Limitara-se a participar com outros intelectuais e políticos na elaboração e difusão de documentos para as bases futuras de uma “nova Angola”, sublinha António Valdemar. "A sentença com base nos factos apurados não mencionava “actividades de terrorismo”. Mas em telegramas das agências ANI e Lusitânia e textos de opinião do Diário de Notícias e outros órgãos ligados ao regime passou Luandino Vieira a ser denominado terrorista e, como tal, votado ao ostracismo e à execração pública. Era-lhe interdito receber o grande Prémio da Novela da Sociedade Portuguesa de Escritores".
Valdemar escreve que "a partir de 21 de maio de 1965, data da decisão do ministro Galvão Teles, o Diário de Notícias e outros jornais, com o reforço contínuo das rádios e da televisão, desencadearam, todos os dias, um "movimento de indignação" para que se fizesse sentir o repúdio ao Prémio, ao júri e à Sociedade Portuguesa de Escritores. Ficou expresso em textos individuais ou em documentos coletivos de protesto. A Gulbenkian, em comunicado subscrito por Azeredo Perdigão, retirou os patrocínios financeiros para os prémios anuais da Sociedade Portuguesa de Escritores. Mas também se verificou o contrário. Radicalizaram-se os extremos. A sede da Sociedade Portuguesa de Autores, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, foi assaltada e destruída. Recordo-me como se fosse hoje. Fui incumbido, no DN, de fazer a reportagem. Apesar das cautelas exigidas e em fecho da edição, o texto foi retalhado pela censura. Mas saiu nas “últimas notícias”. Restou apenas o retrato a óleo de Aquilino Ribeiro, da autoria do pintor Rui Filipe, realizado para a Sociedade Portuguesa de Escritores e para homenagear o fundador e primeiro presidente. O assalto e a destruição resultaram da intervenção de elementos do Jovem Portugal e dos Centuriões com a cobertura da Legião Portuguesa e da PIDE. Houve a cumplicidade de escritores e jornalistas afetos ao regime. Consta de documentos que permanecem na Torre do Tombo, alguns transcritos no Livro Negro do Fascismo. Vem pormenorizada por Riccardo Marchi em Império, Nação, Revolução. Entretanto, a PIDE prendia membros do júri que haviam atribuído o prémio, mesmo os que votaram contra ou não votaram: João Gaspar Simões, Augusto Abelaira, Fernanda Botelho, Manuel da Fonseca, Alexandre Pinheiro Torres. Tive oportunidade de recolher depoimentos, de alguns deles, para um inquérito no Diário de Notícias (19 de maio de 1985) e que revela parte do que se passou nos bastidores". António Valdemar dá uma sugestão importante para a história desse acontecimento: "Falta, todavia, um rigoroso e exaustivo levantamento da imprensa da época, incluindo a de Angola e das posições assumidas pelas instituições culturais. Juntamente com a documentação policial e política na Torre do Tombo, permitirá avaliar clivagens muito profundas na sociedade portuguesa, em especial nos círculos intelectuais e que perduram até depois do 25 de Abril".
Há 50 anos, as bestas do fascismo irrompiam contra a liberdade de expressão e contra a cultura. Sobre Luandino Vieira (que já foi distinguido com o Prémio Camões, que aliás recusou) e o seu livro, Luuanda não restam dúvidas sobre a sua importância para uma literatura de verdadeira raiz angolana, onde se cruza a riqueza planetária da Língua portuguesa. Sobre o "Jornal do Fundão" os próceres do regime, vaticinaram-lhe a morte. Não contavam, claro com a têmpera e a resistência de António Paulouro. À distância do tempo, um e outro facto, tão fundamente ligados, mostram que a esperança e a verdade têm sempre razão. Nove anos depois, acontecia o 25 de Abril. E era a Liberdade.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

OS MESTRES DA BASTONADA

É espantosa a forma como em Portugal a violência se banaliza, como se houvesse um trauma em que a disponibilidade para o absurdo se vive como coisa normal. Na raiz desta engrenagem estarão porventura séculos de agressão à dignidade do Homem, espezinhamentos, a intolerância servida em lume brando ou chama viva. Perto de nós, a História remete-nos para os 48 anos de fascismo em que o Estado policial, senhor absoluto, agredia, feria, torturava, com se praticasse a coisa mais natural do mundo. Ficaram, decerto, traços desses tempos de ignonomínia. O que espanta é que, mais de quatro décadas de democracia, ainda tolerem  quotidianos de violência gratuita de forças policiais, como se viu ontem, em Guimarães e em Lisboa. A festa da conquista de um título de futebol transformou-se num delirante espectáculo de agressões e bastonadas, de praças varridas à bastonada ou com balas de borracha. Haverá sempre provocações nestas situações, mas quando uma polícia não se sabe dar ao respeito e só pensa na força das baionetas (é uma figura de retórica), alguma coisa vai mal e podre, não no reino da Dinamarca, mas num país chamado Portugal. As imagens de Guimarães são particularmente graves porque o objectivo da investida policial é uma família, o pai o avô e uma criança, numa desproporcionalidade que causa arrepios. E, mais grave, parece que o agressor é um graduado da PSP, que por inerência devia ser mais responsável e transmitir essa responsabilidade aos seus subordinados. Uma vergonha. Que nos deixa atónitos e nos conduz sempre à velha questão: quem guarda os guardas?

