sábado, 30 de maio de 2015

O RISO E O CHORO

Admirável cartoon de António, com o título sugestivo "Cortes? No fim cola-se tudo!".Vem na edição de hoje do "Expresso" e é a caricatura perfeita das diabruras que a senhora Maria Luís anda a fazer ao Zé Povinho. É, também, por esta ironia inteligente e mortífera que Octávio Paz dizia que o humor foi a grande invenção do espírito moderno. Mas neste caso, sabendo o que a cavalheira tem feito e quer continuar a fazer -- não anunciou ela já mais 600 milhões de cortes nas pensões? --, o riso dá-nos vontade de chorar...

sexta-feira, 29 de maio de 2015

NENÚFARES E POESIA

Colhi uma história muito interessante numa crónica de Fernando Savater, no "El Pais", e que dá bem a medida da liberdade da criação literária, neste caso da criação poética. E lembrei-me dela, agora, porque estas questões do real e do imaginário povoaram o II Festival Literário da Gardunha, com escritores e poetas a falar dessas viagens que parece não terem princípio nem fim.
A história: "certo dia passeavam por um parque Unamuno e o sonoro poeta Francisco Villaespesa. Ao passar junto a um lago Villaespesa entusiasmou-se:
-- Que preciosas essas flores que flutuam sobre água. Sabe como se chamam?
Unamuno zombou:
-- São nenúfares, Villaespesa. Nenúfares! Desses que saem tanto nos seus versos..."

quinta-feira, 28 de maio de 2015

PSD E CDS POUPADINHOS!

Vejo nas televisões, com pompa e circunstância, o vice-presidente do PSD, Marco António Costa, e o Mota Soares, do CDS (este com aquele seu at infeliz de quem transporta sobre os ombros o desejado cadáver da Segurança Social), garantirem que nas próximas eleições legislativas, por piedoso respeito às dificuldades dos portugueses -- vidas que eles próprios estragaram! -- irão gastar menos um milhão e tal de euros, em acções de campanha. Dizem isto com o ar mais angélico do mundo, como se estivessem a jurar sobre a Bíblia ou a cumprir, de rastos, alguma promessa, em Fátima.
A gente ouve e vê estas solenes proclamações e não pode deixar de sorrir, como fez um amigo meu, que nestas coisas da governamentalização da informação, no âmbito mais geral da propaganda pura e dura, está sempre de pé atrás.
-- Olha a avaria! -- disse ele. -- Os tipos estão sempre em sessão contínua de propaganda nas televisões, com os comentadores de encomenda, e nos jornais têm muitos jornalistas à trela. Podem poupar à vontade!

quarta-feira, 27 de maio de 2015

VOLTA A PORTUGAL DOS VOTOS COMEÇOU

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Há coisas persistentes na sociedade portuguesa, fenómenos de longa duração que atravessam os dias e se inscrevem como traços identificadores de uma psicologia colectiva, que se alimenta da aldrabice e da estupidez e nesse mar pesca à linha os oportunismos possíveis para enganar os indígenas. A política é o território privilegiado desses personagens que praticam a demagogia e disfarçam a propaganda, que aprendem nos seus catecismos partidários, com retórica grandiloquente sobre o bem comum e o interesse das populações.
Nesta mistificação, julgam que essa estratégia é eterna, inamovível, e, de cada vez que se aproximam actos eleitorais, vestem os fatos de serviço e passeiam pelo país, em visitas que repetem sempre velhos passos, as suas promessas, os seus juramentos de fidelidade à pátria, distribuem beijinhos e abraços, incorporam-se em procissões e festas, numa liturgia que causa menos espanto e mais enjoo.
Deviam olhar, com seriedade, para os resultados das eleições espanholas, e numa introspecção imediata perceber como os velhos partidos, com as suas antigas práticas e as suas palavras gastas, enfastiaram o eleitorado, que afirma um claro desejo de mudança e um conceito de política que exprime uma vontade colectiva de felicidade, como direito elementar da vida.
Por cá, à medida que o calendário avança e as eleições se desenham, mais nítidas, no horizonte, os velhos métodos regressam: promessas, visitas, inaugurações apressadas ou antigas, de coisas que já estão a funcionar há muito.  Não há pudor. E neste particular, o primeiro-ministro Passos Coelho é um verdadeiro mestre de prestidigitação, sobretudo em promessas falhadas como o povo deveria lembrar, se tivesse memória viva, das eleições de há quatro anos, em que prometeu este mundo e o outro.
Hoje, estou a reflectir sobre esta matéria porque eles andam por aí. No outro dia, a ministra Assunção Cristas veio ao Fundão para inaugurar uma quinta pedagógica. Alcatroaram-se, à pressa os acessos -- não houve tempo para os passeios -- sua excelência veio fazer festinhas aos excelentíssimos animais em exposição, a vaquinha e o burro, faltou o Menino Jesus para o presépio ficar completo. Fui lá dois dias depois com o meu neto, e estava fechada. Os animais, cansados da inauguração e dos discursos, deviam estar a dormir a sesta. Mas a geografia "eleitoral" das visitas está em plena vitalidade. Já anuncia, para a semana, nova visita de Assunção Cristas ao Fundão, agora, dizem, para "inaugurar" o Regadio da Cova da Beira, o tal projecto que deve ter batido o recorde mundial de lentidão, e, aliás, já está a funcionar, com a torneira aberta. Se o ridículo matasse, morriam todos afogados em gargalhadas. E para o ramalhete ficar completo, Passos Coelho também vem à festa da cereja e provar a bola de Berlim com doce de cereja, que poderá sempre remeter à senhora Merkel... Não sei se já foi a Alfândega da Fé ou a Resende ou aos Montes da Senhora (já agora!), mas certamente o fará para não ferir susceptibilidades.
A Volta a Portugal dos votos já começou!

terça-feira, 26 de maio de 2015

BENNEDICT, MORTE A SANGUE FRIO!

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA

No inventário dos dias dramáticos, aqueles que configuram sempre um alto grau de crueldade, olha-se a realidade com algum desdém, como se as histórias afluentes à desgraça fossem as histórias dos outros, coisas longínquas que às vezes parecem não atormentar ninguém, é assim decerto que se passam as coisas quando queremos ganhar um calo de indiferença, como dizia Edgar Morin, para suportarmos essas realidades que ensombram os quotidianos.
São acontecimentos silenciosos, que vivem na sombra do esquecimento, que a maior parte das vezes não mobilizam sequer a atenção dos jornais, pouco interessados, no seu jornalismo de secretaria, em seleccionar estas fatias da realidade onde cabem a vida e a morte, sobretudo a morte.
Soube então este pobre cronista a história de um puto de 17 anos, pequena figura com cadastro, que poderia bem, pelo seu carácter marginal, ir juntar-se, com as devidas distâncias, claro (a biografia do crime não envolve assassinatos) aos personagens de A Sangue Frio, o célebre romance de Truman Capote.
Chama-se Bennedict, o jovem de dezassete anos, personagem real, dez reis de gente de carne e osso, que nasceu na Holanda, filho de mãe portuguesa. O Bennedict veio para Portugal aos dois anos, viver para o Castaleiro, uma pacata freguesia do concelho do Sabugal, um microcosmos rural do interior português. Hoje, sabido o o percurso de Bennedict, poderemos dizer que não teve nada a seu favor: nem família (nunca decerto conheceu o pai), nem afectos, e muito poucas coisas, para além do sol ou do frio, e da margem que nele foram sempre os passos daqueles que se tornam adultos e nunca foram meninos (no sentido de viverem as situações limite de ausência de liberdade e de vida). Nessa sua biografia marginal, de não ser como os outros, anota-se que aos oito anos foi a criança institucionalizada, isto é, atirada para aqueles espaços que antigamente se chamavam reformatórios e depois foram mascarados com outros eufemismos mais suaves e doces, mas onde as sombras de ausência de afectos ou amor são as mesmas de tempos idos. Então, a sua geografia levou-o aos estabelecimentos de reeducação, numa geografia que passou por Seia, Guarda, S. Fiel. A reeducação é, nestes casos, geralmente, tirocínio para o crime e a malandragem, numa aprendizagem que é apuramento de todas as marginalidades. Assim aconteceu, e não é caso virgem, como o Bennedict, que desde criança ficou tão sozinho no mundo que (imagino eu, se imaginar se pode) os seus dias eram ele contra o mundo, entre grades, clausuras e muros, de onde às vezes nem se via o tal sol, que fora breve companheiro de infância desvalida. Entre reclusões e fugas, assaltos a casas, a velhos e a quem calhava, Bennedict construiu a sua biografia de larápio e de sujeito perigoso para a sociedade. Nestas andanças foi parar ao Estabelecimento Prisional de Leiria, onde cumpria prisão preventiva.
As grades e os muros mais densos, o quotidiano da prisão a pesar na cabeça -- e sou eu outra vez a imaginar -- o Bennedict a pensar que a sua vida não tinha saída, que os muros se levantavam cada vez mais fortes e altos entre ele e o tempo, entre ele e o sol, entre ele e os dias, que, lá fora, corriam velozes.
Um dia destes, Bennedict enforcou-se na sua cela da prisão de Leiria. Ninguém foi reclamar o seu corpo, ninguém da família -- família é como quem diz! -- quis saber da morte do Bennedict. Grande problema para as entidades prisionais. Como é que vai ser enterrado? Como indigente? Parece mal, era tão novo! Irá ser sepultado a expensas da Segurança Social. Está resolvido o caso. O Bennedict, finalmente, tem alguma coisa de seu: quatro palmos de terra...
Enforcado, 17 anos. Arquive-se. Ponto final. Mas há sempre uma pergunta que fica: a vida ou o destino do Bennedict poderia ter sido diferente?