domingo, 17 de maio de 2015

POBREZA DE ESPÍRITO

Ferreira Fernandes publica hoje, no "Diário de Notícias, um texto que mostra bem a incapacidade e incultura dos sujeitos que ainda ocupam o poder, em Portugal. É sobre a Expo de Milão, este ano tematicamente dedicada à alimentação, um certame internacional da maior importância, em que o nosso país é claramente derrotado por falta de comparência. "Sim, não fomos à Expo de Milão, por pobreza. De espírito", escreve Ferreira Fernandes, num artigo em que explica, e bem, a importância histórica de Portugal no mundo da alimentação.
Diz ele: "Porém, nesse lugar - Milão, hoje - onde o mundo glorifica a comida, Portugal não está presente. Não tem pavilhão, nem banca, nem um simples papelinho distribuído à entrada: "Olá, vocês não se lembram, mas já nos conhecemos. Foi Portugal que vos apresentou [e aí o folheto diria o nome dum tubérculo, dum fruto, dum cereal]..." Aos brasileiros deu o café para conversar; à China e à Índia, a batata; e vindo dos Andes, o jindungo que, passando pelo Brasil, deu sentido às sopas tailandesas e coreanas. Reparem, nem falo da paprica húngara - só reivindico as entregas diretas. A Budapeste, o picante só chegou depois de passar pela Turquia, trazido da Índia, onde, em Goa, os portugueses tinham metido o jindungo no vindaloo. Leiam alto e descubram a origem da palavra: "vinha-d"alho"... em vindaloo encontrei-o, também deturpado, em Trindade e Tobago e no Havai. Em 1972, o americano Alfred W. Crosby publicou em The Columbian Exchange (A Troca Colombiana) sobre uma mudança-chave da história, quando o Velho Mundo se encontrou com as Américas. Nesses anos, 1492, com Colombo, e 1500, com Pedro Álvares Cabral, o planeta começou a ser pintado redondo. Global, como hoje se diz".
Ferreira Fernandes analisa, também, como Portugal de certo modo procedeu à globalização de elementos que marcaram a história da gastronomia mundial. Atente o Leitor nessa expressão planetária:
"No maravilhoso A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, de 1992, José Mendes Ferrão explicou essa contribuição portuguesa. O mais comum prato angolano, o funje, é acompanhado por fuba de milho ou por fuba de mandioca. O milho e a mandioca vieram do Brasil. E não se espalharam só pelas antigas colónias portuguesas, são as duas farinhas mais comidas em toda a África. O molho desses pratos é feito com óleo de palma, do coconote, que foi levado pelos portugueses da Índia (Goa) e Sudeste da Ásia (Malaca) para África e Brasil. Quem come moqueca em Salvador da Bahia, saboreia Goa, sem que a agência portuguesa de viagens cobre taxas. No Nordeste brasileiro, chama canjica ao mingau de milho, ou munguzá, se for sem tempero e sal. Os nomes vêm do quimbundo angolano. Quer dizer, a viagem das plantas não foi feita calada, uniu povos, para lá do palato. A cana-de-açúcar tem origem na Índia e chegou a Pernambuco, o café é da Arábia e chegou a São Paulo. "E quem levou?", perguntaria o folheto que devíamos levar a Milão, já que não temos pavilhão. Os portugueses conhecem o ananás desde 1500, do Brasil. Levaram-no para estações de aclimatação, para os Açores, para o tornar de outro mundo (como levaram o cacau para São Tomé). Durante décadas, o Havai foi o maior produtor de mundial de ananás, mas só o começou a produzir em 1886, oito anos após o Reino do Havai, graças a um acordo de emigração com Portugal, já ter camponeses de São Miguel, Açores..."
Com ironia, que é marca muito própria da sua escrita, o cronista termina assim o seu texto:
"O pavilhão da Santa Sé, na Expo 2015, diz que a comida é também assunto de rituais e símbolos. Claro. E os portugueses foram apóstolos do valor sagrado do pão, espalharam-lhe a palavra e os sabores. O governo português diz que não temos pavilhão porque não temos dinheiro. É falso. Não estamos lá porque quem decidiu é pobre de espírito. Não merece Portugal".
De facto, é nestas coisas que percebemos quanto os tipos que nos governam não merecem Portugal,