OS MUNDOS INFINITOS DA LITERATURA ENTRE O FUNDÃO E A SERRA

O II Festival Literário da Gardunha, que este ano tinha como temática dominante (dentro da viagem) os lugares imaginários, que ontem encerrou a sua fase de debate, ficou já marcado pela altíssima qualidade das intervenções e discussões que, de uma forma muito plural e interdisciplinar, mergulharam nas relações da literatura com o imaginário e na articulação do ofício de escrever entre o sonho e a realidade. Avisado por Jorge Luís Borges de que, quando se elogiam alguns escritores, se cometem sempre injustiças em relação a outros, não vou singularizar nenhuma das dezenas de intervenções que foram feitas durante o fim-de-semana.
Mas foi muito bom passar no sábado, do auditório da Moagem para o alto da Gardunha, para o cenário mágico da Casa do Guarda, numa tarde de sol, com a Serra mais agreste, de altivo granito cor do tempo, dum lado, pontuada de amarelos de giestas e de verdes, e do  outro lado, a grande varanda de onde se espreita a imensidão do vale da Cova da Beira, que se espraia nos campos da cor do limão. onde o Zêzere serpenteia, até aos limites da Estrela. Não faltou sequer, ao fim da tarde, um pic-nic, que juntou escritores e público à volta de um novo livro de José Manuel Castanheira e de Pedro Castanheira, que, como o de Cesário, também daria um boa aguarela. Mais tarde, outra viagem através da obra de Alexandre O' Neill, no magnífico espectáculo de teatro, interpretado por João Reis e Ana Nave, "Portugal, Meu Remorso", vibrantemente aplaudido pelo público que enchia o auditório da Moagem.
Nesta geografia de lugares imaginários na literatura não faltou Alpedrinha. É verdade que as palavras foram como as cerejas e as cerejas como as palavras, entre a aventura do real, absoluto ou relativo, e o sonho por onde voa a criação, as experiências e a sua partilha, nas peregrinações interiores e exteriores de que se faz o acto da escrita. António José Saraiva dizia que cada homem era um deus aprisionado no seu corpo e, nessa força de criar outras realidades, que é a substância da literatura, os mundos são infinitos. O imaginário e os seus lugares também.
Apetece-me, por isso, num aceno de amizade aos que vieram ao Fundão e à Gardunha, para "tecer o coração" de muitas cerejas (Eugénio de Andrade), de lhes oferecer uma história que mostra bem o tal infinito e prodigioso momento da imaginação. Michel Foucault conta, num dos seus livros mais emblemáticos, O Pêndulo de Foucault, uma saborosa história que foi buscar ao Dictionaire Infernal, de 1884, e é bom exemplo de como imaginação e real têm, às vezes, fronteiras difusas e surpreendentes. O autor de O Nome de Rosa, transcreve o seguinte:
"O conde de St. Germain contava um dia que tinha conhecido Pôncio Pilatos em Jerusalém e descreveu minuciosamente a casa do governador, estando os pratos servidos à ceia. O cardeal de Rohan, julgando estar a ouvir fantasias, virou-se para o criado do conde, um velho de cabelos brancos e de ar honesto.
-- Meu amigo! -- disse-lhe ele. -- Custa-me a acreditar no que diz o vosso amo. Que seja ventríloquo,muito bem, que faça ouro, de acordo, mas que tenha dois mil anos e tenha visto Pôncio Pilatos, é de mais- Estáveis lá também?
-- Oh, não, monsenhor! -- respondeu ingenuamente o criado. -- Só estou ao serviço do senhor conde há quatrocentos anos..."

domingo, 24 de maio de 2015

"UMA BIOGRAFIA DOENTE"

Rui Cardoso Martins, que ainda ontem esteve no Fundão a participar no II Festival Literário da Gardunha, assina hoje na revista do "Público" um texto arrasador sobre a biografia autorizada de Passos Coelho. "Uma biografia doente", diz o jornalista e escritor, que avisa logo de entrada que "não foi exactamente para a verdade que a propaganda política nasceu no mundo". É um artigo longo que desmonta bem o propósito mistificatório que ligou neste projecto biografada e biógrafo.
Vou aqui deixar uma curiosa passagem do texto de Rui Cardoso Martins, que é talvez um síntese do retrato que o livro sobre o retrato confrangedor primeiro-ministro acaba por dar:
"Passos Coelho pretende afirmar-se como uma espécie nova de político providencial — é isso que o livro faz com tantas mistificações do seu percurso de vida, tantas omissões do verdadeiro papel de aliados agora inconvenientes (Miguel Relvas, Ângelo Correia, despachados numa frase). Honrado, verdadeiro, transparente, apesar das “imperfeições”. Como a história muito mal explicada do que fazia e ganhava na Tecnoforma e a quantidade de anos em que foi trânsfuga da Segurança Social, de 1999 a 2004, os “anos em que este cidadão foi mais imperfeito” (pág. 136). Passos Coelho e os seus assessores estão a construir, com tiros conscientes que parecem disparos ingénuos, um mito de príncipe popularucho que vive como a classe média, as “pessoas como nós”, um messias de subúrbio contra o elitismo da linha de Cascais “que têm amigos da Quinta da Marinha e adoram velejar aos domingos” (pág. 178). Ao mesmo tempo, esconde, por pudor, a dimensão verdadeira da sua cultura (leituras, ópera). Ele podia ter sido médico, ele podia ter sido cantor. Mas é um homem que sacrificou o talento e a própria família ao serviço dos portugueses. Passos Coelho, “o Imperfeito”. Mais um salvador da pátria. O costume. Já cá fazia falta. Assim, a aparente falta de estratégia comunicacional transforma-se em virtude. Ele não tem tempo para pensar nisso, e é o primeiro a sofrer com a incompreensão. Mas o seu coração apaixonado aguenta tudo: tem um sangue-frio como nunca se viu. Mas a frieza afinal é calor. E a opacidade, transparência. Assim, também, o despudorado e angustiante mergulho na sua vida privada, nas desgraças da família e, principalmente, na situação da mulher, Laura Ferreira, que ocupa boa parte da biografia. Quem lê o livro apanha com um vendaval de tuberculoses (os avôs, mais os pais de Pedro), de cancros, crises renais, crianças que nascem deficientes, sobrevivências improváveis, mortes reais e medos de morrer amanhã. E, no entanto, o livro está sempre a dizer que Pedro Passos Coelho protege sempre, mas sempre, a sua vida privada e que nunca a usará para objectivos políticos. Um homem que diz “que se lixem as eleições” também perceberá a expressão “é preciso ter lata”.
Aqui está o político providencial com pés de barro, uma espécie de salarzinho empalhado que quer, se os portugueses deixarem, continuar a atormentar o quotidiano dos portugueses.